O Poder da Serpente
2 2. Caminhada
Notas iniciais
Andamos por mais ou menos uma hora em silêncio. O chão agora é formado por muitos pedregulhos, que deslizam facilmente, então tentamos ter cuidado. Estou cansada e com fome, mas continuo sem dizer nada. Não há nenhum sinal de civilização por perto, e não faço a mínima ideia de que horas são. Nada para me distrair.
Então eu passo essa única hora lembrando-me do acontecimento que não durou nem metade disso. Primeiro foi o estranho presente que agora carrego em meu bolso. Por que Melina parecia tão feliz com isso? O que ela ia dizer? O que essa pedra tem de tão importante?
Eu fico aqui pensando... Esse não seria o ovo da história, seria? Aquilo é apenas uma história. Não passa disso. Melina devia ter se enganado, devia estar louca. Dragões são apenas mitos. E mesmo que isso fosse verdade, o que eu tinha a ver com tudo isso?
E depois veio o barulho de explosão e o apagão. O que raios teria sido aquilo? Com certeza foi bem assustador. E o que é mais estranho ainda: eu me lembro perfeitamente que as pessoas de outras cabines tinham começado a comentar alto sobre isso, mesmo que depois de anos vivendo naquele lugar eu tenha me acostumado aos barulhos alheios e aquilo tenha passado quase despercebido. Mas como, depois dos meus gritos e tal, como foi que eles não perceberam? Depois de tudo, eles simplesmente foram ir dormir, como se nada tivesse acontecido?
Talvez você pense que eu estou aceitando isso muito rápido. Não, não é nada disso. Eu posso ter parado de chorar há muitos passos atrás, pois em alguma hora eu teria que parar de chorar. Mas ainda sinto como se minha mente tivesse travado, pois eu não consigo absorver exatamente tudo o que se passou.
Marcos caminha sempre na minha frente, às vezes olhando para trás para ver se eu o seguia, se eu estava bem ou algo assim. Mas não me sinto bem, e tenho a sensação de que nunca vou ficar, como quando meus pais morreram. Mas a vida tem que seguir em frente, mesmo sentindo um buraco no peito, uma depressão arrasadora.
Ele carrega minha mala no ombro esquerdo, e na sua mão direita está a espada. O sangue pinga pelo caminho de vez em quando, mas o líquido vermelho vai continuar gravado na lâmina. Não suporto olhar isso.
Tento me distrair. “Como posso confiar em você? Você está me levando para essa tal Mansão Smok, mas não te conheço. Como posso saber se você não quer me machucar?”, pergunto.
Ele me olha, ainda andando. “Não acha que se eu quisesse te machucar, já teria feito isso?”.
“Não. Não acho. As pessoas costumam mudar de ideia”, respondo.
“Você me pergunta como pode confiar em mim. Estou te levando para minha casa, e lá só há pessoas confiáveis. Bem, eu não sei como as pessoas costumam provar umas para as outras a sua capacidade de serem confiáveis. Se isso não é alguma coisa, então eu não sei como te convencer”.
“Não, não me convenceu. Essas pessoas podem ser confiáveis para você, não para mim. Mas você pode começar a tentar me convencer me dizendo quem você é”.
“Bem, e o que você quer saber?”, ele diz, depois de dar um longo suspiro.
“Não sei. Desde que você seja honesto no que diz, pode dizer qualquer coisa que quiser”.
“Hum... O que posso dizer? Sou Marcos – o que você já sabe – e tenho dezenove anos. Moro em Smok há um tempão. Lá tem gente legal, você vai ver. Mato monstros por aí, gosto de irritar os outros... E mulheres, não se esqueça delas... Você pediu para eu ser honesto, então eu vou dizer que não costumo passar as noites sozinhos”. Ele então olha para mim de jeito significativo. “Se é que você me entende”.
“Cale a boca”, resmungo.
“De qualquer forma, se é pra ser sincero de verdade, não estamos indo diretamente para Smok”, ele anuncia.
“O quê? Por quê?”.
