O Preço da Magia
6 Episódio 06: Nous Sommes Des Va-Nu-Pieds
Notas iniciais
O fim de tarde em Paris era um dos espetáculos mais belos que a cidade naturalmente oferecia. Coberta pelos adornos cintilantes do sol, a cidade-luz se tornava uma paisagem célebre, admirada em igualdade por plebe e nobreza.
Porém, era justamente pelo acúmulo cada vez maior de indigentes que tal vista tornava-se proporcionalmente incômoda para os cidadãos que dispunham de uma melhor condição social. Parecia que a cada dia terminado, multiplicavam-se os pedintes, vindo manchar com sua pele parda e suja a rotina de Paris.
Foi com esse princípio de pensamento que Phoebus escarrou sobre o semblante castigado de um homem que mendigava esmolas no centro de Paris, tornando ainda mais cinza a visão de mundo do pedinte. Para ele, os crepúsculos na cidade não eram belos e tampouco dignos do lirismo dos trovadores. O tardar da hora indicava apenas um dia a menos para viver. Um dia a mais na miséria.
Os lábios do belo capitão se ergueram num sorriso maldoso e tão satisfeito quanto — deixando à mostra dentes saudáveis ao padrão parisiente — assim que viu o cuspe viscoso atingir em cheio a maçã magra do rosto barbudo e mal tratado do homem, sua posição já servil e submissa se encolhendo ainda mais sobre o próprio corpo, temendo a violência gratuita que veio da autoridade.
Contudo, apesar de todos o traços subservientes que se destacavam em sua postura, naqueles olhos rodeados por rugas, pobreza e cansaço havia um leve traço de desafio quando se permitiu sucumbir ao impulso de encarar Phoebus.
Um erro que não seria perdoado.
— Ousa dirigir o olhar a mim, egípcio? — O capitão se aproximou a passos indulgentes, seus traços orgulhosos em harmonia com a brilhante armadura que forrava seu corpo em dourado, armadura esta que refletia com perfeita igualdade os ricos e os pobres, o excesso e a miséria retratados como um mesmo mal, lado a lado. A mão destra de Phoebus apontou a espada para o indigente num gesto cruel, dando o aviso — Quem pensa que é?
— Ninguém, monsieur — Baixou novamente os olhos humilhados, encurvando ainda mais a coluna sobre as pernas extremamente magras que jaziam jogadas na calçada suja.
— Só é ninguém quem um dia almeja ser alguém, cigano. Você é nada, assim como toda a escória que representa. — Phoebus dessa vez escarrou no homem encardido, acertando-o no olho esquerdo — Perguntarei de novo, pois hoje me sinto paciente. Quem pensa que é?
— Nada, monsieur — A voz rouca saiu baixa, carregada das tantas agruras que vivia.
— Ainda menos do que nada, velho. É um cigano. — Disse, mirando com precisão um chute veloz na barriga seca do mendigo, que se moldou com facilidade ao bico do calçado.
Arfou, sem ar, sentindo com desalento o hematoma que se formaria ali em breve. Phoebus se preparava para o próximo golpe, quando um rápido vislumbre de uma rua adiante fez com que seu movimento perdesse a força do impacto, sua atenção já desinteressada pelo estrangeiro de aparência idosa e doente.
Esmeralda passava a algumas quadras de distância, os movimentos de seu corpo parecendo tratar até mesmo algo simples como a caminhada uma arte elaborada. Uma arte que vicia seus espectadores, que os impulsiona aos níveis mais baixos da luxúria.
— Tem mesmo muita ousadia de retornar ao local de meu posto, cigana... — Conjecturou consigo mesmo, afastando-se do mendigo como se jamais o tivesse visto na vida, os olhos por completo focados na peculiar mulher que era fielmente seguida por sua cabra.
Phoebus sorriu ao embainhar a espada — um gesto calmo o suficiente para soar assustador a qualquer um que conhecesse seus anseios — enquanto se permitia seguir adiante com passadas comedidas pelas vielas de Paris. Avançou devagar nos longos minutos que seguiu Esmeralda, sem permitir que ela o percebesse naquele ofício que não competia ao seu posto, apenas observando de longe a destreza naturalmente bela que se incutia em seus movimentos mais comuns.
