O Preço da Magia

2 Episódio 02: J'ai Posé Mes Yeux Sous Sa Robe De Gitane


Notas iniciais
Pessoal, a partir deste capítulo começo a abordar o cenário d'O Corcunda de Notre Dame. Aliás, todo o capítulo referente a esse cenário terá o título em francês numa referência ao musical "Notre Dame de Paris", um dos melhores e mais arrepiantes musicais que já vi! Quero agradecer imensamente às leitoras Beatrice, Lilith Tsukii e Menta, que me deram comentários tão bacanas no primeiro capítulo!!! Esse segundo capítulo é dedicado a vocês, suas lindas! Tradução do título: "Eu pus meus olhos na sua saia de cigana" (bem sugestivo ;P)

Frollo era um homem moldado por uma atípica e lúgubre rigidez.

O arquidiácono da catedral de Notre Dame costumava ser visto pelos fiéis como uma figura severa, de olhos carregados e discursos dúbios, muitas vezes seus sermões tendendo a um teor sarcástico que poucos — naquela terra de miseráveis e iletrados — eram aptos a compreender. Tratava-se, em suma, de um homem pouco inclinado a qualquer tipo de relação humana, tendo por preferência o convívio com seus pergaminhos e abarrotados livros.

Era, dentre os célebres parisienses, um dos raros que jamais se contentava com o saber já dominado, entremeando-se pela busca incansável de novos conhecimentos, sempre a alimentar sua inteligência já arguta com preceitos da ciência e alquimia. Não era, portanto, um devoto convencional, daqueles que se tornavam íntimos apenas da religião.

Claude Frollo, mesmo nos dias áureos de sua juventude, viveu uma vida amarga. Em seus dias joviais, até chegou a ser consumido por súplicas carnais, contudo essas raras ocasiões eram facilmente dribladas pelo prazer que lhe proporcionava a ciência. Desprezava desde a adolescência os apelos do sexo, acreditando cegamente tratarem-se de verdadeiros tolos os apaixonados, tendo a razão por única aliada.

Era retratado, sobretudo, como alguém de impopularidade disseminada por entre os habitantes de Paris, recebendo pouquíssima aprovação de seus modos sempre cortantes e ácidos. Chegava a ser respeitado dentre os cultos, até mesmo admirado pela sabedoria que acumulara ao longo dos anos dedicados ao estudo, porém, sua imagem austera nunca recebera total aprovação, salvo uma única exceção.

Nunca, em todas as suas quarenta primaveras, vivenciou um desejo real, que não pudesse ser suprimido ou até mesmo ignorado. Ao menos, não até aquele fim de tarde, marcado por ventos frígidos.

Ventos estes que traziam em seu sopro a promessa de reais mudanças. Mudanças que o arrebatariam para longe de todas as mais fervorosas crenças de Claude Frollo.

O arquidiácono encontrava-se trancafiado no diminuto cubículo que era seu escritório, como lhe era habitual, analisando vários escritos que pousavam desordenados sobre a mesa poeirenta de sua sala, parando bruscamente a leitura ao se dar conta do silêncio impróprio que dominava a catedral.

Já passara da hora de soarem os sinos, contudo nenhum único badalar se pronunciava.

Frollo franziu a testa, aumentando o vinco que já marcava o meio de suas sobrancelhas. Quasímodo jamais atrasara sua orquestra de sinos, nem mesmo uma única vez desde que recebera tal encargo.

Claude ergueu-se de seus estudos, deixando para trás o advento de sua leitura e tomando a direção do campanário, lar e morada do homem corcunda que, desde criança, esteve sob seus cuidados. Atravessou a grandiosidade da catedral, já anestesiado por sua imponência estonteante e pouco se atendo aos preciosos detalhes de sua arquitetura interna, tendo por desígnio apenas a torre dos sinos, ainda emudecida, estranhamente abdicada de seu furor habitual.

Subiu com desenvoltura as escadas estreitas em forma de espiral, sua postura elegante e reta mal chegando a se exaurir à medida que vencia as dezenas de degraus, um caminho que já chegara a realizar várias vezes num mesmo dia. Contudo, nunca antes feito com aquele intuito.

"Espero que não tenha caído de um dos telhados que tanto se empenha em escalar..." — Pensou com certo amargor, verdadeiramente preocupado com os motivos que precederam aquele atraso nos sinos...

...Aquele silêncio tão fora dos padrões da barulhenta catedral.

