O Preço da liberdade livro 2
32 O Sangue que Clama
A mansão no Norte era um mausoléu de luxo e silêncio. Lucca mergulhara no trabalho com uma ferocidade quase doentia, transformando suas exportações de café em um império que mantinha a economia de Aethelgard respirando. Ele não saía, não recebia visitas e não permitia que o nome de Diana cruzasse os portões de sua propriedade.
O som de cavalos galopando pelo cascalho anunciou a chegada de Alexander. O príncipe gêmeo entrou no escritório de Lucca sem bater, carregando uma pasta de couro cheia de documentos, mas seu rosto não trazia a satisfação de um bom negócio.
Lucca levantou os olhos dos livros de contabilidade, a barba voltando a crescer, o olhar endurecido pela solidão escolhida.
— Alexander. Pensei que enviaria um mensageiro — disse Lucca, servindo dois copos de conhaque. — O que os novos compradores do Sul estão exigindo agora?
Alexander jogou as listas sobre a mesa, mas nem sequer olhou para elas. Ele aceitou o copo e bebeu o líquido de uma vez, os olhos fixos no ex-cunhado.
— Os negócios vão bem, Lucca. Você é um gênio das rotas, como sempre — Alexander começou, a voz carregada de uma tensão estranha. — Mas não vim aqui para falar de café. Vim porque meu pai me proibiu de vir. E minha mãe está chorando nos jardins todos os dias.
Lucca sentiu um aperto no peito, mas manteve a máscara de gelo.
— Se veio falar sobre Diana, está perdendo seu tempo. Ela fez as escolhas dela. Eu fiz as minhas. O contrato está anulado.
— O contrato está anulado, mas a vida não se apaga com um selo real — Alexander deu um passo à frente, debruçando-se sobre a mesa. — Diana está morrendo por dentro, Lucca. Ela não come, mal fala. Ela se trancou naquele quarto de onde você a expulsou.
— Ela vai sobreviver — Lucca murmurou, desviando o olhar. — Ela é uma Kane. É feita de ferro e orgulho.
— Ela pode ser de ferro, mas o que ela carrega dentro dela é de carne e osso. E é seu.
Lucca parou. O copo de cristal em sua mão parou no meio do caminho para os lábios. O mundo pareceu perder o som por um instante, restando apenas o estalar da lenha na lareira.
— O que você disse? — a voz de Lucca saiu como um sussurro perigoso.
— Ela está grávida, Lucca. Três meses — Alexander soltou a informação como se fosse uma granada. — O médico confirmou na noite em que você foi embora. Meu pai ordenou silêncio absoluto. Ele disse que se você voltasse por obrigação ou por uma criança, ele mesmo te mataria. Ele quer que você sinta o peso da falta dela.
Lucca sentiu os joelhos fraquejarem e sentou-se bruscamente na poltrona. As imagens daquela última noite no quarto dele — a briga, a fúria e a entrega desesperada — voltaram como um soco no estômago.
— Três meses... — Lucca cobriu o rosto com as mãos, os dedos cravando-se na pele. — Meu Deus, Alexander...
— Ela não sabe que eu estou aqui — continuou o príncipe. — Mas eu não podia deixar você aqui, vivendo essa farsa de homem de negócios bem-sucedido, enquanto o herdeiro de Aethelgard e dos Lâfrer está crescendo em uma mulher que desistiu de viver.
Lucca levantou o rosto, e Alexander viu o que dez anos de masmorra não conseguiram fazer: o terror absoluto nos olhos do homem. O medo de ser usado fora substituído pelo medo de perder o que ele nem sabia que possuía.
— Ela me odeia, Alexander. Ela gritou que me amava e eu a deixei no chão — Lucca levantou-se, começando a andar de um lado para o outro, o pânico tomando conta. — Como eu posso voltar? Depois de tudo o que eu disse?
— Você não vai voltar como o prisioneiro, Lucca. E nem como o comerciante — Alexander caminhou até a porta. — Você vai voltar como o pai daquela criança e como o homem que é dono do coração dela, antes que ela decida que o coração não serve mais para nada.
Alexander saiu, deixando o silêncio da mansão ainda mais pesado. Lucca olhou para os documentos na mesa — o café, o ouro, as rotas. Nada daquilo importava. Ele olhou para as próprias mãos e imaginou-as tocando o ventre de Diana. A muralha de medo que ele construíra desabou em segundos, deixando apenas a urgência de um homem que acabara de descobrir que sua redenção tinha um batimento cardíaco.
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