O Preço da Magia
10 Episódio 10: Vou Vencer Distâncias
Notas iniciais
Zeus urrava uma gargalhada escandalosa na presença dos outros deuses, forçando uma simpatia que, apesar de notoriamente se apoiar em falsidade, agradava todo o Olimpo.
Carismático, uma de suas mãos batia carinhosamente no ombro robusto de outra deidade, em nada interessado nas histórias pelas quais o deus menor tentava se gabar ao líder grego. Estaria profundamente entediado pelas fingidas cortesias se não fosse aquele assunto de extremo interesse que se mostrava diante de seus olhos.
Sua atenção estava completamente voltada a Hércules.
O recém proclamado deus tinha um semblante inquisidor, vislumbrando todo espaço ao seu redor à procura de algo. À procura de alguém.
"Humana maldita! Nem mesmo quando me livro de sua indesejada presença, deixa de ser a mim um estorvo..."
Zeus crispou os lábios, desagradado com a expressão que reconhecia em seu primogênito. Voltou a sorrir largamente, desviando a tempo o olhar daquela direção assim que percebeu a intenção do filho de vir até si. Manteve o semblante afável enquanto fingia escutar o tagarelar insuportável dos deuses ao seu redor, pouco se importando com qualquer um deles. Em nada disposto a dar algum crédito que fosse àquelas falácias exageradas.
Naquele largo salão, apenas duas de todas as divindades lhe eram caras, e nenhuma delas incluía as criaturas desagradáveis que o rodeavam com interações interesseiras.
"Hera e Hércules. São os únicos por quem abriria mão de algo importante. E tudo o que faço e o que já fiz foi pensando em vocês. Em nós! Nossa família, como a unidade que tal posição privilegiada representa."
— Pai... — Hércules enfim se aproximou, tirando Zeus dos tantos pensamentos que ameaçavam engolfá-lo. O humor do senhor do Olimpo tornou-se azedo, já sabendo qual seria o teor da conversa — Onde está Mégara?
— A humana? — Perguntou desinteressado numa perfeita encenação de ignorância, dando pouca atenção ao filho e novamente gargalhando em direção aos outros deuses, cada um deles tentando contar uma vantagem maior de seus antigos feitos heroicos.
— A mulher com quem pretendo passar o resto dos meus dias. — O jovem replicou com aspereza inevitável, não gostando do leve indício de asco que percebeu na voz do pai ao mencionar a mortal. Aquela que viera até Hércules para ensinar tudo o que ele mais prezava, e que deus algum poderia compreender em seus milênios de sabedoria vazia.
— Ah, meu filho... Eu sinto muito... — Zeus finalmente dispensou alguma atenção a Hércules ao perceber que ele insistiria no assunto, segurando seus ombros numa fingida expressão de pesar e conduzindo-o para uma distância segura dos outros deuses, sem perceber que Hera mantinha acesa a atenção sobre o esposo e o filho — Ela me pediu... me implorou... que eu a levasse de volta ao mundo dos mortais.
— De volta a terra? — O azul celeste de seus olhos pareceu relampejar numa consciência sensata e um tanto desconfiada, algo que trouxe alguma irritação a Zeus. Hércules viveu um tempo deveras longo na companhia dos mortais... Acabou por se tornar tão insolente quanto qualquer outro humano!, Zeus pensou, amaldiçoando Hades por aquela cortesia — Pediu para partir antes de sequer vir falar comigo?
Ainda que ameaçando ser dominado por seu humor explosivo, Zeus conseguiu conter-se.
— Sua humana pareceu-me desesperada a deixar as dependências do Olimpo, até mesmo antes de lhe falar. São mesmo criaturas peculiares, meu filho, não se enraiveça com seus atos impensados. É da natureza humana ser impulsiva, imperfeita. Jamais abrangerão as verdades universais como nós... — Zeus passou o grosso braço pelo pescoço tenso do filho, tentando recriar um gesto paterno de cumplicidade, porém bruto demais em seus movimentos — Jamais poderia dar certo entre vocês, independente das circunstâncias. Seus mundos são diferentes demais para tal.
— Acredito que eu entenda dos humanos, pai. Passei minha vida entre eles, e Mégara não é como o senhor a descreve.
"Ousa duvidar da palavra de seu pai, Hércules? Credita mais verdade a uma humana?"
— Não havia como impedi-la, filho. — Os músculos de Zeus ficaram mais rijos sobre Hércules, não muito eficaz na arte de dissimular. Afinal, nunca precisou usar de tais artifícios para conseguir aquilo que desejava — Eu não poderia prendê-la aqui contra sua vontade.