Antes que terminasse de subir os últimos degraus, Frollo já foi capaz de avistar a imagem torta e deforme de Quasímodo, dependurado na janela de modo sonhador. O rosto de um único olho funcional brilhando atentamente enquanto encarava um ponto fixo das ruas de Paris. Uma confusão momentânea assolou o padre, porém logo foi substituída pela fúria.

Seus passos taciturnos se tornaram pesados na direção do corcunda, que pareceu despertar de uma forte hipnose ao notá-lo ali, caminhando furioso em sua direção.

— Mestre! — Quasímodo exclamou de forma devotada, saindo de imediato da janela e arrastando-se com seu membro coxo na direção do sacerdote. Sua coluna, já encurvada pelo enorme caroço que carregava nas costas, tornou-se ainda mais torta ao assumir uma postura de completa submissão diante do homem que, assim como a própria Notre Dame, era sua paixão mais devota e enraizada.

— O que lhe deu hoje, Quasímodo? — Frollo perguntou com rispidez, não tolerando aquele injustificado atraso — Agora tornou-se um sonhador que se esquece de suas obrigações? Ou um rebelde, que me desafia com subversão?

— Me perdoe, mestre, eu me distraí por um instante! — Suplicou, encarando-o superficialmente como um cão que teme afrontar a autoridade do dono, sua cabeça sempre baixa revelando expressões humildes — Prometo não se repetir! Tocarei Jacqueline imediatamente! Tocarei também Gabrielle para compensar o atraso! — Prontificou-se, referindo ao sino que já deveria ter badalado para o povo de Paris.

Quasímodo já fazia menção de se afastar, porém Frollo o conteve apenas com o mais leve toque no ombro do corcunda, fitando-o com enorme desconfiança. Sua voz, no entanto, já despontava mais branda.

— Que distração teve força suficiente para tirá-lo de suas funções? — Inquiriu, conhecendo a enorme paixão de Quasímodo pelos sinos que ele mesmo batizara com nomes femininos, ciente do quão ansioso o corcunda ficava quando se aproximava a hora de tocá-los.

— A praça... está bela hoje... — Corou intensamente, baixando a cabeça em profusa vergonha, capaz de sentir a profundidade repreensora do olhar de Frollo atingi-lo com uma precisão dolorosa.

— Bela? — O sacerdote ergueu uma única sobrancelha, direcionando-se resoluto à janela que antes era apaixonadamente observada pelo sineiro, não encontrando dificuldade alguma em avistar a origem do fascínio que desviara Quasímodo de sua tarefa pela primeira vez em anos.

No exato centro da praça du Parvis, bem defronte à catedral, uma jovem cigana chamava a atenção dos passantes com habilidosos passos de uma dança provocante, insinuando as curvas chamativas de seu bronzeado corpo. Acima da cabeça, as mãos batucavam harmonicamente num pandeiro, os braços erguidos fazendo levantar de leve o singelo e surrado tecido branco que lhe servia de blusa, deixando ainda mais à mostra o ventre discreto, marcado por uma cintura convidativa ao olhar. Seus rodopios faziam erguer a longa saia do chão, dando uma visão prematura de seus pequenos pés cobertos por sapatilhas baratas.

Uma cabra, circulando ao redor da mulher, balia ao ritmo do pandeiro, carregando entre os dentes um chapéu já preenchido por vários níqueis, recheado pelos espectadores em êxtase com a apresentação da cigana e notável inteligência do animal.

Aplausos começaram a soar, animados, quando a cigana aumentou o ritmo das batidas no instrumento, levando sua estonteante dança a outro nível, ainda mais sensual em seus passos acelerados de uma forma que Frollo julgava impossível.

Quasímodo lançava olhares hesitantes ao sacerdote, encolhendo-se quando as profundas íris castanhas de Frollo finalmente se voltaram a ele, iradas, donas de um teor fulgurante e tão intenso que incutiu medo ao corcunda.

— Você blasfema Notre Dame, Quasímodo! — Acusou, seu tom grave e firme machucando o corcunda de forma ainda mais intensa do que a maldição de suas deformidades — Então, a catedral ficou em silêncio esta tarde porque você se deixou enfeitiçar pela volúpia de uma estrangeira? Porque se perdeu por uma boêmia?

— Perdão, meu mestre! Perdão! — Pediu humildemente, caindo de joelhos diante do homem sem o menor pestanejar, destituído de qualquer traço de orgulho, lágrimas começando a verter em abundância de seus olhos domados.

— Serei forçado a sair à procura de outro sineiro, que leve mais a sério a importância de seu trabalho?

