O Preço Da Morte
5 Sanidade
Notas iniciais
Boa leitura =D
Não sei por onde começar para recuperar minha sanidade. Está tudo bastante confuso ainda. Minhas mãos tremem quando penso no que vou encontrar quando voltar. Minha mente pára.
Somente o branco é real, o que confirma minha possível ignorância.
– Henrique de Paiva Resende.
___X___
A casa da avó de Susan era um pouco afastada da cidade. Com um terreno grande, havia, no quintal, várias árvores frutíferas em um belo pomar. E era ali que Susan estava, sentada em um balanço, pensando. A irmã ficara muito feliz, ambas ficaram. A avó, então, nem se fala. Mas Susan não podia evitar a sensação constante de que algo estava errado. Algo estava fora do lugar. E, pensando bem nisso, era ela. Não devia estar ali. Lembrou-se das coisas que vira, e voltavam, cada vez mais vívidas, a sua mente. Não, não estava certo.
– Susan? O que faz aqui? – Interrompendo seus pensamentos, sua irmã, Megan, chegou ali. Sentou-se em um balanço ao lado do que Susan estava. Eram três ao todo, lado a lado, com bancos de madeira e uma corda resistente amarrada em um galho grosso de um pé de manga. – Você anda estranha, Sue. – A irmã acrescentou quando ela não disse nada.
– Estou bem – Susan adiantou-se, querendo terminar logo com o assunto. Megan era muito protetora, e às vezes tratava-a como se fosse sua mãe. Isso a irritava, por vezes, embora fosse bom para Lucy uma presença como a dela. Susan não era o melhor exemplo.
– Eu sei que há algo errado, Sue, te conheço desde sempre. É o George? Sente-se culpada?
George era o pai delas, mas não o tratavam como pai. Não o consideravam. Susan mexeu-se desconfortavelmente. Não queria contar, pois sabia que seria chamada de louca, e enviada a psicólogos e psiquiatras. Transtorno pós-traumático, era isso o que diriam. Susan tinha alguma experiência com esses médicos em particular.
Mas, por um momento, o desejo de dividir isso com a irmã foi mais forte.
– Não, não estou me sentindo culpada... É que...
Antes que pudesse terminar, foi interrompida por uma garotinha que correu até ela. Lucinda ainda usava o uniforme escolar. Seus cabelos louros, amarrados em um rabo-de-cavalo, pulavam à medida que ela corria. Fora a única que herdou isso da mãe. As irmãs possuíam a mesma cabeleira castanha do pai.
– Sue! – A menina gritou, pulando nela, e ambas quase caíram do balanço. Susan não era habituada a demonstrações de afeto assim, mas a ocasião era válida. E ela e Lucy não eram o tipo de irmãs que vivem brigando. Eram muito unidas, pois tudo o que passaram fazia com que protegessem uma a outra. – Você acordou! Sabia que acordaria.
Lucy afastou-se um pouco, parecendo envergonhada ao ver que havia interrompido algo.
– Vocês estavam ocupadas? – Perguntou.
– Não, não era nada. Vamos, você deve ter dever de casa – Megan levantou-se, seguindo a garota para dentro, lançando a Susan um olhar de “Nos falamos depois” antes de entrar.
Susan respirou fundo, levantando-se para entrar na casa, quando viu, um pouco mais para dentro do pomar, o mesmo rapaz de cabelos vermelhos do hospital. Ele a encarava, como se a chamasse, e Susan não pôde recusar. Não sabia por quê, mas estava muito tentada a saber o que estava havendo.
Olhou para trás para se certificar de que não seria seguida, seria estranho se a pegassem falando sozinha. E ela tinha certeza que ninguém mais podia vê-lo. Ou então, por que estaria ali, parado, em uma propriedade privada? Não fazia sentido.
Juntou toda a coragem que ainda tinha, pois quase toda se esvaíra de um tempo para cá. Parou, ainda alguns metros distante do rapaz, que agora sorria, satisfeito.
– O que você quer agora? – Ela perguntou, um tanto ríspida, o que não foi em todo culpa dela. Apenas não a pegara em um bom humor.
Ele recostou-se em uma árvore, cruzando os braços por sobre o peito.
– Como disse, você precisa vir ao julgamento. Não temos muito tempo. – Ele falou, parecendo tranquilo demais para quem ‘não tivesse muito tempo’. Susan ergueu uma das sobrancelhas, questionando. – Se você vir comigo, eu explico tudo. Depois do julgamento – Ele completou, vendo que não conseguiria a atenção da garota sem um bom prêmio. Para ele, humanos eram como cães, lidavam melhor com recompensas. Embora houvessem outros métodos, que ele não hesitaria em usar caso a resposta fosse negativa.
E foi esse o caso.