— Eu vou atrás dela! — Hércules anunciou, de imediato sentindo os dedos do pai pressionarem com força abrupta seu ombro.
— Não seja estúpido, Hércules. — O deus do Olimpo sentiu que começava a perder o controle, sua voz um pouco mais alta atraindo a atenção das divindades mais próximas. Percebendo seu breve deslize, abaixou o tom, quase murmurando diante de um Hércules surpreso — Não ouse se portar como um humano aqui, nos meus domínios. Esqueça a mortal. Ela representa uma fase deplorável de sua vida que felizmente já foi concluída. Ela mesma demonstrou não cobiçar qualquer tipo de contato com você, meu filho, e decidiu por rompê-lo de forma definitiva. Não seja estúpido!
— Decidiu largar-me depois que eu já havia declarado que permaneceria humano, que abriria mão de minha imortalidade para poder passar meus dias junto dela? — Perguntou com perspicácia, percebendo a fúria acender os olhos intensos de Zeus, e mais do que tudo sentindo-se confuso com as reações do pai — Isso não me parece algo que Mégara faria.
— Humanos são imprevisíveis. Limitados à sua mediocridade, estão sempre em busca do inalcançável. Em busca de um contentamento pleno que jamais poderão impetrar. — O pai de Hércules replicou, um tanto desagradado com a evolução daquela conversa — Jamais deveria ter se apegado a uma criatura volúvel desse tipo. Ela não o quer mais, meu filho, e existe alguma sabedoria nessa decisão.
— Isso eu temo que ainda terei que ouvir dela para me convencer, pai... Nada disso faz o feitio de Meg. Algo grave deve ter ocorrido, e eu devo procurá-la agora.
Zeus passou a segurá-lo com indiscriminada rudeza pelo braço, que apesar de ser volumoso em músculos, era facilmente rodeado pelos dedos paternos.
— Vá buscá-la, e você jamais pousará seus olhos sobre o Olimpo novamente, entendeu? Poderá esquecer que é um deus, que tem um pai e uma mãe que de tudo fizeram por você... Que tanto sofreram para que hoje se encontrasse novamente aqui, entre os seus. Largue já essa mentalidade humana anódina! Poderá desposar a deusa que mais lhe apetecer, basta escolher e ela será sua, mas não aceito ouvir uma única palavra a mais que tenha alusão a essa mortal.
Hércules o encarava com espanto e melancolia, apenas naquele instante sendo apresentado a um lado do pai que nunca chegara a conhecer. Zeus sustentou seu olhar com frieza, não admitindo a insolência que via no jovem. A mesma insolência que percebeu em Mégara, toda petulante como a pior referência ao seu filho. Algo que Zeus não podia permitir.
— Está tudo bem? — Hera se aproximou de Zeus e Hércules, lançando um olhar esperto e cuidadoso a ambos, nenhum dos dois percebendo sua presença sorrateira até o momento em que a deusa se anunciou naquela pergunta, os dedos finos gentilmente pousados sobre o ombro másculo de seu primogênito.
— Tudo excelente, querida. Não é mesmo, Hércules? — Zeus sorriu, tentando parecer mais afável. Percebendo, apenas naquele instante, o quanto se descontrolara com a situação, seu humor intratável o levando a métodos não planejados...
...Ao menos não tão cedo.
Hércules, em completo silêncio, desvencilhou-se do toque agora mais brando do pai, o olhar ainda decepcionado e surpreso sobre o deus supremo do Olimpo, completamente desacreditado de tudo o que ouvira. Não era capaz de crer que aquele deus, a quem Hércules tanto se inspirara para vencer suas próprias distâncias, se mostrava agora como o perfeito demagogo que havia sido ao rapaz.
Conviver com Zeus, invariavelmente, fazia com que sua máscara manipuladora logo caísse.
— Eu não tenho mais o que fazer aqui, sinto muito... — Hércules finalmente anunciou, percebendo a diferença gritante entre o teor dos orbes dos pais. As íris da mãe, tomadas de angústia, pareciam implorar por algo, já as do pai, sem mais se valer da camuflagem gentil, pareciam possessas — Eu agradeço por me recepcionarem e por tudo o que fizeram por mim até então. Mas já está na hora de ir em busca dos meus verdadeiros interesses... E já ficou mais do que claro que não os encontrarei aqui. — Aquela última frase foi direcionada ao pai, que pareceu duplicar a fúria de sua expressão para um aviso perigoso.
Um alerta, que Hércules ignorou ao dar as costas às duas deidades maiores do Olimpo.
