O Preço da Magia
19 Episódio 19: Entends Rugir Le Cœur De La Bête Humaine
Notas iniciais
O mundo inferior tremeu num violento sacolejo, tão abrupto quanto rude.
Hades escorou-se, surpreso, ao trono que ameaçava desfazer-se em cacos diante da fereza com que acompanhava o oscilar do mortífero ambiente. O enxofre ascendeu com arrojo às narinas do atordoado deus da morte, a peculiaridade de seu odor ainda mais potente do que de costume, capaz de despertar com renovada força o asco que Hades nutria do submundo.
Detestava, em todos os pormenores, cada lembrete de sua prisão naquele imundo lugar. O mau cheiro que provinha da terra devastada era sem dúvidas o aspecto mais presente, e portanto o que mais o irritava.
— PÂNICO! AGONIA! — Urrou, já preparado para liberar cada fibra de sua fúria nos incompetentes servos. Quando os viu cambaleando cheios de terror para seu campo visual, o ódio que vinha alimentando irracionalizou-se, algo que os asseclas logo perceberam pelo fogo vivo que se alastrava a todo corpo de seu mestre — O que fizeram agora, criaturas imbecis?
— Não fizemos nada, vossa malvadeza! — Agonia ajoelhou-se, tentando aproximar-se do mestre naquela postura subserviente e dificultada, uma vez que os tremores não davam sinal de abrandar. Ao invés disso prosseguiam, insensíveis, prenunciando apenas destruição caso se mantivessem naquele ímpeto — Íamos nos preparar para nossa busca no mundo mortal...
— Já estávamos de saída, mestre...! — Pânico o contemplou, atordoado, imaginando apenas consigo mesmo se de alguma forma poderiam ser eles os culpados pelo que agora assolava o submundo.
Sem qualquer indício de que melhoraria, sem nenhum prévio aviso, a calma retornou ao abrigo dos mortos, tão abrupta e incoerente como no momento em que se iniciara. Voltando à normalidade como se nada tivesse acontecido.
Hades atentou o olhar à sua volta com desconfiança, vasculhando em sua mente algum palpite plausível para aquele inusitado infortúnio — arrasador, apesar de passageiro —, e não tardou para que uma sugestão lhe dominasse os pensamentos e criassem em si uma certeza.
Não se tratava de uma conclusão difícil, afinal o mundo dos mortais e o mundo inferior eram intimamente ligados. Separados apenas pelos fios da vida de quem ainda não desfalecera.
“Algo está errado lá em cima!” — Percebeu, pondo-se imediatamente a caminho da principal entrada do rio das almas, por onde os recém chegados faziam a derradeira travessia. Seu semblante severo e focado, naquele momento, era um dos quadros mais sinistros que tanto Agonia quanto Pânico testemunhavam. Involuntariamente os dois encolheram seus diminutos corpos quando o deus da morte passou rápido por eles, como se já esperassem por algum merecido castigo mesmo sem entenderem o motivo.
— Venham comigo! — Ordenou num timbre seco, sem mesmo direcionar nenhum olhar aos inúteis que o serviam pela eternidade. Em silêncio os pequenos demônios o seguiram, sem contudo conseguirem evitar um gemido temeroso ao seguirem os passos de seu mestre. De seu algoz, na maior parte do tempo.
Sem qualquer nova palavra, Hades adentrou na barcaça que usava para transportar os recém chegados — o tipo de serviço que vinha negligenciando desde que lhe fora incumbido, deixando que as próprias almas encontrassem o caminho ou vagassem por ele sem rumo. Não se importava com nenhuma delas.
Hoje, contudo, faria questão de receber o desencarnado que causara tamanho alvoroço.
Pânico e Agonia o seguiram para dentro do barco enegrecido, que assim como tudo naquele lugar desprendia de si um forte aroma de enxofre. O rio, feito de águas negras e malcheirosas, passava veloz por baixo deles ao comando das fortes remadas de Hades, o veículo aproximando-se da morada da única criatura capaz de incutir medo aos demônios, além do próprio deus da morte...
...O ser bestial que guardava o mundo inferior.
Seu conhecido rosnado baixo e ameaçador, potencializado por três cordas vocais distintas, propagou-se com propriedade pela extensão do largo rio. O hálito da criatura fedia a carne podre. Fedia à insaciedade, à fome eterna. Três pares de íris rubras — ainda mais vivas do que o tom vermelho do sangue daqueles que dilacerava —, surgiram da escuridão, todas as três cabeças de Cérbero focadas na carne fresca que vinha entrar de bom grado em seus domínios.
Pânico e Agonia tremeram, afastando-se o quanto puderam daquela visão grotesca, contudo sem conseguir parar de encarar a horrenda criatura que se anunciava com interesse. Hades, como para tripudiar do terror de seus servos, jogou ao enorme animal um único pedaço de carne crua, iniciando uma verdadeira guerra entre cada uma das três cabeças, que passaram a disputar o alimento entre si com ferocidade irracional. Cada uma das cabeças portando-se como se fossem partes independentes da mesma criatura.
Hades, percebendo com agrado o terror de seus escravos, se permitiu um breve sorriso malicioso, reafirmando as constantes ameaças que fazia aos dois.