A maldita cabra a seguia em saltos alegres logo atrás, também de todo distraída pela presença do homem que espionava e aguardava o melhor momento para se mostrar.
A egípcia escorou-se numa das casas, sua postura despreocupada deslizando sobre o concreto da parede até que sentou no chão, parecendo alheia ao que lhe rodeava. Retirou da cintura uma discreta e improvisada bolsa que tilintava ao menor movimento, abrindo-a e destinando extrema atenção ao seu conteúdo.
Phoebus aproveitou a distração e deu a volta ao redor da casa, disposto a surpreendê-la pelas costas e sem ao menos se preocupar se isso parecia covarde na conduta de seu alto cargo. Guiado apenas pelo ódio que a figura daquela mulher fazia florescer em si, prosseguiu, cheio das mais doces certezas de que daria a ela o que lhe era merecido. O tratamento devido por humilhá-lo e zombar da autoridade que lhe fora conferida pela própria coroa.
"Devia ter ficado com os seus, egípcia do inferno" — Pensou, entusiasmado pelo acerto de contas.
Ainda ocupada em contar os parcos parisis, Esmeralda reparou tarde demais na sombra sutil que se firmava logo atrás de si.
— Estou curioso... — Principiou, um de seus musculosos braços passando agilmente pelos cotovelos dobrados às costas rijas da mulher, enquanto a mão livre impedia a cabra de atacar numa investida previsível, segurando-a com firmeza por um de seus chifres. A voz masculina despontava sedutora, sussurrada direto no ouvido esquerdo de Esmeralda, que apenas arfou com o movimento inesperado, tentando se debater ao perceber a armadilha — Pensou mesmo que sairia ilesa caso voltasse para cá? Foi estúpida a tal ponto, ou tudo não passa de uma demonstração da famosa subversão egípcia?
— Eu não fiz nada de errado... Apenas me defendi — Urrou, a voz furiosa parecendo uma ameaça do mais selvagem lince prestes a atacar. Esmeralda debateu as pernas com determinação, sua mobilidade quase nula da cintura para cima criando nela uma sensação insuportável de afronta à sua tão prezada liberdade. Phoebus mais uma vez ergueu os lábios presunçosos num sorriso satisfeito ao perceber o crescente incômodo da cigana, e principalmente ao sentir que a dominava.
— Não fez nada de errado para a sua raça imunda, talvez, mas para o povo civilizado aqueles que zombam de uma autoridade real devem sofrer severa punição... — Começou seu discurso, porém largou as palavras de forma desorientada quando a proximidade com a mulher trouxe às suas narinas o odor exótico e convidativo que vinha de seus cachos negros.
Um arrepio breve subiu por sua espinha, o soldado real dando-se conta em seguida da fragrância impregnada em sua pele morena, tão aveludada ao toque.
Aproximou-a ainda mais de si, tragando com vontade o singular aroma que desviou o capitão por alguns segundos de seu objetivo principal. Esmeralda arfava como um animal enjaulado, quase fora de si, porém ainda foi capaz de perceber a brusca mudança de postura do capitão, que como todo homem tinha sua maior fraqueza bem no meio das pernas. O tipo de fraqueza mais estúpido, mais fácil de manipular.
A mão que continha a inconformada cabra de repente largou o chifre, indo passear pela barriga lisa da egípcia até encontrar um dos seios firmes, enchendo a mão com ele e o apertando sem qualquer delicadeza, arrancando de Esmeralda um gemido baixo de dor.
Djali olhou para a dona enquanto armava o ataque agora que estava livre, mas parou assim que a viu negar suavemente com a cabeça, seu corpo não mais se debatendo, agora completamente estático, rígido. E apesar de todo o ódio e vergonha por ser violada daquela forma, conseguiu pensar com clareza. Se Djali o atacasse naquela posição desfavorável em que Esmeralda estava à frente de todo o alvo, o capitão certamente retomaria a aspereza firme com que a segurou de início e ela acabaria perdendo sua melhor chance de mantê-lo distraído e conseguir escapar.
Pessoas passavam casualmente na rua, fingindo não ver (ou de fato não se importando) com mais uma cigana vítima de Paris. Aqueles que se atreviam a olhar naquela direção logo viravam os rostos para o lado oposto, tanto homens quanto mulheres indispostos a interceder.