– Eu só quero esquecer tudo isso, então me deixa em paz, tudo bem? – Susan disse como um pedido, a rispidez de esvaindo um pouco de sua voz, na medida em que o desespero tomava conta.
O rapaz suspirou.
– Não há volta. Você não deveria estar viva. Uma peça caiu, agora é só esperar que as outras caiam atrás. Tudo se resolverá mais facilmente se você vier comigo. Não quer envolver sua família, quer? – Sua última frase não foi como um conselho, e sim uma ameaça. E Susan entendeu bem isso, embora não tenha entendido o resto.
A garota fitou os próprios pés, pensamentos e memórias girando em sua mente. Se não soubesse, ficaria louca. Precisava entender.
___X___
Kieran fitava a garota. Havia a amarrado no fundo da cela, com algumas correntes que haviam ali. Depois daquilo, ela não dissera mais nada, apenas tentara o matar. O que nunca conseguiria, já que tecnicamente, ele já estava morto. Era isso o que não entendia. Tentou, ainda, verificar as memórias dela. Não gostava de fazer isso, principalmente com mentes perturbadas, e todos os que estavam no inferno – ou a maioria – tinha uma mente assim. Mas precisava buscar pela explicação, e por enquanto, esse era o único modo.
Pena que não havia dado em nada.
Exatamente. A garota não tinha memórias. Sua memória era uma folha em branco, e isso era algo muito difícil, que só podia ser conseguido de uma forma: Alguém apagara a mente dela. E isso o levava a outra coisa: Alguém a tinha influenciado, usando habilidades mentais, para em seguida apagar sua mente. E tudo isso martelava na cabeça de Kieran, que não entendia o propósito. Se ela não podia fazer nada contra ele, para quê mandá-la?
Apoiou o queixo em uma das mãos, observando a garota que lutava para se soltar, os olhos fitando-o com fúria. Ao menos ela não falava, o que seria muito irritante. Mas ele não podia feri-la. Ao olhá-la, não conseguia evitar lembrar... Sacudiu a cabeça, tentando afastar memórias de uma vida humana há muito passada.
– Kieran? – Uma voz chamou-o, e ele estava tão distraído que nem o vira se aproximar. Levantou-se, caminhando até as grades, para ver quem o estava chamando. Era um rapaz, com a pele muito clara. Os olhos... Espera, ele o reconhecia. Os cabelos escuros agora estavam amarrados, em um rabo de cavalo frouxo na nuca, o que deixava seu rosto a mostra. Mas o sorriso que ele deu a seguir, ao ver a confusão no rosto do amigo, apenas aumentou a certeza.
– Sku? O que... está fazendo aqui? – Kieran perguntou, um pouco surpreso. Era difícil reconhecê-lo assim, relativamente “arrumado”.
– Brayan mandou-me. Ele acha que posso convencer o Júri a te poupar. – Sku deu de ombros, como se não pudesse fazer nada a respeito. Mas Kieran parecia zangado por ouvir aquele nome.
– Não acredito nele. Por que me ajudaria? – Kieran recostou-se, olhando para o nada. Brayan. Protegido do Caído para quem ele vendera a alma. Foi o primeiro a apontar o dedo, e julgá-lo por seus erros, no passado. Não que ele considerasse o que fez como um erro, não se arrependia nem um pouco daquela decisão. Se não o tivesse feito...
– Parece que o Mestre dele o mandou. Sua alma ainda é ligada ao Caído para quem vendeu-a, e seria um desperdício, como ele disse. – Sku olhou para além da grade, a garota se debatendo nas correntes, como um animal – Ei, quem é ela?
Kieran levantou o rosto, fitando a garota. Os cabelos castanho claro estavam muito desgrenhados, e os olhos amarelos, injetados de fúria. Parecia apenas haver ele ali.
– Não sei. Alguém deve tê-la mandado, embora eu não tenha entendido o objetivo disso. É fraca, não pode nem fazer cócegas em mim – Kieran sorriu torto com a última frase.
– A cabeça dela é uma bagunça! – Sku exclamou. Grande maioria dos demônios possuíam algum poder relacionado a mente, e não era diferente com Sku. Este, podia entrar na mente da vítima, assim como poderia implantar pensamentos ou removê-los... Espera! Kieran levantou-se.
– Você poderia fazer isso, não poderia? Apagar a memória dela, e influenciá-la. – Pronunciou, um pouco desconfiado, embora não visse o por que de Sku fazer aquilo. Uma brincadeira?
Sku apenas riu.
– Não, você mexe com a memória aqui. Não posso fazer nada em relação a ela. Mas eu poderia, sim, influenciá-la.
Kieran sentou-se novamente. Estava longe de desvendar aquilo. Mas, no fim, não tinha importância nenhuma. Ao menos era o que ele achava.