— O estômago do Cérbero é um só, mas as cabeças vivem pela luta da supremacia. Não deve ser nada agradável estar entre elas, como um alvo.
Percebeu-os engolir em seco, e o silêncio tornou a reinar quando o enorme cachorro de três cabeças foi ficando para trás, as arcadas dentárias perfeitamente afiadas ainda atacando a si mesmo pela honra de conquistar a carne morta. Hades passou a remar com ainda mais vigor, disposto a avançar pelas águas densas e alcançar a margem que lhe traria respostas. Não tinha muito tempo até que o espírito desgarrado se perdesse ao ir em busca do próprio caminho, recebendo o chamado daquele mesmo rio, que parecia pulsar com vida própria pelas almas humanas que transportava.
Quando o barco estremeceu ao alcançar a margem, Hades já era capaz de vislumbrar o responsável por aquele breve tormento no mundo inferior. A alma que agora cruzava o seu caminho como uma estranha ironia. Dentre os incontáveis mortais que chegavam ao seu reino, justamente aquela causara o estardalhaço.
Mégara.
Hades saltou para fora da barcaça, ainda incapaz de avaliar por completo que tipo de poder seria forte o bastante a ponto de atingir o submundo com tamanha intensidade. Aproximou-se do espectro da mulher que Mégara fora em vida, e que agora vagava sem o mesmo vigor de sua antiga existência, ainda confusa com o momento do desencarne. Mas havia algo de fato muito errado. Aquela humana, pelo que ele bem se recordava, viveu na mesma época de quando Hércules ainda ostentava uma forma mortal, séculos atrás. Não poderia uma mulher comum viver tanto, e ainda aparentar tamanha jovialidade.
— Você! — Hades a chamou, mas não obteve sequer um olhar em resposta. A alma, ainda num estado perturbado, parecia buscar por algo em seus arredores.
— Onde ele está? — Ouviu-se o lamento quase sem voz daquela que em vida fora o amor de Hércules. Suas pequenas mãos translúcidas pousavam na barriga inchada, os olhos tomados de aflição perscrutando ao redor, sedentos pela imagem daquele que buscava com tanta avidez. Num primeiro momento, o deus da morte julgou que a moça estava à procura do próprio Hércules, só então percebendo as mãos femininas sobre um ventre intumescido e entendendo antes mesmo que ela voltasse a questionar — Onde está o meu bebê? O que fez com ele? — Ela finalmente o encarou, voltando a pergunta ao deus dos mortos com a mesma dose de desespero. Pânico e Agonia observavam a cena por detrás da capa de seu mestre, ligeiramente interessados pelo que se seguia.
— Hércules teve um filho? — Hades a segurou pelo braço com rudeza, fitando Mégara com toda a potência infinita de seus olhos, incisivos tal qual o encarar da morte.
— Onde ele está? Meu menino, você o viu? — Repetiu seus questionamentos, alheia ao tom ameaçador de Hades, mal parecendo se atentar à sua presença. Atordoada não apenas por toda a confusão gerada durante o desencarne, mas também por intuir que estava incompleta. Que deveria portar o seu recém nascido nos braços, como parte indispensável de sua essência.
Hades, percebendo que não obteria qualquer resposta interrogando a humana ao modo tradicional, retirou de seu mindinho o anel de gema azul que mantinha sempre junto de si. A joia tremeluzia um brilho celeste, quase púrpura, vibrando de um poder externo...
...De uma força que não pertencia ao temido deus.
Sua essência divina lhe fora arrancada no último encontro que tivera com seu odioso irmão, porém o deus da morte se valera de meios alternativos para preencher aquela falta. Ao menos enquanto não recuperasse todo o potencial de sua própria energia.
Levou a pedra ao centro da testa da humana, direcionando o poder da gema para mostrar-lhe as revelações que queria. As lembranças de Mégara, difusas e incertas, começaram a se manifestar ao deus da morte a partir do momento em que ela fora transportada para Paris, séculos à frente do tempo ao qual pertencia.
Isso por si só já esclarecia a Hades o porquê daquela manifestação tão bruta ecoando no mundo inferior após o desfalecer da mulher. Mégara tornara-se uma afronta às leis naturais. Em essência pertencia à Grécia antiga, contudo pereceu como uma parisiense de uma época bem à frente. Como se a contagem de seus anos se tornasse compatível com a incongruente mudança de era ao viajar através do tempo.
Tornara-se uma afronta às limitadas habilidades mortais, arrastando os efeitos de tal perversão ao mundo inferior — que intimamente se conectava à morada humana em suas baixas vibrações.
O deus que habitava o submundo fechou os olhos, abrindo-os à contemplação das memórias desfocadas e confusas da alma que ali perscrutava, sob o poder da joia azul. Cada vez mais rijo em seu semblante, Hades atestava por si mesmo todo o caminho tortuoso da humana que, como ele próprio, fora amaldiçoada por seu irmão.
A última lembrança que se mostrou a ele foi o garoto nascendo da mulher à beira da morte, sua bocarra retorcida berrando o constrangimento da própria existência. Como se já soubesse não pertencer àquele lugar.