— Acabo de pensar numa forma de pagamento pela sua insolência passada... — Disse, mais uma vez beliscando o seio de Esmeralda num gesto sugestivo, em seguida mordendo com certa violência o lóbulo de sua orelha — Vocês, ciganas, à luz do sol trabalham com a arte proibida da feitiçaria, e à luz da lua com a arte proibida dos prazeres. Não passam de bruxas prostitutas, e talvez o segundo serviço me interesse... — Ofendeu-a naquela típica voz dominada pelo torpor e desejo, tornando seu discurso ainda mais vazio.
— Só temos um problema, monsieur... — Disse, a voz provocativa, controlada apesar de tudo — A lua ainda não nasceu, e como o senhor bem disse, de dia levamos a vida com nossa bruxaria. Isso portanto me obriga a lançar um de meus feitiços sobre você. — Asseverou, sentindo o homem estancar brevemente, em dúvida sobre as implicações daquele aviso.
Foi toda a hesitação necessária para que Esmeralda agisse em sua defesa.
Impulsionou o tronco para frente com rapidez, o máximo que pôde, e antes que Phoebus conseguisse distinguir suas intenções, a cabeça da egípcia já voava de encontro à sua própria numa velocidade e força arrebatadoras. Novamente se viu golpeado pelos subterfúgios da mulher quando seu nariz foi achatado pelo cocuruto que veio ligeiro ao seu encontro. Ele sentiu o septo sair do lugar e um jato de sangue espirrar no mesmo segundo, reproduzindo nos cachos da cigana um brilho rubro e viscoso.
Num gesto rápido demais para que houvesse alguma reflexão, o capitão soltou Esmeralda para que as mãos fossem de encontro ao nariz que inchava e latejava, dificultando de imediato sua respiração.
Esmeralda deu início a uma corrida brusca sendo seguida logo após por uma Djali saltitante (mas não antes que a cabra o olhasse com despeito e balisse alto em sua direção, como um desafio que apenas ela era capaz de compreender em seu próprio dialeto).
Phoebus rugiu, passando o punho pelo sangue que escorria até sua boca e levava à lingua um sabor enferrujado. Sentiu-se invadir por uma pontada de dor quando os dedos atritaram no nariz quebrado, e um praguejar escapou por entre seus lábios.
— Dessa vez não me escapa, cigana maldita! — Sussurrou para si mesmo, iniciando a perseguição enquanto ainda a tinha em seu campo visual. A cadela era ágil, mas Phoebus era melhor preparado fisicamente, e ela não poderia correr para sempre de seu castigo bem merecido.
Mas a mulher, além de rápida era esperta, e arranjou uma forma elegante de mantê-lo afastado, ela mesma ciente de que não aguentaria a fuga tanto quanto Phoebus suportaria manter o ritmo daquela perseguição.
— Santuário! — Berrou ao entrar na catedral, seu peito ofegante provocando ainda mais a imaginação do capitão naqueles movimentos oscilatórios.
— Ao inferno com o asilo! — Respondeu em alto e bom som, tomando sua decisão de capturá-la mesmo sob a proteção sagrada de Notre Dame.
Esmeralda correu para o altar da catedral quando o viu avançar tomado por fúria e determinação, temendo o brilho psicótico que reluzia em seus olhos ao encará-la. A cigana foi dando passos em ré conforme o capitão se aproximava lenta e ameaçadoramente, o sorriso vil deixando seu nariz ainda mais torto.
Conforme Phoebus foi encurralando Esmeralda, desembainhou a espada, claramente disposto a fazê-la pagar de uma forma mais severa pelas tantas humilhações que lhe impusera.
Esmeralda olhou o ambiente deserto ao seu redor, desacreditada de que seria desrespeitada daquela maneira em seu direito de santuário. Forçou a mente a trabalhar o mais rápido possível, e não viu outra saída senão a de enfrentá-lo mesmo com a discrepante desvantagem que havia entre os dois.
Pegou um dos elegantes castiçais que repousavam no altar, empunhando-o com as duas mãos à frente do rosto, disposta a oferecer o máximo de resistência que fosse capaz antes de ser capturada ou até mesmo ferida.
— Não chegue mais perto!
— Quer apostar, cigana? — Sorriu, malicioso, avançando com ainda mais vontade em direção à egípcia arredia.
