O Plano B

18 XVII - Cryptic Warning.


Notas iniciais
Hey lindos e lindas! õ/
Como estão? *-*
Bem, primeiro quero falar que essa cena inicial eu escrevi pensando no King Lawliet, que havia me pedido, e eu espero muito que corresponda às expectativas dele xD
Segundo, quero agradecer à D ~like always~, por suportar minhas crises de fic-writer e sempre me deixar alegrezona para escrever ~ além de betar excelentemente! ^^
E terceiro, quero agradecer à Lai-chan pela recomendação super perfeitona *--------*
E comemorar, porque eu não demorei duas semanas para escrever kk *-* Os prazos e o número crescente de reviews são diretamente proporcionais kkk Arigatou s2
Beijinhos e boa leitura pra vocês,
L.B.
^^

L deveria ser preso.

Algemado.

Enjaulado.

Qualquer coisa, mas alguém precisava detê-lo antes que Raito resolvesse fazer isso com as próprias mãos.

Ele não ia fazer com as mãos.

A ferramenta principal, no mínimo, seria a boca.

Ele conseguia se imaginar perfeitamente atravessando a torturante distância de cinco passos, arrancando L de sua zona de conforto, puxando-o pela camiseta, e finalmente, atirando-o no chão — só para subir por cima dele, e roubar o morango de seus lábios incolores. Com a boca.

E já que tinha ciência de que esse era seu desejo mais profundo, Raito tinha que abusar do próprio autocontrole, já que ninguém naquela Central parecia perceber os crimes que o detetive cometia, embora, vez ou outra, pudessem noticiar seus ruídos.

Gotas de suor escorriam pelos cabelos disciplinados de Raito, no frio de 15 graus de Tóquio, e não havia nada que pudesse fazer a respeito, a não ser (tentar) desviar o olhar.

O processo era mais ou menos assim: Mogi arquivava folhas de dados em ordem alfabética, Matsuda e o Sr. Yagami recolhiam informações inéditas das vítimas que morreram com causa mortis diferente de parada cardíaca, Aizawa enfrentava uma sessão com uma mulher pseudo-sã que dizia ter provas de que seu marido era Kira, Raito abria ilegalmente arquivos bap trancados nos computadores das vítimas mais notórias e os examinava minuciosamente, e L, a despeito de seu notebook aberto em uma página aleatória, comia morangos com chantilly e açúcar.

Quer dizer...

Se L estivesse apenas comendo (no sentido literal), estaria tudo bem.

Seria aceitável, e Raito continuaria seu trabalho sem nenhum problema, contentando-se em esperar até que a noite baixasse, para que pudesse ter seu momento a sós com o detetive e finalmente discutisse com ele.

Mas não.

Bastava que os ex-policiais aparentassem estar um bom tanto focados em suas respectivas tarefas, para L inocentemente brincar com seus morangos de uma forma nada... comportada.

Slurp. Nhac.

O garoto tentava (ele jura que tentava) ignorar e não olhar para a esquerda, na direção que os sons estavam vindo, mas... Era algo humanamente impossível.

Como se tivesse vida própria, seu pescoço fazia os noventa graus e seus olhos eram brindados com a visão de L segurando estranhamente um morango pela parte verde.

Ele deslizava a língua pela camada doce e branca, e mordiscava a fruta lentamente, até ser possível ver flocos de açúcar alojando-se no canto de seus lábios, enquanto saboreava com as pálpebras semicerradas. E pequenos não-tão-silenciosos gemidos de deleite.

Não demorava muito para que as pupilas de Raito se dilatassem. E muitas outras coisas também...

Ah, não... Isso não pode estar acontecendo.

Aí, ele parava. Fingia se interessar repentinamente por algo na tela do notebook... Atirava uma ou outra ordem, a Mogi ou a Matsuda... E esse era o tempo para Raito se recuperar parcialmente, depois de amaldiçoá-lo centenas de vezes por pensamentos... Ele respirava fundo. Iludia-se, achando que a tortura havia acabado.

Só para o processo se repetir mais uma vez.

Slurp. Nhac.

E agora, não satisfeito, L ingenuamente lambia os próprios dedos.

Um por um.

Raito já havia se metamorfoseado em um desses dedos pelo menos umas mil vezes, mentalmente. E devorava o detetive com os olhos, mordendo o lábio inferior, como se a qualquer momento seu impecável autocontrole fosse acabar se quebrando. Como se fosse apelar para o instinto, pulando em cima de L feito um... animal no cio, ou algo que o valesse.