Disforme, assimétrico e corcunda, o aspecto assombroso da criança camuflava com maestria seu verdadeiro cerne. Sua essência oculta, aquela que olho humano algum poderia ver em suas tantas limitações superficiais.
O menino era fruto de um dos feitiços mais raros e poderosos. Nascido de um amor puro e verdadeiro, a criança detinha em si o tipo de magia mais cobiçada até mesmo dentre os mais influentes magos, tão incomum e tão preciosa. E como um adicional ainda mais pertinente ao valor inestimável do recém nascido, em suas veias corria o sangue proveniente do Olimpo.
Hades mal conteve o sorriso à medida que admirava o filho de Hércules, este ainda lamentando seu nascimento.
Quando desfez o contato do anel com o espírito da inusitada humana, o brilho cerúleo da pedra tornou-se mais opaco, quase chegando a se apagar. Algo que em outras circunstâncias teria irritado o deus da morte, contudo o sorriso vil ainda se engrandecia em seus lábios finos, do mesmo tom púrpura de um corpo já há muito sem vida, permitindo a visão daqueles dentes pontiagudos que tanto amedrontavam Pânico e Agonia.
— Assegurem-se de que este menino permaneça em segurança! — O deus ordenou aos servos, já tomando o próprio caminho sem mais se preocupar com a confusão da humana desencarnada. Mégara não possuía mais qualquer serventia para si — Eu o quero vivo até o momento em que me bastar, e o mundo pode ser cruel àquilo que qualifica como aberração. Neste ponto, não difere em nada do próprio Olimpo. — Divagou, aprisionando com força desnecessária o anel entre os dedos enquanto ainda se afastava a passos apressados.
Sua esperança enfim se renovara diante de tão auspiciosa descoberta.
Pânico e Agonia entreolharam-se, transportando-se ao mundo mortal quase no mesmo instante, ao som simples do estalar de seus dedos pequenos. Estavam tensos. Perceberam apenas pelo olhar de Hades o quanto aquela tarefa tornara-se vital aos seus planos, e falhar provavelmente significaria concretizar as várias ameaças que o deus dos mortos regularmente fazia a respeito de Cérbero.
Camuflando suas reais aparências assim que pisaram na cidade-luz a imperceptíveis insetos, os diminutos demônios observaram durante vários dias a rotina que envolvia o garoto deformado. Os recursos disponíveis eram escassos. A fome era uma constante ingrata, porém a percepção que mais os incomodou foi entender que a mulher que cuidava do menino também o temia, de todo o coração.
Chantefleurie, como descobriram se chamar a mulher, dividia com justiça a atenção entre o filho de Hércules e uma bela menina, sua própria filha, que assemelhava ser apenas alguns meses mais velha do que o descendente do Olimpo. Contudo, a qualidade dessas interações era completamente distinta.
A cigana se entregava de corpo e alma à menininha esperta e arteira, nutrindo-a especialmente com seu amor materno. Ao garoto, contudo, limitava-se a contatos estritamente necessários, sanando como podia às necessidades do recém nascido com seu próprio leite. Ainda assim, era evidente notar que tremia a cada toque, por menor que fosse. Parecia sujeitar-se àquela criança deformada apenas por consideração à Mégara.
Após todo o tempo dedicado a observar a rotina da criança, outra percepção os fez decidir que aquele não era um lar apropriado, tampouco saudável ao precioso recém nascido.
Crescer como um cigano nos arredores de Notre Dame era o maior de todos os perigos. A chance de padecer diante da intolerância dura dos parisienses era quase certa, e com aquela aparência o menino seguramente se tornaria alvo primordial dos soldados assim que fosse visto pela Inquisição.
O Pátio dos Milagres, cedo ou tarde, seria a sentença de morte do pequeno corcunda.
— Sua única esperança é ser acolhido por algum humano influente, de poder... — Pânico afirmou ao companheiro quando decidiram finalmente agir em prol da criança, recebendo do outro uma resposta contemplativa.
— No fim das contas o macaco tinha razão... — Agonia divagou, solene ao se referir ao inesquecível Rafiki — Temos que encontrar alguém que seja capaz de olhar para além do que vê!
— Não era um macaco. Era um mandril... — Pânico teimou pelo que julgou a milésima vez, mal humorado com o terrível encargo que tinham em mãos...
...A procura por um mortal que não se restringisse às aparências. Algo que fugia por completo à índole humana, sempre tão irascível com aquilo que seus olhos pouco apurados definiam como díspar. Criaturas normalmente afiadas em julgar, e pouco propensas a refletir.
Passaram o período de uma semana contabilizada ao modo dos humanos naquele lugar terreno, travestidos de ciganas a fim de se camuflarem pelas ruas da Cité. Pânico tomou o aspecto de uma mulher que já aparentava ter vivido metade da vida, ligeiramente encurvada nas costas — mais como uma postura submissa do que algum defeito na coluna —, pele castigada pelo sol e cabelos bem negros com alguns fios tendendo ao branco. Os olhos de um castanho bem claro por vezes enganavam ser verdes, e dotou seu falso corpo com uma magreza doentia, tal qual a maioria daquele povo de proscritos.