— Esse menino precisa aprender o que significa ser um deus. Mal saiu das fraldas e já quer rebelar-se! Precisa compreender que nosso poder vem junto de um dever, e se ele acredita que eu permitirei que abdique de seus dons por uma meretriz qualquer da terra... Está muito enganado! — Zeus grunhiu para Hera quando o filho já havia se afastado, os dentes do deus se trincando dolorosamente à medida que tentava controlar a própria fúria — Vá você falar com ele, antes que Hércules cometa alguma estupidez.
— O que você fez, Zeus? — A deusa questionou com aspereza, como pouquíssimas vezes se encorajava a fazer com o irascível esposo, se tornando ela agora o foco da ira aberta de Zeus.
— Fiz o que devia! — Bradou em resposta, os olhos sempre relampejando em cólera ao ser contrariado — Fiz o necessário para consertar aquilo que Hades perpetrou à nossa família, Hera. Lembra-te bem do que aconteceu com meu irmão antes de desafiar-me!
— Eu lembro, Zeus, infelizmente. Lembro-me muito bem, a cada dia. — A deusa deu seus primeiros passos para longe do esposo, farta de sempre viver naquela corda bamba emocional que era Zeus. Cessou seus passos brevemente, o rosto o encarando mais uma vez sobre o ombro — Espero que a humana esteja bem, Zeus. Hércules e eu jamais vamos perdoá-lo se qualquer mal recair sobre aquela menina.
O deus do Olimpo rugiu, incomodado ao ver que a mera presença de Hércules dava maior intensidade à voz de Hera, normalmente tão submissa às suas imposições. Seu recato, contudo, parecia comprometido com a proximidade do filho, e isso era algo que Zeus também não toleraria.
Era ele, afinal, o deus a quem todos deviam obediência plena.
Hera, com os olhos querendo embargar, seguia o caminho feito pelo filho. As mãos de leve tremiam, não sabia se por nervosismo ou raiva. Provavelmente uma combinação de ambos. Não podia acreditar que, após tanto tempo sonhando com o retorno de Hércules, Zeus fora capaz de estragar tudo logo nos primeiros instantes de sua volta.
Obrigou-se a controlar seus sentimentos mais impulsivos, o coração partindo-se ao meio ao ver Hércules preparado para montar em Pégaso, sem nem ao menos se despedir.
— Hércules! — Hera chamou, atraindo a atenção do rapaz, que por um instante hesitou no movimento ascendente da perna que logo rodearia o cavalo alado — Meu filho, o que houve?
Ao vislumbrar o olhar meigo e genuinamente preocupado da deusa, Hércules acabou por se afastar brevemente de Pégaso, desistindo de partir sem antes confidenciar suas preocupações à mãe. Afinal, não seria justo projetar sua raiva e frustração nela.
— Meg sumiu. Desde que foi caminhar com meu pai pelo Olimpo, não a encontro em lugar algum!
Hera suspirou, cansada, já imaginando que esse fosse o problema para tirar o filho do sério daquele modo. Segurou a mão de seu menino com ternura, lançando a ele um olhar grave que apenas fez crescer sua preocupação.
— Infelizmente não é algo que me abisma! — Desabafou, exausta — Seu pai é um tanto... incisivo naquilo que acredita ser o certo.
— O que isso significa? Que ele se livrou de Mégara? — Questionou, enojado. Para seu desespero, sua mãe demorou mais do que o normal para responder, parecendo engolir em seco.
— Zeus jamais permitiria te perder novamente para o mundo humano, meu querido... Nós dois sofremos muito quando Hades o roubou ainda criança, e desde então Zeus viveu em função do dia em que você retornaria. Não tenho dúvidas de que ele faria o possível e o impossível para mantê-lo no Olimpo. Temo que, a essa altura, Mégara esteja inalcançável. — Preveniu, o mais honesta possível, conhecendo bem aquele brilho revoltoso no fundo das íris do filho. Mas, assim como ocorreu na própria deusa, Hera sabia que Zeus logo trataria de apagar aquela centelha de espontaneidade...
...Ela nada durava ao se conviver continuamente com aquele deus.
— Eu não posso aceitar isso! Se Zeus acha que está no direito de comandar meu destino e minhas escolhas dessa forma... o melhor mesmo é que eu continue mortal. Eu vou achar Mégara, custe o que custar.