Que humilhante.

Alguém deveria instruir L a não lamber os dedos em público. Muito menos na frente de um certo alguém com níveis exuberantes de testosterona. E muito menos ainda numa Central de Investigações que, só para constar, era o mesmo ambiente em que o pai desse certo alguém estava.

Mas não, por mais que os níveis de socialização daquela criatura insensível tendessem perigosamente a zero, ele com certeza não era inocente.

Ele estava fazendo aquilo de propósito. Só podia ser. Só porque Raito não pôde falar com ele na noite anterior, e regressara ao QG tarde demais, ele estava se vingando e fazendo-o quase desmaiar de tesão, na frente de todos, quando tudo que deveria se preocupar era em decodificar a sequência complexa de algarismos à sua frente.

Maldito detetive.

Sluuurp.

Raito subitamente desafroxou a gravata e decidiu que precisava relaxar. Descontrair.

Liberar a tensão.

Endireitar a cadeira.

Cruzar as pernas. Principalmente cruzar as pernas.

Nhac.

Sluuurp.

Piscou para a tela de seu notebook e para a sequência de números e letras. Ok, vamos lá, se cada número correspondesse ao algarismo romano respectivo, L com certeza não estaria mergulhando os dedos dentro da boca como poderia fazer com outras coisas; primeiro o indicador, depois o médio, depois o anelar, entre pequenos ruídos de satisfação e prazer, e sucções...

Ah, merda, dava para ver tudo com a periférica.

O polegar no lábio inferior, os três dedos juntos dentro da boca, o chantilly escapulindo pelo queixo (só pedindo para que alguém viesse limpá-lo...).

– Você está bem, Raito? – Papéis voaram para todos os lados quando Mogi colocou uma das mãos sobre o ombro do Yagami mais novo, e este levou um susto tão gigantesco que se ergueu de súbito e fez com que os papéis que o ex-policial segurava, todos recém-organizados em ordem alfabética, voassem em todas as direções possíveis, assustando e surpreendendo a todos no QG.

– Yagami-kun! – A voz de L ressoou em forma de uma exclamação acusatória. A maldita voz dele. Por que não podia ser menos rouca ou... grossa... ou sexy? Por que não podia ser algo tão desestimulante como os gritos histéricos de Misa ou qualquer coisa que o valesse? L era um tremendo desgraçado. – Não acredito nisso. Desde cedo Mogi-san estava organizando esses arquivos... Tão importantes. A pedido meu.

– Ah...E-eu...Irei recolhê-los agora mesmo, Ryuuzaki.

Raito quase sentia o nível da satisfação pessoal de L crescer em progressão geométrica (com certeza o faria pagar por isso, mais tarde), mas faria qualquer coisa para ter alguns momentos de paz agachado, onde ninguém pudesse ver além de suas calças -e de preferência sem ouvir barulhos de sucções definitivamente mal-intencionadas. Se é que alguns já não haviam reparado em sua atual situação, mas se abstiveram de comentar.

– Que decepção. Eu poderia esperar algo semelhante de Matsuda-san, não de você.

– Ei, Ryuuzaki! – Matsuda, que não estava longe o suficiente para ser surdo, manifestou sua indignação, com um tom de voz quase magoado.

– Não foi culpa do Raito, Ryuuzaki. Eu o assustei, sem querer. –Mogi retificou-se, abaixando-se (para o pesar do Yagami mais novo) para ajudá-lo a recolher os papéis.

Silêncio.

– Você pulou feito um gato, Raito-kun. Teria alguma coisa perturbando você?

Agora que estava mais “estável”, Raito não se via imaginando mais de mil vezes trocar de lugar com os dedos do detetive, e sim mil maneiras de matar o mesmo, de preferência de uma forma bem lenta e torturante, com direito a mutilações e esquartejamento.

Não.

Não daria o gostinho de olhar nos olhos dele, e provavelmente detectá-lo ainda segurando aquela tigela de morangos.

Não daria mesmo.

Tem certeza? – O detetive insistiu. – Se eu fosse Kira, e estivesse trabalhando na minha própria captura, eu definitivamente me sentiria perturbado...