Assim que o demônio sentiu-se satisfeito consigo mesmo e viu a aparência escolhida por seu comparsa — também de semblante feminino, de aspecto um pouco mais jovem e ostentando uma barriga profusa —, Pânico negou, desaprovando a escolha dos traços.
— Você viu como são os ciganos. Mal têm o que comer, nenhum deles poderia aparecer com uma barriga desse tamanho sem causar estranheza. Todos parecem desnutridos, e precisamos passar despercebidos.
— Nada disso, Pânico. Não abro mão do meu estofamento natural... — Avisou com um ar ofendido e orgulhoso enquanto massageava a saliência de seu abdômen, este agora com o mesmo tom bronzeado tão comum ao Pátio dos Milagres.
Sem ter como convencê-lo do contrário, puseram-se em ação na árdua tarefa de encontrar aquele que se adequasse a se tornar tutor do filho de Hércules. Uma procura que provara-se ainda mais penosa do que ambos cogitaram, e conforme os dias passavam sem grandes progressos em sua caça, chegaram a sentir falta de suas buscas fracassadas pelo mago que Hades tanto queria.
Na pele de ciganas, Pânico e Agonia puderam ler os parisienses que cruzavam seus caminhos, e apenas desânimo marcou seus dias no mundo mortal. Lidavam a todo minuto com olhares que refletiam asco quando eram avistados vagando pelo centro da cidade. Injúrias, nojo e ameaças marcaram seus dias ali.
Todos os encaravam como se não passassem de graves ofensas à sua bela cidade, maculada pela raça inferior dos pagãos.
No sétimo dia, entretanto, depararam-se com algo próximo da esperança.
Perceberam um rapaz de expressões rígidas — frias como o mais rigoroso inverno — de súbito abrandar sua feição ao fitar de relance a cigana que Pânico aparentava ser. Seus olhos de um castanho marcante ameaçaram se arregalar naquela rápida contemplação, e no segundo seguinte foram tomados por um estranho brilho decepcionado.
Como se o reconhecesse, e logo em seguida atestasse estar enganado.
O homem todo vestido de negro — com exceção do colarinho sacerdotal — virou abruptamente em seu caminho, andando rápido até a catedral e sem jamais olhar para trás. Os seres do mundo inferior o seguiram numa distância segura, interessados pela reação atípica demonstrada. Observaram-no pelo resto do dia e noite subsequente, percebendo-o comandar as atividades religiosas de Notre Dame. Uma posição respeitável naquela terra cristã. Quando tais obrigações do dia foram concluídas, Pânico e Agonia adentraram a catedral em suas formas camufladas, os olhos baixos e pedintes jamais o encarando de forma direta. O jovem sacerdote pareceu demonstrar semelhante desapontamento ao pousar os olhos castanhos sobre a cigana de meia idade, aparentando algo próximo à angústia dessa segunda vez.
— Um pouco de água, senhor... — Pânico estendeu mãos mendicantes ao homem que conquistara recentemente aquele alto cargo dentro da fé cristã, o mais moço arquidiácono que a catedral já abrigou.
— Notre Dame é a casa de Deus, não um antro de caridades. — Seu timbre acentuado soou mais rude do que sua fisionomia, que ainda se demonstrava em algum nível abalada por aquela companhia indesejada. Os servos do mundo inferior já conseguiam ler a essência do grande tormento habitando a alma do humano, e seus modos rudes direcionados às duas pagãs não se encaixavam à típica intolerância com que Paris tratava seus estrangeiros. Suas razões pareciam mais pessoais.
Claude Frollo era demasiado jovem para albergar um coração revoltoso daqueles, porém este já parecia dominado por tamanhas amarguras que de imediato chamou a atenção dos servos do submundo naquele contemplar velado.
Um meio sorriso quase escapou dos lábios camuflados de Pânico conforme lia o humano de alma revoltosa.
Talvez a criança de Hércules não fosse a única conveniência daquela viagem ao mundo mortal.
Claude, assim que viu as ciganas de relance pela primeira vez, foi dominado pela tola impressão de que a boêmia mais velha poderia tratar-se de sua mãe. O mesmo porte físico, embora debilitado, a mesma altura que ele tão porcamente recordava, o longo cabelo negro e os olhos que chegaram a enganá-lo num verde incerto. Porém bastou gastar alguns segundos a mais observando a pagã para se certificar de que tal suspeita era infundada.
Apenas uma peça pregada pelo destino quando Frollo achou já estar totalmente indiferente à sua progenitora. A cigana desleal e mentirosa que deixou o próprio filho — uma criança ainda indefesa — aos cuidados de um degenerado.
Detestou a decepção que comprimiu seu peito ao concluir que a cigana tratava-se apenas de uma estrangeira qualquer, sem os laços de sangue que em segredo ele almejava reencontrar. Irritou-se ainda mais ao vê-las pela segunda vez, denegrindo com suas presenças o lar cristão, como que zombando de sua fraqueza e dispostas a atormentá-lo até mesmo ali, dentro de seu santuário. Notre Dame o eximira da convivência com aquela estirpe alternativa em Paris, por isso deparar-se tão incansavelmente com ela era um tanto irritante.