Esmeralda atacou com o castiçal quando Phoebus estava perto o bastante para ser atingido, porém o objeto dourado sequer encostou no homem, que se defendeu habilmente com a espada, freando a investida risível de defesa da cigana. Foi quando, num rápido vislumbre de sua memória, se deu conta de que era ali que Quasímodo morava, e preparou-se para gritar pedindo pela ajuda do valioso amigo.
Contudo, antes que pudesse, uma voz irritada e grossa despontou com propriedade pela catedral. Uma voz dona de uma imponência tão natural que até mesmo o capitão pareceu ser atingido por ela.
— Já basta! — Frollo veio rapidamente ao encontro dos dois, o semblante irritado e indignado lançando olhares desagradados à cena que se desdobrava no ambiente sagrado — O que pensam que é Notre Dame por acaso? O panteão de Roma?
— Não se preocupe, padre, eu só preciso ensinar uma lição rápida a essa cigana insolente — Disse, ainda fitando Esmeralda com intensidade — Não vai levar mais do que alguns poucos minutos.
— Recomponha-se, capitão! A catedral não é o local apropriado para satisfazer suas volúpias pecaminosas. Para este fim que existem tantos cabarés espalhados por Paris — O arquidiácono rebateu, irredutível, mantendo o olhar em Phoebus durante todo o tempo, não suportando reconhecer o mesmo desejo febril que o seu dentro das íris do jovem soldado.
— Não se meta em questões políticas que fogem ao seu entendimento, monsieur Frollo. Esta mulher deve ser punida imediatamente.
— Quem deve ser punido ou não pouco me importa. Mas não admito que o faça em Notre Dame! E não pense que um mero peão como você faz alguma política, monsieur Phoebus. — devolveu o tratamento, mantendo a postura inabalável e ainda elegante — De nós dois, quem conhece o rei pessoalmente sou eu. Agora saia, antes que sua demonstração de total despreparo e desserviço espante os fiéis que estão para chegar!
Phoebus o fuzilou com o olhar, as íris quase banhadas pelo mesmo ódio que fora destinado à Esmeralda até alguns segundos atrás. Frollo manteve a expressão serena enquanto testemunhava a fúria mal contida do soldado, camuflando com a maestria de um talentoso ator o quanto também lhe desejava mal.
— Ainda nos resolveremos sem a interferência de ninguém, estrangeira! — Embainhou a espada, virando-se com ímpeto para a saída da catedral.
Frollo, sem mais suportar, teve seus orbes atraídos para a cigana que o vinha incessantemente atormentando. Ela ainda encarava a passagem pela qual Phoebus saiu, sua respiração ofegante o único som que se ouvia naquele momento. Empunhava o castiçal à sua frente com a mesma força, como se temesse que o capitão voltasse a enfrentá-la.
— Coloque isso em seu devido lugar, cigana! — Obrigou-se a soar ríspido, temendo que sua voz traísse o desejo crescente que vinha nutrindo por aquela estrangeira que mais parecia uma tentação saída do próprio inferno para lhe atormentar, o tipo de sentimento cada vez mais irascível e fora de controle. Pensou que falharia quando o par de verdes olhos se direcionou a si, surpresos e levemente interessados — Eu sei exatamente quantos castiçais existem por Notre Dame! E espero que essa cabra não cometa qualquer atentado à santidade da catedral — Avisou, dando as costas à mulher e retornando ao caminho de seus aposentos antes que traísse a si mesmo de alguma forma, como sabia que cedo ou tarde aconteceria.
Esmeralda suspirou, aliviada, por Frollo não expulsá-la também. Sabia que Phoebus esperava por isso e certamente estaria à espreita, aguardando o momento que ela colocasse os pés para fora dali.
— Espere! — Ela chamou antes que o padre começasse a subir os degraus em espiral, ela mesma aproximando-se poucos passos. Ele estancou, sem nenhuma intenção de encará-la novamente, ciente de que já estava à beira de seu próprio precipício apenas esperando ser empurrado — Obrigada pela ajuda! Se não fosse o senhor, não sei do que aquele louco seria capaz!
Frollo, sem qualquer resposta ou olhar, retomou seu caminho como se nada tivesse acontecido. Mas acontecera, e não seria possível enganar-se nesse aspecto, não importando o quanto tentasse ou quisesse.