“Ah, várias opções de resposta”, ele chacoalha a mão, fingindo desdém. “Primeiro: você deve estar cansada...”.
“E estou. Quase despencando no chão, se quiser saber. Não aguento dar nem mais um passo”.
Marcos se vira e me olha. “Mentira. Você continua andando”. Reviro os olhos, e ele continua: “Mas isso não quer dizer que eu esteja cansado também. Cansaço é pra otários, e eu estou em ótima forma”.
“Cansaço é pra otários? Você está me chamando de otária?”.
“Não me lembro de ter citado nomes... Isso é você quem está dizendo”.
Fico com uma raiva momentânea, e juro que se eu tivesse forças eu bateria nele agora mesmo. Mas eu penso melhor e continuo andando, tentando poupar energias que me são necessárias.
“Enfim...”, ele volta a dizer. “Não sei você, mas eu estou faminto, o que já é a segunda opção de resposta. Precisamos de um lugar para parar. E terceiro... Você nem entra na Mansão desse jeito. Morgana teria um treco, e você logo vai ver como ela é. Desculpe a extrema honestidade, mas o seu cheiro não é um dos melhores”.
Respiro fundo, tentando não esquentar a cabeça. “E para onde vamos então, Sr. Honestidade?”.
Ele sorri com o apelido. “Vamos dar uma paradinha na casa de um velho amigo meu. E por velho, eu quero dizer a idade dele, não a nossa amizade, que nem é bem uma amizade. Ele está me devendo por eu ter matado um monstro enorme em sua propriedade”.
“Esses monstros que você tanto fala existem mesmo ou você só está inventando para impressionar?”.
O seu sorriso desaparece, e sua expressão é muitíssimo séria. “Não brinque com eles. Eles têm ameaçado o mundo todo por milênios e milênios. Não é inteligente da sua parte dizer que eles não existem. Não há brincadeira nenhuma nisso”.
“Mas eu viajei pelo mundo todo, e nunca vi nenhuma aberração monstruosa”.
“A maior parte deles está aqui, e pessoas comuns geralmente não conseguem vê-los. Eles são muito bem disfarçados, e todos pensam que são surtos de doença e coisas assim. Mas eles existem em forma sólida, grotesca. Eles não se assemelham a qualquer coisa que se vê por aí, ou qualquer tentativa de alienígena que você possa imaginar”.
“Pessoas comuns não conseguem ver... O que você tem de tão especial?”.
“Com o tempo você vai ver. E verá também que eu não sou o único aqui que é... Especial. Mais alguma pergunta?”.
“Eu praticamente devo ter milhares delas, no entanto... Eu devo me preocupar com o seu amigo?”.
“Não, não. O velhinho é uma graça, se você tratar sua casa e tudo o que há nela com respeito. Ele se chama Guepard, e sua filha é Doralice. Não precisa ficar nervosa”.
Dou mais uns cinco passos, e então caio no chão, incapaz de continuar. Eu dou um gritinho quando os meus joelhos cedem, deixando-me sem ar pelo susto, e vão com força em direção às pedras. Minhas pernas doem muito. “Eu não consigo mais. Vamos parar um pouco, por favor. Não consigo dar nem mais um passo”.
Marcos se senta de frente para mim, sobre os pés. “Você se machucou?”.
“Não, mas as minhas pernas doem demais”, respondo de dentes cerrados, para não urrar de dor.
“Quer que eu faça massagem nas suas pernas?”, ele sorri, esticando as mãos.
Que são recebidas com um tapa, mesmo que fraco. “Não. Tire suas mãos de mim”. Ele as levanta no ar, num pedido de desculpas, mas eu tenho certeza de que não se arrependeu. “Falta muito?”.
Ele olha para o horizonte à nossa frente. Eu sigo a direção com o olhar, e vejo vários pontinhos luminosos ao longe. “É ali”, ele diz.
“Ainda falta muito!”, reclamo.
“Não falta, não. Só parece estar longe, mas andando até que iremos chegar rápido. Quer ficar sentada por um tempo?”.