Apesar de ter sido criado em meio à cultura pagã, o mero vislumbre daquele povo já lhe afetava pelas más lembranças que colecionou no Pátio dos Milagres.
— Piedade, padre... — Agonia logo percebeu o que Pânico também compreendia, e tremeu por pura ansiedade. Dentre todo o território parisiense percorrido à procura de um tutor adequado, aquele parecia o humano certo para confiar os devidos cuidados ao filho de Hércules, e todo o tormento que liam em seu ser poderia trazer ainda benefícios futuros.
Claude Frollo fora, sem dúvidas, um achado valioso. Uma espécie de diamante bruto em meio às ruas apinhadas de falsas joias na Île de la Cité.
— Pagaremos por sua generosidade com o nosso conhecimento! — Pânico conduziu a barganha do modo que melhor lhes beneficiaria. Ciente, através da percepção de vastas angústias naquela alma humana, que conseguiria chamar sua atenção e conduzi-lo ao propósito desejado.
— Não há qualquer sabedoria pagã que me interesse... — Começou a dispensar a ofensiva oferta, porém a certeza de suas palavras foi refutada com a simples frase que ouviu a seguir.
Que o fez estremecer diante do significado oculto que carregava.
— Nós sabemos como encontrá-la. — Pânico quase sorriu com a indisfarçada surpresa e tensão nos traços do arquidiácono, que em dúvida se manteve silente. Como criaturas do mundo inferior, nenhum dos dois podia intervir com ações diretas no mundo mortal, somente os humanos deveriam ter poder de ação nos domínios de sua terra. Os seres do submundo eram capazes apenas de manipular quem estivesse ao redor, sempre se valendo dos tormentos que conseguissem ler na alma de cada mortal. E aquele, especificamente, possuía muitos. — A cigana predestinada a entrar em seu destino. Que hoje não sai de seus pensamentos com nossa visita. Podemos dar o meio de como achá-la.
Num ato impensado, o arquidiácono tocou uma linha tortuosa que viajava ao longo de sua mão, tendo em mente a antiga promessa da mãe de que ainda voltaria por ele. Que disse ser capaz de vislumbrar uma cigana em seu futuro, e que, portanto, não havia motivos para duvidar daquela jura. Rangeu de leve os dentes ao perceber-se instigado com uma possibilidade tão improvável e traiçoeira, questionando-se como a ousada cigana à sua frente poderia conhecer aquele aspecto tão oculto de seu passado.
De uma época que ele mesmo se esforçava em apagar.
— Eu poderia mandar prendê-las agora mesmo por essa indubitável demonstração de bruxaria, cigana. E em plena catedral! Mais desrespeitoso impossível! — Alertou, porém sem muita consciência aproximou-se alguns passos das duas mulheres, mal conseguindo controlar a ansiedade por imaginar se novamente veria sua progenitora. Apertava a mão em que a sorte fora lida com mais força, ansiando por sua comprovação.
Agonia enviesou os lábios num espectro de um sorriso maldoso, sussurrando junto ao ouvido do comparsa de modo que apenas o outro demônio pudesse ouvi-lo, e com isso aumentando ainda mais a desconfiança de Frollo:
— Já não vejo a hora desse humano ter o fio da vida cortado. Nada supera o desespero desses novos religiosos quando descobrem que o mundo inferior é o único paraíso que terão...
Pânico deu uma sutil cotovelada no outro, temendo que ele acabasse estragando seus planos com sua tagarelice fora de hora.
— Pode nos mandar à forca, senhor. Mas então nunca saberia o que temos a dizer, e se lhe interessa.
Temendo ser visto confraternizando com pagãs em plena catedral e ao mesmo tempo incapaz de dispensá-las, Frollo adiantou-se em fechar as portas de Notre Dame, ainda que elas devessem permanecer abertas por cerca de mais uma hora. Contudo, não se importou com regras ou as consequências em quebrá-las. Sem nada dizer providenciou a água às mulheres que o observavam em cada gesto, de uma maneira tão íntima que chegava a ser um tanto desconfortável.
— O que sabem? — Foi direto ao questionamento que mais lhe consumia, não se preocupando em esconder seu interesse. Sentia o peito ribombar com as batidas frenéticas de seu coração, sem saber exatamente como se sentia a respeito do que ouvia.
Do que estava prestes a descobrir.
— A cigana que foi prometida ao seu futuro de fato existe, mas não poderá ser encontrada ao acaso. — Pânico inventou, contente consigo mesmo — Há uma criança que a trará até você. Um menino recém nascido que fará com que seus caminhos se cruzem.*
— Onde encontro essa criança?
— Ele habita o Pátio dos Milagres. Trata-se de um bebê amorfo, corcunda e zarolho, fácil de identificar. Ficou órfão assim que veio ao mundo, não será problema resgatá-lo. Tenha esse menino ao seu lado, e a sorte de sua mão vai se concretizar. Sem a presença dessa criança, contudo, seu destino e o da cigana são ainda mais incertos. Isso é tudo que sei.
