O Preço da Magia

3 Episódio 03: C'est Un Péché Mortel À Regarder


Notas iniciais
*É um pecado mortal observá-la Capítulo em homenagem ao grande Alan Rickman, que aqui humildemente me empresta sua imagem para interpretar o Frollo, e que se foi cedo demais! Infelizmente Frollo não aparecerá nesse capítulo, mas fica aqui a minha lembrança por esse ator tão foda, capaz de ser eterno pelos papeis marcantes que já fez :(

Para Quasímodo, os sinos eram como suas amantes.

As grosseiras formas de metal, estridentes e marcantes, assim como ele também deformadas, eram as únicas que aceitavam de bom grado suas carícias apaixonadas. Todas as damas de ferro — de diversos tamanhos, batizadas pelo corcunda com um nome feminino, algumas exalando tons mais agudos e outras mais graves, com maiores ou menores detalhes em seu metal sempre dourado — eram as únicas que davam alguma alegria ao constante estado depressivo de Quasímodo.

Por incontáveis vezes, já se pegara amaldiçoando com todo o fervor de sua alma aqueles que o colocaram no mundo, e em seguida o rejeitaram, certamente envergonhados pela grande ofensa de suas assimetrias. Os progenitores que assombraram Paris com a aberração que fizeram nascer na mais bela cidade, como uma piada de mau gosto. Um ser que, por sua feiura disforme, jamais conheceria a sensação de ter nos braços uma mulher apaixonada...

...Com exceção de seus sinos. Suas damas douradas!

O badalar sempre o acalentava. Sempre lhe trouxera conforto saber que o monstro era capaz de produzir os sons harmônicos que percorriam toda a extensão de Paris, comunicando-se daquela forma constante com os habitantes que pessoalmente o evitavam, horrorizados por tamanha aberração da natureza, pelo aborto que deu errado.

Essa era talvez a principal razão que o tornava afoito na hora de tocar seus sinos; a momentânea paz de espírito que se apossava de si apenas nesses breves instantes.

Porém, naquele fim de tarde, o alento chegou de outra fonte. De um lugar totalmente inesperado, que foi capaz de fazer com que Quasímodo se distraísse de seus preciosos sinos pela primeira vez desde que se tornara responsável pelos badalares de Paris. E nenhuma de suas amantes de ferro soava tão bela quanto aquele nome pronunciado em coro pelas vozes de seus conterrâneos.

Esmeralda.

Esmeralda, a dançarina. Aquela que enfeitiça com seus passos e acordes. Esmeralda, a bela. Aquela que inspirara tal palavra, ofendendo ainda mais a monstruosidade que nascera em Quasímodo. Aquela que era digna dos poetas e trovadores. Esmeralda, a cigana. Uma estrangeira, que vive às margens de Paris, maculando a ordem da cidade e do bom povo, como lhe dizia Frollo — o dono de todas as suas verdades. Ladrões. Feiticeiros. Maldados. Escória.

Contudo, após o vislumbre da apresentação de Esmeralda, de sua desenvoltura e beleza, o corcunda foi incapaz de associá-la às palavras duras de seu mestre. Jamais as contestaria, isso nunca. Mas, em seu íntimo, via apenas a beleza lírica e talentosa na estrangeira, algo puro, e dentro dele se perdia todo o contexto que Frollo criara em sua profunda angústia contra os ciganos.

E aquela intuição de Quasímodo estava prestes a se confirmar.

Jacqueline, um dos tantos sinos do campanário, já havia se silenciado após o pequeno atraso que, por sorte, sequer fora percebido pelo povo. Quasímodo, agora livre de suas obrigações, passeava despreocupado pelos telhados de Paris, escalando com incrível habilidade cada fresta em que pudesse se segurar e equilibrar. Somente assim era capaz de admirar a cidade e seus habitantes sem causar nenhum desconforto aos outros e a si por sua aparência.

Sentia-se como uma das gárgulas de Notre Dame quando se dependurava na altura das casas daquele modo confiante, ciente de que ao menos o seu equilíbrio fora bem feito em meio ao resto estragado.

O corcunda, ainda pulando e escalando por entre telhas e brechas, ouviu uma voz que o despertou de seus devaneios sombrios, uma voz feminina que parecia temperada por medo e ansiedade.

— Djali, agora! — O corcunda virou-se na direção do grito, percebendo com um sobressalto tratar-se da mesma cigana que o encantou com a delicadeza de seus passos de dança.