“Quero”. E ajeito as pernas.
Ficamos em silêncio por um bom tempo, e eu aproveito esse tempo para recuperar o fôlego.
Não faço a mínima ideia de que horas sejam, mas já deve passar da meia-noite. Reparo que não sei nem em que país estou, mas esse parece muito diferente de todos os outros por onde passei. Mas eu não pergunto. Na verdade, não importa muito onde estou. Passei muito tempo presa no mesmo lugar, sem amigos. Agora o que eu mais quero é viver.
Depois de passados alguns minutos, Marcos começa a falar. “Bom, você me pediu para falar sobre mim, para que eu pudesse ser de sua confiança. Eu falei. Na Mansão sempre falamos que a pessoa não é obrigada a contar sobre sua história, a menos que queira, é claro. No entanto, você também é uma estranha para mim, para todo mundo. Eu não levo para a minha casa quem eu não conheço. Como posso saber se você também é confiável?”.
Ele está certo. Então começo a falar.
“Eu não tenho muita coisa interessante para dizer. Meu nome é Kiria Draconem, e hoje completo dezoito anos. Meu presente de aniversário é uma tragédia”, começo.
“Que merda, Kiria. Sinto muito”, ele comenta, com uma verdadeira tristeza em sua voz, perceptível de longe.
“Pois é. Eu morava naquele trem desde os meus seis anos. E só fui para lá porque meus pais morreram em um dos ataques, e botaram fogo na minha casa. Eu vi tudo”.
Quando eu falo essa segunda parte, a expressão de Marcos é verdadeiramente de tristeza, como se ele pudesse sentir tudo o que eu havia sentido há tanto tempo atrás. E que ainda sinto parte disso até hoje. Mas ele não comenta nada, e acho que ele nem consegue fazer isso.
“Melina – a mulher que morreu – foi contratada pelos meus pais para cuidar de mim, e depois que eles morreram, ela meio que me adotou. Você estava certo quando disse que eu não tinha nenhum lugar para onde eu poderia ir. Eu não tenho avós, nem tios, nem primos. Eu estou completamente sozinha”.
Eu deixo de fora o que aconteceu mais cedo, antes de Melina morrer. Ele não precisa saber. Eu sinto que isso é algo que eu preciso descobrir sozinha.
“Agora você não está sozinha. Você tem Smok, e a Mansão abriga quem realmente precisa de ajuda e proteção. Ela acolhe e cuida, como se fosse uma mãe”, ele diz.
Dou uma risada, mas sem humor algum. “Eu não sei direito o que é uma mãe há um bom tempo”. E depois completo, sabendo pela expressão de Marcos o que ele diria em seguida: “Melina não me tratava como mãe. Ela cuidava de mim, me alimentava e me educava, eu sei disso. Mas ela era mais uma companheira de quarto – no caso, de cabine – do que uma mãe. Ela gostava de mim, e eu sentia isso a todo segundo, mas não tinha aquele preenchimento de vazio, aquele carinho de mãe”.
“Eu entendo o que você quer dizer”, ele diz baixinho, mais para si mesmo.
Eu o olho com curiosidade, mas não digo nada sobre isso, e ele também parece não querer comentar. Tento mudar de assunto. “Você disse que mata monstros, não disse? Como eles são, de verdade? É fácil matá-los?”.
Um leve sorriso aparece no rosto de Marcos. “Bem, eles não têm uma aparência fixa, você sabe. Uns são fumaça, outros são gosma... E tem a parte que é sólida, que é a maioria. Todos os tamanhos. Pouquíssimos não incomodam. E não é porque você se acostuma com eles que isso deixa de ser perigoso ou assustador. Claro que a qualquer hora você pode não conseguir completar o serviço. Sempre vai ter esse momento, esse risco. Mas é algo necessário para proteger o povo, e proteger a si mesmo”.
“E aparentemente é isso que você gosta de fazer”, comento.
Seu sorriso se alarga. “É legal se sentir útil, saber que as pessoas podem viver seguras por sua causa”.