O jovem arquidiácono afundou-se nas próprias conjecturas, experimentando um amargo dilema. Por longos e agros anos esperou o retorno de sua mãe. Esperou que ela o resgatasse do pai bêbado e violento, mas a cigana, ao que tudo indicava, decidira levar a vida sozinha, sem um filho pequeno que atrapalhasse seus costumes pecaminosos. O pai, ainda que o tratasse da forma mais indiferente possível — e não raras vezes cruéis —, fez o possível para mostrar-lhe a verdade a respeito dos pagãos.
Aquela poderia ser uma oportunidade para colocar de vez uma pedra naquele passado e esquecê-lo. Provar a si mesmo que o assunto de sua mãe e sua infância não detinha mais qualquer poder sobre si.
— Qual a sua decisão? Irá à busca do menino...? — Agonia questionou, já parecendo dar o assunto por encerrado.
— Irei. — Claude respondeu friamente, chegando àquela deliberação ao ser despertado pela segunda cigana — E assim que encontrar a criança, pretendo eu mesmo matá-la. — Encarou as duas pagãs num evidente desafio, apenas aguardando para ver se elas o provocariam com algum protesto. No entanto, o semblante de ambas foi dominado por indignação, e em suas íris o arquidiácono contentou-se ao perceber algum desespero.
Não mais se permitiria ser assolado pela lembrança longínqua de sua mãe.
Se de fato existisse, naquele mundo, uma criança capaz de trazer a cigana de volta ao seu convívio, então tal criatura deveria morrer, fazendo os antigos laços se romperem junto à sua vida infantil.
Até por que, ninguém se compadeceria pelo falecer de um cigano órfão de aparência tão repugnante.
Sentindo-se renovado diante daquela decisão, Frollo abandonou a catedral às pressas, sem se importar com as duas figuras que ainda permaneceram em Notre Dame, estáticas.
Pânico e Agonia, ao serem deixados para trás, retomaram suas verdadeiras aparências, e um gemido alto escapou por entre os dentes serrilhados de Pânico, que não tardou a praguejar.
— Hades vai nos matar quando descobrir... — Lamuriou, já capaz de sentir o hálito putrefato de Cérbero rodeando-o, à espreita de se alimentar de sua tão pouca carne.
— Se descobrir... — Agonia deu ênfase, não vendo outra saída senão esconder a verdade de seu mestre até onde fosse possível.
— Mas é claro que ele... — Pânico interrompeu-se, de súbito percebendo o raciocínio do amigo. Talvez de nada valesse aquela criança. Talvez o menino disforme representasse apenas um capricho momentâneo do deus dos mortos em sua vingança ao Olimpo, podendo jamais ter participação nos planos reais de Hades, e o deus da morte de fato nunca precisaria descobrir o quão inábeis ambos haviam se saído em mais aquela missão. Quem sabe a sorte podia lhes agraciar ao menos desta vez... Por fim, permitiu-se acompanhar o sorriso esperançoso de Agonia, contente por ao menos adiar o castigo, caso ele viesse — É... Eu gostei disso!
Enquanto ambos retornavam ao mundo inferior sem mencionar a Hades mais aquele estrondoso fracasso, Claude Frollo encaminhava-se rumo ao Palácio da Justiça, instruindo os soldados do rei à caçada que já ocupava toda sua mente. Não deu detalhes da criança que buscava, querendo ele mesmo ter o prazer de terminar com sua existência.
Aquele laço entre ele e seu passado deveria acabar por meio de suas próprias mãos.
Ordenou-os a deter cada cigano que ousasse por os pés fora do Pátio dos Milagres, prendendo-os por ordem da Inquisição e permitindo que o arquidiácono os interrogasse antes que suas sinas fossem definidas.
Seguiu-se um genocídio em massa a partir de tais comandos.
Logo todo e qualquer cigano era capturado para o interrogatório do sacerdote, e quando se esgotavam as perguntas, seus destinos variavam em apenas duas opções. O pelourinho ou a fogueira.
E nunca antes a história dos egípcios foi marcada com tanta destruição, os ataques ao povo sofrido servindo aos parisienses como o mais divertido entretenimento.
Passou-se muito tempo antes que Frollo obtivesse informações acerca do menino deformado. Ou aqueles malditos ciganos eram ainda muito leais entre si, ou de fato desconheciam o paradeiro e até mesmo a existência de tal aberração. Cerca de três anos depois, já enfurecido e cada dia mais obcecado pelo órfão, começou também a ordenar o sequestro e captura de crianças pagãs, ciente de que estas ainda não compreendiam a forte unidade do povo cigano, sendo mais susceptíveis à tortura e, no primeiro sinal de dor, acabariam dando as informações que ele tanto ambicionava.
Por mais que já tivesse cogitado, evitaria a todo custo permitir que os soldados invadissem o Pátio dos Milagres e as casas dos ciganos à procura do menino, pois tinha ciência que a linha entre o medo e a revolta era tão tênue que quase não se percebia. Não podia causar um levante cigano naquele momento, e suas ordens — por mais truculentas que fossem — ainda se apoiavam nas leis de Paris, intolerante a todo e qualquer manifesto de feitiçaria. Por isso tentava sempre assegurar-se de que os estrangeiros estivessem sós no momento da captura, de modo que nenhuma testemunha boêmia pudesse questionar seus atos e alimentar a insurreição de seu povo.