Percebendo o apuro em que a jovem se encontrava, Quasímodo desceu apenas o suficiente para ajudá-la, o peito ameaçando abrir-se com o coração investindo indomável dentro dele.

Assim que a corajosa cabra concluiu seu ataque, a cigana a pegou no colo, já juntando forças para correr o mais rápido que pudesse para longe do soldado, contudo foi surpreendida pelos braços grossos de Quasímodo, rodeando-a de um patamar elevado e rapidamente a carregando para junto de si acima do telhado.

Esmeralda ameaçou gritar, ainda mais assustada pela nova investida do desconhecido, entretanto o corcunda gentilmente tapou-lhe a boca, pedindo silêncio através do gesto e do olhar, temendo que pudessem ser descobertos ali. A cigana estancou, analisando o sineiro que ainda tinha a mão sobre seus lábios, e num rápido instante chegou a temer profundamente o homem, sua pele descoberta de imediato se arrepiando diante da figura desconcertante. Se encheu de temor e surpresa ao encarar suas intermináveis assimetrias, seu rosto mal feito em linhas disformes de expressão indecifrável. Porém, esse sentimento logo se abrandou quando encarou seu olhar, que parecia feito apenas de bondade, regado de uma inocência pueril, talvez o único aspecto genuinamente belo nos olhos adornados por calombos.

O corcunda levou o indicador à própria boca torta, num pedido mudo para que Esmeralda mantivesse o silêncio. Ela assentiu devagar, e no mesmo instante os dedos grossos do homem se afastaram de si, um pouco envergonhado pelo contato não consentido, mas necessário. Djali ameaçava balir, tamanho o susto que também levara ao ser suspensa daquela forma desajeitada, e Esmeralda ao perceber a aflição da esperta cabra a acariciou no pescoço, uma espécie de ponto fraco do interessante animal, e no mesmo segundo Djali já parecia mais calma, fitando a dona ainda com intensidade quase humana, como se lhe dissesse estar pronta para defendê-la a qualquer momento.

Mantiveram-se daquela forma, pendurados bem acima do soldado do modo mais silencioso que permitia a situação, tomando cuidado até mesmo com o ruído de suas respirações, e Esmeralda realmente precisou controlar-se para não rir da confusão do capitão que fitava os dois lados da rua, revelando uma expressão completamente transtornada por conta do misterioso desaparecimento da cigana que antes tinha em mãos. Seu rosto estava vermelho pela raiva de se ver enganado pela mulher, e um enorme sorriso despontou dos lábios de Esmeralda, atraindo a imediata atenção de Quasímodo pela beleza singular que se agregava em seu rosto quando acendido por um sorriso. Profundas covas foram escavadas em suas bochechas bronzeadas quando seus lábios se ergueram, e o corcunda novamente se viu hipnotizado pelo encanto natural da egípcia.

Sentiu-se ainda mais desconcertado quando os verdes olhos se direcionaram para ele, sem qualquer indício de nojo, aversão ou medo, mas banhado numa diversão travessa por conta da forma estúpida com que o soldado do rei se portava. E ainda havia o mesmo sorriso, que nem ao menos vacilou ao testemunhar a visão da completa antítese de sua beleza...

Acho que o enfurecemos — Comentou num sussurro peralta quando o capitão finalmente desistiu de procurá-la e saiu praguejando para longe. Quasímodo a encarou de modo assustado, sem saber como reagir, mantendo esses ares confusos por longos segundos enquanto ainda a encarava — Você fala? Ou só rapta donzelas em apuros e as deixa tagarelando sozinhas? — Riu, zombeteira, achando ainda mais graça ao perceber o pânico no semblante de seu inesperado salvador.

— Sinto muito! — Disse, levando a sério o comentário da cigana e se atrapalhando na explicação — Eu vi que o soldado... Parecia que você estava... Eu só quis ajudar! — Terminou, estabanado, afastando-se o quanto pôde da mulher, com medo de assustá-la ainda mais.

— Espere! Calma, eu não falava sério! — Riu novamente, achando adoráveis as reações assustadas e levemente ariscas do rapaz — Djali e eu estávamos mesmo com problemas, devemos agradecê-lo pela ajuda! Posso saber o nome do meu salvador?

— Qua... Quasímodo...

Ela então fez algo que o surpreendeu ainda mais. Surpreendeu, não; assustou, como uma criança que teme aquilo que se esconde dentro do armário, de tão habituado que estava a hostilidades. Esmeralda pôs a mão livre, aquela que não sustentava o peso da cabra, na nuca do corcunda, e o encarou com enorme firmeza e seriedade.

