O Preço da Flor de Ferro
1 Entre o Ferro e as Cinzas
O dia começou com o som metálico e constante vindo da oficina. Jasmine terminou de trançar o cabelo, sentindo o aroma do café de centeio que Açucena preparava.
Na Oficina de Ferragens
Antes de sair para a feira, Jasmine passou na oficina. José Nóbrega, com o rosto manchado de fuligem, mergulhava uma peça de ferro em brasa no balde d'água. O chiado do vapor subiu aos céus.
— Pai, já estamos de saída. Rebekah já está tentando comer as mercadorias — disse Jasmine, encostando-se no batente da porta.
José enxugou o suor da testa com o antebraço e sorriu, os olhos brilhando de cansaço e amor.
— Leve estas moedas para a pequena, Jasmine. Digam que é para um doce, mas só se ela ajudar sua mãe com os cestos.
— O senhor trabalha demais, pai. Descanse ao meio-dia — Jasmine pediu, preocupada com o peso dos martelos que ele manejava.
— O ferro não espera, minha filha. E enquanto eu tiver força nesses braços, nada faltará para as minhas mulheres. Vão com Deus.
O Alvoroço da Feira
A tenda dos Nóbrega era a mais organizada da praça. Açucena tinha um orgulho quase sagrado de cada folha de couve que cultivava.
— Olhe essas batatas, Dona Margarida! — exclamava Açucena, erguendo um exemplar limpo de terra. — Cresceram ouvindo as canções que a pequena Rebekah canta para elas. São as mais doces da região!
Rebekah, sentada em um caixote, balançava as pernas e entregava raminhos de alecrim para as senhoras que passavam.
— Jasmine, olha! — a menina puxou a saia da irmã. — Aquela moça tem um vestido azul igual ao céu. Um dia eu vou ter um assim?
Jasmine sorriu, limpando uma mancha de terra no nariz da irmã.
— Talvez, pequena. Mas o azul do céu combina mais com seus olhos do que qualquer seda. Agora, ajude a mamãe a contar as cenouras.
O dia foi próspero. Ao final da tarde, a bolsa de moedas pesava no cinto de Açucena. Elas guardaram os panos, desmontaram a estrutura da tenda e iniciaram a caminhada de volta.
O Horizonte Escuro
— Vamos fazer um ensopado especial hoje — dizia Açucena, animada. — Sobrou o suficiente para comprarmos farinha fina no moinho amanhã.
Jasmine ia à frente, puxando a carroça, quando parou abruptamente. O ar não cheirava a pinheiros.
— Mãe... está sentindo isso?
Açucena parou, farejando o ar. Seu rosto empalideceu instantaneamente.
— É fumaça. Muita fumaça.
Elas apressaram o passo. Ao contornarem a última curva da estrada de terra, o cenário era de pesadelo. O céu, antes alaranjado pelo pôr do sol, estava manchado por colunas de fumaça negra.
— PAPAI! — gritou Rebekah, começando a correr.
— Rebekah, não! — Jasmine largou a carroça e correu atrás da irmã.
Quando chegaram ao pátio, o calor era insuportável. O fogo havia começado no celeiro de palha seca e, impulsionado por um vento cruel, saltara para a plantação de vegetais. José estava desesperado, tentando jogar terra nas chamas que lambiam a cerca da casa.
— José! Saia daí! — gritou Açucena, caindo de joelhos ao ver seu sustento — meses de trabalho duro — transformado em brasas.
Jasmine segurou o pai pelo ombro, puxando-o para longe do calor. O rosto dele estava chamuscado, as sobrancelhas brancas de cinza.
— Pai, pare! O senhor vai se queimar!
— A colheita, Jasmine... — José soluçou, sua voz falhando enquanto ele olhava para o campo enegrecido. — Eu não consegui parar... o vento... foi rápido demais. O que vamos fazer? Não sobrou nada para o inverno.
Jasmine olhou para a irmãzinha, que soluçava escondida atrás das saias da mãe, e depois para a plantação destruída. Pela primeira vez na vida, ela viu o medo nos olhos de seu herói, o ferreiro de ferro.
— Nós vamos dar um jeito — ela disse, embora sua voz tremesse. — Sempre damos um jeito.
Ela não sabia, mas naquela mesma noite, os boatos sobre a tragédia dos Nóbrega chegariam aos ouvidos do Duque Heitor Martinez, que buscava algo que o ouro não podia comprar: uma linhagem de gente honesta e trabalhadora para sua própria conveniência.
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