O Preço da Ambição
4 Fios Ruivos e o Primeiro Passo do Jogo
O relógio de parede da sala de Leonard já marcava o final da tarde, e o ambiente estava saturado com o cheiro de dezenas de essências e amostras de cosméticos. Suzan sentia as têmporas pulsarem de dor. O cansaço de analisar relatórios e tabelas de pigmentação por tantas horas seguidas cobrava o seu preço.
Soltando um suspiro pesado, ela levou as mãos à cabeça, puxou o elástico que prendia seu coque e o soltou. No mesmo instante, suas longas madeixas ruivas caíram em cascata sobre os ombros, espalhando-se de forma ondulada, volumosa e levemente desgrenhada ao redor de seu rosto.
Leonard, que até então segurava um frasco de vidro fosco de um novo perfume contra a luz, abaixou a mão lentamente. Seus olhos se desviaram do produto e travaram em Suzan. Ele ficou em silêncio, genuinamente perdido na visão daqueles fios vermelhos que pareciam pegar fogo sob a luz do pôr do sol que entrava pelas vidraças. Havia algo de selvagem e, ao mesmo tempo, de puramente inocente na forma como ela massageava a própria nuca.
— Tudo bem, Styles? — a voz de Leonard saiu mais baixa e menos áspera do que o normal.
Suzan abriu os olhos azuis, piscando por causa da claridade, e sorriu fraco.
— Só uma dor de cabeça boba, senhor Vance. Muitas cores e números para um dia só.
Antes que ele pudesse responder, o som estridente de saltos agulha contra o piso de porcelanato anunciou uma chegada. A porta foi empurrada sem aviso prévio, e Anastasia entrou na sala, exalando arrogância, vestida com um casaco de pele sintética e óculos escuros que logo deslizou para o topo da cabeça.
— Leonard, querido, passei para irmos almoçar... ou jantar, sei lá que horas são — Anastasia começou, mas parou abruptamente ao notar Suzan com os cabelos soltos na mesa de canto. Ela franziu o nariz, sentindo o cheiro doce no ar. — Mas o que é isso? Que cheiro de chiclete barato é esse aqui dentro? E quem é essa garota desgrenhada na sua sala?
Leonard reergueu sua postura fria num piscar de olhos.
— Essa é Suzan Styles, minha nova assistente de criação. E nós estamos trabalhando, Anastasia.
Anastasia cruzou os braços, medindo Suzan de cima a baixo com total desdém.
— Assistente? Com essa roupa de ir à feira? Enfim, não me importa. Garota, saia da sala. Preciso falar a sós com o meu noivo. Agora.
Suzan sentiu o sangue ferver, mas manteve a calma. Ela ajeitou a postura, olhou diretamente nos olhos de Anastasia e respondeu com uma voz firme, porém perfeitamente educada:
— Sinto muito, dona Anastasia, mas eu não posso sair. Estou em meio a um relatório urgente ordenado pelo senhor Vance. Se a senhora quiser conversar com ele sobre assuntos pessoais, sugiro que espere o fim do expediente, que será em exatamente trinta minutos.
Anastasia arregalou os olhos, chocada com a audácia. Ela se virou para o noivo, apontando o dedo indicador na direção de Suzan.
— Leonard! Você vai deixar essa... essa empregadinha falar assim comigo? Mande ela sair agora!
Leonard olhou para Suzan, cujo queixo continuava erguido, e depois para a noiva. Para a surpresa de Anastasia, ele apenas suspirou, demonstrando profundo cansaço.
— A senhorita Styles está certa, Anastasia. Estamos finalizando o catálogo. Vá para casa, eu te espero mais tarde lá no meu apartamento para conversarmos.
— Eu não acredito nisso! — Anastasia bateu o pé, o rosto vermelho de raiva. — Você está me trocando pelo horário de trabalho de uma secretária de quinta categoria? Isso não vai ficar assim, Leonard!
Ela girou nos calcanhares e saiu batendo a porta com tanta força que o vidro da divisória estremeceu.