— Não é tão simples assim, meu filho... Seu pai... — Hesitou numa inspiração mais profunda, parecendo considerar se devia ou não falar a respeito. Acabou por decidir que a barreira entre eles já era grande demais pela falta de convivência, e optou diminuí-la um pouco através da honestidade — Seu pai controla não apenas os céus, mas também Cronos, o deus do tempo. Seu avô. Se eu bem conheço Zeus, a humana pode estar em qualquer lugar, e pior... em qualquer momento. Não a encontrará viajando em Pégaso.
— Como posso localizá-la então?
Hera o fitou com gravidade, detestando mais do que tudo ser a portadora daquelas notícias. Nem sequer entendendo por que as revelava.
— Esse é o grande problema, meu querido... Você não pode.
Hércules sentiu-se fraquejar diante daquela resposta tão franca. Seus poucos anos vividos entre os mortais jamais poderiam prepará-lo para as maldades que agora via se agregar ao pai, tão idolatrado por ele num passado nada distante. Hera sentiu sua garganta comprimir, afetada pelo semblante miserável com que o filho a fitava, ainda incapaz de compreender os sadismos de Zeus. Hércules, naquele encarar, implorava por outra resposta.
A deusa arrependeu-se no mesmo momento em que tornou a falar, dando continuidade ao seu discurso apenas por não saber lidar com o sofrimento que viu estampado no rosto do filho.
— Existe um único meio de conseguir encontrá-la, mas é um risco que por certo não dará em nada, só o colocará em maus lençóis com o seu pai.
— Não importa. Eu faço. Faço o que for preciso para ter Meg de volta!
— Ah, meu querido... Tudo seria tão mais fácil se você simplesmente se interessasse por uma deusa... — Lamentou, os olhos agora baixos encarando as mãos entrelaçadas, joviais mesmo após tantos séculos vividos — Mas o amor normalmente não tem nada de simplificado. Sendo uma das magias mais poderosas desse mundo, ele sempre cobra um preço condizente com suas benesses.
— Por favor, me ajude! — Hércules implorou, segurando os dedos da mãe entre os seus como uma carícia. Os olhos de Hera se voltaram ao filho, e imediatamente a deusa se orgulhou da determinação que banhava seu rosto. Entretanto, também sabia ser o tipo de característica que logo esmorecia na presença de Zeus — Eu sequer consigo me imaginar vivendo uma vida sem ela...
— Aquilo que eu sei não será de grande valia a você, mas mesmo assim direi... Você terá que roubar o controle que Zeus tem de Cronos, somente assim será capaz de saber exatamente para onde Mégara foi transportada, e poderá segui-la.
— Como eu faço isso?
— Zeus controla o pai por meio de seu coração. Eu não faço ideia de onde ele o guarda, mas encontrá-lo é a única forma.
— Nenhum palpite de onde possa estar?
“Ah, meu lindo filho, se eu soubesse, eu mesma já o teria usado...” — Pensou com amargura, dando-lhe um sorriso fechado.
— Nem imagino. Contudo, não é o tipo de coisa que Zeus deixaria sem supervisão constante, eu creio. Provavelmente esse coração está sempre em sua posse, até mesmo para os momentos emergenciais em que precisar usá-lo. O que torna tudo ainda mais perigoso para você, meu filho...
— Fique tranquila, mãe. Não serei descoberto! — A sombra de um sorriso esperançoso nasceu no canto de seus lábios, de súbito renovado em suas energias. Ao passo que Hera sentiu um arrepio de mau agouro, imaginando o que dera em si para revelar tais coisas a seu filho impetuoso, arrebatado por um amor problemático.
“Hera, sua estúpida... Essa comoção pela paixão de Hércules ainda poderá custar caro a ele! É só um menino, logo se interessaria por uma deusa disponível! Tantas beldades no Olimpo e você encoraja tal comportamento infantil...” — Praguejou para si, imaginando os horrores que Zeus poderia fazer quando descobrisse...
...E descobriria!
Caso essa investida terminasse em sucesso, não haveria como Zeus não ficar sabendo do ocorrido, e caso fracasse... Apenas alimentaria a dor do filho. Em nenhuma das opções Hércules sairia ganhando.
“Você ficou tanto tempo longe do seu filho que agora mal sabe como lhe negar algo...”
— Esqueça isso, meu querido, por favor. Zeus fará da sua vida um inferno, assim como a dessa moça. Não há como sair ileso desse caminho, acredite em sua mãe! O melhor que você pode fazer por essa humana é se distanciar...
Hércules a tomou num abraço caloroso, quase desajeitado pela intimidade escassa que partilhavam, mas sincero acima de tudo. Hera não mais se conteve, e algumas lágrimas escaparam de seu lindo rosto em tormenta.