O semblante do corcunda se contorceu em genuíno desespero quando tornou a erguer o rosto, encarando Frollo da forma mais perdida e desconsolada que poderia existir, de fato aterrorizado pela possibilidade de se afastar da única coisa que lhe trazia prazer em sua vida tão amaldiçoada. Os sinos eram sua maior dádiva, seu único escape daquele mundo que apenas o machucava pela ofensa de sua feiura...

...Apenas quando conduzia os sinos em suas notas estridentes, esquecia o monstro que era aos olhos de Paris. Toda a cidade o encarava como uma ofensiva aberração, exceto Frollo, o único homem que o acolhera e que era capaz de conviver com o perjúrio de suas imperfeições. O único que não o via com os olhos enojados que o seguiam aonde quer que fosse.

O sacerdote percebeu o intenso choque de medo no rosto de Quasímodo após a ameaça, e sua cabeça balançou numa negativa severa.

— Vá tocar seus sinos, Quasímodo. Vá, antes que as badaladas se atrasem ainda mais e Paris se esqueça de sua catedral. — Ordenou, vendo o alívio imediato dominá-lo através do olho raso d'água — Mas que isso jamais se repita! E não quero vê-lo novamente se distraindo com ciganas! São todas feiticeiras, todas a serviço de Lúcifer, nada pode querer um homem respeitável com elas. Nos servem apenas de lenha à fogueira nas noites frias de inverno! Entendeu?

— Sim, mestre! Eu prometo! — Segurou com força e afeto a mão magra de Frollo, encarando-o com toda a devoção servil que cabia em seu ser — Tudo o que me pedir eu farei! Eu pertenço ao senhor! — Beijou-lhe a mão, uma expressão de completa gratidão e admiração cega, ainda ajoelhado perante aquele que o salvou da morte, que lhe era tão caro, tão cheio de significado por mais difícil que fosse para Quasímodo decifrar seus sentimentos sempre tão bem escondidos, tão camuflados pela rigidez típica de seu olhar.

— Então vá! — Pousou a mão sobre os ralos fios ruivos do corcunda, numa das raríssimas demonstrações sutis de apreço que quase nunca demonstrava — A Cité ainda espera por nossa pronunciação.

Imediatamente, o corcunda o obedeceu, ao mesmo modo fiel de sempre. Frollo viu-se só naquela porção da catedral, indo, à contragosto, novamente conferir a dança flexível da mulher que ainda arrancava as mais eufóricas reações do povo, cada vez mais amontoado ao seu redor.

O arquidiácono notou o galope desenfreado em seu peito, um arfar involuntário escapando de seus lábios ao ver o belo corpo, brilhando de um suor profano, contorcer-se com desenvoltura com o auxílio da cabra. A mulher agora interagia com o público, e mesmo daquela distância Claude pôde enxergar o matreiro sorriso que tornava ainda mais belo aquele rosto exótico que se apresentava. A cabra saltitava incansavelmente à volta da dona, dando uma contribuição cômica às acrobacias elaboradas da dançarina, ainda empunhando o pandeiro num ritmo alegre e único, como nunca antes Paris vira. Como nunca antes Paris — e Frollo — sentira.

Seus cabelos, caindo desgrenhados por seu rosto em cachos volumosos, fazia sua própria dança à mercê dos movimentos ousados da cigana. No geral, a cena não passava de nada além de mais um episódio simplório na praça em frente à catedral, contudo era carregado de uma beleza desconcertante, tão irreal que parecia desafiar os olhos de quem o admirasse.

Despertou, contrariado, ao som das badaladas estridentes criadas por Quasímodo. Assim como o arquidiácono, a mulher que se apresentava sobressaltou-se com o súbito som, tamanha a concentração que dedicava à própria dança. Por um instante, ela encarou fixamente a catedral, e Frollo sentiu como se o olhar da mulher pousasse num tiro certeiro sobre ele, como se estivesse ciente daquele observar velado, fitando com precisão a janela circular em que o padre se encontrava, de uma forma incisiva e quase sobrenatural. A razão do arquidiácono lhe dizia o quanto tal hipótese parecia absurda dada a altura distante que os separava, contudo sua intuição sugeria não ser impossível, ao menos não para aquela cigana, ostentando atributos que pareciam inalcançáveis ao ser humano comum.

O homem prendeu a respiração, certo de que talvez a mulher de fato fosse capaz de enxergá-lo ainda que no alto do campanário, certamente ela sendo dona de alguns dons acima da capacidade humana.

— Feiticeira! — Acusou, sua voz levemente debilitada pelo desconforto daquilo que ameaçava crescer dentro de si, antes desconhecido. Mesmo com a temperatura fria, viu-se obrigado a secar uma película leve de suor cobrindo-lhe a testa, uma pequena acusação da fagulha de desejo febril que apenas se acendera, com promessas de ainda queimá-lo em volumosas labaredas.

