O Preço da Ambição
7 A Queda das Máscaras e o Custo da Verdade
O sábado amanheceu com o céu azul e sem nuvens. Suzan ainda estava na cama quando o celular tocou. Ao atender, a voz de Leonard soou animada, um contraste com o tom sério de sempre.
— Styles, mudei os planos para o nosso fim de semana. Estou na frente do seu prédio. Pegue um biquíni, uma muda de roupa leve e desça. Vamos fazer algo diferente hoje.
Suzan piscou, surpresa.
— Leonard? Mas o que você está planejando?
— Só confia em mim. Te espero em dez minutos.
Curiosa e com o coração acelerado, ela seguiu as instruções. Quando desceu, ele a esperava com um sorriso aberto ao volante. O destino foi a marina, onde um imenso e luxuoso iate branco estava ancorado. Para a surpresa de Suzan, não havia tripulação; o próprio Leonard assumiu o timão, pilotando a embarcação até uma enseada reservada, cercada por águas calmas.
O dia foi perfeito. Longe do peso da holding, eles beberam vinho, saborearam petiscos sofisticados e riram como nunca. Ao entardecer, com o sol pintando o céu de dourado, Leonard a puxou para perto na proa do iate. O vento bagunçava os cabelos ruivos dela.
— Eu não consigo mais fingir, Suzan — ele disse, olhando no fundo dos olhos azuis dela, as mãos acariciando seu rosto. — No começo, achei que você fosse uma distração. Mas a verdade é que eu me apaixonei por você. Pela sua leveza, pela sua força. Eu quero você na minha vida. De verdade.
As lágrimas inundaram os olhos de Suzan, divididas entre a felicidade e a culpa esmagadora.
— Eu também me apaixonei por você, Leonard... — confessou, a voz embargada. — Sinto algo que nunca achei que fosse sentir por ninguém.
Naquela noite, sob o céu estrelado e o balanço suave do mar, Suzan se entregou completamente a ele. Pela primeira vez, não havia plano, não havia Ricardo, não havia dinheiro. Era apenas amor.
Na manhã seguinte, os raios de sol invadiram a cabine do iate. Suzan acordou com um sussurro vindo da parte externa. Ela se levantou silenciosamente e esticou o olhar. Leonard estava de costas, ao telefone, falando com o pai.
— Sim, Ricardo, eu estou ligando para avisar que o noivado com a Anastasia é passado de vez. Eu estou apaixonado pela Suzan. Ela é a mulher da minha vida e eu vou ficar com ela.
Do outro lado, Suzan não conseguia ouvir, mas Ricardo Vance fingiu a maior felicidade do mundo, parabenizando o filho e dizendo que apoiava a escolha. Uma sensação de gelo percorreu a espinha de Suzan. Ela sabia que aquela calmaria precedia a tempestade.
Mais tarde, Leonard a deixou em frente ao seu apartamento. O beijo de despedida foi terno, cheio de promessas para o dia seguinte.
— Até amanhã na empresa, meu amor — ele sorriu.
— Até amanhã... — ela respondeu, com um aperto terrível no peito.
Ao girar a maçaneta e entrar em casa, Suzan congelou. Sentado na poltrona da sala de estar, cruzando as pernas elegantemente com um copo de uísque na mão, estava Ricardo Vance. Hellen estava em um canto da cozinha, pálida e assustada.
— Você passou dos limites, Suzan — Ricardo disse, a voz gélida e destituída de qualquer traço de simpatia. — O trato era usar meu filho para terminar um noivado, não se aproveitar dele para virar a nova senhora Vance.
— Eu me apaixonei por ele, Ricardo! Eu tentei evitar, mas aconteceu! — Suzan rebateu, as lágrimas correndo pelo rosto.
— Não me importa o que você sente — Ricardo levantou-se, jogando um extrato bancário na mesa de centro. — Olhe a sua conta. Eu depositei 10 milhões de reais nela. É dez vezes mais do que o combinado. Considere isso o seu prêmio de consolação e o preço pelo seu silêncio. Está na hora de sumir. Pegue sua mãe e saia desta cidade hoje mesmo. Se você tentar voltar para o Leonard, eu destruo a sua vida e a da sua mãe. Eu transformo o resto dos seus dias em um inferno legal e financeiro. Suma.
Suzan olhou para o papel e depois para a mãe, que chorava baixinho. O poder de Ricardo era absoluto. Ela sabia que, se ficasse, ele daria um jeito de fazer Leonard odiá-la de qualquer forma, e ainda colocaria a segurança de sua mãe em risco.