— Eu não posso deixá-la, mãe... O que estiver ao meu alcance para trazê-la de volta eu farei. Não saberia conviver comigo mesmo se agisse de forma diferente. — Explicou, e o choro de Hera apenas se ampliou diante daquela declaração. De fato não havia volta. Seu filho estava decidido, e se algo de ruim acontecesse a ele, Hera seria a única culpada por lhe fornecer aquela esperança vã, que na verdade não passava de uma armadilha. Percebeu os dedos masculinos acariciando com doçura suas madeixas longas, e sentiu-se amada como uma sensação que há muito não experimentava — Não se aflija. Tomarei cuidado.
— Eu o ajudarei como puder, meu menino. Se esta humana é tão importante para você, vamos encontrá-la. — Soltou-se do abraço, encarando-o com seriedade — Mas precisamos planejar bem como nos apossar do coração de Cronos. Devemos ludibriar Zeus de suas intenções. Seu pai é uma criatura um tanto vaidosa, sempre se pode explorá-lo por esta via. Vamos fingir que esse assunto da mortal foi superado, e então você vai demonstrar interesse pelos ofícios de Zeus aos poucos, até que encontre o que procura. E o que você busca é um coração dourado, de aura brilhante. Depois que o tiver em mãos, eu o mantenho distraído pelo tempo que puder e você parte o mais rápido possível em busca de sua amada... — Proclamou, e Hércules franziu de leve o cenho ao notar alguma tristeza mais profunda na deusa — Você entendeu, filho? Não podemos nos dar ao luxo de errar.
— Eu entendi. Farei como disse! — Segurou novamente as mãos da mãe, o amor por aquela deusa apenas crescendo — Obrigado! Jamais esquecerei o quanto está se arriscando por mim e por Mégara.
— Sua felicidade é o mais importante. Hércules, tem outra coisa... — Pausou sua fala, ainda mais triste com o que viria a dizer — Para que Zeus não vá atrás de seus passos quando descobrir o que ocorreu, leve o coração de Cronos com você e jamais volte para cá. Nem para a Grécia e nem para esse tempo. Não permita que teu pai te encontre.
— A senhora pode vir comigo, mãe! — Propôs, alegre — Bem se vê que não é muito feliz aqui no Monte Olimpo...
— Não, meu querido — Sorriu com amor, acariciando o rosto de seu primogênito e único filho, tentando não pensar no vazio que logo a atormentaria quando ele mais uma vez partisse para além de seu alcance — Meu lugar é aqui. Não se preocupe comigo, eu estarei bem. Vamos? Seu pai já deve estar impaciente, e se nosso intuito é amansá-lo, melhor não esperar muito mais tempo.
— Então vamos! — Sorriu com afeição, oferecendo o braço vigoroso para acompanhar a mãe durante a caminhada, e a deusa logo o aceitou também com um sorriso discreto no rosto — Eu sentirei sua falta... — Confessou enquanto ainda podia.
— Eu também, meu lindo menino! Por cada dia imortal de minha vida, sentirei sua falta.

Retornaram à presença dos demais deuses em silêncio, Hércules incapaz de não refletir o quanto a mãe se mostrava diferente dos modos intolerantes de Zeus, e indagou-se como ela poderia amá-lo sendo tão mais gentil, tão mais complacente. Hera, por sua vez, gastava os últimos momentos de contato com seu filho apenas tentando apreciar ao máximo a companhia, ciente de que aquele último instante verdadeiramente cúmplice entre eles perduraria para sempre em sua memória. E seria aquele exato momento que gostaria de lembrar quando a saudade se fizesse grande demais.
— Vá falar com ele — Hera sussurrou para Hércules, percebendo um Zeus carrancudo que tentava a todo custo evitar os demais deuses —, e peça desculpas. Demonstre subserviência, seu pai adora o sentimento de superioridade, e logo o perdoará. Bajule-o, Hércules. Esse é o segredo.
Por mais desagradado que estivesse em retornar à presença de Zeus após a última conversa que tiveram, Hércules anuiu, disposto a humilhar-se diante do pai, se preciso fosse, para ir além em seus anseios. O rapaz caminhou até o deus do Olimpo com algum traço de consternação, sempre com Mégara nos pensamentos para lhe dar a força necessária. A mãe o acompanhou, também aparentando constrangimento diante do esposo.
— Já está de volta, Hércules? — O deus do Olimpo questionou num tom satírico, ainda enfurecido com a forma com que o filho e a esposa o trataram — Pensei que estava disposto a sair sem rumo à procura de uma humana que já o descartou...