Após todo aquele tempo tentando manter o máximo de cautela em sua busca, conseguiu algum progresso medíocre através do inquérito de um menino por volta de seus sete anos, dono de olhos castanhos grandes e tão assustados quanto. A criança afirmava jamais ter visto nenhum garoto deformado e corcunda vivendo entre os pagãos, mas revelou — com certa dificuldade por conta dos soluços cortando sua fala — que vivia com medo do choro de um bebê na casa vizinha à sua. O som que aquela criança perpetrava, segundo o pequeno cigano, parecia pertencer a um monstro. Até mesmo sua família se incomodava com os ruídos que provinham da casa ao lado, embora não lhe admitissem abertamente.
Sabia que aquela informação de nada valia, porém achou certo averiguar.
Pela primeira vez desde que renegara sua origem cigana dispôs-se a pisar novamente no Pátio dos Milagres, desta vez guiado pela criança que pouco ou nada lhe dissera. Acompanhado também de alguns dos soldados do Palácio da Justiça, Claude Frollo seguiu as orientações assustadas do menino, sentindo-se um verdadeiro tolo por consentir dar crédito à versão fantasiosa e infantil que lhe fora contada.
Todavia, não possuía nada além daquilo, e já estava farto da jornada infrutífera.
Todo o Pátio dos Milagres pareceu se retesar de medo à chegada da pequena caravana que acompanhava Claude, o menino choroso ao seu lado apontando a direção de onde habitava o monstro de sua história.
O arquidiácono desprezou todos em seu caminho, muito focado naquilo que pretendia. Se o pequeno cigano estivesse certo, acabaria de vez com o mal que significara a mãe em sua vida. Acabaria com aquele feitiço pernicioso que ainda o fazia pensar nela.
Ordenou para que os soldados arrombassem a entrada do casebre indicado, invadindo-o sem nenhuma sombra de remorso nas íris focadas. Mal percebeu o quanto a casa era modesta ou carente de provisões. Sua visão apenas abrangeu a mulher que se encolhia sobre uma menina igualmente alarmada, e no extremo oposto estava a criança solitária que tanto lhe tirara a paz.
Frollo mal conseguiu acreditar em seus olhos.
Durante aquela sinuosa busca, chegou a crer que o menino corcunda sequer existia, que nada mais fora do que uma peça pregada pelas malditas ciganas, mas hoje finalmente comprovava que elas estavam certas, afinal.
Observou-o, entre o choque e o triunfo.
Tomado por extensos calombos, seu pequeno corpo não era nada além de assimétrico, nada aprazível ao olhar. A boca torta se escancarava num choro abominável, fazendo seu rosto parecer ainda mais incongruente, fora das proporções corretas. Era um menino vigoroso, sem dúvidas, mas parecia não possuir nada de humano.
— Não temos nada de valor, monsieur! — A cigana suplicou assim que a sua porta foi estraçalhada, só então entendendo a gravidade da situação ao perceber que eram soldados a invadir seu lar tão miserável — Não fizemos nada de errado! — Suplicou, colocando-se de forma protetora à frente da filha, os olhos bem verdes da criança já alagados com as próprias lágrimas.
— Isso é assunto que compete à Inquisição, cigana. É a eles que terá de responder, não a mim! — O sacerdote alertou, ainda sem conseguir tirar os olhos do menino que por aqueles anos de busca fora sua obsessão.
— Quais são as ordens, senhor? — Um oficial o questionou com ar satisfeito, parecendo sempre em júbilo pelo árduo trabalho que vinham fazendo com os estrangeiros, finalmente sentindo que lutavam de forma mais ativa contra aquela raça menor que conspurcava uma cidade tão bela. Naquele ritmo, Paris tornaria a ser limpa em breve.
— Liberte o garoto. Ele me foi muito útil. Quanto à mulher, que o fogo purifique sua alma das feitiçarias que pratica. Talvez assim Deus se apiede.
— Monsieur, por favor! — A mulher soluçou, horrorizada com aquele veredicto tão desonesto, sem querer passando o seu desespero à menina de grandes orbes verdes — Tenho uma filha para criar! Não fiz nada de errado, sequer tenho saído do Pátio... — Principiou, sendo silenciada por uma forte bofetada do soldado, arrancando de imediato um grito de terror da filha ao testemunhar a mãe ser agredida daquela maneira tão injustificada e bruta.
O gosto do sangue pareceu acordá-la para o seu próprio destino, assim como o de seus irmãos e irmãs. Como o de sua amada filha. Todo assassinato cigano era amparado pela lei, e lutar contra aquilo apenas precipitava seu encontro com a morte. De nada adiantava lutar, gritar ou chorar.
— Cale-se, cigana! E cale sua cria, se não quiser que ela experimente o mesmo destino! — Bradou, indiferente ao sofrimento da menina enquanto arrastava a mulher consigo, conseguindo uma postura mais firme da boêmia quando ameaçou sua Esmeralda. Obrigou-se a controlar o medo que atravessava seu corpo como navalhas, ignorando seus temores, em momento algum duvidando de que os cruéis servos do rei sequer se incomodariam em machucar uma criança de sangue egípcio, por mais inocente que fosse.
