O Preço da Magia
13 Episódio 13: Caresse-moi D'une Main...
Notas iniciais
Clopin não poderia suportar por muito mais tempo aquele impasse.
Seu lar cheirava a sangue fresco, ou talvez suas narinas apenas captassem de forma maldosa uma sensação sinestésica, facilitada de forma grotesca pela visão.
Os corpos de seus semelhantes — daqueles mesmos iguais que jurou proteger independente das adversidades — jaziam mortíferos ao chão, mimetizando sua incapacidade em manter a segurança de quem tão cegamente confiava em sua liderança.
Uma lágrima, não sabia ele se de desespero ou ódio, avançou por seu rosto negro quando se ajoelhou diante de uma criança morta, que acabara de ser abatida pelo novo capitão dos arqueiros antes que o grupo partisse, suas retiradas tão covardes quanto suas aparições cada vez mais constantes. A cada visita que faziam ao Pátio dos Milagres, sempre aumentavam ainda mais o desalento daquele povo castigado pelas agruras de seu próprio destino.
Os dedos de sua mão, grandes demais sobre aquele rosto infantil, fecharam pela última vez — num roçar tão cheio de zelo quanto de pesar — as pálpebras bem abertas do garoto, escondendo para sempre aquela última expressão de terror concentrada em suas íris maduras demais para a idade...
...Quando se conhecia muito cedo as mazelas da existência, ficava impossível conservar o encanto da inocência infantil. Ela invariavelmente morria, rápido, assim como os golpes de espada daqueles soldados.
Clopin ainda se manteve ajoelhado por um tempo, permitindo-se aquele breve momento em que se entregava ao luto, incapaz de conseguir imaginar-se vivendo mais um dia como aquele.
Os soldados parisienses haviam acabado de partir, mais uma vez deixando um longo rastro de desgraças para trás. Vinham sempre em busca de Esmeralda, e conforme os ciganos se empenhavam em não cooperar, a chacina naquela periferia esquecida se mantinha constante, cada vez mais bárbara.
“Nesse mundo, não existe lugar para desvalidos como nós. Jamais haverá, essa é a verdade! Nunca poderemos nos estabelecer num só território...” — Pensou amargamente, tomando uma decisão que jamais deveria ter sido tão procrastinada por ele...
...Mas que acabara demorando a vir, por culpa do incoerente sentimento de esperança que fizera questão de nublar sua visão. Como se seus irmãos de fato pudessem almejar um porto seguro. Como se pudessem sobreviver à intolerância daqueles que se proclamavam donos de todas as terras.
Secou o rosto com rudeza, erguendo-se daquele chão amaldiçoado para dar as novas diretrizes aos seus irmãos e irmãs que ainda viviam, sem saber discernir quem realmente eram os amaldiçoados; se os vivos ou os fantasmas recentes de seus mortos. Obrigou-se a encarar o desespero no rosto de cada um, culpando-se por toda expressão aterrorizada que reconhecia entre os seus. A vontade de chorar retornou com enorme potência, contudo Clopin freou aquele anseio. Talvez mais tarde pudesse mergulhar com mais profundidade naquelas várias dores tão pulsantes, mas por ora tinha assuntos urgentes demais para se permitir quebrar.
— Não podemos mais sustentar esse massacre! — O líder anunciou, a voz embargada pelo ódio e, acima de tudo, pelo sentimento de injustiça desesperador, que normalmente vem acompanhado pela impotência das minorias. Esperou que alguns dos choros mais exaltados se controlassem melhor antes de retomar a fala — A lei desses homens se pronuncia a favor do nosso extermínio, e nós não temos condições de ir contra tamanha crueldade. Estamos definhando, tentando lutar por um lar que nunca foi realmente nosso. Valerá a pena perder mais vidas por uma terra que, cedo ou tarde, nos será permanentemente negada?
— O que está dizendo, Clopin? — Artêmio, o último ancião que restara após tantas baixas, questionou, embora todos ali já fossem capazes de entender o que aconteceria.
— Que devemos partir. O quanto antes! — Olhou com tristeza para todos, detestando aquele recuo. Nunca se considerara um homem covarde, mas precisava zelar pela existência do grupo. Se dependesse apenas de sua vida, lutaria até que ela se esgotasse por completo, mas ali estavam lidando, dia após dia, com a morte de quem mais se amava — Preservar as vidas que ainda temos e recomeçar em outro lugar, antes que consigam nos eliminar de vez.
— Outro lugar... — Sara comentou entre alguns soluços, seu corpo um pouco encolhido sobre si mesma numa postura que parecia frágil, porém os olhos escuros e obstinados desmentiam aquela primeira e falha impressão — Outro lugar que vai nos tratar da mesma forma, talvez até pior.