Esmeralda passou os olhos por toda a catedral, não parecendo nem um pouco ofendida pelo descaso de Frollo, até mesmo muito habituada a se ver ignorada pelas pessoas que se julgavam importantes de alguma forma.
Foi quando percebeu a escada ao lado oposto daquela que o arquidiácono subira, e um sorriso genuíno nasceu em seu rosto. Era a escada que dava para o campanário.
— O que acha de visitar um amigo, Djali? — Inquiriu, vendo a resposta afirmativa nos espertos olhos caramelizados da cabra. Como que para comprovar algo, ela baliu, esperando que a humana mostrasse o caminho.
Esmeralda subiu cautelosa os degraus, os dedos finos se arrastando apenas superficialmente pela parede conforme se mantinha vencendo a distância. A doce cabritinha estava logo atrás, intrigada com as elevações e tomando cuidado ao erguer seus cascos. Era um trajeto íngreme para seu pequeno corpo, mas ela não demostrou qualquer interesse quando Esmeralda ofereceu carregá-la.
Alcançaram o topo, e no mesmo instante a cigana vislumbrou o corcunda sentado nos pilares que acompanhavam a arquitetura do alto de Notre Dame. Esmeralda sentiu uma breve vertigem ao vê-lo naquela posição tão propícia a uma queda, mas acalmou-se assim que a recordação do corcunda pulando pelos vários telhados íngremes de Paris se firmou em sua mente.
Com um meio sorriso arteiro, caminhou lentamente até o local em que Quasímodo estava sentado, surpreendendo-se ao perceber que ele falava sozinho ao lado de uma gárgula.
— ...e é tão bela e gentil como a primavera — Murmurou ao seu modo mais doce e sonhador, sem reparar em Esmeralda logo atrás de si.
— Quem é essa moça que roubou seu coração, Quasi? — A cigana o questionou enquanto se dependurava ao lado do sineiro, fitando o amigo com enorme carinho.
O corcunda se sobressaltou, por um momento se desequilibrando quando notou a egípcia bem ao seu lado, fitando-o com seus orbes tão intensos e ao mesmo tempo generosos.
— Esmeralda! — Corou numa intensidade profusa, mal se dando conta de que indiretamente respondera à constrangedora pergunta ao dar as boas vindas.
— Vim em má hora? — Perguntou, percebendo-o desajeitado com sua presença.
— Não, de jeito nenhum! Você sempre será bem vinda aqui...
— Eu não sou do tipo que vai entrando na casa dos outros sem ser convidada, mas hoje as circunstâncias foram... únicas... — Abriu os lábios num sorriso discreto que parecia se desculpar — Além do mais, parece que eu interrompi uma conversa importante... — Disse, sem qualquer tom pejorativo em sua voz, apenas implicando com o amigo.
— Nem sempre eu tenho companhias tão boas assim! — Sorriu de volta, parecendo mais à vontade depois do susto — E as gárgulas são boas ouvintes quando precisamos conversar.
— Elas respondem? — Escorou-se ainda mais junto às pilastras, fitando o sineiro com verdadeiro interesse.
— O silêncio aqui em cima às vezes é tão ensurdecedor que fica mais fácil ouvir aquilo que se deseja... — Deu de ombros, notoriamente envergonhado por ser pego naquela situação no mínimo embaraçosa.
— É um desperdício você passar tanto tempo sozinho aqui! Devia sair mais, ver mais as pessoas... Eu mesma queria ter te conhecido antes.
— Um monstro como eu lá embaixo? — Negou com veemência, o semblante triste e conformado. A cigana o fitou por longos segundos, agora séria — Não. As pessoas se assustariam.
— Eu já vi muitos monstros, Quasi, e você não se parece com nenhum deles — Alertou, agora pensativa — De todas as pessoas que eu já conheci, aliás, você é a que menos pode ser comparada a um.
O sineiro encarou-a sem jeito, totalmente despreparado para aquela resposta e não sabendo o que dizer ou como se expressar em todo o rancor que guardava de si. A cigana prosseguiu.