Ficamos em silêncio por um tempo, e sinto minha perna doendo, o sangue pulsando. Minha barriga ronca uma vez, e mesmo com muitos casacos, eu sinto frio. Mas logo eu sinto que posso continuar. Então nos levantamos e continuamos.
Mais uma hora andando, e começamos a finalmente entrar na cidade. Eu ainda não faço ideia de que horas são, mas ainda está escuro, mesmo com as luzes acesas da cidade. Acho que em no máximo meia hora os primeiros raios de sol irão rasgar o céu.
A aparência das ruas é realmente muito triste. As casas são cinzentas e sujas, algumas com as paredes descascando ou caindo aos pedaços. Árvores secas, mortas. Arbustos e gramas totalmente tristonhos, sem uma florzinha que seja. Como se toda a vida daquele lugar, que dirá em todo o mundo, tivesse sido sugada. Não há pessoas nas ruas, nem animais. Não há pássaros voando, não há um barulho sequer.
Como se fosse uma cidade fantasma.
Eu estaria tremendo de medo se Marcos não andasse de maneira tão certa e confiante, me incentivando a fazer o mesmo, ainda que mais hesitante.
“Você tem certeza de que é aqui mesmo?”, pergunto.
“Absoluta”.
“Estamos perto, pelo menos?”.
“É ali”, ele diz, apontando. E eu sigo a direção apontada com o olhar, e me pergunto como foi que eu não notei aquilo antes.
Uma enorme mansão de dois ou três andares se destacava das casas de apenas um andar, a algumas quadras de distância. Quase dou um tapa em minha testa por ser tão cega. As paredes brilham em um vermelho vivo, e o teto é dourado como se fosse feito de ouro, assim como as janelas, que estão fechadas.
Aproximamo-nos mais, e posso ver a classe nos detalhes da mansão. Curvas e círculos combinam com linhas retas nos lugares certos, como de as mãos de um arquiteto e um pedreiro tivessem dançado por ali com o cimento, gesso, ou seja lá qual foi a massa utilizada.
Paramos em frente ao portão de ferro, detalhado com mais curvas e símbolos que nunca vi. Não estamos nem um minuto ali, nenhum de nós se move para apertar qualquer tipo de campainha – que por sinal não vejo nenhuma ali –, mas os portões se abrem sem nenhuma ajuda. Sozinhos.
Marcos começa a me guiar pela estradinha de pedras, que atravessa o jardim. Flores de muitas cores e espécies brilham com os primeiros raios de sol, formando um incrível espetáculo de beleza e delicadeza. O aroma é simplesmente surpreendente, algo que eu não sentia há muito tempo. Inspiro profundamente, tentando captar todos os cheiros e guardá-los na memória, e então seguimos andando. Alguns passarinhos passam voando aqui e ali, cantando suas saudações e seus chamados, e misturando mais cor a essa maravilha.
De tão distraída que estou com essa beleza imensa, não percebo que Marcos parou de andar, e tropeço nele. Fecho os olhos sabendo o que estaria por vir – meu glorioso encontro com o chão –, mas ele me segura antes que o acidente praticamente inevitável pudesse acontecer.
“Desculpe-me”, eu digo, endireitando minha postura.
“Tudo bem”, ele responde. “Só tenha mais cuidado”.
“É claramente compreensível essa sua distração, minha jovem”, diz uma voz. “Se eu já não estivesse acostumado com essa imensidão de cores, minha reação seria a mesma, como assim foi há anos e anos atrás”.
Viro-me na direção da voz.
O que vejo é um senhor de idade indefinida, mas que é muito, muito velho. Veste um robe parecido com de um feiticeiro, e provavelmente é o que ele é. Azul escuro com pontos prateados, como se fosse estrelas. Alto, mas com as costas um pouco curvadas pelos anos vividos. Um rosto aparentemente gentil, mas ao mesmo tempo muito sério. Ele olha diretamente para mim.
“Sejam muito bem vindos à minha casa. Como posso ajudá-los?”, ele pergunta.
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