O Preço da Coroa
37 O batismo
O dia do batismo de Arthur e Bastian foi planejado para ser uma declaração de poder. O Grande Templo estava lotado, e o Clero, enviado em peso após o "incidente" no batismo de Eloise, exibia suas vestes mais luxuosas, tentando recuperar a autoridade perdida. O Bispo, o mesmo que outrora questionara a linhagem de Eloise, ostentava um sorriso protocolar, acreditando que, agora que Selene dera "herdeiros varões", ela estaria finalmente submissa e grata.
Ele não poderia estar mais enganado.
Selene entrou na catedral como uma visão de triunfo, usando um vestido de veludo azul-profundo que combinava com os olhos de Adrian, e uma coroa que parecia brilhar com mais intensidade do que o normal. Ela carregava Arthur, enquanto Adrian levava Bastian com um orgulho que transbordava.
O Embate no Altar
Ao chegarem diante do altar, o Bispo pigarreou e abriu os braços, projetando sua voz para que todos os nobres ouvissem.
— Hoje é um dia de júbilo! Finalmente, os céus e Roma se alegram com o nascimento destes dois pequenos leões. A ordem foi restaurada e a sucessão de Oakhaven está, por fim, garantida por mãos fortes. — Ele olhou para Selene com uma condescendência mal disfarçada. — Meus parabéns, Rainha Selene. Vossa Majestade finalmente cumpriu seu mais sagrado propósito perante os homens e Deus.
Selene não baixou a cabeça. Pelo contrário, ela deu um passo à frente, interrompendo o Bispo com um sorriso que não chegava aos olhos, mas que carregava o corte de uma adaga de gelo.
— É fascinante a sua preocupação com o meu "propósito", Bispo — disse ela, a voz clara e perfeitamente audível em cada canto do templo. — Embora eu ache curioso que Roma tenha demorado tanto para se "alegrar". Da última vez que estivemos aqui, parecia que vossas excelências tinham esquecido como se faz uma bênção sem anexar um contrato político.
O Bispo empalideceu levemente. — Majestade, nós apenas zelamos pela estabilidade...
— Ah, a estabilidade! — Selene o cortou novamente, olhando para o bebê em seus braços e depois para os clérigos. — Estabilidade é o que temos quando o Rei e a Rainha decidem o destino de seus filhos sem precisar de conselhos de quem nunca carregou o peso de uma coroa... ou de um parto. Devo dizer, é um alívio ver que vossas preces por um "sangue vigoroso" foram atendidas. Eu quase me senti mal por deixá-los tão ansiosos com a perfeição da minha primeira filha.
Adrian, ao lado dela, precisou tossir para esconder uma risada.
O Deboche Final
Na hora de ungir os meninos, o Bispo estendeu a mão para Arthur, murmurando sobre a "força que o herdeiro deve ter para governar sobre todos".
— E não se esqueça, Bispo — Selene disse, ajustando a manta de Bastian com um desdém elegante —, que eles são a cópia do pai em aparência, mas eu fiz questão de que herdassem a minha memória. Eles saberão exatamente quem foram os amigos da coroa nos dias de sol e quem foram os corvos que tentaram bicar o berço da irmã mais velha deles.
O clérigo tremeu ao sentir o olhar de Adrian fixo nele, tão gélido quanto o de Selene.
— Podemos prosseguir com a água santificada? — Selene perguntou, arqueando uma sobrancelha. — Ou Roma ainda precisa de mais algum tempo para conferir se os meninos têm o número certo de dedos antes de lhes dar a bênção que é direito deles?
— Por favor, Rainha... não foi nossa intenção... — o Bispo gaguejou, perdendo completamente a compostura diante do deboche real.
— Ótimo. Porque se a intenção fosse nos insultar, eu teria que lembrá-lo de que a porta deste templo é tão grande para entrar quanto para ser expulso permanentemente de Oakhaven.
O Retorno Triunfal
Ao fim da cerimônia, enquanto saíam sob os aplausos do povo, Adrian inclinou-se para Selene e sussurrou ao seu ouvido:
— Você foi impiedosa. Eu quase senti pena dele.
Selene deu um sorriso radiante, acenando para a multidão.
— Eles precisavam aprender que eu posso dar a eles os príncipes que tanto pediram, mas que o preço de cada um deles é o meu desprezo eterno por quem ousou duvidar da nossa Eloise.
Adrian riu, apertando o ombro da esposa.
— É por isso que eu te amo. O clero veio buscar submissão e saiu com um atestado de humilhação assinado pela Rainha de Oakhaven.
Naquele dia, todos entenderam: os meninos eram a face do Rei, mas a voz soberana que ditaria as regras daquele novo tempo era a da Rainha que ninguém jamais conseguiria dobrar.
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