A madrugada foi rasgada não pelo som de trovões, mas pelo brilho hipnótico e cruel de um fogo que não deveria existir. Jasmine despertou com o reflexo alaranjado dançando nas paredes do quarto. O calor que subia do pátio central trazia consigo o cheiro de seda queimada, madeira velha e o fim de uma era.


​Ao correr para a varanda, Jasmine viu a cena que parecia saída de um círculo do inferno. No centro do pátio, uma pira monumental consumia tudo o que restara da ala leste. Vestidos de Katherine, quadros de Marcus, cortinas e papéis eram devorados pelas chamas. Heitor estava parado diante do fogo, as chamas refletidas em seus olhos como um batismo de purificação.

​— PARE COM ESSA LOUCURA! — O grito não veio de Jasmine, mas de Maurício, que emergia das sombras segurando sua própria espada. — Você está queimando a nossa história! Está queimando a única coisa que restou deles!

​Heitor se virou devagar. Ele parecia exausto, mas livre.

— Estou queimando as correntes que você usa para nos enforcar, Maurício. O passado morreu naquela noite. Hoje, eu enterro as cinzas.

​— Você não vai tirar isso de mim! — Maurício rugiu, perdendo o controle. O deboche habitual fora substituído por uma fúria cega. Ele avançou, a lâmina brilhando sob a luz da fogueira.

​O som do metal colidindo ecoou pelo castelo como um sino fúnebre. Heitor desembainhou sua espada com a precisão de um mestre, bloqueando o golpe desesperado do irmão.

​O Duelo sob as Chamas

​Jasmine desceu as escadas correndo, chegando ao pátio a tempo de ver as faíscas saltarem do aço. Era uma dança macabra. Maurício atacava com o ódio de quem nada tinha a perder, enquanto Heitor apenas se defendia, seus movimentos contidos, quase misericordiosos.

​— Lute, seu covarde! — Maurício gritava, ofegante. — Me mate como matou o Marcus! Prove para a sua nova esposa que você é um carrasco!

​— Eu não sou mais o seu carrasco, Maurício! — Heitor rebateu, desferindo um golpe que jogou a espada do irmão para o lado, mas sem atingi-lo.

​Jasmine parou na beirada do pátio, horrorizada. As labaredas subiam alto, e o calor era sufocante.

— HEITOR, PARE! MAURÍCIO, POR FAVOR! — Ela gritou, mas o som foi engolido pelo estalar da madeira queimando.

​Maurício, vendo que estava perdendo, usou o momento em que Heitor olhou para Jasmine para lançar um ataque desleal. Ele se jogou para a frente, a ponta da espada visando o peito do irmão.

​Heitor teve a chance de reagir. Ele poderia ter atravessado o coração de Maurício antes que a lâmina o atingisse. Seus olhos se encontraram por um segundo — o mestre e o aprendiz, o protetor e o traidor. Heitor viu a dor nos olhos do irmão mais novo e, num ato final de amor fraternal e sacrifício, ele abaixou a guarda.

​Heitor desviou o corpo apenas o suficiente para não ser atingido no coração, mas a espada de Maurício atravessou seu ombro e desceu pelo peito em um corte profundo e devastador.

​— NÃO! — O grito de Jasmine rasgou a noite enquanto Heitor caía de joelhos sobre as pedras quentes do pátio.

​Maurício soltou a espada, recuando, as mãos trêmulas e manchadas de sangue. O choque de ter realmente ferido o irmão pareceu quebrar seu surto de fúria.

— Heitor... você... você não bloqueou... por que você não bloqueou?!

​Heitor tossiu, o sangue escorrendo por sua camisa branca, manchando o chão de carmesim. Ele olhou para Maurício com uma compaixão que doía mais que o ferimento.

— Porque eu não vou carregar o peso de mais um irmão morto... o sangue para aqui, Maurício. Acabou.

​Jasmine correu até ele, jogando-se no chão e puxando a cabeça de Heitor para o seu colo. Suas mãos ficaram instantaneamente quentes e úmidas de sangue.

— Heitor! Fique comigo! Olhe para mim! — Ela soluçava, tentando pressionar o ferimento com a própria saia.

​Heitor olhou para ela, a visão começando a embaçar, mas um sorriso fraco surgiu em seus lábios.

— A fogueira... Jasmine... olhe... — Ele apontou para o fogo que começava a diminuir. — Está tudo indo embora. Finalmente... estamos sozinhos.

​Maurício caiu de joelhos a poucos metros, cobrindo o rosto, enquanto os criados do castelo começavam a aparecer, alertados pelo clarão. Jasmine, coberta de fuligem e sangue, apertou Heitor contra si, sentindo o pulso dele enfraquecer.

​O passado fora queimado, mas o preço cobrado pelas cinzas parecia ser a vida do homem que ela acabara de aprender a perdoar. No meio do pátio, entre o fogo que morria e o sangue que corria, a "flor de ferro" viu-se diante da maior batalha de sua vida: manter vivo o homem que escolhera morrer para ser livre.