– Ryuuzaki! – A voz do Sr. Yagami repentinamente interrompeu. –O Raito não pode ser culpado. Há a Regra dos 13 dias que-

– Sei disso, Yagami-san. – L replicou em um tom de voz não mais que monótono. – Foi apenas um comentário pontual. Não pretendo mais sugerir mais que Raito possa ser Kira. – Serpenteou o polegar (ainda um pouco cheio de saliva) no lábio inferior, cuidando para que ele não ficasse a meio caminho de um sorriso. – No entanto, Raito-kun, preciso fazer alguns comentários sobre a sua eficiência nesses tempos. Importa-se em me acompanhar?

– Er...Mas acontece que há os papéis e-

– Mogi-san não vai se importar em recolhê-los e organizá-los novamente, não é mesmo?

– Sem dúvidas de que não, Ryuuzaki.

– Então, siga-me.

Argh. Era simplesmente irritante.

Nessas horas, Raito realmente se sentia feliz por estar planejando algo que culminaria na morte de seu querido -por falta de palavra melhor- amante detetive, só para nunca mais ter que ouvir aquele timbre autoritário dele, que não aceitava discussões.

Embora o mais novo tivesse que concordar... Uma parte sua não queria discutir, queria logo ficar a sós com ele e pedir para que ele mostrasse mais de perto como se fazia para comer morangos.

Ou apenas comer.

Mas algo lhe dizia que não poderiam pular logo para essa etapa. Ainda havia muita coisa a ser dita. Não ficavam a sós desde a tarde do dia anterior, quando Raito regressara depois de falar com Mikami, e passar no apartamento de Misa. Só que a culpa para isso também não havia sido sua. As luzes simplesmente estavam apagadas, e não se sentia -embora tivessem, de certa forma, oficializado sua relação- íntimo o suficiente para procurar L em seu andar particular.

Perguntava-se onde ele poderia estar levando-o agora. Torcia que fosse para o próprio quarto, ou para qualquer outro lugar onde pudessem estar a sós, e ele pudesse se vingar pelos joguinhos. Quase podia ouvir os barulhos da corrente tilintando, enquanto subiam as escadas e driblavam os corredores, pois nesses momentos sequer parecia que ela fora arrancada. Raito instintivamente mantinha alguns metros de distância, limitando-se a observar as costas encurvadas de L, enquanto engolia as próprias palavras. Não sabia se era sensato dizer alguma coisa. Queria verbalizar suas maldições ao detetive, mas por outro lado tinha um presságio de que seria melhor que fizesse isso quando ele se pronunciasse.

Foi então que uma porta metálica se materializou na dobra de um dos corredores, e L parou repentinamente diante dela, apurando os ouvidos para captar os passos do mais novo e para saber que ele estava logo atrás de si.

Opa.

Raito não se lembrava dessa porta. Não que devesse se lembrar de cada porta daquele edifício gigantesco, mas essa porta não lhe parecia nem remotamente familiar, e sequer maçaneta possuía. Ficaram uns bons segundos apenas parados diante dela, até que L a abriu com um empurrão, e não se preocupou em segurá-la para o Yagami, que ao seguir-lhe mais de perto e com curiosidade, quase teve seu nariz comprometido, como consequência do mecanismo de puxe-empurre.

É claro que se impediu de reclamar, para não dar tal satisfação ao detetive, mas estava longe de se sentir alheio com aquela audácia. Como se não bastasse a humilhação de minutos atrás, L ainda tinha a coragem de jogar uma maldita porta metálica em sua cara.

Isso não está nada certo...

Entretanto, assim que atravessou a porta misteriosa, a surpresa que Raito teve foi o suficiente para limpar sua mente de quaisquer pensamentos obscuros que pudesse estar tendo em relação a L.

Já estava há meses naquele lugar, mas era incrível como ainda conseguia se surpreender com o conteúdo que suas salas podiam abrigar.

Os dois simplesmente estavam dentro de uma... Sala de Banhos. E uma com bancadas de mármore branco, sais de banho e jacuzzis com torneiras de prata, onde as portas não tinham maçanetas, e o número de espelhos era no mínimo impressionante.

Sendo que um deles -e Raito involuntariamente mordeu o lábio inferior ao constatar- estava deliberadamente preso no teto.

– Tsc. Eu nunca poderia imaginar que você era assim, detetive... – O choque de contemplar aquele lugar conseguira dissolver todos os receios do Yagami, de modo que ele se atrevia a dissecar a figura do mais velho à sua frente com malícia, restringindo-se a balançar a cabeça para os lados. – Isso é quase ilícito, sabia?