— Muito obrigada pela ajuda, Quasímodo! — Sorriu, lançando um olhar breve à rua — Mas sinto que vou precisar de um novo favor... Pode me ajudar a voltar ao chão?

— Não! — Disse, enfático, arrancando um olhar surpreso e ainda divertido da mulher — Quer dizer, posso, mas não é uma boa ideia! O soldado está bem ali, veja. — Apontou apenas para duas ruas à frente, e naquela visão panorâmica da cidade Esmeralda percebeu com desânimo que vários soldados, provavelmente subordinados do homem que a importunara há pouco, se prostravam como estátuas na entrada de várias ruas, talvez à sua procura.

Não havia a menor chance de passar sem ser vista por eles. Ao menos não usando os caminhos tradicionais.

— Devo passar a noite ao relento desse telhado então?

— Se quiser, eu posso ajudá-la a escalar os telhados até que seja seguro voltar às ruas... — Propôs, animado. A cada segundo encantava-se ainda mais com a jovem moça, deslumbrado pelo fato de sua feiura não repeli-la para longe, como já se acostumara. A cigana deve ter percebido o brilho mais profundo que se acendeu em seu olhar, e soltou um riso fácil de se contagiar.

— Alguma chance de eu não quebrar o pescoço enquanto saio pulando pelos telhados?

— Não é difícil. Eu posso ajudá-la.

Esmeralda o avaliou com cautela, analisando a situação. O verde de seus orbes parcialmente se escondeu com o semicerrar dos olhos charmosos, os lábios afinando-se à medida que ela os mordia, como se o gesto a ajudasse a refletir sobre suas escassas possibilidades. Sua expressão tornou-se ainda mais exótica naquele brilho esperto que dançava por seu rosto. Analisou mais uma vez as ruas, mesmo já conhecendo o seu problema, e por fim encarou a cabra, ainda aconchegada em seu colo.

— O que acha, Djali? Devemos confiar nesse parisiense? — Lançou a questão, e no instante seguinte a cabra soltou um balido exausto, quase como se dissesse "Faça o que bem entender, mulher, só me tire daqui", que novamente fez Esmeralda rir, e até mesmo Quasímodo sorriu de forma discreta, encantado tanto com o animal quanto com sua dona — Ela sempre fica cansada depois das apresentações... — Contou, a voz carregada de ternura enquanto acariciava o focinho úmido do animal — Então vamos, monsieur. Nós aceitamos de bom grado sua ajuda, acho que não temos muita escolha, afinal. — Ergueu-se, porém o movimento foi mal calculado e Esmeralda perdeu por completo o equilíbrio. Quasímodo, com enorme agilidade, segurou-a com delicadeza pela cintura num momento decisivo, impedindo que caísse — Eu vou acabar matando nós duas! — Reclamou, irritada e nada acostumada ao desequilíbrio.

— Não se preocupe. Eu a carrego. — Avisou naquele mesmo tom de voz dócil e mergulhado em expectativas, erguendo a cigana com gentileza e acomodando-a em seu largo ombro antes mesmo que ela conseguisse responder.

— Não! Ei, espera, acho que não é uma boa ideia! — Contestou, porém o corcunda já corria com notória destreza acima das telhas, e a cigana teve que suprimir um grito ao perceber que ele tinha a intenção de pular de um telhado a outro.

Em sua cabeça, pôde imaginar claramente Quasímodo escorregando ou mesmo tropeçando em alguma brecha, levando todos ao chão numa queda que por certo partiria alguns ossos. Os seus, provavelmente, já que o corcunda cairia em cima de si qualquer que fosse o ângulo da queda. Contudo, o homem simplesmente parecia flutuar com uma naturalidade impressionante, e o sineiro pousou no telhado vizinho da forma mais suave possível após o angustiante salto, que revirou por completo o estômago da cigana.

Esmeralda arfou com sua carona, fitando Djali com um misto de surpresa e medo no olhar. Ignorou os sacolejos de seu corpo, acariciando a cabra que tinha um semblante assustado e de vez em quando reclamava de forma rouca, quase indignada. O frio por sua barriga apenas se alastrava em cada salto ágil do corcunda, e sempre tornava a se surpreender com a sua capacidade de retomar o equilíbrio naquelas telhas escorregadias.