— Mon coeur, não se preocupe. Vai ficar tudo bem! — Chantefleurie fez a promessa incerta, rezando aos seus próprios deuses para que nada de mau acontecesse à sua amada menina. Lágrimas embaçaram sua visão quando se deu conta de que aquela era a última vez que via a filha — Procure Clopin, meu amor. Fique junto dele até a mamãe voltar, está bem?
A menina permaneceu onde estava, fitando desconsolada o soldado levar sua mãe para longe. Olhou de esguelha para o homem todo vestido de preto e que agora se aproximava com solenidade do garoto ainda mudo que vivia em sua casa, os grandes olhos brilhantes de lágrimas implorando para que intercedesse por aquela crueldade que nem mesmo era capaz de compreender.
Mas em seu caminho, Claude Frollo sequer vira a pequena cigana. E caso visse, não a corresponderia com qualquer tipo de interesse.
Apenas o menino coxo detinha sua total atenção.
“Haveria de ser mesmo uma besta humana a responsável por trazer-me de volta ao convívio daquela cigana traiçoeira” — O arquidiácono pensou repleto de desprezo, convicto de que toda a expectativa que fazia morada em seu peito vinha, na verdade, da ânsia de matar aquele pobre menino.
A criança deformada não mais chorava diante da aproximação do padre. As mãos gorduchas agora coçavam os olhos adornados de calombos grosseiros, como se estivesse exausto. O acanhado corcunda ergueu a cabeça o máximo que pôde, numa tentativa dificultada de encarar o enorme homem que se pusera à sua frente, e o esforço em conseguir vê-lo fez com que o menino caísse para trás num estrondo seco, agora sentado. De seus lábios tortos escapou um solitário soluço, e nada mais. Continuou mirando Claude com seu único olho funcional, parecendo de fato curioso pelo desconhecido.
Ainda imaturo demais para compreender a ameaça que se escondia no punhal carregado pelo sacerdote.
O outrora cigano agachou-se à altura do menino, os dedos cada vez mais trêmulos sobre o cabo da arma afiada, ameaçando vacilar agora que finalmente o tinha ao seu alcance. Chegou a empunhar a lâmina acima da cabeça do corcunda, porém um misto de arrependimento e asco revolveu-se dentro de si.
A criança ainda o olhava com inocência, parecendo lutar contra um sono arrebatador apenas pela curiosidade de perscrutar o desconhecido. Afinal, durante seus limitados anos de vida, somente havia interagido com as duas habitantes daquela casa, e nada além do necessário, embora a menina fosse mais receptiva às curiosidades do garoto.
Claude Frollo foi invadido por um sentimento tão ou mais cortante do que o punhal em mãos. O pequeno corcunda, de certa forma, o fez lembrar a si mesmo no contexto daquele ambiente desgarrado.
De maneira um pouco diversa, tratava-se de uma criança que não era querida dentro de sua própria casa. O arquidiácono percebera o quanto a cigana que o abrigava parecia temê-lo. Evitava-o até mesmo no olhar. Assim como Frollo, que nunca sentiu pertencer a uma família que o amasse. A única que ele acreditou ser capaz disso o abandonou sem qualquer remorso.
Pela sua aparência esdrúxula, por certo era uma criança que não se encaixava aos padrões impostos por Paris, tal qual Frollo já era, também fora de qualquer arquétipo por sua esperteza e curiosidade tão acimas da média.
“...Uma criança amaldiçoada e renegada pelos deuses pagãos, tal qual eu mesmo fui!” — Refletiu ao contemplar as intermináveis assimetrias do pequeno, já ciente de que vacilava em seus desígnios iniciais. Jamais admitindo que se permitia vacilar pelo desejo de concretizar a sorte lida em sua mão. O braço que antes erguia a arma com convicção agora jazia caído ao lado do corpo, inerte ao que antes lhe parecia o certo — “Talvez o deus cristão se mostre mais piedoso a você, e o acolha mesmo com o perjúrio de tamanha feiura...”
Contra todas as suas antigas expectativas, o arquidiácono acomodou o menino disforme em seus braços, notando-o bem mais pesado do que aparentava. Tornaria-se um rapaz robusto, sem sombra de dúvidas, um tanto valioso nas tarefas de Notre Dame.
Tomou o rumo da catedral sem refletir muito acerca da sua brusca mudança de atitude, disposto a criar o órfão e tentar esquecer tudo o que fora dito a respeito dele.
Daquele dia em diante, compartilhou diversos de seus conhecimentos com aquele que veio a chamar de Quasímodo, ensinando-o a ler, escrever, e até mesmo falar — uma habilidade que não havia sido adquirida ainda, mesmo aos três anos de idade.
Ensinou-o aquilo que viria a se tornar sua maior paixão e devoção; como manejar os sinos da catedral. Como tornar-se parte dela em sua essência.
E assim, no culminar de tantas fatalidades improváveis, nascera aquele a quem Paris viria a conhecer como o corcunda de Notre Dame.

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