O Preço Da Morte
6 Destino & Prazo
Notas iniciais
Devo avisar que a história começará mesmo é depois desse capítulo, por isso não teve muita ação até agora XD. Esse capítulo também será ~um pouco~ explicativo, então qualquer dúvida, podem perguntar.
Boa leitura.
Em um lugar enorme, que no inferno era conhecido como “Tribunal”, alguns demônios e Caídos conversavam. Caídos eram anjos que haviam cometido algum delito, e expulso do Paraíso. No mundo humano, também eram conhecidos por demônios, embora ali os demônios fossem qualquer um que havia vendido a alma a um Caído ou que houvesse ido para o Inferno, por qualquer motivo. Com o tempo, as almas humanas presentes no inferno tornavam-se demônios. Alguns eram mais poderosos, e tudo dependia da idade e da genética. Sim, isso contava. Os demônios eram a classe mais baixa ali, exceto pelas “almas”, e serviam para realizar qualquer coisa que os Caídos ordenassem. Por isso, eles faziam quase tudo ali, enquanto os Caídos cuidavam de coisas mais “importantes”, que muitos nem mesmo sabiam o que era. Conseguir mais almas, talvez. Com o tempo, poderiam ficar satisfeitos com o trabalho do demônio, e livrá-lo do contrato. Assim, ele teria alguma liberdade, mas em vez de seguir ordens de seu “Mestre”, seguiria ordens do Caído que governava tudo aquilo. Ou ainda, se se tornasse um Ceifador, seguiria as ordens da própria Morte.
Entre estes – os Caídos – também havia certa hierarquia. Alguns eram mais fracos, mais jovens, e eram “adotados” pelos mais poderosos, que os treinavam. Isso desenvolvia entre eles um laço como o de pai e filho, talvez mais forte, pois nunca poderiam trair um ao outro. Como um juramento, em que o que está em jogo é a sua vida. Mas a morte ali era diferente da morte na Terra. Era definitiva, e difícil de conseguir. Era preciso muito para matar de vez alguém dali. Se fosse simples, haveriam muitos se suicidando no Inferno.
E, em volta de uma imensa mesa, os mais poderosos decidiam o destino de um jovem demônio, que por um curto período de tempo, foi um ceifador.
- Ele não daria o anel para alguém, não é idiota assim! – Esbravejou um deles, batendo com força o punho na mesa. Com a potência que usara, esta deveria estar quebrada, mas não. Era feita de um tipo diferente de material. O Caído acrescentou: — Armaram para ele, não podem julgá-lo por isso. – Sentou-se novamente, tentando, com dificuldade, conter a raiva. Os cabelos louros eram bastante curtos, e em sua face rígida havia uma cicatriz que percorria um lado do rosto em diagonal, passando por um olho, que era cego. O outro olho possuía uma coloração esverdeada, que mudava de tom conforme seu humor. Agora, parecia com um mar tempestuoso.
- Talvez ele não seja idiota, de fato. Sabe que o garoto nos odeia, talvez tenha visto nisso uma chance de vingar-se – Ditou em voz mecânica outro homem, de cabelos escuros e impecavelmente penteados para trás. Parecia entediado, como se já houvesse vivido demais para cuidar de assuntos bobos como esse. Queria apenas sair dali, e fazer qualquer coisa que um ser imortal de milhões de anos faria. E era muito difícil encontrar algo que ainda lhe despertasse atenção.
Todos os outros ao redor da mesa permaneciam silenciosos, como se temessem contrariar qualquer um dos dois. Era uma decisão difícil, já que se tratava de dois Caídos muito poderosos. E por esse motivo, negavam-se a escolher um lado, como se fosse possível agradar a ambos.
Os olhos do louro cintilavam.
- Sabe o que ele fez no passado. Cumpriu sua pena, mas alguns ainda se lembram. Matar um Caído tão poderoso tem seu preço. Mas, dessa vez, não foi ele. – O louro disse em voz baixa, tentando não se exaltar e agir de forma racional, o que sempre fora difícil para ele. E por isso, perdoava Kieran pelo que havia feito. Sabia que não se pode controlar as emoções, principalmente quando se trata de família. – Não tenho testemunhas ou provas, além da alma. Se checar suas memórias, pode ver...
