A biblioteca, antes um refúgio de paz, tornara-se o palco de um jogo perigoso. Jasmine folheava um exemplar de poesias clássicas quando Maurício entrou, movendo-se com a preguiça de um predador que sabe que não tem pressa.


​Maurício parou ao lado dela, inclinando-se para ler o verso sobre o ombro de Jasmine. O perfume de vinho e tabaco caro o acompanhava.

​— Poesia trágica, cunhada? — ele murmurou, a voz carregada de uma suavidade melosa. — Combina com o brilho triste que você carrega nos olhos ultimamente. Heitor não sabe apreciar a arte; ele prefere a força bruta ao ritmo de uma estrofe.

​— Livros não mentem, Maurício. Diferente das pessoas — Jasmine respondeu, tentando manter a voz firme, embora a proximidade dele a deixasse desconfortável.

​Maurício ousou tocar uma mecha do cabelo dela, deslizando os dedos com um atrevimento calculado.

— Você é jovem demais para se enterrar viva neste mausoléu. Se eu a tivesse encontrado primeiro, Jasmine, você não estaria lendo sobre tragédias... você estaria vivendo uma comédia romântica nos jardins da capital.

​Antes que Jasmine pudesse repelir o toque, as portas da biblioteca foram escancaradas. Heitor estava parado ali, a respiração pesada, os olhos fixos na mão de Maurício que ainda pairava perto de Jasmine. A fúria em seu rosto era palpável, uma nuvem negra que parecia sugar a luz do cômodo.

​— Tire as mãos dela! — o rugido de Heitor fez os livros nas estantes parecerem tremer.

​Maurício afastou-se devagar, com um sorriso cínico que apenas alimentou o fogo do irmão.

— Calma, Heitor. Estávamos apenas discutindo literatura. Não sabia que o ciúme era um dos seus novos passatempos.

​Heitor atravessou a sala em passos largos, agarrando Maurício pelo colarinho da camisa e prensando-o contra uma das prateleiras de carvalho.

— Eu avisei para ficar longe dela. Eu avisei para não destilar seu veneno nos ouvidos da minha esposa! Se eu vir você tocá-la novamente, eu juro pelos céus que...

​— Que o quê? — Maurício desafiou, rindo na cara do perigo, a adrenalina brilhando em seus olhos. — Vai fazer comigo o que fez com o Marcus? Vai desembainhar a espada e limpar a "honra" da família de novo?

​Heitor vacilou por um segundo, o rosto mudando de um vermelho colérico para um pálido cadavérico. O aperto em Maurício vacilou, mas a fúria retornou com o dobro de intensidade.

— Não ouse...

​— Por que não, irmão? — Maurício continuou, a voz subindo de tom, ignorando o desespero de Jasmine que assistia a tudo horrorizada. — Jasmine merece saber que o marido dela tem o hábito de resolver problemas familiares com sangue! Você o matou porque ele a amava, ou porque ele teve a coragem de fazer o que você nunca...

​— CALA A BOCA! — Heitor desferiu um soco que atingiu a madeira ao lado da cabeça de Maurício, estilhaçando parte da moldura. — Saia daqui antes que eu perca o resto da minha sanidade!

​Maurício ajeitou a roupa, mantendo o deboche apesar do susto. Ele olhou para Jasmine, um olhar que dizia "eu avisei".

— O temperamento dos Martinez é um fardo pesado, não é, Jasmine? Aproveite a noite com seu herói.

​Maurício saiu, deixando o silêncio mais pesado do mundo para trás. Heitor permanecia de costas, os punhos cerrados e sangrando pelo impacto contra a madeira. Jasmine sentia o coração na boca. A menção ao nome de Marcus e a reação de Heitor eram a confirmação final de tudo o que ela temia.

​Heitor virou-se para ela, a expressão tomada por uma dor bruta e um ciúme doentio.

— O que ele disse a você antes de eu entrar? O que ele prometeu?

​— Nada, Heitor! Estávamos apenas conversando! — Jasmine recuou, vendo o monstro que Maurício descrevera brilhando nos olhos do marido.

​— Mentira! — ele avançou, segurando-a pelos ombros, não com violência física, mas com uma possessividade que a sufocava. — Você o olha com curiosidade. Você o ouve. Eu a salvei da lama, Jasmine! Eu dei tudo a você! Por que você insiste em procurar o que está morto e enterrado?

​— Porque os mortos não ficam enterrados neste castelo, Heitor! — ela gritou, as lágrimas de pânico transbordando. — Eles estão aqui, entre nós! Marcus, Katherine... e agora eu! Eu não sou sua esposa, sou sua próxima vítima!

​Heitor a soltou como se tivesse se queimado, o olhar de ódio sendo substituído por um vazio assustador. Sem dizer mais uma palavra, ele saiu da biblioteca, trancando a porta por fora e deixando Jasmine sozinha entre os livros que agora pareciam testemunhas silenciosas de uma tragédia que estava prestes a se repetir.