A tarde em Aethelgard parecia ter sido pintada por um artista em um dia de inspiração divina. O sol brilhava com uma suavidade dourada sobre o gramado vasto e impecável dos jardins traseiros, onde a família Kane se reunia para um raro momento de ócio. Toalhas de linho estavam estendidas, cestas de frutas e bolos decoravam o cenário, e o som de risadas substituía o protocolo rígido do tribunal.

​Adrian estava irreconhecível para quem o vira rugindo contra o clero no dia anterior. Ele vestia uma túnica de linho leve, com as mangas dobradas, e parecia ter deixado todo o peso da coroa de lado.

​O Príncipe e o Pequeno Dominic

​O pequeno Dominic, de apenas um ano, engatinhava desajeitadamente pelo gramado, tentando alcançar uma bola de couro colorida. Adrian, deitado de bruços na grama, bloqueou o caminho do bebê com o braço, fazendo um som de rosnado brincalhão.

​— Aonde pensa que vai, General Dominic? — Adrian riu, pegando o bebê e rolando com ele na grama. — Você ainda não tem autorização para invadir as terras do sul!

​Dominic soltava gargalhadas agudas enquanto Adrian fazia cócegas em sua barriga com a ponta do nariz. Selina, a mãe do bebê, observava a cena com um sorriso doce ao lado de Michael.

​— Cuidado, Adrian! — gritou Michael, rindo. — Se ele herdar o seu fôlego, não vai parar de correr até o pôr do sol!

​— Ele já é mais disciplinado que o Adrian na idade dele — brincou Saullo, que estava sentado com Claire, aproveitando a paz após o turbilhão do casamento.

​Provocações e Cócegas

​Sarah, a irmã de Adrian, estava sentada distraída, tentando ler um livro de poesias, quando Adrian se aproximou sorrateiramente por trás dela. Com um movimento rápido, ele começou a fazer cócegas nas costelas da jovem princesa.

​— Adrian! Para! Eu vou derrubar o chá! — Sarah gritava entre risos, chutando as pernas no ar enquanto tentava se desvencilhar do irmão.

​— Uma princesa não deve ser tão séria em uma tarde de sol, Sarah! É contra as leis de Aethelgard — ele disse, dando um beijo estalado na bochecha da irmã antes de soltá-la.

​Sarah ajeitou o vestido, rindo e jogando uma almofada nele. — Você é um idiota, sabia? Um herdeiro idiota!

​Adrian apenas piscou para ela, seu olhar cruzando por um segundo com o de Mellyssa, que observava tudo de uma cadeira de vime um pouco mais afastada. Para a surpresa dela, não houve gelo. Adrian deu um sorriso leve, quase imperceptível, mas caloroso. Ele não estava mais fugindo dela, nem a atacando. Ele estava apenas... sendo ele mesmo.

​O Colo da Rainha

​Exausto da brincadeira, Adrian caminhou até onde a Rainha Carolina estava sentada. Sem dizer uma palavra, ele se sentou no chão aos pés dela e, com uma naturalidade que derreteu o coração de quem assistia, deitou a cabeça no colo da mãe, fechando os olhos enquanto ela começava a passar os dedos pelos seus cabelos desalinhados.

​— Você ainda é o meu menino, não é? — sussurrou Carolina, inclinando-se para beijar a testa dele.

​— O mundo lá fora é muito barulhento, mamãe — Adrian respondeu, a voz baixa e tranquila. — Aqui é o único lugar onde o silêncio faz sentido.

​O Rei Alexander, que observava a cena de longe enquanto conversava com Michael, sorriu para a esposa. A paz parecia ter voltado, mas era uma paz madura, forjada na dor e na proteção.

​O Diálogo com a Baronesa

​Mellyssa, sentindo que o clima permitia, levantou-se e caminhou até o grupo. Ela parou perto de Adrian e da Rainha.

​— Nunca pensei que o homem que enfrentou Roma pudesse ser derrotado por um bebê de um ano e uma sessão de cócegas — comentou Mellyssa, o tom suave e descontraído.

​Adrian abriu um dos olhos, ainda deitado no colo da mãe.

— A política é fácil, Baronesa. Difícil é convencer o Dominic a não puxar o meu cabelo. Sente-se. A grama não vai cobrar impostos de você hoje.

​Mellyssa riu, uma risada genuína que fez Sarah e Carolina trocarem olhares cúmplices. Ela se sentou no gramado, a poucos centímetros de Adrian.

​— Você está calmo hoje — ela observou.

​— Eu descobri que não preciso gritar para ser ouvido — Adrian respondeu, levantando a cabeça do colo da mãe e sentando-se de frente para Mellyssa, mantendo uma distância respeitosa, mas os olhos fixos nela. — E descobri que algumas batalhas valem a pena, mesmo que a gente saia delas com as mãos enfaixadas.

​— Sua mão está melhor? — perguntou ela, olhando para as bandagens mais leves.

​— Vai ficar — ele deu de ombros, pegando uma uva da cesta e jogando-a para cima antes de pegá-la com a boca. — O que importa é que o jardim está em paz. E você, Mellyssa? Conseguiu dormir sem o barulho dos "arquivos"?

​— O silêncio foi... inquietante — ela admitiu, sentindo o peso daquelas palavras.

​O resto da tarde passou entre histórias de infância contadas por Carolina e Michael, piadas sobre as excentricidades da nobreza e a visão de uma família que, apesar de todos os segredos e fúrias, amava-se profundamente. Adrian agia como se a conversa no quarto nunca tivesse ocorrido, mas o modo como ele incluía Mellyssa nas brincadeiras e a olhava com uma proteção silenciosa dizia tudo o que as palavras não podiam.

​Ele era o príncipe de novo. Mas não o devasso. Ele era o porto seguro que Mellyssa nunca soube que precisava. E, enquanto o sol se punha, a Baronesa percebeu que aquele colo, aquela risada e aquele homem eram um império muito mais valioso do que qualquer ouro no sul.