Os dias no castelo Martinez tornaram-se uma sucessão de rituais vazios. Jasmine era a Duquesa perfeita aos olhos dos criados: educada, pontual e silenciosa. Mas, para Heitor, ela era um fantasma de gelo. Ela não o confrontava mais, não fazia perguntas. Apenas cumpria seu papel com uma cortesia que o enlouquecia.

​Naquela noite, o silêncio do quarto foi interrompido pelo som da porta se abrindo. Heitor entrou, não com a fúria dos últimos dias, mas com uma determinação sombria. Ele a encontrou sentada diante da penteadeira, escovando os cabelos longos com movimentos mecânicos.


​Heitor parou atrás dela, observando o reflexo de Jasmine no espelho. Ela não desviou o olhar, mas ele notou o momento exato em que a respiração dela travou.

​— Você tem sido uma esposa exemplar na frente de todos, Jasmine — ele disse, a voz baixa, as mãos pousando sobre os ombros dela. — Mas este quarto é o único lugar onde não aceito o seu teatro.

​Jasmine sentiu o peso das mãos dele. Eram as mesmas mãos que o jornal descrevera manchadas de sangue. O toque, que antes a aquecia, agora parecia uma ameaça latente.

​— Eu cumpro meus deveres, Heitor. O que mais você deseja de mim? — ela perguntou, a voz saindo mais trêmula do que pretendia.

​Heitor inclinou-se, o rosto roçando o dela. — Desejo a minha esposa. Desejo o que me pertence por direito. Já se passaram noites demais desde que compartilhamos este leito.

​Ele a virou na cadeira, forçando-a a encará-lo. Jasmine viu nos olhos dele uma fome misturada com uma possessividade terrível. Ela sabia que não havia escapatória. Se recusasse, ele saberia que o medo dela vinha da descoberta no escritório. Ela precisava manter o disfarce, mesmo que isso custasse sua alma.

​— Se é o que você reivindica... eu não irei recusar — ela murmurou, baixando os olhos para não revelar o pavor.

​Heitor a pegou no colo e a levou para a cama. Mas, desta vez, não houve a delicadeza da noite de núpcias. Houve uma urgência fria. Enquanto ele a beijava, Jasmine mantinha os olhos fechados, tentando se desligar da realidade. Seu corpo reagia com espasmos involuntários, não de prazer, mas de tensão.

​— Por que você está tremendo, Jasmine? — ele sussurrou contra a pele dela, parando por um instante para observá-la. — Antes, você se entregava. Agora, parece que estou segurando um animal assustado.

​— É apenas o frio, Heitor — ela mentiu, a voz falhando enquanto ela apertava os lençóis com força.

​— Não minta para mim — ele rosnou, segurando o queixo dela com firmeza. — Olhe para mim. Sou o seu marido. O homem que salvou sua família. Por que você me olha como se estivesse esperando o golpe final?

​— Eu estou aqui, não estou? — ela rebateu, as lágrimas de humilhação e medo queimando seus olhos. — Estou cumprindo o meu papel. Faça o que tem que fazer.

​Heitor travou o maxilar. Ele percebeu o abismo entre eles, mas em sua mente distorcida, a posse era a única forma de manter o controle. Ele continuou, mas o ato não tinha mais amor; era uma reivindicação de poder.

​Jasmine permitiu que ele fizesse o que quisesse, permanecendo imóvel, sentindo cada toque como uma cicatriz. Ela sentia nojo, sentia terror, e a cada segundo que passava, a imagem de Katherine e Marcus mortos naquela mesma posição inundava sua mente.

​Quando ele finalmente se afastou e o silêncio voltou a reinar, Heitor a abraçou por trás, prendendo-a contra seu corpo.

— Você é minha, Jasmine. Nunca se esqueça disso. Não importa o que você pense que sabe, ou o que Maurício diga... você pertence a este castelo.

​Jasmine não respondeu. No escuro, enquanto Heitor adormecia ao seu lado, ela chorou silenciosamente. A "flor de ferro" estava sendo esmagada, e ela percebeu que, para sobreviver àquele monstro, ela teria que se tornar algo muito mais perigoso do que ele jamais imaginou. Ela precisava fugir, ou acabaria como Katherine: um segredo trancado em um quarto escuro.