— Nosso erro foi ficar tempo demais aqui... — O líder disse, exausto. Daria tudo para ser ele um dos corpos desfalecidos se isso trouxesse alguém de volta — Sempre nos tratarão assim. Sempre tentarão nos escorraçar e, na primeira oportunidade, matar. Nós não precisamos de esmolas, sequer de estabilidade. Precisamos apenas nos manter em segurança, o máximo que formos capazes, não interessa o lugar. A terra é o de menos, nossa união é o que verdadeiramente importa. Nosso lar está no fato de permanecermos juntos.
— E Esmeralda? Ainda não sabemos o que fizeram dela, sequer sabemos se ainda está viva! Não podemos deixá-la para trás! — Um dos ciganos contestou, e Clopin orgulhou-se ainda mais por todos eles. Pela fibra, pelo forte instinto de união. Medo algum seria capaz de desatar aquele forte nó que, juntos, formavam.
— Eu jamais a abandonaria, todos aqui sabem que ela sempre foi como uma filha para mim. Peço apenas que vocês se organizem em grupos e partam em direção ao leste. Quando eu encontrá-la, nós os seguiremos e tornaremos a nos reunir longe daqui.
— Você não pode ficar no Pátio sozinho, Clopin... — Artêmio sabiamente contestou — Acho prudente pensar em partir, mas não é nada sábio isolá-lo nesse mar de sangue. Mais do que nunca, o nosso acampamento precisa de você.
— Também não podemos deixar por isso mesmo! — Sara esforçou-se para ficar numa posição mais ereta, mesmo que a ferida recém-aberta em seu ventre ardesse quando o fez — Eles mataram nossas crianças a sangue frio! Com um sorriso no rosto! Clopin, precisamos revidar! Nós podemos sim partir depois disso, mas se fugirmos nesse momento, será que ainda poderemos dormir à noite? — A cigana questionou, e Clopin teve que sorrir diante de sua coragem, por mais que soubesse que, após testemunharem tanta truculência, adormecer jamais tornaria a ser fácil para eles — Eu vou ficar com você! E não só encontraremos Esmeralda, como traremos alguma dor de cabeça a esses desgraçados!
Um uivo de concordância se ergueu da voz dos ciganos, pela primeira vez nada parecido com o lamento dos últimos dias. Clopin não foi tão forte agora na tentativa de segurar algumas lágrimas, mas desta vez elas vieram com algum alívio.
— Vocês realmente são a minha família! — Ele declarou emocionado, fitando com afeto cada um de seus irmãos, tão castigados e ainda assim firmes. O olhar se demorou com alguma gratidão maior em Sara, que inconscientemente trouxera um pouco mais de coragem ao restante do grupo, até mesmo ao próprio Clopin — Se é isso o que querem, só me resta agradecer, pois também é meu desejo. Só peço que não vão além de suas capacidades. Aqueles que estiverem fracos demais para esse revide, aqueles que não desejarem participar do confronto, se reúnam num grupo e saiam de Paris o quanto antes. Nós nos encontraremos mais tarde, eu prometo! — Disse, não sentindo uma real convicção naquele aspecto.
Afinal, sabia que as coisas piorariam muito dali por diante.
Mas ainda havia por quem lutar, e era isso que ainda mantinha a todos erguidos.

Esmeralda trocou o manto de Claude Frollo pelo vestido que fora presente de Quasímodo, percebendo-se mais leve naquele tecido de textura macia. A sensação de vestir algo limpo foi renovadora, porém lhe trouxe algum desamparo retirar aquele pano negro de seu corpo. Jamais admitiria ao amigo, mas deixar de conviver com aquele rastro agradável do odor do sacerdote lhe faria falta.
Ainda mais naquelas noites mais longas, em que as reflexões amargas vinham trazer-lhe, junto com a insônia, lembranças dolorosas de Phoebus.
A estrangeira pegou a veste enegrecida, dobrando-a com cuidado sobre os braços na intenção de devolvê-la. Aquele mero pensamento trazendo maior velocidade às batidas de seu coração, sem saber o exato motivo daquela reação abrupta de seu corpo.
Permitiu-se inspirar o tecido uma última vez, chegando a fechar os olhos para contemplar plenamente seu olfato. Sentiu-se tola por aquele comportamento saudoso, repleto de um sentimentalismo que era incomum à cigana naquelas circunstâncias mais... íntimas.
Sem mais compreender a si mesma, pôs-se a descer os degraus do campanário vagarosamente, de fato percebendo que não conseguia mais seguir as recomendações de repouso dadas pelo arquidiácono. Para qualquer cigano, era difícil limitar-se a regras, ainda mais quando elas feriam sua liberdade.
Na metade da escadaria em espiral, percebeu que Frollo rezava uma de suas missas, sua voz inconfundível reverberando alta por toda a extensão de Notre Dame sem qualquer esforço. Esmeralda estancou, incapaz de vê-lo, porém perfeitamente apta a ouvi-lo com nitidez de seu improvisado esconderijo. Ali, de corpo escorado à parede, prestou atenção na interação do padre com o público religioso, por mais que aquele dialeto lhe fosse irreconhecível. Contudo, ainda parecia apresentar algumas semelhanças com o francês.