O silêncio retornou à sala. Suzan olhou para Leonard, fingindo uma ponta de constrangimento, embora por dentro estivesse vibrando.
— Me desculpe, senhor Vance... Eu não queria causar problemas entre vocês. Fui muito impulsiva.
Leonard sentou-se em sua cadeira, passando a mão pelo rosto. Ele parecia ter envelhecido dez anos em cinco minutos.
— Não peça desculpas, Styles. Você apenas fez o seu trabalho. A verdade é que... eu já estou cansado da Anastasia. Esse noivado é uma amarra que meu pai e os diretores apoiaram, mas eu não a suporto mais. Quero terminar, mas ela sempre faz um escândalo, ameaça a imagem da holding... Eu simplesmente não sei como colocar um fim nisso sem que vire uma guerra pública.
Suzan viu a oportunidade de ouro surgir diante de si. Ela se levantou lentamente, caminhou até a mesa dele com passos suaves e apoiou as mãos na borda da madeira, inclinando-se de leve. O perfume de morango atingiu Leonard mais uma vez.
— Sabe, senhor Vance... se o senhor quiser, pode usar a mim como pretexto.
Leonard ergueu as sobrancelhas, intrigado.
— Como assim?
— Fingir que nós temos um caso — Suzan sugeriu, com um olhar inocente que contrastava com a audácia da proposta. — Anastasia é orgulhosa demais. Se ela pensar que o senhor está interessado em outra, especialmente em alguém que ela considera "inferior" como eu, ela mesma vai jogar o anel na sua cara e terminar tudo por questão de honra. O senhor se livra do casamento e sai como o homem que seguiu o coração, não o contrato.
Leonard encarou Suzan por um longo momento. Ele olhou para os lábios dela, depois para os olhos azuis e, finalmente, para os cabelos ruivos desalinhados. Um sorriso lento e genuíno, o primeiro que Suzan via nele, surgiu em seus lábios.
— Você é perigosa, Styles... — ele murmurou, a voz barítona vibrando. — Usar a própria assistente para criar um escândalo de traição. É uma jogada brilhante e cruel. Eu vou pensar naquilo... Na verdade, eu adorei a ideia. Pode ir por hoje. Descanse essa cabeça.
— Obrigada, senhor Vance. Até amanhã.
Vinte minutos depois, Suzan já estava sentada no banco de couro de seu Audi A3 cinza. Assim que deu a partida e saiu do estacionamento da empresa, ela colocou o celular no viva-voz e discou para Ricardo Vance.
— Ricardo? Sou eu, Suzan.
— Suzan! Como foram as coisas hoje? Algum avanço? — a voz do velho magnata parecia ansiosa.
— Mais do que o esperado. Anastasia foi até a sala dele hoje, fez um escândalo comigo e o Leonard ficou furioso. Depois que ela saiu, ele me confessou que quer terminar o noivado, mas não sabe como. Eu joguei a isca. Sugeri que ele me usasse como pretexto, fingindo que temos um caso.
Do outro lado da linha, ouviu-se o som de Ricardo batendo a mão na mesa, comemorando alto.
— Sensacional! Genial, Suzan! Eu sabia que você era a pessoa certa! Ele aceitou?
— Ele disse que adorou a ideia e que vai pensar a respeito. O peixe mordeu o anzol, Ricardo.
— Você é uma ótima menina, Suzan. Uma profissional incrível. Continue assim, seja a sombra dele. O milhão de dólares já é praticamente seu. Me mantenha informado!
Suzan desligou o telefone. Ela olhou para o próprio reflexo no retrovisor do carro de luxo. O plano estava funcionando perfeitamente, mas, no fundo do peito, uma pontada sutil de culpa começou a surgir. Leonard não parecia o monstro frio que o pai descrevera; parecia apenas um homem sufocado. Balançando a cabeça para afastar os pensamentos, ela pisou no acelerador. Não era hora de amolecer o coração.
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