O Preço da Ambição
3 A Verdadeira Suzan
O silêncio do novo apartamento no Morumbi parecia grande demais para Suzan. Deitada na cama de casal com lençóis de fios egípcios que ela ainda mal conseguia acreditar que eram seus, ela encarava o teto, perdida em pensamentos. A imagem de Leonard Vance, com seu olhar de ônix e sua postura implacável, não saía de sua mente. O primeiro dia de trabalho tinha sido exaustivo; passar horas sob a vigilância silenciosa daquele homem era como andar em um campo minado.
O toque estridente de seu celular cortou a quietude da noite. Ela piscou, tateando o criado-mudo. Na tela, um número desconhecido.
— Alô? — Suzan atendeu, a voz levemente rouca pelo cansaço.
— Senhorita Styles. Espero não estar interrompendo nada — a voz barítona e inconfundível de Leonard ecoou pelo receptor, fria e direta como sempre.
Suzan sentou-se na cama imediatamente, ajeitando a postura por puro reflexo.
— Senhor Vance. Não, não estava interrompendo. Aconteceu alguma coisa?
— Preciso de você na holding amanhã bem cedo. Às sete em ponto na minha sala — ele ordenou, sem rodeios. — O fornecedor da nova linha de maquiagens antecipou a entrega das amostras. Precisamos escolher e definir as cores do próximo catálogo antes da reunião com a diretoria.
— Entendido. Estarei lá às sete — ela respondeu prontamente.
— Ótimo. Não se atrase. Passar bem, senhorita Styles.
A linha ficou muda antes que ela pudesse dizer qualquer outra coisa. Suzan soltou um suspiro longo, jogando o aparelho na cama.
“Não se atrase”, ela repetiu mentalmente, imitando o tom autoritário dele.
Na manhã seguinte, o despertador tocou antes das seis. Suzan caminhou até o closet luxuoso, repleto de ternos de alfaiataria e vestidos de grife que o dinheiro de Ricardo havia comprado. Ela estendeu a mão para um conjunto preto impecável, mas parou no meio do caminho. As palavras de Leonard no dia anterior ecoaram em sua mente: “Espero que você seja tão boa com os prazos quanto é em escolher roupas caras”.
Aquele desdém havia cutucado o orgulho dela. Ele achava que ela era apenas mais uma dondoca fútil vestindo marcas para impressionar?
— Quer saber? Chega de disfarce — Suzan murmurou para si mesma.
Ela deu as costas para as roupas de grife e foi até a mala antiga, aquela que trouxera de sua velha casa e que Hellen insistira em guardar no fundo do armário. Revirando o tecido simples, encontrou o que procurava: um vestido azul-claro, de algodão, com a saia rodada que ia até o meio das coxas. Era simples, delicado e totalmente ela.
No banheiro, em vez da escova perfeita e alinhada, ela puxou os cabelos ruivos para cima, prendendo-os em um coque alto e despojado, deixando que alguns cachos naturais caíssem livres emoldurando seu rosto. Nos pés, calçou uma sandália de salto baixo, confortável. Para finalizar, ignorou os frascos de perfumes importados na bancada e pegou sua pequena colônia de farmácia. Borrifou o aroma doce e nostálgico de morangos no pescoço e nos pulsos.
Ela respirou fundo. Aquela era a verdadeira Suzan Styles. Sem armaduras de um milhão de dólares.
Pegou sua pasta de trabalho e saiu.
O relógio marcava exatamente seis e cinquenta e cinco quando Suzan empurrou a porta pesada da sala da presidência.
Leonard estava de pé junto à mesa de centro, onde várias paletas de cores, texturas e frascos de teste estavam espalhados. Ele vestia apenas a camisa social branca, com as mangas dobradas até os antebraços, e a gravata ligeiramente frouxa, parecendo já estar imerso no trabalho há horas.
Ao ouvir o clique da porta, ele começou a falar sem sequer erguer os olhos.
— Você pontual, Styles. Já separei os pantones de vermelho e nude para o catálogo de outono, preciso que você...
Leonard travou no meio da frase quando finalmente levantou a cabeça para encará-la.
O olhar dele fixou-se em Suzan, e o silêncio desabou sobre a sala. Seus olhos escuros, que antes pareciam pedras de gelo, varreram a figura da ruiva de cima a baixo. Não havia mais o terno corporativo blindado ou a maquiagem pesada. Diante dele estava uma jovem de beleza suave, vestindo um azul que fazia seus olhos parecerem ainda mais vivos, exalando uma aura juvenil e genuinamente inocente.
Uma ruga sutil surgiu entre as sobrancelhas de Leonard. A surpresa passou por seu rosto de forma rápida, mas perceptível, antes que ele recuperasse a máscara de indiferença.
— Mudou o guarda-roupa da noite para o dia, senhorita Styles? — ele perguntou, a voz um pouco menos firme do que o habitual.
Suzan caminhou até a mesa com passos leves, a saia rodada balançando sutilmente. Ela colocou a pasta sobre a mesa e sorriu, um sorriso calmo e sem a tensão do dia anterior.
— Digamos que eu prefiro trabalhar confortável quando o dia promete ser longo, senhor Vance — ela respondeu, aproximando-se das paletas. — E achei que seria bom trazer um pouco mais de... cor para o setor de criação.
Leonard deu um meio passo para trás quando ela se aproximou. No mesmo instante, o aroma doce e fresco de morangos invadiu o espaço, substituindo o cheiro sóbrio de couro e café da sala. Era um perfume simples, quase infantil se comparado às fragrâncias complexas que a holding desenvolvia, mas que de alguma forma prendeu a atenção dele de maneira magnética.
Ele pigarreou, desviando os olhos para os papéis em sua mão, visivelmente incomodado com a quebra da distância profissional que aquela nova versão de Suzan causava.
— O mundo corporativo exige uma certa imagem, Styles. Espero que sua competência não seja tão... informal quanto suas vestimentas.
— Garanto que minhas ideias são muito mais maduras do que o meu vestido, senhor — Suzan rebateu com doçura, pegando um dos testes de batom e deslizando a cor na própria mão para avaliar o pigmento. — Agora, vamos trabalhar? Temos um catálogo para criar.
Leonard a observou de soslaio por um segundo longo demais. Pela primeira vez desde que ela cruzara aquela porta, ele sentiu que a nova assistente seria um problema muito maior do que ele havia antecipado — mas não pelos motivos que ele imaginava.
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