A cigana segurou Djali com ainda mais força, temendo que ela porventura se soltasse de seu colo em meio aos solavancos. Quasímodo segurava a egípcia firmemente pelas coxas, o que a afligia ainda mais, pois imaginava que os braços eram importantes para manter o equilíbrio, porém o corcunda parecia perfeitamente confortável com a carga extra que repousava às suas costas, assim como a corrida.

"Como um homem tão grande, tão estabanado em desproporção, pode ser tão equilibrado?" — Pensou, realmente atordoada pelas habilidades do homem que acabara de conhecer, e após um tempo permitiu-se relaxar um pouco mais sobre Quasímodo, que chegou a sentir os músculos menos tensos acima de si.

Esmeralda também se espantou com o perfeito silêncio com que Quasímodo atravessava a cidade. Era um homem de proporções enormes, mas sua passagem sobre os telhados sequer era anunciada, tamanha a leveza natural com que seus pés pareciam amortecer cada passada.

E era ágil! Em alguns momentos, Esmeralda teve a sensação de voar sobre o belo cenário que se delineava sobre Paris quando se permitia analisar a velocidade com que cada prédio era deixado para trás, chegando até mesmo a apreciar a viagem quando finalmente chegou perto de se acostumar à sua estranheza.

Logo, contudo, já estavam seguros, sem mais guardas a vigiar cada perímetro.

Quasímodo freou sua impressionante corrida de forma tão brusca quanto o momento em que a começara, pousando uma Esmeralda descabelada e lívida sobre o último telhado, este mais íngreme. Ambos estavam ofegantes, mas apenas a cigana tinha nos olhos arregalados uma pontada de medo, o precursor de sua falta de fôlego. Seus olhos se cruzaram, e tanto o corcunda quanto a cigana caíram numa longa gargalhada, os dois agora sentados lado a lado, compartilhando aquele momento como velhos amigos.

— Aonde você aprendeu isso? — Ela perguntou, encantada, sentindo o coração de Djali acelerado sobre seu colo e novamente tentando acalmá-la com carícias.

Quasímodo deu de ombros, incapaz de responder. Escalar sempre foi algo que fez parte de sua natureza, assim como o terrível caroço que carregava como peso em suas costas. Simplesmente nascera com aquilo.

— É incrível! — A cigana ressaltou, ainda sorrindo admirada em sua direção. O coração ainda parecia galopar de um modo incisivo, mas ia aos poucos recobrando a calma conforme Esmeralda inspirava com profundidade.

O corcunda sentiu o peito aquiescer de uma forma totalmente inédita, nunca antes sendo alvo de qualquer tipo de elogio, ainda mais por algo que lhe parecia tão trivial. O sangue pareceu se esquentar ainda mais pela cigana, e um sorriso bobo acabou subindo, involuntário, aos seus lábios tortos.

— Não se compara com a sua dança! — Disse timidamente, não sabendo lidar com a admiração aberta que via dentro dos belos olhos.

— Você me viu dançar? — Perguntou, afoita, ainda orgulhosa pelo reconhecimento daquele dia, pousando a mão de dedos finos no ombro do sineiro num gesto empolgado, percebendo-o imediatamente tomado por vergonha — Não me lembro de te ver na praça!

— Vi de longe! — Explicou, surpreso por como era agradável manter uma conversa fluida com a carismática cigana — Eu observava do campanário. Sou o sineiro de Notre Dame! — Quasímodo contou, agora de fato sentindo florescer em si uma pontada crescente de orgulho.

— Hoje é mesmo meu dia de sorte! — Ampliou ainda mais o sorriso, parecendo fascinada — Sempre me perguntei quem tocava os sinos!

— Se um dia quiser me visitar na catedral... — Principiou, não sabendo exatamente como concluir o convite impensado — Ver como os sinos funcionam...

— Eu adoraria, Quasi! — Lançou-lhe o olhar mais fraterno que o corcunda já vira, aumentando ainda mais o enorme afago que sentia por dentro, o próprio apelido que a cigana lhe dera já capaz de aquecê-lo com total força — Só não sei como. Ciganas não são exatamente bem vindas em Paris, que dirá em Notre Dame...

— Posso te ajudar a escalar a catedral! — Disse de imediato, um meio sorriso incontido se perpetuando por seus lábios, e o comentário arrancou uma farta gargalhada de Esmeralda.

— Eu certamente quero repetir isso! — Limpou os olhos, marejados pelo riso — Aliás, qualquer dia você ainda terá que me ensinar! É um dos caminhos mais úteis da cidade para alguém como eu. — Comentou, agora com alguma melancolia na voz, algo que deixou o corcunda completamente abatido e sem reação, contudo a cigana ainda lhe sorria — Nos vemos por aí, sineiro! — Brincou, segurando sua mão com enorme gratidão — Mais uma vez, obrigada por tudo!