— Judica me, Deus, et discerne causam meam de gente non sancta: ab homine iniquo et doloso erue me. — Claude reproduziu aquela fala já decorada pelos muitos anos naquele ofício, recebendo uma resposta unânime dos fiéis.
— Quia tu es, Deus, fortitudo mea: quare me repulisti, et quare tristis incedo, dum affligit me inimicus? — Uma mescla das mais diferentes vozes se elevou pela catedral, e o coro ritmado fez nascer um arrepio em Esmeralda pela diversidade de timbres. Homens e mulheres unidos em sincronia naquela crença, por aquele ideal. Tentando, naqueles momentos, demonstrar uma virtude que faltava a muitos em seu dia-a-dia.
A voz de Frollo se ergueu mais uma vez, solitária, porém a maior de todas.
— Emitte lucem tuam et veritatem tuam: ipsa me deduxerunt et adduxerunt in montem sanctum tuum, et in tabernacula tua.
— Et introibo ad altare Dei: ad Deum qui lætificat juventutem meam! — Responderam, obedientes.
— Confitebor tibi in cithara Deus, Deus meus: quare tristis es anima mea, et quare conturbas me? — O timbre do sacerdote falhou de leve naquela fala tão significativa a seu atual tormento, e se Esmeralda pudesse ver o arquidiácono naquele instante, perceberia o ar perturbado em seus traços, assim como a força extraordinária que dedicava ao aperto de seu crucifixo.
— Spera in Deo, quoniam adhuc confitebor illi: salutare vultus mei, et Deus meus! — Proferiram, indiferentes ao sofrimento do homem que conduzia a cerimônia.
— Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto...
— Sicut erat in principo, et nunc, et semper: et in sæcula sæculorum. Amen!
— Introibo ad altare Dei. — Frollo disse, sem nenhuma convicção. Percebia cada vez mais que as missas conduzidas por ele perdiam a verdade, uma vez que sua própria fé parecia posta em xeque. Não existia qualquer rastro de paixão em suas palavras.
— Ad Deum qui lætificat juventutem meam! — A multidão redarguiu, a maioria sem sequer compreender tudo aquilo que dizia missa após missa.
— Adjutorium nostrum in nomine Domine. — Com a mão direita o sacerdote delineou no ar o sinal da cruz, questionando em seu íntimo se havia veracidade em todos aqueles ritos. Que, para um homem abandonado por crenças que antes foram parte essencial de sua vida, pareciam agora no mínimo vazias.
— Qui fecit caelum et terram!
— Confiteor Deo omnipotenti...
— Misereatur tui omnipotens Deus, et dimissis peccatis tuis, perducat te ad vitam æternam! — Disseram, como uma verdadeira acusação direcionada ao sacerdote. O padre fechou os olhos numa respiração mais profunda, demorando um pouco mais do que o habitual para sua última fala, que sabia ser completamente inútil.
— Amen.* — Finalizou, evitando olhar para os fiéis que ainda pareciam condená-lo naquelas últimas palavras, por mais que Frollo soubesse o quão incoerente era aquela sensação.
Com o término da cerimônia religiosa, os fiéis logo começaram a se dirigir à saída, dispersando-se da catedral. Quando a última senhora saiu, atrasada por seus passos intrincados, Frollo cerrou a entrada do belo prédio, sentindo-se plenamente exausto.
Não pela missa que acabara de conduzir, mas por perceber o quão falsa cada uma delas lhe parecia depois que a cigana o enfeitiçara. Depois que o amaldiçoara com seus grandes olhos verdes, sem ao menos desconfiar o mal que diariamente lhe trazia.
A estrangeira, percebendo o final daqueles irreconhecíveis ritos, voltou a descer os degraus que ainda representavam metade da escada, sentindo-se mais disposta apesar das pontadas em seu tórax — reclamando pelos esforços recentes.
Quando alcançou a nave da catedral, percebeu o padre na extremidade mais longínqua, ainda se ocupando em fechar os portões e encerrar as atividades de Notre Dame até o dia seguinte, quando teria que novamente interpretar todas aquelas crenças de uma fé que não mais compactuava. Porque, apesar de dedicar sua vida a Deus, Ele o abandonara ao permitir que se perdesse de tal forma pelos encantos de uma estrangeira.
A cigana foi até o altar, a mão livre deslizando pela madeira bem cuidada naquele conjunto de todo exuberante, dedicando-se a analisar a estranha imagem de um homem pregado a uma cruz.
