O Preço da Coroa
5 O casamento e o banquete
A capela real de Delavga, que outrora Selene imaginara preenchida por flores do campo e risos, estava decorada com o rigor de um tribunal. O incenso pesado misturava-se ao perfume das rosas brancas, criando uma atmosfera sufocante.
Selene caminhou pelo corredor central como se estivesse marchando para o cadafalso. Seus olhos estavam fixos no altar, onde Adrian Kane a esperava. Ele vestia um uniforme militar negro com detalhes em prata, a postura impecável e os olhos tão gélidos quanto as geleiras do Norte. Quando ela chegou ao seu lado, ele sequer lhe dirigiu um olhar de encorajamento ou um sorriso protocolar; sua atenção estava no bispo, tratando a cerimônia como a assinatura de um tratado de paz.
— Pelo poder investido nestes dois reinos... — a voz do clérigo ecoava, mas Selene apenas ouvia o batido frenético de seu próprio coração.
No momento dos votos, a voz de Selene falhou, um sussurro quebrado que contrastava com o "Sim" de Adrian: curto, firme e desprovido de qualquer calor. Quando ele colocou a aliança de platina pesada em seu dedo, o toque de sua mão foi firme, como uma reivindicação de posse.
O Banquete: O Silêncio no Trono
Se a cerimônia foi tensa, o banquete era uma exibição de desconforto. O Grande Salão estava lotado de nobres de ambos os reinos. De um lado, os Delavga tentavam manter a alegria com vinhos doces e conversas altas; do outro, os generais de Oakhaven permaneciam em silêncio, observando tudo com desconfiança.
Selene estava sentada ao lado de Adrian no estrado elevado. Ela não tocou na comida à sua frente. Seus olhos vagavam pelo salão, encontrando o irmão, Alexander, que segurava a mão de Débora com um carinho que fazia o peito de Selene doer de inveja.
— Você deveria comer — a voz de Adrian surgiu ao seu lado, baixa e autoritária. — Teremos uma viagem longa amanhã e o clima no Norte não perdoa estômagos vazios.
— O clima de Oakhaven não parece ser o único que não perdoa nada, Majestade — Selene respondeu, sem olhar para ele, a voz carregada de uma tristeza amarga.
Adrian tomou um gole de seu vinho tinto, o olhar fixo na multidão.
— A tristeza é um luxo que os reis não podem sustentar por muito tempo, Selene. Você agora é parte de Oakhaven. Sugiro que deixe suas lágrimas em Delavga; elas congelariam no meu castelo.
Selene finalmente virou o rosto para encará-lo, seus olhos brilhando com uma mistura de raiva e dor.
— Você é tão feito de pedra quanto dizem? Não há um pingo de humanidade nesse seu "pulso de ferro"? Eu acabei de deixar minha vida para trás!
Adrian voltou o rosto para ela. Por um segundo, a intensidade do seu olhar fez o ar faltar nos pulmões de Selene. Não era ódio, mas uma frieza tão absoluta que era quase assustadora.
— Eu não vim aqui para ser seu consolo, Princesa. Vim para ser seu marido e o seu Rei. A humanidade muitas vezes é o que faz um reino ruir. Eu prefiro a estabilidade do ferro.
Ele se levantou, batendo levemente com a taça na mesa para encerrar a noite.
— Prepare-se. Partiremos ao amanhecer. Não se atrase.
Ele saiu do salão sem esperar por ela, deixando Selene sozinha sob os olhares de toda a corte. Ela sentiu-se mais livre quando estava no jardim, mas agora, casada e oficialmente Rainha do Norte, percebeu que sua verdadeira prisão tinha acabado de ser trancada.
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