A mulher voltou a atenção ao público, fazendo uma breve reverência em agradecimento à atenção de sua plateia, e até mesmo a cabra baixou a cabeça em sincronia à dona, ambas arrancando uma nova chuva de aplausos que se perpetuou por um longo tempo, em conjunto com uma aclamação que Frollo demorou a compreender mas que, de tão alta, chegou a seus aguçados ouvidos:

Esmeralda! Esmeralda! — Gritavam os parisienses em êxtase, recriando aquele mesmo sorriso esperto nos lábios fartos da boêmia.

A mulher, escorregadia como uma serpente, reuniu rapidamente os poucos pertences que tinha espalhados ao seu redor, e com a rapidez de um piscar de olhos embrenhou-se para longe, sua esbelta cabra correndo em saltos alegres logo atrás.

Frollo escorou-se à parede, desviando o olhar da abertura circular que usara, atormentado pelas sensações que se despertaram com aquela mera apresentação que observara ao longe. Meros minutos (amaldiçoados, é verdade) capazes de colocar em pauta as convicções de uma vida inteira.

"Esmeralda..." — Pensou, tentando distrair-se de si mesmo — "Até mesmo o nome soa pagão!"

O som afinado dos sinos da catedral de Notre Dame fez Esmeralda estancar por um instante, despertando de súbito da forma profunda com que mergulhava em suas danças, naquele instante tão compenetrada em seus passos que acabou por esquecer o mundo à sua volta.

"Por Júpiter, já é tarde assim?" — Ela pensou, preocupada, encarando a catedral como um todo em meio ao próprio devaneio. Próximo àquele horário, os soldados reais sempre faziam suas rondas pelas proximidades da catedral, e não raras vezes escorraçavam os ciganos do centro da cidade sem o menor tato, chegando até mesmo a confiscar os suados parisis arrecadados.

Esmeralda voltou a encarar o animado público, novamente sorrindo diante da empolgação e sentindo-se entristecida por ter que partir no auge de sua apresentação.

— Agradeça a atenção dessa bela plateia, Djali, onde estão seus modos? — A mulher ralhou de forma bem humorada com a altiva cabra, que logo baixou a cabeça numa reverência perfeita, a própria Esmeralda também se curvando, satisfeita com o valor arrecadado no dia.

Extasiou-se ao ouvir o alto clamor de seu nome nos lábios dos parisienses, sorrindo ainda mais largamente num agradecimento sincero naquela breve despedida. Juntou seus pertences de modo afoito, apressada pelos sinos que ainda a avisavam de seu descuido em permanecer ali com o tardar invariável da hora.

Caminhou com pressa pelos passantes que já começavam a se dispersar com o fim da dança, buscando seus caminhos alternativos pelas vielas de Paris, as ruas ainda iluminadas pelos últimos raios de sol, já quase extintos àquela hora. Seu corpo, dominado pelo suor, congelou ao ver um dos soldados do rei vindo rapidamente em sua direção aos trotes do musculoso cavalo branco em que montava, altivo e orgulhoso como o próprio rei.

Esmeralda tentou mudar seu caminho, porém já era tarde. Ainda sobre o cavalo, o homem a alcançou com facilidade e a segurou pelo braço, cegando a cigana com a luz que se refletia de sua armadura quando um movimento forte do soldado a fez virar em sua direção.

— O que temos aqui! — Sorriu, desmontando do belo equino e aumentando ainda mais o aperto sobre o braço nu da mulher — Qual o seu nome, doce menina? — Questionou num tom galanteador que não teve o menor efeito sobre a estrangeira, que inutilmente lutou para se libertar.

— Saia do meu caminho, monsieur! Eu nada fiz de errado! — Alertou, atrevida, arrancando um riso trocista do homem que a capturara. Djali de imediato afastou as patas dianteiras e abaixou levemente a cabeça, deixando à mostra seus chifres como um primeiro aviso ao agressor, que sequer a notou, totalmente compenetrado na mulher à sua frente.

— Veja só, a pequena ladra tem garras! Diga-me, cigana, de qual bolso honesto vieram esses trocados? — Perguntou, tirando a bolsa presa ao seu quadril e chacoalhando-a, surpreso com o intenso tilintar provocado — Ou de quais bolsos... — Corrigiu-se ao sentir o peso da sacola.