“Seus fiéis de hoje não são muito melhores do que aqueles que o colocaram nesta cruz...” — Esmeralda refletiu, naquele instante pensando em seu povo que cada vez mais se afogava em misérias, graças a alguns daqueles mesmos religiosos que não toleravam a existência de crenças distintas. Sequer se permitiam refletir sobre tantas vidas maltratadas, apenas se demonstrando dispostos a impor seu modo de vida como o certo, como o único caminho verdadeiro. Pensou, sobretudo, em Quasímodo, que fora hostilizado cruelmente por pessoas que partilhavam de sua própria crença...
...Que ali, diante dos olhos mortos de seu messias, se julgavam almas maiores, cheias de pureza. Mas bastava ultrapassar os limites da catedral para se permitirem as maiores barbáries contra aquilo que julgavam diferente, a diversidade sempre interpretada como algo inferior aos seus olhos arrogantes.
Só então Claude Frollo percebeu-a diante do altar, reparando que a boêmia destinava sua atenção atenta à imagem de Jesus Cristo pregado em seu próprio objeto de tortura. Seu corpo pareceu mais fraco ao vê-la naquele novo traje, que tão bem delineava suas curvas chamativas, não mais escondidas nas vestes largas que o sacerdote tirou de si para cobrir a bela menina, aquele manto tão desproporcional ao seu corpo suave. Sua pele morena agora se destacava sob a luz das várias velas acesas, trazendo à memória do padre o dia em que, em segredo, observou-a dançar diante de uma fogueira no Pátio dos Milagres.
Tentou caminhar com calma até Esmeralda, percebendo um suor frio querer se avolumar no alto de sua testa e já o secando com a manga comprida de sua veste sacerdotal. Tomou o cuidado de se aproximar o mínimo possível, e por mais que viesse se mostrando um verdadeiro mestre na arte da dissimulação, sua voz dessa vez vacilou, traindo pela primeira vez a existência de seus muitos demônios.
— Precisa de algo? — Inquiriu, falhando ao tentar transpassar rudeza. Só conseguindo pensar no aterrador instante em que teve seu corpo envolvido pelo da boêmia no abraço tão caloroso que ela lhe dera, a cada minuto passado naquela presença sentindo um pouco mais de sua sanidade se esvair.
Ela virou em sua direção, outro de seus sorrisos contidos lançado a ele.
— Na verdade não. Só vim devolver sua veste... — Comentou, oferecendo a ele o manto negro com algum pesar — Eu o lavei da melhor forma que pude, espero que não tenha feito falta ao senhor.
— Não precisava se incomodar com isso. — Disse, retirando o tecido negro das mãos da boêmia numa lentidão desnecessária, aproveitando as migalhas daqueles contatos medíocres, porém capazes de abrasá-lo. De fazer valer seus dias miseráveis.
Esmeralda baixou o olhar, deixando que sua tristeza se exteriorizasse de uma forma um pouco mais evidente.
— Acho que não cheguei a agradecê-lo por tudo que fez... Se não fosse o senhor... — Fitou-o de forma sugestiva, de fato não sabendo onde estaria naquele momento se Frollo não houvesse intervindo a seu favor.
— Não fiz...
— Fez muito mais do que qualquer parisiense ousaria fazer por alguém como eu... — Ela o interrompeu, os olhos de leve cerrados como se tencionasse repreendê-lo — Provavelmente salvou minha vida, monsieur, quando qualquer outro em seu lugar se alegraria em saber que poderia existir uma cigana a menos sobrevivendo em Paris.
Esmeralda se aproximou do arquidiácono, novamente envolvendo-o num abraço, não tão bruto e inesperado quanto o primeiro, porém igualmente intenso ao sacerdote. As mãos o circundaram — um pouco ousadas — pelas costas e nuca, e sem resistir seu rosto se aprofundou na curva de seu pescoço, sem se preocupar em disfarçar que buscava por seu aroma que, naqueles últimos dias, se tornou tão familiar e consolador a ela.
— Muito obrigada. Por tudo! — Repetiu, num sussurro que pareceu extremamente sedutor ao arquidiácono.
“Eu não consigo mais...” — Frollo pensou, no limite de seu desespero.
O padre passou um dos braços pela cintura da egípcia, a outra mão subindo por suas costas até a base de sua cabeça, erguendo em seus dedos algumas mechas de seus cachos negros, deixando-se inebriar pelo perfume que eles exalavam.
— Está brincando com fogo, menina... — Ele murmurou como um tipo de súplica, pela primeira vez permitindo-se soar com sinceridade naquela fala direcionada à boêmia, atrevendo-se a pressioná-la um pouco mais contra si, pouco se importando com consequências.
Sentiu os lábios da cigana se ascenderem de leve, num daqueles sorrisos que tanto o tirava de si, antes que ela lhe respondesse.
— Ciganos são famosos por amar o fogo, monsieur. Mesmo que, por vezes, acabem se queimando... Costumamos dizer que sua luz sempre vale o risco.
