O Preço da Liberdade
20 A volta da cobra
A atmosfera de descontração da tarde evaporou-se assim que as tochas do Grande Salão foram acesas para o banquete noturno. Adrian caminhava pelo corredor de mármore que levava ao salão principal, ajustando os punhos da camisa, quando uma silhueta feminina emergiu das sombras de uma alcova.
O perfume era o mesmo: orquídeas raras e um toque de almíscar. Um aroma que, por anos, fora o gatilho para os piores pesadelos de Adrian. Ele parou bruscamente, o corpo ficando rígido como uma estátua de gelo.
— Sentiu minha falta, Adrian? — A voz era melodiosa, carregada de uma falsa doçura que escondia dentes de tubarão.
Giulia Lâfrer deu um passo para a luz. A Condessa estava tão bela quanto no dia em que o traiu, vestindo um seda dourada que gritava opulência e pecado.
— Giulia — o nome saiu da boca de Adrian como um pedaço de ferro enferrujado. — O que você está fazendo aqui? Os portões de Aethelgard deveriam estar fechados para pragas do seu tipo.
— Ora, que recepção calorosa para quem já foi o seu mundo — ela se aproximou, esticando a mão para tocar o rosto dele, mas Adrian desviou com um movimento brusco e violento. — Soube que você se tornou um homem... interessante. Um justiceiro de viúvas.
— O que você quer? — ele sibilou, os olhos injetados de uma fúria antiga.
— Eu quero o que eu perdi, Adrian — Giulia disse, a voz baixando para um sussurro conspiratório. — Eu cometi um erro aos dezoito anos. Fui atrás de poder, mas descobri que o poder sem você é... tedioso. Voltei para reclamar o meu lugar ao seu lado. O lugar de futura Rainha.
Adrian ficou em silêncio por um segundo, e então, uma gargalhada seca e carregada de escárnio explodiu de seu peito.
— Rainha? — Ele se inclinou, o rosto a centímetros do dela, mas não havia desejo, apenas um desprezo absoluto. — Você não seria rainha nem de um chiqueiro, Giulia. Eu prefiro queimar este reino até as cinzas a permitir que você toque em uma única pedra do meu palácio novamente. Você não é mais o meu mundo. Você não passa de uma nota de rodapé suja na minha história.
Ele virou as costas para ela sem dar chance de resposta, caminhando em direção às portas do salão.
O Anúncio e a Tensão
As portas se abriram e Adrian entrou. Ele não foi para o seu lugar de forma discreta. Ele parou na cabeceira da mesa, atraindo todos os olhares. Mellyssa, que já estava sentada, sentiu um calafrio ao ver a expressão perturbada e selvagem no rosto dele.
— Família — Adrian disse, a voz ecoando com uma vibração perigosa. — Majestades. Parece que o banquete de hoje terá um tempero extra. A Condessa Giulia Lâfrer decidiu agraciar Aethelgard com sua presença indesejada nos corredores.
O som dos talheres batendo nos pratos cessou instantaneamente.
O Rei Alexander ficou de pé, o rosto perdendo a cor. — Giulia? Aqui? Eu dei ordens para que ela fosse mantida na fronteira!
— Ela parece ter talentos para contornar ordens, pai — Adrian retrucou, sentando-se e servindo-se de vinho com a mão ainda levemente trêmula. — Ela diz que voltou para buscar o que "perdeu".
A Rainha Carolina levou a mão ao peito, olhando imediatamente para Adrian com um pavor maternal. Ela sabia o que aquela mulher representava: a ruína da inocência de seu filho.
Mellyssa sentiu o estômago revirar. Ela olhou para Adrian e viu nele uma rigidez que nem mesmo o duelo com o Duque provocara. O medo a atingiu como uma flecha: a mulher que o ensinara a não amar estava de volta.
— Adrian... — Mellyssa começou, a voz pequena.
— Não agora, Mellyssa — ele a cortou, sem olhar para ela, focado apenas na taça de vinho.
— Ela não terá nada! — Alexander declarou, a voz de trovão. — Guardas! Se a Condessa Lâfrer for vista em qualquer área pública deste palácio, ela deve ser escoltada para fora imediatamente!
— Ela não vai desistir fácil, Alexander — Michael comentou, trocando um olhar preocupado com Selina. — Giulia é como uma sanguessuga. Ela sentiu o cheiro da ascensão do Adrian após o julgamento.
Mellyssa sentiu uma insegurança que nunca experimentara. Ela era a mulher que recusara o casamento para proteger seu ouro. E agora, a mulher que queria o trono — e Adrian — estava de volta, disposta a tudo. Ela olhou para Adrian, esperando um sinal de que ele estava bem, mas ele apenas bebia, o olhar perdido e sombrio, como se estivesse travando uma guerra interna contra os fantasmas de sua juventude.
Naquela noite, a comida perdeu o gosto para todos. O passado tinha voltado para assombrar o presente, e Mellyssa percebeu que sua maior rival não era a liberdade ou a fortuna, mas a cicatriz que Giulia deixara no coração do homem que ela estava começando a amar.
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