A manhã seguinte ao baile não trouxe a paz esperada. O ar no escritório de Adrian estava tão denso que a fumaça da lareira parecia estagnar no meio da sala. Ele estava debruçado sobre documentos quando a porta se abriu. Selene entrou, mas não havia a hesitação dos últimos dias. Ela carregava um pergaminho lacrado com o selo oficial de Delavga.

​Sem dizer uma palavra, ela caminhou até a mesa e depositou o documento sobre o mapa de guerra dele.

​— O que é isso? — Adrian perguntou, a voz rouca, sem erguer os olhos.

​— O pedido formal de desquite — Selene respondeu com uma calma que o gelou por dentro. — Enviei uma mensagem ao meu pai e ao bispo de Delavga. Estou abrindo mão do título, das joias e de qualquer direito sobre Oakhaven. Só quero a minha liberdade de volta.

​Adrian parou de escrever. A pena de ganso quebrou entre seus dedos, manchando o papel de tinta preta. Ele levantou-se lentamente, a cadeira arrastando ruidosamente contra o chão de pedra.

​— Você fez o quê? — A voz dele era um sussurro perigoso, o prelúdio de uma tempestade.

​— Eu não vou mais viver assim, Adrian — ela continuou, sustentando o olhar dele. — O contrato foi cumprido. Meu reino está salvo, você teve suas noites e o seu herdeiro pode vir de qualquer outra mulher que aceite ser uma estátua. Eu prefiro ser uma camponesa em Delavga a ser a Rainha deste mausoléu.

​Adrian contornou a mesa com passos predatórios. Ele agarrou o pergaminho e o rasgou em mil pedaços diante dela, jogando os restos no fogo.

​— Você enlouqueceu? — ele rugiu, a fúria finalmente explodindo. — Você acha que pode simplesmente desistir? Você é minha esposa! Você é a Rainha deste reino! Eu paguei as dívidas de sua família, eu protegi suas fronteiras! Você pertence a Oakhaven!

​— Eu não pertenço a ninguém! — Selene gritou de volta, batendo as mãos na mesa. — Você me comprou como um cavalo, mas eu não sou um animal para ser domado! Se você me quer aqui por força, então me coloque nas masmorras, porque neste quarto eu não fico mais!

​Adrian a prensou contra a parede de carvalho, as mãos espalmadas ao lado da cabeça dela. Ele estava possesso, o rosto vermelho de raiva e algo que parecia puro desespero mascarado de autoridade.

​— Você não vai a lugar nenhum! — ele sibilou, o rosto a centímetros do dela. — O desquite é uma humilhação que eu não vou permitir. Você vai ficar aqui, vai sentar-se naquele trono e vai cumprir o seu papel até o fim dos seus dias! Eu sou o Rei, Selene! Minha palavra é a lei!

​— Então você é exatamente o que eu disse — Selene sussurrou, as lágrimas de ódio escorrendo, mas sem desviar os olhos. — Um monstro que prefere ter um cadáver ao seu lado no trono do que admitir que falhou como homem. Pode rasgar quantos papéis quiser, Adrian. Pode me trancar no castelo. Mas você nunca, nunca mais terá o que teve naquela noite. Você está sozinho.

​Adrian socou a parede ao lado do rosto dela, o som ecoando como um tiro. Ele estava ofegante, os olhos fixos nos lábios dela que ele tanto desejava e que agora só proferiam sentenças de abandono. A fúria dele era o grito de um homem que via seu único porto seguro afundar e não sabia nadar para salvá-lo.

​— Saia — ele ordenou, a voz trêmula de raiva contida. — Saia antes que eu faça algo de que ambos nos arrependeremos. Mas entenda bem: você nunca sairá de Oakhaven. Nem que eu tenha que cercar este castelo com todo o meu exército. Você é minha Rainha, e aqui você fica.

​Selene não recuou. Ela o contornou com um olhar de desprezo e saiu, deixando Adrian sozinho com os pedaços rasgados de seu casamento queimando na lareira.