– Vou indo, Kier. Brayan prometeu trazer a garota. Ela pode ser uma testemunha interessante... – Sku sorriu maliciosamente, e Kieran apenas o olhou preguiçosamente.
– Por mim tanto faz. Não encontrará nada nela... – Subitamente, algo veio-lhe a mente – Espera! E se alguém influenciou a garota, para que ela roubasse meu anel? Ela não poderia pensar nisso por si própria, a menos que fosse uma cleptomaníaca.
Por um momento, Kieran sentiu que aquela garota que ele acorrentara poderia ser uma pista. Alguém o estaria ajudando? Se ele pudesse se aproximar da alma que lhe roubara o anel, para verificar suas memórias... Embora pudessem tê-las apagado. Precisaria de duas pessoas para isso, uma que mexesse com as memórias, e a outra, com os pensamentos.
– Faz sentido – Sku concordou, virando-se para sair – Vou verificar isso. Não acho que sejam muitos os que tem as mesmas habilidades que nós.
Vendo que não poderia ajudar em mais nada, Kieran voltou a sentar-se, observando Sku afastar-se dali. Como queria estar livre, para investigar tudo aquilo! Era tão ruim sentir-se impotente. E era a sua liberdade que estava em jogo.
___X___
Antes de Susan ir com o rapaz misterioso, viu-o fazer alguma coisa com sua família. Prometera que não os machucaria. Então, ele caminhou até um por um de sua casa. Eles não podiam vê-lo, mas algo acontecia quando, mesmo por acidente, olhavam em seus olhos. E ele sussurrou palavras sobre Susan, inventando desculpas para o desaparecimento completo da garota. Foi difícil para ela ter que se separar deles, logo depois de reencontrá-los. Mas era o certo, e ela se sentia melhor assim. Novamente, a sensação de não pertencer ali.
Depois disso, ele ofereceu-lhe as mãos. Susan hesitou antes de pegá-las. Foi muito estranho. Sentia-se como se seu corpo se dividisse, e uma sensação de leveza apoderou-se dela. Tudo ficou escuro por um momento, como se houvessem apenas os dois e o vazio total. E, subitamente, estavam em uma sala comum. As paredes eram totalmente brancas, havia uma mesa de madeira – talvez mogno – redonda, e em sua volta algumas cadeiras. Exceto por isso, a sala era totalmente vazia. Nem mesmo portas havia.
– Espere aqui – O rapaz pronunciou, como se fosse possível ela escapar do lugar. Antes que Susan pudesse protestar, ele desapareceu. Suspirou, sentando-se em uma das cadeiras.
Não havia lâmpadas ali, e mesmo assim, a claridade era suficiente para enxergar e até ler. Mesmo sem janelas, ela não se sentia sufocada. Passou a observar o anel. Era prata, embora ela tivesse certeza de que, por dentro, fosse negro. Possuía alguns símbolos estranhos por todo ele. De algum modo, Susan podia sentir o poder que emanava do objeto.
– Peça bonita, não é? – Uma voz interrompeu seus pensamentos, e ela assustou-se ao ver um rapaz com cabelos escuros e meio compridos, amarrados em um rabo de cavalo frouxo. Seus olhos possuíam duas cores, mas o mais sinistro eram os seus dentes. Todos muito afiados, como os de um tubarão. Inconscientemente, Susan afastou-se dele.
– Quem é você? – Perguntou, perdendo a conta de quantas vezes usara aquela mesma questão em tão pouco tempo.
– Não se preocupe. Não vou machucar você, quero apenas verificar uma coisinha... – E se aproximou dela, cada vez mais, um sorriso malicioso no rosto.
– Sku! Eu avisei para não fazer nada enquanto eu não chegasse aqui – O mesmo rapaz de antes interrompeu, quando o outro estava já próximo de Susan. Foi a primeira vez que ela sentiu alívio ao vê-lo.
Sku olhou-o, decepcionado.
– Eu e Kieran temos uma suspeita, eu só iria verificar...
O rapaz ruivo aproximou-se do outro.
– Não quero danificar a mente dela, e você não costuma ser cuidadoso, Skular. Precisamos dela sã. – Ele disse, como se Susan não estivesse na sala. Olhou-a, a seguir, como quem analisa uma mercadoria. – Vou explicar tudo para você, Susan. Mas há uma outra condição.
Susan se encostara na parede, e agora os dois rapazes a fitavam. O moreno era bem mais sinistro, mas mesmo assim não podia deixar de ter medo do outro. Sua... Aura, não era muito boa. E Susan conseguia vê-la, ou senti-la, não sabia ao certo. E o ruivo com certeza era mais perigoso ali, mesmo que parecesse se preocupar com a sanidade dela.
Algo dizia que era apenas por enquanto.
Notas finais
P.S: Obrigada a Nim por dar sua opinião em todos os capítulos! É realmente importante para mim.
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