L estava parado bem diante dele, fitando-o como se não houvesse tédio maior em todo mundo. Mas ainda havia um pouco de açúcar no canto de seu lábio, e os cabelos cobriam-lhe os olhos de uma maneira quase charmosa.

E Raito sabia que iria arrancar essa expressão de tédio do rosto dele, logo, logo.

– Eu havia programado essa sala para atender aos caprichos de Amane-san, que excepcionalmente precisava estar conosco. É o tipo de coisa ridícula a qual ela se afeiçoa facilmente, mas justamente por ser uma sala de banhos, é possível desligar os mecanismos de monitoração por um intervalo de tempo pré-determinado, que varia de 10 a 200 minutos. Achei que seria o lugar ideal para nós discutirmos, sem que prec-

– Não precisa mais explicar. – Raito esboçou um sorrisinho de canto, mal percebendo que havia acabado não só de interromper L, como também deixara passar em branco que ele denominara as coisas que Misa se afeiçoava fácil como coisas ridículas. – Vamos discutir logo, antes que os outros venham à nossa procura...

O garoto sequer conseguia firmar os pés no chão, tamanha era a sua euforia e o nível crescente de excitação que circulava em suas veias.

L somente franziu as sobrancelhas, absorvendo as informações, mas era tarde demais para dizer qualquer coisa, pois o mais novo já havia percorrido a pouca (porém torturante) distância que os separava e agora estava somente prestes a avançar para cima dele...

– Não, Raito-kun! – L se esquivou violentamente, um segundo antes de suas peles se encostarem e de Raito pressionar os lábios contra os seus. Em seguida deu três passos para trás. – As câmeras ainda estão ligadas. – Informou, mas o Yagami já havia perdido o equilíbrio, a essa altura, e fitava o nada como se não se conformasse em ter vento aonde a boca de L deveria estar. – Vou desativá-las agora. – Deu-lhe as costas e caminhou a oeste da porta metálica, até um azulejo, que pressionou e removeu da parede, revelando um pequeno gestor de códigos.

Digitou a senha, e somente depois de ouvir o “bip” das câmeras se desativando é que voltou a se dirigir ao Yagami, que parecia estar enfrentando uma imensa frustração pessoal.

– Argh. – Raito resmungou, assim que seus olhos se cruzaram com os do detetive. Ele podia ter dado qualquer desculpa, mas isso não mudava o fato de que o esquivara, coisa que ninguém deveria se atrever a sequer pensar em fazer -pelo simples fato de ele ser Raito Yagami. Aquele maldito. – Por que diabos essas câmeras estúpidas precisam existir? – Protestou, e fez questão de ressaltar o tom retórico, mesmo sabendo por antecipação que não iria funcionar.

L sempre tinha uma resposta na ponta da língua.

– Ora, isso é muito óbvio, Raito-kun. – O tom do detetive quase beirava ao desdém. – Elas desencorajam completamente os assassinatos por aqui.

– Aham. – Raito concordou, sarcástico. – E, só a titulo de curiosidade, quem “por aqui” iria querer te assassinar?

– Como assim ‘quem’...? Kira, sem sombra de dúvidas.

– Mas Kira não sabe quem você é e muito menos onde você está.

Você sabe onde eu estou.

– E o que eu tenho a ver com isso, L?

Àquela altura o garoto já havia cruzado os braços. As sobrancelhas também erguidas, fazendo um belo contraste com seus olhos semi-injetados. O que mais o atormentava, no entanto, não era o fato de L estar deliberadamente sugerindo que poderia ser Kira, logo depois de tê-lo rejeitado. Isso era quase previsível. O que o deixara realmente aborrecido era ele não ter mencionado nada sobre “saber quem você é”, preferindo usar o “onde você está”.

Era quase como se ele quisesse deixar implícito que Raito não o conhecia ou como se tudo que ele soubesse fossem apenas pingos de tinta do papel que ele representava.

do papel.

– É apenas um fato. – O detetive deu de ombros sutilmente, mas Raito conseguira visualizar um pouco de escárnio nisso, e pelo acúmulo de fatores, não demorou até que sentisse uma raiva crescente e ficasse profundamente irritado.

Era lógico, no entanto, que o fato de L achar que Raito não o conhecia se dava porque uma parte dele ainda nutria suspeitas.