— Monstros são homens como aquele — Sentiu um calafrio quando apontou para Phoebus vagando pelos arredores da catedral com um semblante raivoso, a mão descansando no cabo da espada e parecendo ansiosa por usá-la. E Esmeralda sabia em quem —, que se valem de uma posição de destaque e autoridade para subjugar os mais fracos. E veja como ele é bonito. Aposto que as moças mais ingênuas de Paris se estapeariam por uma migalha de afeto do belo capitão, mas no fim das contas veriam que se trata apenas de um homem mesquinho e cruel, mais nada. A aparência de uma pessoa nunca diz o que realmente importa saber, Quasi. — Deu um sorriso terno em sua direção, percebendo como o rapaz ficava sem jeito diante de qualquer elogio — Eu tenho certeza que as boas pessoas, aquelas que realmente valem a pena, te amariam tanto quanto eu assim que te conhecessem.
Djali se manifestou com um som enérgico que parecia concordar, arrancando um riso desajeitado do sineiro, que era ao mesmo tempo exultante e envergonhado.
— Você é muito gentil para uma cigana... — Tentou agradecer à altura, mas ao invés disso ganhou um olhar de leve repreensão da estrangeira.
— Não me diga... — Sorriu com paciência, ciente de que alguns preconceitos eram tão enraizados que precisavam ser desconstruídos aos poucos e com assertividade — E quantas ciganas você conhece mesmo? — Perguntou, afável, percebendo o sineiro estancar e emudecer ao ser confrontado daquela forma tão descontraída e lógica.
— Eu não quis ofendê-la, me desculpe... — Baixou a cabeça, desconcertado e subitamente infeliz.
— Tudo bem, eu sei que não! — Empurrou o sineiro com seu próprio ombro num gesto cúmplice, tão carinhoso que só fez aumentar o remorso de Quasímodo.
— Meu mestre Frollo conta que me resgatou de uma casa cigana que não me queria. Que não me aceitava pela forma como eu nasci... — Tentou se justificar, fazendo Esmeralda empertigar-se — Frollo foi o único que aceitou me acolher.
— Existem pessoas boas e más em qualquer lugar, Quasímodo... Seja parisiense ou cigana como eu. Eu sinto muito que você tenha sido abandonado... Você realmente ama o padre, não é? — Inquiriu, notando com uma clareza límpida o brilho fervoroso que dominou o olhar do corcunda.
— Eu devo minha vida a ele! Frollo me salvou, cuidou de mim quando até mesmo a mãe rejeitou o próprio filho, me protegeu das maldades do mundo quando qualquer outro me descartaria. Eu faria tudo por ele, e mesmo assim não seria suficiente.
Esmeralda fitou o corcunda com receio, desconfiando que aquele sentimento não era correspondido com nenhuma reciprocidade pelos episódios unicamente frios e distantes que já testemunhara do arquidiácono.
Claude Frollo. O padre de hábitos reservados que parecia guardar um rancor profundo dos ciganos.
"Pode não ser o parisiense mais simpático, mas onde você estaria agora se não fosse por ele?"

— MALDIÇÃO! — As chamas azuis no topo da cabeça de Hades se alongaram e acenderam com potência, evidenciando a fúria dinâmica que também dançava periculosa por suas íris. Pânico e Agonia se encolheram, temendo o que viria a seguir — Vocês são as criaturas mais estúpidas da história da Grécia! Estou preso à existência dos dois maiores boçais da Terra!
— Nos perdoe, vossa malvadeza! — Agonia rastejou, suplicando.
— Nós somos vermes! — Pânico complementou, contribuindo com sua autocrítica ao se transformar num verme verde exageradamente grande e roliço, tornando o cenário levemente cômico — Somos tão inúteis quanto vermes!
— Calem-se! — Hades ordenou, furioso. Massageou a testa, os olhos fechados numa tentativa um tanto inútil de se acalmar — Eu estou preso no submundo. Minha única esperança de restaurar meus poderes e sair daqui ainda com eles está em dois idiotas que não conseguem seguir ordens simples...
— Ele parecia o escolhido, mestre! — Pânico defendeu-se, atraindo um olhar ameaçador que o fez calar-se de imediato.
— Como, em nome do Olimpo, Rasputin seria a escolha certa? Vocês me fizeram apostar todas as fichas num inútil que NEM SEQUER CONSEGUE MATAR UMA GAROTINHA! — Gritou, novamente descontrolado — Que tipo de feiticeiro vocês acham que eu preciso?