Frollo escavou ainda mais a mão que se embrenhava no longo cabelo de sua Esmeralda, não mais permitindo que a razão o guiasse quando se curvou de leve para beijar o pescoço moreno, os dedos sobre a concavidade da cintura feminina se apertando com certa urgência.
Ela, surpreendendo tanto o padre quanto a si mesma, arqueou com sutileza o corpo de modo a facilitar as carícias do arquidiácono, naquele instante se deixando levar pela súbita consciência de que se sentia atraída pelo homem mais velho.
Devagar, a egípcia moveu o rosto, esporadicamente roçando os lábios entreabertos ao longo da pele de Frollo, até que novamente pudessem se olhar. Claude imediatamente se lançou com avidez sobre o convite daquela boca, tomando-a num beijo arraigado por todas as volúpias que calara até aquele momento, e que agora finalmente tinham voz, não mais suportando o vazio do silêncio.
A cigana percebeu o peito se agitar, correspondente às intenções de Frollo, capaz de sentir o profundo desejo do padre pela forma impetuosa com que a beijava, sempre no sentido de aprofundar seus lábios quando não mais parecia possível. Ela o apertou pela nuca, a outra mão migrando das costas para o peito do homem, segurando com força o tecido como se tentasse extravasar um pouco daquele desejo até então latente.
O padre levava a mão agora ao seu pescoço, a maciez daquela pele nunca parecendo a ele mais tentadora. A cigana instintivamente fechou os dedos sobre o cabelo do sacerdote, desalinhando-o à medida que puxava o homem para si, ao mesmo tempo se impulsionando em sua direção.
Sentiu-o arquejar quando Esmeralda se enviesou para seu pescoço, beijando a pele pálida com o mesmo entusiasmo pulsante do homem, todo entregue àquela menina que fora capaz de ruir as certezas de uma vida inteira.
Frollo, implacável, retomou a ocupação antiga antes mesmo que pudesse recuperar o fôlego, mantendo cada vez mais vivo o ritmo de seus lábios sobre os de Esmeralda, tomado por um êxtase que jamais poderia expressar nem mesmo em meio à sua elogiada capacidade de oratória. Entregando-se abertamente a todos seus sentidos em alerta, sem precisar camuflar-se agora que a catedral já estava fechada e ambos se protegiam de olhares curiosos — nenhum dos dois ousando imaginar que um par de olhos, adornado por calombos, os observavam de uma das janelas circulares do campanário. E sob as íris que parcialmente se escondiam por trás de várias assimetrias, lágrimas se formavam.
Após tanto tempo trancado naquele exílio de suas lubricidades, o sacerdote de Notre Dame não podia abranger como resistira por tanto tempo àquilo. De onde tirara suas forças para sempre tentar repeli-la, quando tê-la em seus braços parecia a única cura aceitável aos seus martírios. Sentindo necessidades mais urgentes, prensou-se com afã contra a cigana fazendo-a sentir o móvel atrás de si, a mão que antes a apertava pela cintura agora escorregando para um alvo mais pretensioso, entre o glúteo e a coxa, por completo irracional agora que seus instintos tão reprimidos se rebelavam, em total liberdade.
Aquele toque mais afoito disparou um gatilho na mente de Esmeralda, que de um segundo a outro levou a cigana do deleite ao pânico.
Phoebus abrindo suas pernas com violência, impelindo-se para dentro de si bestialmente, forçando-se entre seus glúteos.
Ela de imediato interrompeu o beijo, o coração em disparada fazendo-a arfar com a intensidade tão viva da lembrança. Aproveitou a mão que descansava no peito do padre para empurrá-lo, trêmula. O sacerdote a fitava com algo de animalesco nos olhos castanhos, respirando numa velocidade alarmante.
— Eu não posso, desculpe. — Disse de um modo rude, esquivando-se de Frollo numa velocidade surpreendente, antes mesmo que o padre pudesse tentar qualquer tipo de investida para tê-la novamente. E, dado seu estado, tentaria. Contudo a egípcia já corria, alcançando a escada em movimentos trôpegos e desesperados, sumindo de vista enquanto o arquidiácono mal podia controlar sua própria respiração.
O sacerdote deixou-se cair de joelhos, ofegante e furioso.
Contra todas as suas maiores expectativas, não era Esmeralda que preenchia sua mente naquele momento...
...Era a antiga imagem de seu pai.
Apenas o lampejo de uma recordação do passado o impediu de seguir a egípcia para terminar aquilo que haviam começado, e por mais que seu corpo implorasse para que tomasse o rumo da escada à direita, foram os degraus da esquerda que Claude Frollo subiu. Estava disposto a tentar um último recurso para voltar a ser o que era, mesmo consciente de que tal retorno jamais seria possível.
Ainda assim se apegou àquela ideia, como um condenado à forca que no último minuto vê uma possível rota de fuga...
...Sem se dar conta de que a corda já circundava com firmeza seu pescoço, e que debater-se apenas o faria se enforcar ainda mais rapidamente.
