O Preço do Pecado

27 O Retorno do Predador



​O som dos gritos de Viktor Petrov havia cessado há muito tempo, substituído apenas pelo ruído sôfrego de sua respiração cortada e pelo gotejar contínuo do sangue no chão de concreto. Heitor estava de pé diante do que restava do herdeiro russo. Suas mãos, os braços e a frente da camiseta preta estavam manchados com respingos grossos e escuros de sangue.

​Viktor ergueu minimamente a cabeça, o único olho aberto focando sem forças no Don de Chicago. Ele não conseguia mais articular palavras; sua mandíbula estava fraturada e o corpo tremia em estado de choque térmico e traumático.

​Heitor guardou a faca tática na bainha presa à cintura. Com um movimento lento e desprovido de qualquer pressa, ele puxou a Glock 9mm do coldre velado. O metal da arma reluziu sob a luz fraca da lâmpada do frigorífico. Ele engatilhou a pistola com um estalo seco que ecoou pelas paredes de azulejos.

​— O tempo acabou, Petrov — Heitor disse, a voz grossa, ríspida, perfeitamente firme. A ignorância fria do mafioso moldava cada linha de seu rosto. Ele deu um passo à frente, encostando o cano gelado da arma exatamente no centro da testa do russo. — Quando chegar lá embaixo, mande lembranças ao seu pai. Diga a ele que o lobo de Chicago mandou o resto da linhagem dele para o inferno.

​BUM!

​O disparo único reverberou alto no espaço fechado. A cabeça de Viktor foi jogada para trás com violência e o corpo desabou pesado contra as amarras da cadeira de ferro. Estava feito. O clã Petrov estava extinto.

​Heitor nem sequer piscou. Ele guardou a arma na cintura e puxou um lenço grosso do bolso do moletom, limpando o excesso de sangue que escorria por seus dedos. Antes que ele pudesse chamar os capangas do lado de fora para limparem o galpão, o telefone por satélite em seu bolso começou a vibrar com uma chamada de vídeo. Era Enzo.

​Ele atendeu imediatamente, posicionando a tela na altura do rosto.

​O Alerta do Brasil

​Na tela, a imagem focou no rosto sério de Enzo, que estava dentro da picape escura nas colinas que cercavam a fazenda Portela. Marco apareceu ao fundo, ajustando os fones de ouvido. No entanto, assim que a ligação conectou, a expressão de Enzo mudou de profissional para um choque contido ao notar o estado do patrão.

​— Don Heitor... — Enzo pigarreou, os olhos fixos na imagem do chefe, cujos braços e rosto exibiam marcas nítidas do massacre recente. — Pelo visto, o senhor acabou os negócios com o russo.

​— O Viktor está morto, Enzo. A cidade é nossa de novo — Heitor respondeu, a voz rouca, o hálito quente condensando no ar frio do frigorífico. Ele limpou um respingo de sangue perto do próprio olho com o dorso da mão enfaixada. — Esquece os mortos. Me fala dos vivos. Como está a minha mulher?

​Enzo trocou um olhar rápido com Marco antes de voltar a focar na câmera. — É sobre isso que precisamos relatar, chefe. O cerco do Gabriel Portela está ficando mais estreito. Nós mudamos a posição dos binóculos para a mata leste. Há alguns minutos, a dona Maite estava sentada na varanda principal da fazenda, lendo um livro. O Gabriel chegou, sentou-se na cadeira ao lado e começou a conversar com ela.

​A mandíbula de Heitor travou com tanta força que um estalo foi audível pelo microfone do satélite. O ciúme possessivo e rústico do Laurentis se acendeu instantaneamente, limpando o cansaço do seu rosto.

​— O que aquele mauricinho fez, Enzo? Fala logo, caralho, antes que eu perca a paciência — Heitor esbravejou, a ignorância vibrando na linha.

​— Ele levou algumas flores do jardim para ela, chefe. Eles conversaram por um tempo e ela sorriu de algumas coisas que ele disse. A conversa parecia animada. Mas há dois minutos, o Gabriel se inclinou... ele tentou beijar a dona Maite na boca.

​— O quê?! — Heitor deu um rugido animal dentro do galpão, os olhos castanhos injetados de puro ódio. Ele chutou uma carcaça de ferro próxima, fazendo um barulho ensurdecedor. — Aquele filho da puta tentou tocar na minha esposa?! Vocês mataram ele? Eu não mandei vocês ficarem de olho?!

​— Calma, Don! Escuta o resto! — Enzo ergueu a voz para cortar o surto do chefe. — Ela não deixou. No segundo em que o rosto dele se aproximou, a dona Maite empurrou o peito dele com força e se afastou. Ela levantou da cadeira com uma cara de repulsa, cobriu a boca com a mão e saiu correndo para dentro da casa. O Gabriel ficou com cara de idiota na varanda. Marco e eu achamos que ela sentiu nojo da audácia dele.