— Sempre que precisar... — Correspondeu ao aperto afetuoso entre seus dedos, totalmente desacostumado a qualquer demonstração de apreço como aquela.

Contudo, percebeu uma leve careta no semblante da mulher, e o corcunda notou que usara mais força do que o necessário naquele gesto. Soltou-a de imediato, um pouco constrangido pela forma com que ela passou a massagear os dedos, parecendo alheio a todo o resto que o rodeava. Continuou admirando-a, sem quaisquer reservas em seu olhar deslumbrado. Esmeralda o encarou com um sorriso divertido, percebendo o sineiro completamente perdido em suas próprias conjecturas. Mais uma vez, teve que rir.

— Agora seria uma boa hora... — Comentou, olhando alusivamente para o chão.

— Ah, claro! — O corcunda finalmente despertou, os olhos perscrutando-a sem jeito — Com licença... — Pediu, rodeando um de seus braços com facilidade pela cintura afunilada da jovem e, da forma mais branda que conseguiu, começou a descer com ela até a segurança do solo, apenas uma das mãos se apoiando às vigas que permitiam alguma firmeza na escalada enquanto a outra sustentava o peso irrisório da cigana. Olhou incomodado para os lados, temendo que alguém o visse na rua, mas eles estavam a sós.

O que veio a seguir foi algo que o corcunda de Notre Dame jamais seria capaz de imaginar nem mesmo em seus devaneios mais inspirados. Esmeralda deu um estalado beijo em uma de suas bochechas, agora tão rubras quanto o sol poente, e lançou um último sorriso ao sineiro antes de sair correndo pelas ruas já escuras, tão rápida e graciosa quanto sua dança, tão leve quanto a bela cabritinha que a acompanhava em saltos arteiros.

Quasímodo, boquiaberto, levou os dedos ligeiramente trêmulos à região do contato, aquela porção de sua pele ardendo em intensa brasa, levando-o a alturas que não poderiam ser alçadas nem mesmo se subisse ao mais alto ponto da catedral.

Ela correu com disposição por várias ruas e vielas, sequer necessitando olhar para trás para conferir se Djali acompanhava seu ritmo. Por mais cansada que pudesse estar, a cabra sempre se animava com as corridas que travava com a dona, como se visse esses momentos como uma espécie de brincadeira entre elas.

A cigana aos poucos foi diminuindo o ritmo, exausta com o turbilhão de adrenalina que se sustentava em suas veias. Arfando com alarde, permitiu-se caminhar, já mais calma com a proximidade do Pátio dos Milagres.

Cogitou escorar-se por um minuto em alguma parede apenas para retomar o fôlego perdido, entretanto decidiu que, mesmo com as ruas vazias, parar seu trajeto seria desafiar a sorte que lhe favorecera até o momento. Continuou, portanto, seu caminho, deixando os pensamentos viajarem em bifurcações tão desordenadas que mal se deu conta quando chegou ao Pátio.

O tão temido Pátio dos Milagres, antro de bandidos, enfermos, renegados. Ciganos. A periferia que abrigava os estrangeiros que Paris se recusava a acolher.

As ruas naquela porção eram um espelho refletindo o descuido que se submetiam seus habitantes. Vivendo de esmolas e das poucas graças que permitiam os parisienses, mal sendo considerados pessoas pelos nativos, que rotineiramente os encaravam como o grande mal da sociedade, vindo escurecer uma genética de peles alvas.

Djali agora caminhava à frente, saltitando entre os rejeitados completamente à vontade, já reconhecendo sua casa simples a poucos metros e ansiando por descanso. Parou de repente, virando o rosto caramelo para Esmeralda e balindo de forma enérgica, chamando-a a apressar o passo.

— Estou cansada, sabia? — Reclamou diante da falta de paciência do animal, contudo aumentou a velocidade de suas passadas, realizando a vontade da esbelta cabrita — Mimada! — Resmungou, embora um sorriso amoroso erguesse com sutileza o canto de seus lábios.

— Deve estar cansada mesmo... — Clopin, um homem forte vestido em farrapos, comentou ao colocar-se ao lado da egípcia, a enorme mão pousando sobre o ombro pequeno da mulher — Nunca antes chegou tão tarde ao Pátio. O que houve? — Questionou, usando de seu tom sempre protetor que chegava a beirar o paterno.