Sequer teve consciência dos passos trôpegos que o levaram até seu aposento privado, a mente latejando numa dualidade dolorosa, querendo Esmeralda na mesma medida em que desejava livrar-se daquele atormentador poder que ela naturalmente detinha sobre si.
Ainda com a respiração desregulada, Claude Frollo trancou-se no cubículo empoeirado em que dormia, sentindo cada perímetro de seu corpo estremecer à medida que sua mente se dividia entre as lembranças amargas de infância e as sensações do presente, ambas se fundindo num conflito ininteligível.
“Que seja este então o fim que dou à cigana!” — O arquidiácono pensou, pouco se compadecendo de si mesmo ao retirar de dentro de uma gaveta abarrotada um chicote todo trabalhado num material negro. Sete longas fitas de couro se desprendiam do suporte manual, representando cada um dos pecados capitais. Passou os dedos demoradamente por cada tira, somente agora sentindo sua respiração se abrandar naquela contemplação quase sonhadora — “Ainda posso reverter esse mal que me habita... Ainda posso reclamar por meu próprio controle!”
Tirou a veste sacerdotal, suas costas pálidas agora totalmente descobertas aos flagelos que logo a invadiriam. Sequer permitiu que o crucifixo pendesse em seu pescoço naquele momento, não se achando digno de portá-lo, apenas a calça igualmente escura o protegendo da atmosfera fria.
Prostrou-se de joelhos, lançando o chicote de sete pontas contra suas costas sem qualquer hesitação naquele movimento firme, cheio de suas últimas convicções. A pele, antes uniforme e pálida, se rasgou em riscos rubros aleatórios, arrancando um grito contido do arquidiácono.
De imediato uma recordação se fez viva em sua mente, como se ela se dedicasse a explicar o porquê daquela atitude tomada, como um notório ato de desespero.
Alguns meses se passaram desde que a mãe de Claude abandonara a casa com o filho e o marido. Apesar do tempo transcorrido sem qualquer notícia da cigana, o menino ainda a esperava com o mesmo fervor, sem jamais duvidar. Sabia que sua mãe o amava, e que voltaria para buscá-lo o quanto antes pudesse...
Contudo, com o passar do primeiro ano ausente, sua fé inabalável começou a criar as primeiras rachaduras. Claude ainda se pegava observando atenciosamente os arredores de sua casa, os olhos infantis implorando por qualquer indício da cigana, começando a sentir uma dolorosa incerteza a respeito daquele amor que achava ser alvo.
Antes que o segundo ano do abandono materno se completasse, o menino já levava em seu olhar ainda imaturo algum traço de sua atual dureza. Os momentos em que se dedicava a imaginar sua mãe retornando para ele se tornavam cada vez mais raros, e logo ele percebeu que aquele anseio nada mais era do que um sonho, daqueles que jamais veria tornar-se real.
O padre rugiu, não dando tempo para se permitir sentir aquela dor mais profundamente, e logo um novo golpe já estalava em seus músculos ardentes.
Seu pai a cada dia parecia menos sóbrio após a partida daquela que, um dia, fora sua esposa. E com seus surtos alcoolizados cada vez mais recorrentes, não era incomum que estes viessem acompanhados de algum grau de violência.
Claude o odiava. E não demorou que começasse a projetar esse sentimento em sua mãe, que o deixara só com aquele homem tão bruto, que apenas se dirigia ao pequeno filho para exteriorizar suas frustrações em tantas reprimendas verbais e físicas, uma sempre em conjunto com a outra.
Com nove anos de idade, o menino desistiu por completo daquela tola esperança de rever sua mãe. Sequer conseguia se lembrar de seu rosto em detalhes.
O sacerdote arfou, incapaz de dizer se doía mais aquele conjunto de memórias, muito relacionadas ao pai, ou os cortes que se abriam em suas costas a cada nova investida. Já ciente da resposta, avançou mais uma vez a chibata contra si, achando imensamente mais fácil lidar com o tormento físico.
Mas nem mesmo assim aquelas lembranças o abandonaram.
O garoto, a cada dia que passava, perdia um pouco mais de sua antiga vivacidade e se fechava dentro de si mesmo, afastando-se do convívio com outras crianças e se permitindo isolar nas misérias de sua realidade.
Claude estava sentado no chão — beirando os limites da rua — como costumeiramente fazia quando queria se entreter com seus jogos imaginários. Não brincava mais dentro de casa, uma vez que suas atividades infantis demonstravam irritar o pai cada vez mais, e ultimamente o garoto fazia o que estava ao seu alcance para evitar aborrecê-lo e, principalmente, fugir de sua presença o quanto pudesse.
Distraía-se com gravetos e pedras, tão submerso nos cenários mentais que criava que sequer percebeu o avanço leve em sua direção de uma menina de olhos curiosos, que aparentava ter algo próximo de sua idade.