- As memórias podem ter sido modificadas – Interrompeu calmamente o moreno. – Que eu saiba, o próprio Kieran tem essa habilidade. Ainda existem muitas outras possibilidades para alterar humanos, eles são facilmente manipuláveis.
O louro mordeu os lábios, frustrado. Seria muito difícil convencê-los da inocência do seu pupilo. Até mesmo ele começava a rever a questão.
___X___
- O que isso quer dizer? – Susan perguntou, exasperada. Cada vez mais tudo se tornava confuso, e algo dizia que era apenas o começo.
O rapaz ruivo, que se apresentara como Brayan, sorriu. Estava sentado em uma das cadeiras naquela sala estranha, e acabara de contar uma história muito bizarra. Segundo ele, Susan roubara o anel de um ceifador, mas isso não era o pior. O pior era ele dizer que havia grande chance de ela ter sido controlada para isso. E por mais que a garota dissesse que ninguém a tinha controlado, ele parecia não desistir dessa hipótese. Ao menos o outro rapaz, o sinistro, havia ido para não se sabe lá onde. Simplesmente desaparecera, e tudo isso deixava a garota cada vez mais apreensiva. Era como se ela estivesse em um sonho, onde não podia se controlar.
- Isso quer dizer – Brayan pronunciou como se tentasse explicar algo óbvio a uma criança – Que terei de verificar sua mente. Mais precisamente, outra pessoa, pois minhas habilidades não envolvem descobrir o que está oculto... Se alguém alterou suas memórias, conheço alguém que pode descobrir. Sempre deixam rastros.
Susan continuava não entendendo. Ele não dizia coisa com coisa, deixava tudo pela metade, e a cada palavra que saia de sua boca mais em dúvida ela ficava. Afinal, onde ela estava? A principal pergunta, ele não tinha respondido.
- Ainda acho que estou sonhando, mas tudo bem... Quando vou poder ir para casa? – Susan murmurou, impaciente. Apenas queria que tudo isso terminasse. Ou não, sua vida nunca fora das melhores, talvez estar dentro de um sonho não fosse de todo ruim.
- Mas ainda assim... – Bray continuou, como se Susan nem houvesse dito nada – Mesmo que consigamos provar que Kieran não é o culpado, já é demasiado tarde. A vida, o destino, é como uma linha que interliga a todos. Cada escolha irá interferir no modo como não só sua vida, mas também a de outras pessoas, será. É assim que é o “livre-arbítrio”, todos tem alguma culpa, todas as escolhas contam. A Morte possui uma lista contendo o nome de todos que morrerão em determinado dia. Essa lista pode mudar dependendo das decisões que as pessoas envolvidas tomam. Mas, uma vez feita a escolha, não há como voltar atrás... E seu nome, ele estava nessa lista. Sua linha... Ela deveria se partir. Mas não foi. O destino não pode ser alterado, e as poucas vezes que isso aconteceu, houve muitas consequências. Mesmo que provemos que Kieran não teve culpa, já é tarde. As consequências... Elas já começaram, e só vão piorar.
Susan respirou fundo. Aquelas palavras lhe tocavam de algum modo, mesmo que fosse difícil compreendê-las com exatidão. Aquilo fazia sentido, e Sue apenas conseguia pensar que tudo era, de alguma forma, sua culpa. As consequências de que ele falava poderiam atingir sua família, e seria sua culpa.
- E se eu morresse, agora? – Susan disse, de repente. Brayan olhou-a, surpreso.
- Não adiantaria muito, já houve as alterações. Daria certo apenas se houvesse uma forma de voltar ao passado... O que, infelizmente, nunca vi ou ouvi falar. – Respondeu, dando de ombros. Seria uma boa ideia, se houvesse um modo de voltar ao passado, para Kieran não ter o anel roubado e cumprir com sua tarefa.
Susan recostou-se na cadeira, frustrada. Aquilo apenas se complicava. Eles pareciam ser capazes de fazer tudo, mas voltar ao passado, não. Se ela poderia não morrer, então tudo o mais deveria ser possível.