— Hércules e eu tivemos uma conversa franca, e consegui convencê-lo a pensar melhor no assunto — Interveio Hera, revezando olhares entre o esposo e o filho.
— Acho que me aborreci tanto com o senhor, pai, porque de fato sei do que Mégara é capaz. Sei que é temperamental o bastante ao ponto de me abandonar sem qualquer explicação... — Soou triste e envergonhado, arrancando um olhar surpreso de Zeus — Minha mãe abriu meus olhos quanto a isso. Me desculpe por duvidar do senhor. Acho que só preciso de um tempo para me habituar a essa nova realidade. Eu sempre soube que não duraríamos juntos, só não é fácil admitir a mim mesmo...
— Humanos não são confiáveis e tampouco duradouros em qualquer aspecto. — Replicou, duro em seu timbre.
— Sim, eu sei. Por isso acabei por me convencer de que nada é tão importante quanto minha imortalidade para que eu a descarte. O senhor estava certo, eu só precisava de alguém mais sábio que me indicasse a verdade. Peço que me perdoe, pai. Toda a minha vida foi baseada no convívio com humanos, por mais que meu sangue seja divino eu acabei contraindo alguns vícios.
O semblante de Zeus se abrandou, ao mesmo tempo agradado e desconfiado com a brusca mudança no comportamento do filho.
— Está perdoado. Mas que não se repita tamanha ousadia direcionada a seu pai. — Avisou, ainda com resquícios do mesmo tom insatisfeito de pouco tempo atrás — O que dirão os deuses, se virem meu próprio filho me desrespeitando de tal forma? Logo começarão a questionar sobre minhas capacidades de liderar o Monte Olimpo.
— Não se repetirá, eu garanto. Minha intenção aqui no Olimpo é evoluir, e agora percebo que se continuar me comportando como um humano, jamais sairei do lugar. Quero que me achem digno de ser seu filho. — Hércules dissimulou, e Hera precisou suprimir um sorriso ao perceber as tantas artimanhas humanas que o rapaz havia herdado de seu tempo com os mortais. Ela mesma já estava quase propensa a acreditar nas palavras do primogênito, por mais que soubesse se tratar de uma competente encenação.
Aquele discurso pareceu bastar para Zeus.
Um brilho forte ofuscou as íris do deus, que bradou uma de suas sonoras gargalhadas satisfeitas enquanto abraçava o filho, finalmente baixando suas reservas. Em meio ao abraço, Hércules vislumbrou a aljava repleta de raios presa às costas do pai, e agradeceu pelo fato de o deus não poder ver sua expressão surpresa. Os raios brilhavam num intenso amarelo de faíscas elétricas, e no cerne deles Hércules pôde ver uma luminosidade mais dourada, pulsante.
“O coração de Cronos! Eu o encontrei!” — Pensou, dando um breve sorriso em triunfo — “O local é excelente para escondê-lo, como não percebi antes? Está sempre junto de Zeus e ninguém ousa tocar... Ao menos não sem receber uma descarga elétrica.”
— Pai, estive me perguntando... — Principiou, voltando a encará-lo após desfazer o abraço e já sabendo como proceder — O senhor é o deus dos céus e dos raios, minha mãe a deusa da maternidade e do casamento... Eu serei deus do quê? Dos casamentos tempestuosos? — Questionou com algum lampejo programado de humor, arrancando um riso escandaloso do pai e um sorriso largo da mãe, que ainda guardava cada um daqueles momentos para si, por mais que soubesse que tudo aquilo não passasse de um jogo de dissimulações.
— Ainda há que se descobrir isso, meu filho! — Respondeu o deus do Olimpo, exultante, como se desentendimento algum houvesse ocorrido entre eles — No momento certo, seu talento irá se mostrar, não se preocupe!
— Independente de qual seja meu título, confesso que sempre tive vontade de ver como funcionam seus raios. Será que eles me afetam?
— Certamente não. Tens meu sangue, menino, os raios te reconhecem! Quer lançar um junto do teu velho pai? — Questionou, instigado, e Hera logo percebeu a intenção de Hércules.
“Ele encontrou!”
— Eu adoraria.
— Esplêndido! Vamos, não há vislumbre mais magnífico do que ver do alto a terra se iluminando com um raio! Veja seu pai em ação, garoto! — Disse, alegre, conduzindo-o para a beirada da nuvem. Hera os seguiu, ciente de que em breve deveria interceder.
Zeus pegou um raio aleatório, erguendo o quanto pôde o braço todo feito de músculos antes de lançar com brutal força na mira de uma árvore, que se iluminou intensamente quando atingida, e no segundo seguinte estava tomada por fogo.