​Heitor respirou fundo, o peito largo subindo e descendo de forma descompassada. O alívio de saber que sua boneca continuava rejeitando o outro homem misturou-se com a urgência febril que o dominava há dias. Ele olhou para a própria imagem na tela, sujo do sangue de seus inimigos.

​— Prepara o terreno aí, Enzo — Heitor ordenou, a voz caindo para um tom grave, determinado e perigoso. — Avisa o Otávio que o Don de Chicago está cruzando o oceano. Eu vou tomar um banho, trocar de roupa e pegar o meu jato nas próximas duas horas. Eu limpei o meu passado aqui em Chicago, e agora eu vou até o Brasil buscar a minha esposa de volta. E se aquele Gabriel se atravessar no meu caminho... ele vai descobrir por que me chamam de lobo. Desliga essa porra.

​O Rejeito na Varanda

​Na fazenda Portela, o entardecer trazia uma brisa mansa que balançava as folhas dos coqueiros. Maite estava sentada em uma das poltronas de vime da imensa varanda, tentando focar a mente em um livro de história da arte, mas seus olhos verdes insistiam em perder o foco. O ódio por Heitor e a saudade de suas carícias brutas continuavam duelando dentro de seu peito.

​Gabriel aproximou-se com passos leves, vestindo uma camisa de linho azul clara e exalando um perfume amadeirado forte, excessivamente doce. Ele trazia um pequeno ramo de jarmins colhidos do jardim.

​— Uma mulher tão bonita não deveria passar o final da tarde sozinha com um livro velho — Gabriel disse, a voz mansa e galanteadora, sentando-se na poltrona ao lado e estendendo as flores para ela.

​Maite fechou o livro, aceitando as flores com um sorriso polido, tentando ser grata pela hospitalidade da família. — Obrigada, Gabriel. Você é sempre muito gentil. Eu estava apenas tentando distrair a cabeça.

​— Você precisa parar de olhar para trás, Maite — ele se inclinou um pouco mais na direção dela, o olhar castanho focado nos lábios dela. — O seu passado em Chicago foi uma tempestade, mas eu quero ser o seu porto seguro. Desde o primeiro momento em que você desceu daquele avião, eu não consigo pensar em mais nada. Eu quero te fazer feliz de verdade.

​Gabriel estendeu a mão, segurando o queixo de Maite com delicadeza, e começou a aproximar o rosto do dela, fechando os olhos para iniciar um beijo.

​No entanto, à medida que o rosto de Gabriel se aproximava, o cheiro forte, adocicado e perfumado dele atingiu em cheio as narinas de Maite. Não era o cheiro rústico de Heitor — que cheirava a uísque, tabaco, couro e testosterona pura. O aroma de Gabriel pareceu revirar o estômago dela de uma forma violenta e instantânea. Uma onda avassaladora de náusea subiu por sua garganta.

​— Não! — Maite exclamou, empurrando o peito de Gabriel com força brusca, os olhos verdes arregalando-se em uma mistura de pânico e mal-estar físico.

​— Maite? O que houve? — Gabriel perguntou, assustado e com o ego sutilmente ferido, endireitando-se na cadeira. — Eu fui rápido demais? Desculpe...

​Ela não conseguiu responder. A boca de Maite encheu-se de saliva e a ânsia de vômito a dominou por completo. Ela cobriu os lábios com as duas mãos, levantou-se da poltrona em um salto e correu para dentro da casa, deixando as flores caírem no chão da varanda.

​Ela subiu as escadas correndo, entrou na suíte de hóspedes e bateu a porta do banheiro, ajoelhando-se direto em frente ao vaso sanitário de porcelana branca.

​COF! COF!

​Maite vomitou todo o almoço, o corpo inteiro tremendo com os espasmos do estômago. Ela apoiou a testa na borda fria da louça, arfando pesado, as lágrimas descendo por seu rosto devido ao esforço físico.

​— Meu Deus... o que está acontecendo comigo? — ela sussurrou para si mesma, a voz fraca, limpando a boca com um pedaço de papel toalha.

​Ela caminhou até a pia, lavando a boca com água gelada e olhando para o próprio reflexo no espelho. Suas bochechas estavam coradas, mas havia uma expressão de profunda confusão em seu rosto. Não era apenas o nojo pelo beijo de Gabriel; era algo mais profundo, um mal-estar físico que ela vinha sentindo de forma sutil nas últimas manhãs, mas que agora havia explodido.

​Enquanto ajeitava o vestido diante do espelho, Maite levou a mão espalmada, de forma instintiva e lenta, até o próprio ventre ainda liso. Um pensamento súbito e avassalador cruzou sua mente, fazendo seu coração dar um salto violento dentro do peito. Ela lembrou-se da última noite em Chicago, da intensidade selvagem com que Heitor a possuíra na escuridão antes de mandá-la embora... e lembrou-se de que o seu ciclo estava atrasado há dias. O lobo de Chicago havia deixado sua marca mais profunda dentro dela antes da despedida.