O Preço do Pecado
10 Cicatrizes e Escolhas
Heitor acordou antes que Maite abrisse os olhos. Com cuidado para não despertá-la, ele saiu da cama e caminhou até o closet. Sabendo que as roupas da noite anterior estavam amassadas e o vestido esmeralda ligeiramente danificado, ele pegou uma caixa elegante que havia pedido para sua cunhada, Vanessa, comprar no dia anterior. Dentro, havia uma lingerie rendada preta e um vestido casual de algodão azul-marinho, simples, mas de corte impecável. Ele deixou as peças sobre a poltrona ao pé da cama e desceu as escadas.
Na imensa mesa de mogno da sala de jantar, Romeu e Vanessa já estavam servidos. O aroma de café fresco, pães artesanais e frutas preenchia o ambiente.
— Bom dia, irmão — Romeu saudou, levantando a xícara com um sorriso cúmplice. — Pensei que só veríamos você na hora do almoço.
— Eu não durmo até tarde, Romeu. Você sabe disso — Heitor respondeu com sua costumeira rispidez mansa, sentando-se na cabeceira e servindo-se de café preto.
— O humor continua o mesmo de sempre, mas os olhos... — Vanessa comentou, sorrindo de lado enquanto passava geleia em uma torrada. — Você parece mais vivo hoje, Heitor.
Antes que Heitor pudesse dar uma resposta atravessada, o som de passos leves ecoou na escadaria. Os três olharam em direção à porta. Maite apareceu na sala de jantar. O vestido azul-marinho que Vanessa escolhera moldava perfeitamente suas curvas, e os cabelos castanhos estavam penteados, caindo em ondas suaves pelos ombros. Mesmo sem maquiagem e exibindo uma leve palidez de cansaço, ela parecia uma boneca linda, de uma beleza magnética e natural.
Vanessa sorriu, genuinamente surpresa e encantada com a postura da jovem.
— Bom dia, Natasha! Por favor, junte-se a nós — Vanessa levantou-se imediatamente, puxando uma cadeira ao seu lado e servindo uma xícara de café para ela. — Espero que as roupas tenham servido bem. Tentei adivinhar o seu tamanho.
Maite hesitou por um segundo, olhando de relance para Heitor, que a observava com aquele olhar predatório e silencioso, e depois aceitou o convite, sentando-se.
— Serviram perfeitamente, Vanessa. Obrigada pela gentileza — ela respondeu, a voz firme, tentando ignorar a presença sufocante do mafioso na cabeceira.
Durante alguns minutos, a conversa fluiu de forma surpreendentemente leve. Romeu e Vanessa falavam sobre uma viagem planejada à Itália, enquanto Maite respondia brevemente sobre algumas peças que estava restaurando no museu. Heitor apenas ouvia, dando goles em seu café, deliciando-se com a visão de Maite integrada ao seu mundo, mesmo que ela tentasse resistir.
Ao terminar a xícara, Heitor limpou a boca com o guardanapo e olhou para o irmão.
— Romeu, o carregamento de caixas automáticas que chegou ontem no galpão quatro precisa de liberação imediata. Vamos até o escritório resolver isso agora.
— Claro, vamos lá — Romeu levantou-se, ajeitando o paletó. Ele olhou para Maite com um aceno cortês. — Foi um prazer vê-la novamente, Natasha.
Heitor levantou-se, parando ao lado da cadeira de Maite. Ele inclinou-se sutilmente, apoiando a mão no encosto da cadeira dela, e sussurrou perto do seu ouvido com sua habitual audácia cafajeste: — Come tudo, boneca. Você gastou muita energia essa noite.
Maite apertou o garfo com força, os olhos faiscando de raiva, mas manteve a boca fechada enquanto os dois irmãos caminhavam em direção ao escritório nos fundos da mansão.
Ficando a sós na mesa, Vanessa serviu mais um pouco de chá e olhou para Maite com os olhos brilhando de forma analítica.
— Sabe, Natasha... fazia anos que eu não via o Heitor assim — Vanessa comentou de repente, encostando-se na cadeira.
Maite franziu o cenho, genuinamente confusa. — Assim como? Ele continua sendo o mesmo homem arrogante, ignorante e grosseiro de sempre.
— Sim, ele é. Esse é o jeito Laurentis de governar — Vanessa deu uma risada curta, mas logo sua expressão tornou-se melancólica. — Mas o brilho nos olhos dele voltou. Depois de tudo o que aconteceu, achei que ele passaria o resto da vida sendo apenas uma máquina fria de matar e recolher dinheiro.
Maite colocou a xícara na mesa, a curiosidade falando mais alto que seu orgulho. — O que aconteceu com ele, Vanessa? O irmão dele me disse que ele mudou depois que o pai morreu, mas sinto que há algo mais.
Vanessa suspirou, olhando em direção ao corredor por onde os homens haviam saído, garantindo que estavam sozinhas.