— HÁ! Melhor do que qualquer faísca é quando elas se incendeiam! — Comemorou, orgulhoso de sua pontaria impecável — Darei um a você, filho, espere... — Começou a dizer, porém Hera virou o rosto do marido com delicadeza para si, a mão sobre a farta barba branca acariciando sua pele com afabilidade. Algo que Zeus facilmente permitiu, apesar de aquele gesto lhe trazer um genuíno espanto.
— Fico feliz que conseguiram voltar a se entender... Desejo, inclusive, ter um momento a sós com você. — Declarou com doçura, percebendo Hércules, às costas de Zeus, aproveitar o momento e tatear com cuidado o interior da aljava do pai. Retirou com receio o coração dourado de dentro do suporte usado para os raios, e com pressa guardou-o no alforje que se prendia discreto em sua túnica. Hércules fez um sinal afirmativo com a cabeça em direção à mãe, que logo o compreendeu — Podemos ter um momento em nossos aposentos, querido?
— Certamente, minha deusa! — Fitou-a com desejo crepitante, deliciado com a proposta. Sempre soube que, quando Hércules retornasse ao Monte, tudo entraria novamente nos eixos, inclusive seu casamento — Deixe apenas que eu veja se a pontaria de meu filho é tão perfeita quanto diziam na terra... — A muito custo desviou os olhos de sua esposa, entregando um raio a Hércules, já ansioso para ter seu momento a sós com Hera — Vamos, filho. Mostre-me do que é capaz.
Hércules imitou o gesto anterior do pai fingindo profunda concentração e interesse, lançando o raio numa árvore íntegra e esbelta. O raio acertou-a com precisão, porém não ateou fogo às folhagens como Zeus fizera.
O deus que reinava no Olimpo riu, satisfeito.
— Muito bom! Não me espanta que adquiriu tanta fama entre os mortais. Um dia, meu filho, lhe ensinarei os efeitos certos de como jogar os raios para conseguir inflamar o alvo, mas agora tenho uma questão urgente com sua mãe. Falamo-nos logo mais, Hércules. — Avisou, saindo de cena com Hera, os dedos pousando firme em sua cintura enquanto a conduzia com pressa.
Hércules lançou um olhar de triunfo para o local em que guardara o coração, indo na direção oposta à aglomeração dos deuses. Contudo, como se o farejassem, uma horda divina o cercou, dispensando vários desejos de boas vindas e despejando perguntas sobre si e seu tempo passado entre os humanos. Hércules tentou despistá-los, mas estava cercado.
E acabou perdendo um tempo precioso em meio às tantas cortesias direcionadas a si.
Hera, agora já longe da vista dos demais deuses, se punha à frente de Zeus enquanto caminhavam rumo aos próprios aposentos, trajando o melhor sorriso extasiado que foi capaz de criar naquele momento falso.
— Nosso filho finalmente de volta, Zeus... Pensei que esse dia jamais chegaria! — Beijou-o nos lábios enquanto ainda caminhavam, parando somente defronte à porta de seu cômodo privado. O deus prensou o corpo da mulher ali, correspondendo com mais afã ao beijo iniciado, precisando usar de toda a sua força de vontade para interrompê-lo.
— O que disse ao garoto para que ele mudasse de ideia tão rápido? — Resolveu perguntar antes que avançasse em suas pretensões, ainda com aquela pequena pontada de desconfiança.
— Provavelmente o mesmo que você, só que com algum tato... — Respondeu em meio a um sorriso sedutor, posicionando a mão esquerda de Zeus na barra levantada de sua túnica, conduzindo os dedos do homem por sua pele até que se estacionassem em seu seio firme, deixando à mostra uma considerável extensão de seu corpo — Não é à toa que sou a deusa da maternidade. Sei, melhor do que ninguém, como lidar com as crises de um filho...
Zeus a encarou com um desejo ensandecido, sem mais espaço para qualquer tipo de desconfianças tolas para prorrogar sua lascívia. A mão, ainda sobre o seio, o pressionou à medida que engolfou sua deusa num novo beijo profundo, conduzindo-a com os próprios passos para dentro do aposento. Aproveitou para despir Hera, afogando-se ainda mais no oceano de suas luxúrias ao permitir que seus orbes se deleitassem com a visão do corpo despido, tão perfeito quanto no dia em que se casaram.
Ela, da mesma forma, livrou-se do tecido que cobria o deus, colocando sem muito interesse a túnica sobre um canto qualquer, enquanto pendurou a aljava com mais cuidado sobre uma reentrância nos pés da cama. Seus braços passaram a circundá-lo até que as unhas se cravassem em suas vigorosas costas, os corpos se prensando com volúpia.