— Eu não roubei, se é o que insinua! — Irritou-se, tentando resgatar de volta o lucro de seu dia, porém o soldado levou a pequena bolsa para trás de suas costas, ainda mantendo a cigana sob rígida contenção.

— Infelizmente, não posso acreditar nisso. Não de alguém que nem mesmo se dispõe a dizer seu nome, como um ladrão encurralado.

Ela o encarou intensamente, os olhos de um profundo verde agora fuzilantes, ainda arfando levemente pelo cansaço proporcionado pela exaustiva dança e também pela breve corrida que tentou dar na esperança de se afastar do soldado. Manteve-se em silêncio, sustentando o olhar arrogante do homem, capaz de perceber a intenção de seu toque, cada vez mais aproximado de seu corpo. Era um homem naturalmente belo, e o conhecimento de sua beleza de certo o tornara presunçoso, confiante demais em sua soberba, causando apenas o repúdio em Esmeralda diante de tal postura.

— Continuará sem saber, monsieur. Não vejo como meu nome possa lhe ser útil.

— Atrevida! — Praguejou, agora parecendo de fato irritado pela insubordinação despreocupada da estrangeira — Por acaso se esquece de que eu represento os interesses do rei, cigana impertinente?

— Então meu nome tornou-se um dos interesses do rei? — Sorriu, zombando abertamente da ira do soldado por não ter sua vontade atendida, algo que parecia um tanto quanto raro tratando-se daquele homem — Pois bem. Diga-lhe que o nome que ele deseja é aclamado nas ruas de Paris quando danço. — Disse, convencida, um sorriso cheio de trejeitos brindando-o com descaso — Se o rei de fato quiser conhecê-lo, sugira a Sua Majestade que de vez em quando se proponha a ouvir a voz do próprio povo, a mesma voz que ele tanto ignora.

— Tem uma língua um tanto insolente, boêmia! Eu poderia prendê-la por tal perjúrio.

— Pobre de mim! Apenas uma moça indefesa e sozinha no mundo, tentando sustentar sua vida de forma honesta. Não se compadece, capitão? — Perguntou num tom doce, sendo ela agora a se aproximar mais alguns centímetros do homem, este completamente desconcertado perante a mudança notória. A súbita meiguice nas palavras e expressões da mulher o levou a baixar a guarda, ainda que não totalmente, afrouxando sem perceber os dedos do braço de Esmeralda e sentindo-se ligeiramente mais confiante de que ela afinal fora enredada por seus encantos, que faziam as mais belas moças de Paris suspirar, sonhadoras.

Esmeralda ofereceu-lhe um radiante sorriso, terminando de se aproximar do belo homem e passando o braço livre por sua armadura como se tencionasse abraçá-lo. O soldado, completamente esquecido da bolsa preenchida pelo dinheiro da cigana, permitiu o movimento com um olhar banhado em lascívia, jamais desviando-o dos orbes que hipnotizavam, agora ainda mais perto.

Ao sentir a bolsa frouxa na mão do homem, a cigana puxou-a com surpreendente força e rapidez, o sorriso sumido de seu rosto como uma trapaça. Conseguiu ainda, no mesmo momento, escorregar dos dedos do soldado, liberando o braço já dormente.

— Djali, agora! — Gritou, e bastou esse comando para que a cabra corresse, pulando num impulso ao se aproximar daquele que ameaçava sua dona, chocando o par de chifres em cheio no peito do homem. O impacto foi quase todo amortecido pela armadura, contudo foi suficiente para fazê-lo perder todo o seu equilíbrio, e no segundo seguinte se viu estatelado no chão, impotente e humilhado.

Levou apenas um instante para que conseguisse se erguer, furioso, porém a astuta cigana já partira numa velocidade inexplicável, tão sorrateira e rápida quanto um de seus furtos. Sequer foi capaz de ter um último vislumbre de sua imagem, ou mesmo compreender qual a direção tomada.

— Diabos, mas como...? — Encarou os dois lados desertos da viela, confuso — Fuja enquanto ainda lhe é permitido, feiticeira! — Amaldiçoou-a, sentindo a humilhação do episódio fazer seu sangue ferver em fúria — Nossos caminhos tornarão a se cruzar, guarde minhas palavras! Ninguém faz de bobo o capitão Phoebus de Châteaupers, cigana maldita!

Notas finais
Espero que tenham tido um maravilhoso Natal, suas lindas, e que o Ano Novo seja tão bom quanto! E preciso dizer; DETESTO O PHOEBUS! Tanto no livro do Victor Hugo quanto no musical o cara é o maior babaca da história, sei que no desenho a representação dele é bem cativante, mas na boa, não o engulo, hehehe