— Há cerca de três anos, antes do pai dele ser assassinado, o Heitor estava noivo. O nome dela era Sofia. Ela era doce, completamente diferente desse mundo. Eles se amavam de verdade, do jeito torto do Heitor, mas se amavam. Um dia, o carro onde o pai dele e a Sofia estavam foi alvo de uma emboscada na periferia da cidade. Uma chuva de fuzis. O velho morreu na hora... e a Sofia agonizou nos braços do Heitor no hospital por doze horas antes de partir. Ele nunca mais foi o mesmo. Ele se trancou nessa frieza calculista, virou esse monstro implacável e nunca mais deixou nenhuma mulher passar da porta da frente dessa mansão. Até você aparecer.
As palavras de Vanessa ecoaram na mente de Maite como um baque físico. Ela olhou para as próprias mãos, sentindo o peito apertar. O monstro que a subjugava na cama com tanta vulgaridade e brutalidade carregava um cemitério dentro do peito. Aquilo explicava a fadiga na alma que ela notara nele, os suspiros pesados na escuridão. Mas Maite sacudiu a cabeça internamente; ela não podia sentir pena de um homem que a usava como mercadoria.
Pouco tempo depois, Romeu e Heitor retornaram à sala. Romeu pegou a mão de Vanessa, despedindo-se.
— Vamos, querida. Temos compromissos na cidade. Nos vemos na sexta, Heitor. Natasha, um prazer.
Vanessa despediu-se de Maite com um abraço caloroso e um olhar que dizia tudo. Em seguida, o casal deixou a mansão.
Maite ficou sozinha na imensa sala de estar. Ela andava devagar pelo espaço, tentando processar tudo o que ouvira. Parou diante de uma estante de mogno, observando algumas lindas estatuetas de bronze e mármore que decoravam o ambiente, tocando a textura fria com a ponta dos dedos.
Sem que ela ouvisse um único ruído, a silhueta imponente de Heitor surgiu atrás dela.
Suas mãos grandes e calejadas envolveram a cintura de Maite de forma bruta e possessiva, colando as costas dela contra o peito dele. Maite arquejou com o susto quando a boca dele atacou o seu pescoço, desferindo beijos quentes, sugando a pele sensível e mordiscando com uma volúpia cafajeste que fez o corpo dela vacilar por um segundo.
— Você fica linda nesse vestido azul, boneca — ele sussurrou com a voz rouca contra a pele dela, a mão subindo pela sua coxa por baixo do tecido. — O que acha de subirmos e inaugurarmos essa lingerie nova que a Vanessa comprou?
O toque dele acendeu a faísca do desejo, mas as palavras de Vanessa e a realidade da sua situação atingiram Maite como um balde de água fria. Ela usou toda a sua força para empurrar os braços dele e se afastar, virando-se de frente, com os olhos injetados de fúria e mágoa.
— Me solta, Heitor! Chega! — ela gritou, a voz ecoando pela sala vazia.
Heitor deu um passo à frente, o cenho franzido, a ignorância mafiosa retornando instantaneamente diante da rejeição. — Qual é o seu problema agora, Natasha? A gente estava bem lá em cima até poucas horas atrás.
— Nós não estávamos bem! Nós estávamos nos fodendo como dois animais! — ela cuspiu as palavras, o peito subindo e descendo. — Eu cansei disso, Laurentis. Eu não posso continuar vindo aqui toda vez que você estala os dedos. Eu não vou continuar sendo a sua puta de luxo, a mulher que você usa para esquecer os seus demônios e depois descarta quando o dia amanhece!
O olhar de Heitor endureceu. A mandíbula dele travou de forma perigosa. — Você veio porque quis, Natasha. Ninguém colocou uma arma na sua cabeça ontem à noite na galeria. Você quis o meu corpo tanto quanto eu quis o seu. Não vem me dar sermão de moralidade agora.
— Sim, eu vim porque o meu corpo é fraco e você sabe exatamente como me manipular! — ela deu um passo à frente, o queixo erguido, enfrentando o perigo. — Mas essa foi a última vez. Acabou. O contrato do meu pai está pago, e os meus desejos eu controlo a partir de hoje. Suma da minha vida.
Ela deu as costas e caminhou em direção à grande porta de carvalho.
— Natasha! — Heitor deu um rugido ríspido, os passos duros dele indo atrás dela. Ele a segurou pelo braço antes que ela abrisse a porta, apertando com força. — Você acha que pode simplesmente entrar na minha casa, usar o meu corpo e sair dando as cartas? Eu sou Heitor Laurentis. Ninguém me dá as costas.
— Então aprenda a ser rejeitado, Laurentis — ela sibilou, puxando o braço com violência da mão dele. — Fique com a sua mansão, com o seu uísque e com os seus fantasmas. Eu estou indo embora.
Maite abriu a porta com força e saiu, batendo-a com um estrondo atrás de si.
Heitor ficou parado no centro da sala de entrada. Ele bufou de raiva, passando a mão pelos cabelos desalinhados, o peito arfante de puro ódio e frustração. Ele caminhou até o bar, pegou a garrafa de uísque e virou uma dose direto na boca, sentindo a queimação. Olhou para a porta fechada, os olhos castanhos brilhando com uma promessa implacável e possessiva.
— Você acha que está livre, boneca... — ele murmurou com a voz carregada de veneno e desejo. — Mas você ainda vai implorar para voltar para essa cama.
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