Ela foi chegando mais perto, parecendo indecisa e ao mesmo tempo instigada demais para não se aproximar. Claude apenas a percebeu quando sua sombra se sobrepôs ao sol que antes o iluminava.
O menino ergueu os olhos na direção da outra criança, percebendo-a sorrir de forma tímida em sua direção. Sua vestimenta e seus traços exóticos ao padrão francês indicavam que se tratava de uma cigana, os olhos bem negros brilhando de expectativa quando falou.
O sacerdote gemeu baixo com a investida de seu novo golpe, o suor já escorrendo pelo rosto contorcido em dor. Obrigou-se a sustentar aquela posição que ameaçava ceder, a respiração parecendo ainda mais alta no recinto apertado.
— Posso brincar com você? — Perguntou naquela vozinha fina, o cabelo de um castanho avermelhado parecendo quase aceso na luminosidade ofuscante do sol, enquanto a postura da menina denunciava um misto de excitação e embaraço.
Claude se empertigou, não muito agradado pela companhia. Olhou os arredores da rua, tentando ver se encontrava algum sinal do pai, que certamente o repreenderia caso o flagrasse com aquela inconveniente cigana.
Quando o menino percebeu, a egípcia já se acomodava a seu lado, parecendo menos tímida e um tanto feliz por encontrar uma companhia de sua idade.
— Eu não te vejo muito por aqui... — Ela constatou, fitando-o como se acabasse de fazer uma grande descoberta — É novo no Pátio?
— Não... — Redarguiu com evidente desagrado, um pouco carrancudo pela interrupção. Esquivou-se da proximidade com que a cigana se colocara ao seu lado, aumentando a distância entre os dois — Só não costumo sair muito.
— Que pena... — Ela disse, não se afetando com os modos rudes do garoto — Sinto falta de brincar com crianças da minha idade... Posso brincar com você? — Repetiu a pergunta, e Claude a estudou com seus olhos castanhos que sempre reluziam uma rara inteligência.
Um sorriso sincero esperava pela resposta, e suas íris escuras cintilavam com força, também no aguardo. Claude desviou o olhar, envergonhado pela miséria que o rodeava.
— Eu não tenho brinquedos... — Avisou, imaginando se a garota era estúpida por não perceber que Claude se distraía apenas com galhos e pedras.
— Não precisamos de brinquedos... — Ela se aproximou mais uma vez do novo colega, apontando para os galhos que ele ordenara com tanto cuidado e perfeição — Podemos criá-los, assim como você fez com a catedral — A pequena cigana disse, percebendo os padrões das colunas de Notre Dame naquela réplica carente criada por Claude.
Ele arregalou os olhos, surpreso por ela compreender a que se referia aquela pobre imitação. Sequer se irritou quando a menina pousou na maior de todas as colunas uma diminuta pedra retangular, simulando uma das gárgulas em sua pequena catedral.
O arquidiácono mal chegou a sentir quando o chicote estalou mais uma vez contra suas costas, já totalmente envolto por aquelas lembranças. Soube apenas não se tratar mais daquela criança ingênua por conta do ar que escapava ruidoso e grave por sua garganta, como uma recordação de todos os anos que transformaram aquele garoto.
Em especial, aquele dia que passara brincando com a jovem cigana de sorriso simpático.
Quando Claude percebeu, já adentrara em seu mais profundo estado imaginativo naquela companhia que, de início, lhe parecera aversiva, mas que em alguns poucos minutos fora capaz de cativá-lo em toda sua intensidade infantil, ambos puros em cada riso de suas brincadeiras.
Como se partilhassem uma sintonia perfeita, como só as crianças conhecem, avançaram ao longo daquele fingimento criado por suas imaginações em fúria, repletas de criatividade. E o pequeno garoto solitário enfim se permitiu baixar suas reservas e angústias na presença da menina egípcia.
De tão compenetrado que seus olhos brilhantes estavam, sequer perceberam a expressão perigosa do conhecido homem que se aproximava das duas crianças. Jehan, o pai de Claude, se arrastou até o filho com passos pesados, o ódio disseminado naqueles seus traços que rapidamente se consumiam pelo passar incoerente do tempo. A cada semana, parecia alguns anos mais velho, sempre com novas rugas e fios brancos para desmentir um pouco mais sua real idade.
Contudo, o olhar perigoso que vagava entre o sóbrio e o ébrio jamais mudara. O mesmo olhar capaz de causar arrepios em Claude desde que sua mãe partira para nunca mais retornar.
— O que pensa que está fazendo, moleque? — Jehan, sem qualquer consideração, ergueu o menino magricela pelo braço, ambas as crianças lhe lançando olhares assustados por apenas percebê-lo naquele instante, em que já esbanjava intolerância.
— Estamos apenas brincando, monsieur... — Foi a menina quem respondeu, erguendo-se no mesmo segundo, seus olhos escuros fitando o adulto com algum receio, porém inegável coragem.