— Nada de mais... — Respondeu, já acostumada ao estilo sorrateiro do líder do Pátio dos Milagres, ainda que lhe lançasse um olhar reprovador pela aproximação tão silenciosa que sempre lhe trazia sobressaltos — Tive problemas com um soldado, mas nada que não pudesse resolver.

Os dedos se apertaram dolorosamente acima da pele de Esmeralda numa força inconsciente, o extremo zelo que o líder nutria pela cigana órfã levando a reações exageradas.

— Isso tem que acabar! A Cité nos trata como indigentes até mesmo sob a proteção do asilo!

— Esperava o que, Clopin? Que nos recebessem em sua casa com seu melhor vinho? — Um ligeiro meio sorriso se formou na egípcia, que encarava o homem de meia idade com uma incredulidade aberta.

— Olhe bem ao seu redor, Esmeralda. Só o que nos cerca é a miséria... O tipo de pobreza que é imposta pelos nobres e realeza, que não nos permite crescer. A decadência em que vivemos é alimentada para que sejamos punidos quando enfim conseguem nos tornar ladrões.

— Eu sei... — Respondeu com tristeza, ela mesma já sendo vítima daquela melancólica filosofia — Somos carne de forca, uma mera atração aos senhores e senhoras que desejam o espetáculo do pelourinho.

— E só cabe a nós mudar isso... — Avisou num de seus recorrentes comentários tão otimistas quanto ingênuos, que arrancou apenas o silêncio de Esmeralda. O homem se colocou à frente da cigana, obrigando-a a frear seus passos, e segurou com leveza os ombros morenos enquanto a encarava bem fundo nos olhos — Toma cuidado quando sair do Pátio! — Fez o rogo precipitado, as mãos agora descendo por seus braços até encontrar as mãos femininas, enlaçando-as com seus dedos ásperos, calosos — Existe muita maldade no mundo reservada principalmente a pessoas como nós, e você já entrou na idade de gerar cobiça aos homens. Não é mais a menina assustada que veio me pedir abrigo, isso eu vejo... E outros também veem. Toma cuidado, Esmeralda! Dentro do Pátio dos Milagres eu posso te proteger, mas fora dele todos nós estamos propensos a fatalidades.

— Não se preocupe, eu sei me cuidar! — Alertou, omitindo o fato de que, se não fosse pela intervenção de Quasímodo, provavelmente se veria numa cela naquele exato instante — E não estou fazendo nada errado, apenas apresento minha dança. Não há qualquer motivo para que me façam algum mal.

Clopin soltou um riso entristecido, fitando-a agora com afeição redobrada, levando Esmeralda a crer que devia ser daquela exata forma que um pai amoroso encarava uma filha.

— Nunca foi preciso que déssemos algum motivo, minha bela. Nossa existência já é o motivo.

Dizendo isso, despediu-se com um breve beijo na testa da mulher, deixando Esmeralda a sós com Djali e seus pensamentos. A cigana ergueu os olhos, contemplando as várias estrelas que brindavam a noite com seu brilho profuso, dominando o céu sem nuvens. Estrelas que, sozinhas, mal se notavam na imensidão celeste...

...Todavia, quando juntas, capazes de ofuscar. Todos os pontos luminosos angariavam maior força, e em conjunto tornavam-se imponentes, impossíveis de serem ignorados. Assim como os renegados que viviam às margens de Paris.

Sozinhos, eram apenas escória. Em conjunto, porém, irradiavam a mesma relevância das mais brilhantes constelações.

"Talvez Clopin não esteja tão equivocado afinal... Talvez a mudança dependa mesmo um pouco mais de nós." — Conjecturou, baixando o olhar e meneando a cabeça em negativa — "Ao menos se existissem mais Quasímodos no mundo..."

Sorriu, lembrando com carinho a forma desinteressada com que o sineiro ajudara a completa estranha, estendendo-lhe a mão quando a maioria usaria suas palmas para empurrá-la na direção do soldado que a importunava.

Era, de fato, um parisiense raro aquele.

Notas finais
Por enquanto ainda estou seguindo bem a vibe dos desenhos, mas logo a coisa muda de figura, porque aqui não tem espaço pra contos de fada xP O personagem Clopin tem uma participação muito grande no musical, e aqui eu vou retratá-lo à moda dele - um cara que tem por Esmeralda um carinho de pai. Espero que estejam gostando, e se quiserem comentar me contando sua opinião ficaria muito feliz em sabê-la! ^^