Pânico e Agonia se entreolharam por um breve segundo, e mais uma vez se voltaram a Hades rastejando e lamuriando em uníssono:
— Somos vermes...!
— Já chega! — Suspirou, negando algo com a cabeça — Nota mental para mim: torturar os dois pela eternidade... Todo dia às cinco fica bom pra vocês?
— Ele parecia a escolha certa, mestre! — Foi a vez de Agonia tentar — Os Romanov quase não tiveram chance com ele!
— Ele até foi envenenado e sobreviveu — Pânico complementou, de súbito esperançoso com o olhar entediado de Hades — Vários atentados contra sua vida e nada. Era o feiticeiro que vossa ruindade nos mandou encontrar... Em São Petersburgo diziam até que ele era imortal! — Comentou com certo vislumbre e admiração, atiçando ainda mais a fúria do deus da morte.
— Numa escala de um a dez, quão imortal ele parece para você? — Hades rugiu, apontando para o rio das almas, onde Rasputin vagava com outros humanos recém mortos — Eu preciso de um vivo, seus idiotas! E de preferência que consiga sair vencedor na guerra contra uma adolescente!
— Nós não vamos errar dessa vez, vossa maleficência!
— É melhor que não. É a última chance que dou a vocês, seus imbecis! Falhem de novo e os dois vão servir de ração ao Cérbero. E podem apostar que cada uma das três cabeças vai lutar por um pedaço macio de vocês! — Avisou, vendo-os engolir em seco.
Hades deixou os inúteis asseclas para trás, caminhando com mau humor pela larga extensão de seu reino mortífero. Desde o dia em que Zeus o poupara da morte, não conseguia pensar em nada que não fosse sua própria vingança. Sonhava com toda a força de sua alma desgarrada concluir seu acerto de contas desde a traição que sofrera do irmão mais velho.
Por mais que a medida de tempo no submundo fosse incerta, era inegável que assim que fora banido para aquela desgraça de lar, não se passou um único minuto em que a amargura dos atos realizados por seu irmão não o envenenasse naquele cárcere solitário.
Sentou em seu trono feito de pedra queimada e enxofre, perguntando-se por quanto tempo mais seria obrigado a aceitar sua posição inferior diante do Olimpo e de seu odioso irmão, que tanto fizera para torná-lo aquela criatura patética que hoje comandava o mundo dos mortos...
...E que, para isso, tirara uma parte vital de sua própria existência.
Hades recostou-se com mais intimidade em seu trono, deixando as lembranças levarem-no para longe da dolorosa realidade. Se fechasse os olhos, poderia ver nitidamente as figuras etéreas que habitavam sua memória, revivendo com facilidade recordações que preferia não possuir.
Brincou distraidamente com o anel de pedra azulada que rodeava seu mindinho, sentindo-se tão miserável quanto as almas perdidas que vagavam sem rumo certo pelo submundo. Deixou que sua atenção se fixasse no anel ao retirá-lo do dedo.
A borda metálica, finamente trabalhada em ouro envelhecido, trançava vênulas de mínima espessura que se intercalavam uma a outra, servindo de base à pedra de um azul tão dinâmico quanto as chamas que se erguiam do topo da cabeça de Hades.
O deus da morte sentiu os olhos marejarem naquela íntima contemplação do objeto de alto valor sentimental, repudiando a si mesmo pela fraqueza que seu rosto devia transbordar naquele inusitado momento. Tinha dentro de si uma raiva que fora acumulada por milênios, porém, por mais que desejasse, era incapaz de sobrepujar a profunda tristeza que invariavelmente vinha junto ao ódio.
Por mais vezes do que conseguia se recordar, cogitara se livrar do objeto circular e delicado que sempre fizera de si um ser mais fraco. Que sempre lembrava ao deus da morte as razões pelas quais ele estava fadado a viver uma eternidade de sofrimento no submundo. O lembrete de cada falha colecionada.
Porém, como em todas as outras vezes, recolocou o anel no dedo de menor tamanho, no mesmo instante em que uma única lágrima desceu pelo lado direito de seu rosto cianótico, tão lúgubre quanto a própria morte.
Fale com o autor