— Não foi com você que eu falei, seu filhote de cadela! — Rebateu, rude, não sabendo lidar com ciganas desde que sua esposa o abandonara, mesmo se tratando de uma criança. Para ele, nenhuma prestava. Estava no sangue!
Ela arregalou os olhos, boquiaberta, enquanto via o mais novo amigo ser carregado para longe sem qualquer cuidado, Claude conseguindo apenas virar de leve o rosto para lhe lançar um último olhar envergonhado, que parecia desculpar-se.
Jehan jogou o filho para dentro de casa, batendo a porta atrás de si num estrondo que causou uma onda de arrepios no menino. Claude não queria olhá-lo, com medo do que veria ali, contudo foi como se uma força maléfica do destino atraísse seus olhos castanhos para a visão ensandecida do homem, seu semblante prometendo apenas injúrias.
— Eu pensei que essa lição já estava ensinada, moleque... — O pai disse, quase rugindo em meio a toda fúria que o dominava — Não foi capaz de aprender nada com a puta da sua mãe?
— Estávamos apenas brincando, papa! — Defendeu-se, embora soubesse ser inútil. Lágrimas já ameaçavam se formar em seus olhos, e o medo o dominou ao perceber o pai avançar com convicção doentia para perto de si. Os olhos alucinados de Jehan se focavam no filho, e ser o alvo daqueles orbes lunáticos era ainda pior do que qualquer reprimenda física — Eu nem a conhecia até hoje! Só brincamos por alguns minutos!
— Fique quieto, garoto! — Rosnou, erguendo a camisa surrada do filho até que seu tronco lívido estivesse todo à mostra, retirando o tecido do menino — Está na hora de aprender, de uma vez, que não se deve aproximar-se de uma cigana. Se não entende isso por meio de avisos e da própria vivência, uma surra bem dada dará o recado...
Jehan pegou uma cadeira, e pelo instante em que o homem a ergueu, Claude achou que o pai o espancaria diretamente com ela, e como reflexo encolheu o corpo e fechou os olhos com força, sua respiração desregulada e chorosa. Porém, a cadeira chocou ao seu lado na parede, quebrando as quatro pernas de sua conformação já comprometida.
O homem segurou com as duas mãos uma das pernas que se soltou, e Claude chegou a ver algum prazer mórbido no sorriso que seu pai lhe deu.
— Vire-se. — Ordenou, a madeira já em punho prestes a se lançar contra Claude.
— Papa, por favor... — Implorou, agora de fato sentindo as lágrimas caírem quentes por seu rosto, dominado pelo terror.
— Eu mandei se virar! — Gritou, atingindo-o com força no braço, imediatamente deixando ali uma marca vermelha que acompanhava a silhueta do objeto.
Claude obedeceu, aos prantos, ficando de costas para Jehan. O pai usou uma das mãos para erguer os punhos da criança, tão magros que os dedos de Jehan os rodeavam com uma facilidade estúpida.
— Ainda me agradecerá por isso. — Disse, antes do primeiro golpe, que atingiu o menino na extensão dos ombros, culminando num grito de dor desesperado — Jamais se envolverá com outra cigana.
— Eu prometo que não, papa, eu prometo! — Claude tentou, sentindo suas costas arderem, tomadas por uma aflição indescritível. Porém, aquele apelo de nada adiantou. O toco de madeira logo veio com ainda mais força contra suas vértebras, e implorar era tão inútil quanto seus gritos, e ainda mais doloroso do que seu choro.
Jehan, contudo, parecia exultado a cada golpe. Como se os desse diretamente na maldita cigana que o enfeitiçara para depois abandoná-lo.
Frollo juntou aquilo que restara de suas últimas forças para lançar uma última vez o chicote contra suas costas, e por mais que não se tratasse do golpe mais forte, foi o que lhe causou mais aflição ao baquear contra sua pele já tomada por sangue.
O arquidiácono caiu de lado, sua respiração tão pesada que cada vez que o ar preenchia seus pulmões era um suplício. Frollo se manteve estático naquela posição, apenas os movimentos dificultados de sua respiração indicando que de fato estava vivo.
Seus olhos se fecharam lentamente, e as pálpebras cerradas trouxeram a imagem de Esmeralda ajustando seu corpo para junto do sacerdote, correspondente naquele atormentador desejo, e o quanto aquela percepção serviu para destruir ainda mais suas últimas convicções, já tão quebradas, falhas, insuficientes.
Nas alamedas incertas da fé enraizada de Frollo, restara apenas a menina pagã com sua vitalidade cigana — e traiçoeira, portanto.
Sentiu-se exausto ao perceber que a queria com o mesmo fervor, independente do quanto flagelasse sua carne contra tal sentimento...
...Ainda mais violento agora, que sabia ser recíproco de alguma forma.
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