O Preço da Flor de Ferro
21 O Limiar do Abismo
O castelo Martinez, que antes ecoava gritos de fúria, agora estava mergulhado em um silêncio de morte, quebrado apenas pelos gemidos baixos de Heitor e pelo estalar das brasas que ainda restavam no pátio.
Heitor estava deitado na imensa cama de dossel, mas sua presença parecia pequena diante da gravidade do ferimento. A lâmina de Maurício tinha ido fundo, e a febre, como um incêndio interno, começara a consumir o que restava das forças do Duque.
O Arrependimento de Maurício
No pé da cama, Maurício estava irreconhecível. O homem sarcástico e arrogante dera lugar a um jovem quebrado, com as mãos ainda trêmulas e o rosto inchado de tanto chorar.
— Heitor, por favor... você não pode me deixar com esse peso — Maurício sussurrava, segurando a mão gélida do irmão. — Eu era apenas um menino quando tudo aconteceu... eu tinha treze anos! Eu só via o que Katherine queria que eu visse. Eu odiei você por dez anos porque era mais fácil do que aceitar que Marcus nos traiu. Perdão... por favor, meu irmão... me perdoe!
Jasmine, que trocava as compressas de água fria na testa de Heitor, olhou para o cunhado. A raiva que sentia dele era imensa, mas a dor no olhar de Maurício, agora com seus 23 anos e confrontado com a verdade nua e crua, era um castigo pior do que qualquer prisão.
A Chegada dos Nóbrega
A notícia do atentado correra rápido, e José e Açucena chegaram ao castelo ao amanhecer, com os cavalos exaustos. Açucena não perdeu tempo com etiquetas. Entrou no quarto carregando uma bolsa de couro cheia de raízes e ervas colhidas na encosta da montanha.
— Saiam todos! Deixem-me trabalhar! — ordenou Açucena, afastando Maurício com um olhar severo.
Ela preparou uma pasta de erva-de-bugre e arnica, aplicando sobre o corte profundo no peito de Heitor, enquanto murmurava orações antigas que passavam de geração em geração na família Nóbrega. Jasmine observava, com o coração apertado, enquanto a mãe tentava estancar a infecção que começava a escurecer as bordas da ferida.
O Pior dos Cenários
Horas se passaram. O sol atingiu o zênite e começou a cair, mas a cor de Heitor não voltava. Em vez de melhorar, sua respiração tornou-se curta e ruidosa. A pele, antes pálida, agora tinha um tom acinzentado.
— Mãe, por que ele não acorda? — Jasmine perguntou, a voz embargada. — Por que o remédio não está funcionando?
Açucena limpou o suor do próprio rosto, o olhar carregado de uma tristeza impotente.
— As ervas curam o corpo, minha filha... mas Heitor está lutando contra algo mais forte. Ele passou dez anos desejando a morte para se livrar da culpa. Agora que a morte finalmente o tocou, ele parece não ter vontade de empurrá-la de volta. O corpo dele desistiu, Jasmine.
— Não! — Jasmine se ajoelhou ao lado da cama, segurando o rosto de Heitor entre as mãos. — Heitor, você me ouve? Você queimou o passado para que pudéssemos ter um futuro! Você não pode me deixar agora que eu finalmente conheço o homem por quem me apaixonei!
Heitor teve um espasmo, uma tosse violenta que trouxe sangue aos seus lábios, manchando os lençóis brancos. Açucena recuou um passo, trocando um olhar doloroso com José, que estava à porta com Rebekah chorando baixinho em seus braços.
— A febre está subindo muito rápido — sussurrou Açucena. — Se ele passar desta noite, será um milagre que a ciência ou a terra não podem explicar.
O castelo, com toda a sua riqueza e seus títulos, parecia impotente. A "flor de ferro" estava diante de seu maior desafio: convencer um homem que passou uma década querendo morrer de que, pela primeira vez, ele tinha um motivo real para viver.
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