O Preço da Coroa

9 Café de verdades


O sol da manhã entrava pelas janelas altas de Oakhaven, mas não trazia o calor dourado de Delavga; era uma luz pálida, quase prateada. Na mesa de carvalho maciço, o café da manhã era servido com a precisão de um desfile militar. Pratas polidas, pães escuros e carnes defumadas compunham o banquete.

​Adrian já estava à cabeceira, vestindo sua túnica de montaria, revisando alguns mapas. Penelope e Cristian Blake já estavam sentados, conversando em voz baixa. Quando Selene entrou no salão, houve um breve silêncio. Ela caminhava de forma um pouco mais lenta, sentindo o peso da noite anterior em seu corpo, mas mantinha o queixo erguido, com uma nova intensidade no olhar.

​— Bom dia — disse Selene, ocupando o lugar à direita de Adrian.

​Penelope deu um sorriso sugestivo, trocando um olhar rápido com o marido.

— Bom dia, majestade. Vejo que o ar do Norte finalmente começou a dar cor às suas bochechas. Dormiu bem?

​Selene sentiu o rosto esquentar, mas não desviou o olhar.

— Foi uma noite... de muitas descobertas, Penelope.

​Adrian finalmente ergueu os olhos do mapa. Ele observou Selene por um momento longo demais para ser apenas casual. Não havia um sorriso, mas o gelo em sua expressão parecia ter rachaduras.

​— Você está presente — observou Adrian, a voz profunda. — Achei que preferiria descansar após a viagem e... as mudanças.

​— Eu disse que não seria uma rainha decorativa, Adrian — Selene respondeu, servindo-se de um pouco de chá. — Pretendo conhecer o reino, e isso começa pelo desjejum.

​Cristian Blake interveio com sua calma diplomática.

— É uma excelente iniciativa, Rainha Selene. Temos muito o que organizar para a sua apresentação oficial ao povo. O conselho está curioso sobre a nova soberana.

​— O conselho terá que esperar — Adrian interrompeu, voltando a fechar o mapa. — Hoje, Maria Benevides mostrará a Selene o funcionamento interno do castelo. Penelope, acompanhe-a. Quero que ela entenda que em Oakhaven, cada grão de trigo é contabilizado.

​Selene pousou a xícara com um tilintar metálico.

— Eu sei contar, Adrian. E sei gerir. Se você me deu um reino para cuidar, não me trate como uma aprendiz de governanta.

​Penelope soltou uma risadinha baixa, visivelmente entretida pela audácia da cunhada.

— Oh, irmão... acho que você subestimou o fogo de Delavga. Ela não vai apenas obedecer aos seus decretos.

​Adrian inclinou-se ligeiramente na direção de Selene, o olhar fixo.

— O fogo é útil para aquecer o castelo, Selene. Mas se ele queimar as cortinas, ele se torna um problema.

​— Então certifique-se de não me deixar perto demais das cortinas — rebateu ela, desafiadora.

​Um silêncio tenso e carregado de eletricidade se instalou na mesa. Cristian pigarreou, tentando aliviar o clima.

— Bem, as provisões para o inverno são a nossa prioridade. Majestade, se me permite, após o tour com Maria, adoraria mostrar-lhe a biblioteca do conselho. Há registros que podem interessar a alguém com sua... curiosidade.

​Selene assentiu, mas seus olhos ainda estavam travados nos de Adrian. O Rei de Ferro sentiu que, embora tivesse consumado o casamento fisicamente, a batalha para conquistar a vontade daquela mulher estava apenas começando.

​— Faça como desejar, Cristian — disse Adrian, levantando-se. — Mas lembre-se, Selene: aqui, o dever vem antes do desejo. Sempre.

​Ele saiu do salão com passos firmes, mas antes de cruzar a porta, lançou um último olhar por cima do ombro para a esposa, um olhar que misturava posse e uma admiração que ele jamais admitiria em voz alta.