— Tudo bem... — Suzan engoliu o choro, limpando o rosto com desespero. — Eu vou sumir.
Naquela mesma tarde, Suzan e Hellen arrumaram as malas de pressa. Deixando para trás o apartamento de luxo, o Audi A3 e os sonhos recém-nascidos, elas embarcaram em um voo sem retorno para o Rio de Janeiro.
Na manhã seguinte, na Vance Holding, Leonard entrou na sala da presidência com um sorriso no rosto, ansioso para ver Suzan. A mesa dela estava vazia. Antes que pudesse pegá-lo no celular, a porta se abriu e Ricardo entrou, com uma pasta preta nas mãos.
— Onde está a Suzan, pai? Ela está atrasada? — Leonard perguntou, franzindo o cenho.
— Ela não vai voltar, Leonard — Ricardo colocou a pasta sobre a mesa. — E é melhor você saber a verdade de uma vez. A Suzan Styles nunca foi uma assistente de criação talentosa que apareceu por acaso. Fui eu quem a contratou.
Leonard deu um passo para trás, o rosto empalidecendo.
— Do que você está falando?
— Eu precisava tirar a Anastasia da jogada. A Suzan estava afogada em dívidas, contando moedas na cozinha de casa. Eu fiz uma proposta: ela se infiltraria aqui, fingiria um caso com você e destruiria o seu noivado. O preço dela? Milhões. Aqui estão os comprovantes de transferência que fiz para a conta dela, desde o primeiro dia até o bônus final que paguei ontem para ela ir embora.
Leonard arrancou os papéis da mão do pai. Seus olhos passaram pelos valores, pelas datas, pelas assinaturas de Suzan. Cada folha era um soco em seu estômago. O mundo desabou sob seus pés. A inocência, o perfume de morango, as risadas, o vestido azul... tudo tinha sido comprado?
— Você é um monstro! — Leonard rugiu para o pai, os olhos injetados de sangue, a voz trêmula de fúria. — Como pôde fazer isso com a minha vida?!
— Eu fiz o que era necessário para proteger a empresa. E ela aceitou o dinheiro de bom grado, Leonard. Ela escolheu os milhões e foi embora.
Ignorando o pai, Leonard pegou o celular com as mãos trêmulas e discou o número de Suzan. No aeroporto do Rio de Janeiro, o aparelho dela vibrou. Vendo o nome dele na tela, ela atendeu, com o coração em pedaços.
— Alô... Leonard?
— Me diz que é mentira, Suzan! — a voz dele veio embargada, um misto de choro e raiva. — Me diz que meu pai está mentindo! Ele me mostrou os papéis... os pagamentos... Tudo foi por dinheiro? O que aconteceu no iate foi mentira?!
Suzan fechou os olhos, as lágrimas caindo silenciosas no saguão do aeroporto. Ela precisava ser dura para salvá-lo, para salvá-los.
— É verdade, Leonard — ela mentiu em parte, a voz forçada a sair fria. — No começo, foi tudo por dinheiro. Minha mãe e eu precisávamos...
— Eu não me importo com o começo! — ele cortou, desesperado. — Eu te perdoo, Suzan! Eu passo por cima do dinheiro, passo por cima do meu pai, eu não ligo! Só volta para mim. O que sentimos no iate foi real, eu sei que foi!
O peito de Suzan doeu tanto que ela achou que fosse morrer. Mas ela olhou para o lado e viu Ricardo Vance na mente, a promessa de destruição. Ela sabia que o velho magnata usaria todo o seu poder para caçá-la, e que a relação deles seria eternamente manchada por aquela mentira. Eles nunca teriam paz.
— Não, Leonard. Não dá — ela disse, respirando fundo para não desabar no choro. — Nós somos de mundos diferentes. A farsa acabou e eu já recebi o meu pagamento. Esqueça que eu existi. Isso jamais daria certo.
— Suzan, não faz isso... — ele pediu, a voz quebrando.
— Adeus, Leonard.
Ela desligou o celular. Com as mãos trêmulas, retirou o chip do aparelho e o jogou na lixeira mais próxima. Hellen segurou a mão da filha, apertando-a com força.
Suzan olhou para a frente, vendo o horizonte da nova cidade pela janela do aeroporto. O preço da ambição tinha sido pago. Ela havia salvado a sua família da miséria, mas o preço cobrado tinha sido o seu próprio coração. Agora, restava apenas caminhar para a frente e tentar reconstruir os pedaços do que sobrou.
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