Zeus mordeu com rudeza o pescoço da esposa, confundindo o arfar de dor que ela imediatamente emitiu com um gemido de prazer, como tantas vezes fazia. Jogou-a na cama, já destituído de qualquer pensamento coerente quando se pôs acima dela. Os lábios passearam por seu tórax, sentindo a maciez da pele divina, que tanto amava. Que tanto o enlouquecia sempre com a mesma intensidade, independente da longa vida conjugal que tinham juntos. Hera trouxe o rosto do marido à altura do seu, instigando-o a beijá-la quando roçou sobre ele os lábios entreabertos, mordiscando sua boca.
O deus do Olimpo aceitou de bom grado o convite, aprofundando seu corpo ao dela num beijo necessitado, o membro viril penetrando-a por entre as pernas que o envolviam, saciando sua interminável cobiça. Estocava o quadril, sôfrego, sobre ela, enquanto a deusa apenas se deixava levar por aqueles movimentos, gemendo em alguns instantes apenas para agradar o marido.
Ele rugia, como um animal preso aos seus mais primórdios instintos, enquanto se lançava com cada vez mais afinco dentro da esposa. Enquanto Zeus se revezava a pressionar com brusquidão os glúteos e seios, Hera imaginava se Hércules já fugira. Se ela já poderia dar por encerrado o seu teatro ou se o filho ainda necessitava de mais tempo.
Seu pensamento foi interrompido por um baque seguido de estrondos elétricos ensurdecedores. O pé de Zeus trombara na aljava ao fundo da cama, e o suporte acabou indo de encontro ao chão feito de nuvem, a rudeza do impacto fazendo com que todas as armas do deus caíssem e, dessa forma, ecoassem num uníssono as dezenas de raios que se libertaram para a terra ao mesmo tempo. Zeus, tão sobressaltado pelo estrondo quanto Hera, percebeu a bagunça feita, e um arrepio em nada relacionado ao sexo tomou seu corpo.
“O coração! Onde está?” — O lampejo de entendimento veio de súbito, e no mesmo instante Zeus saiu de cima de Hera, vistoriando o espaço em busca do coração de seu pai.
— Onde ele está? — Rosnou, ainda inspecionando cada centímetro do recinto sem sucesso.
Até que percebeu Hera encolhida sobre o próprio corpo num canto limitado da cama, fitando-o com um temor tão consciente que a verdade recaiu sobre Zeus de imediato. Hércules voltando atrás muito rapidamente de uma decisão já tomada... Demonstrando súbito interesse por seus raios... Hera, de repente, se comportando de forma amorosa e sedutora...
— FOI VOCÊ, NÃO FOI, SUA PUTA? — Pulou enfurecido sobre ela, segurando de forma rude o cabelo de Hera enquanto a outra mão acertava um tapa descontroladamente forte sobre o rosto da deusa, que sentiu os dentes se trincarem tamanha a intensidade do golpe — VOCÊ DEIXOU QUE HÉRCULES O ROUBASSE! — Bateu dessa vez do outro lado com o dorso da mão, dominado apenas pela fúria de ser ludibriado. O rosto da deusa moveu-se míseros centímetros à mercê do golpe, seus movimentos limitados pela forma íntima que Zeus a segurava pelo longo cabelo — DEIXOU QUE ME ENGANASSE PARA PROCURAR AQUELA HUMANA DESGRAÇADA... — O terceiro tapa veio ainda mais forte do que os outros dois, arrancando da deusa um arfar, por mais que ela tentasse manter o controle para evitar demonstrar qualquer tipo de fraqueza.
Mas Zeus era forte demais, e sempre conseguia deixá-la patética.
O deus saiu da cama tão subitamente como quando pulou sobre o móvel, respirando com ainda mais força do que no momento do sexo, totalmente descontrolado.
— Se Hércules já tiver partido, você estará morta. — Alertou, vestindo sua túnica enquanto deixava o recinto em busca do filho.
Hera sentiu o gosto de sangue no canto dos lábios, e as lágrimas começaram a escorrer pelas maçãs doloridas de seu rosto.
“Que Hércules tenha conseguido! Óh, por favor, que ele tenha conseguido partir deste lugar odioso!” — Implorou em pensamento, não suportando imaginar o filho também vítima da estupidez de Zeus. Mesmo que as promessas do deus fossem reais e essa fuga de fato custasse sua vida...
...Afinal, há muito tempo já sentia que não existiam mais razões para se importar com ela.
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