___X___
Kieran foi guiado por um demônio nem um pouco simpático. Só não fora acorrentado porque, bem, não havia maneira de fugir dali. Não sem o anel. Caminharam até uma plataforma, onde, ao redor, estavam vários demônios, ceifadores e Caídos. Era um julgamento grande. Ceifadores não costumavam se meter em assuntos dos demônios e Caídos, mas dessa vez, era também interesse da Morte. E, como sempre, ela mandava mediadores para isso.
Assim que Kieran se aproximou, todos os olhares foram postos nele. A maioria olhava-o com desdém, embora houvessem alguns poucos que pareciam admirá-lo. Apesar de tudo, era visto como um rebelde, e os Caídos realmente faziam tudo parecer uma ditadura. Não era à toa que havia muitos insatisfeitos.
Um Caído posicionou-se à frente, uma expressão vazia, quase como se quisesse estar em qualquer lugar, menos ali. Possuía cabelos negros e impecavelmente arrumados, e uma expressão fria, imparcial. Ao menos era o que parecia.
- Todos aqui sabemos – Começou ele, seu olhar autoritário dirigindo-se a toda a multidão – Que o demônio Kieran, quando sob serviço de Ceifador, cometeu o maior delito que algum de nós pode cometer. Contrariando a própria Morte, ele poupou...
- Sabe, é quase impossível provar determinado ponto de vista – Todos os olhares se puseram, admirados, sobre o corajoso – ou louco – que ousou interromper um dos mais poderosos Caídos. E esse louco possuía cabelos muito escuros, que agora estavam amarrados. Seus olhos heterocromáticos observavam, divertidos, a reação do Caído. Este era Sku, muito conhecido por seus atos impensados – Todos aqui sabemos – Ele levantou a voz, olhando para todos ao redor, tentando imitar o tom que o Caído usara – Que Kieran não é dos mais queridos. E há vários motivos para que a situação fosse sabotada, de forma que ele fosse considerado culpado. Não há como provar isso, mas também não há como provar qualquer coisa. E qual o objetivo deste julgamento? Por acaso o tão poderoso Caído está encobertando alguém?
O Caído tentava manter sua expressão neutra, embora seus lábios tremessem. Seus olhos eram tomados por um brilho de ódio, dirigido ao insolente Ceifador que ousara desafiá-lo. Ensinaria a ele uma lição, mas não ali, onde poderia ser mal visto por todos. Não era boa hora para começar uma rebelião.
- Como ousa sugerir tal coisa? – Ele disse, em uma voz calma, porém, com os dentes cerrados. Respirou fundo, retomando sua posição. Um murmurinho já tomava conta de tudo, ficando cada vez mais alto, e vários começavam a duvidar das palavras do Caído, principalmente pelo fato de essa não ser a espécie mais querida. E muitos deles odiavam mais aos caídos que a Kieran. – Nosso amigo tem certa razão. É impossível provar qualquer coisa, nem a inocência, nem a culpa. E é por este motivo que eu estive pensando em uma solução para este impasse – Visivelmente, o Caído tentava mudar o assunto, de modo que as suposições acabassem – Todos sabem que algumas alterações começam a acontecer na Terra, que é a dimensão mais frágil. Mas caso algo aconteça à Terra, também sofreremos as consequências. E é por isso que darei a Kieran um prazo para tentar consertar essa bagunça. Se o prazo exceder, haverá a punição, e será dada pela própria Morte – Em seu rosto, o Caído exibia um sorriso triunfante. Antes que qualquer um pudesse protestar, ele completou – Kieran terá o auxílio necessário nesta busca. É o melhor que podemos fazer, já que é impossível provar quem é o verdadeiro culpado.
“E o prazo se inicia a partir de hoje.”
Notas finais
Estava pensando em começar uma história interativa, com um tema parecido com o desta. A "visão" seria a mesma, mas o enredo seria diferente, assim como os personagens. E em vez de tratar de alguém que "fugiu" da morte, mostraria mais sobre pessoas que morreram, e foram para o Inferno... Então, queria a opinião de vocês quanto a isso '~'
(e eu não pararia essa).
Até o próximo, que vou tentar escrever o mais rápido possível. Como eu mencionei, a história começa mesmo é agora =D
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