Era esse o motivo da súbita frieza dele, então...?

Raito precisava fazer com que mudasse de ideia.

– Por que me trouxe até aqui, L? – Arremessou, acentuando seu rancor, que não era exatamente falso. – Não estava se divertindo o suficiente com seus joguinhos, na Central?

– Hum? Não faço a mínima ideia do que você está falando, Raito-kun.

– É claro que não.

– Eu o trouxe até aqui porque precisava perguntar se você fez o que eu lhe pedi. – L se explicou, assumindo sua melhor postura convincente e inabalável. – Com o tempo que demorou para voltar, creio que não tenha feito apenas isso... Entretanto-

– Está me perguntando se terminei com Misa? – Raito interrompeu o detetive, somente porque sabia que ele detestava ser interrompido. – Sim, é claro que terminei. E não, ela não está bem, eu tive que impedi-la de cometer suicídio meia centena de vezes, antes de poder deixá-la. Obrigado por se importar.

L não pareceu nem um milímetro tocado pelo sarcasmo.

– Só ficou com a Amane-san? – O garoto conseguia sentir o cheiro de suspeita, com o mais leve inclinar para temas proibidos. – Não fez mais nenhum outro passeio por aí?

Raito não estava gostando disso.

Nem um pouco.

– Suas suspeitas.

– O que têm elas?

– Continuo me perguntando por que elas permanecem existindo. –Não vira melhor maneira de começar, senão jogando tudo de uma vez na cara do detetive. Seu sapato começou a produzir ruídos contra o chão, e eles resumiam muito mais que qualquer palavra qual era o nível de sua impaciência com L. Eram para estar em uma dessas jacuzzis agora, mal sonhando em discutir algo como isso.

– Eu nunca deixei de suspeitar de você, Raito-kun. – Ele limitou-se a informar, como se mal notasse o nível de paradoxos ali contidos.

Eu sei. É só que... – De repente, o garoto viu-se dando o espaço da irritação para a angústia. Mais uma vez, não era como se fosse um gesto extremamente falso. – É incompreensível! – Passou as mãos pelos cabelos, e deixou-as escorrer pelo rosto, demoradamente. – Como você pode dizer que me ama em um dia e no outro estar me acusando de ser Kira?

– Nossos sentimentos não podem mudar nada nesse caso.

– Hm.

– Dizer que me ama, em meio ao nosso relacionamento físico-afetivo, não vai fazer com que as porcentagens de você ser Kira diminuam ou aumentem. – Blábláblá; Raito conhecia as regras que L fazia questão de relembrar. Só não imaginava que o detetive fosse querer segui-las tão à risca. Isso continuava sendo um entrave para seu plano. Não só para ele, na verdade. – Independente de ser verdadeiro ou não.

– É claro que é verdadeiro!

– Se você diz, Raito-kun... Então deve ser.

– E continua sendo recíproco, não?

– Bem... Sim. – O garoto mal pôde disfarçar a carga de alívio que pareceu ser injetada em sua consciência quando a palavra escapou, numa inclinação de voz um pouco mais forçada de L. – Não posso mais negar que é recíproco.

– Mas então todas essas câmeras... – O garoto fez um gesto abrangente com as mãos. – Todos esses rigores e todos esses monitoramentos obsessivos. Todos eles são uma medida preventiva contra mim?!

– Não... É claro que não contra você. Não desonre seu intelecto. Eu nunca estive cem por cento certo de que você é Kira, no final das contas.

– Mas então você pensa que eu poderia fazer o quê? – Raito não hesitou em usar o presente, num claro gesto de desafio. – Apunhalá-lo pelas costas, enquanto você estivesse distraído brincando com a comida?

– É. Você poderia tentar...

Não foi capaz de impedir que o riso viesse, agora. Na verdade, rir era um bom meio de disfarçar o quanto era simplesmente sufocante a perspectiva de L parecer antecipar e saber de cada mínimo acontecimento, antes mesmo que eles sonhassem em se concretizar. Afinal, Raito não planejava apunhalá-lo pelas costas literalmente... Mas era indiscutível que o que tentava fazer era algo bem similar a isto.

– E por que diabos eu tentaria fazer um a coisa dessas, Ryuuzaki?! Nós estamos juntos!

– Sim. Mas estávamos bem longe disso quando eu mandei construírem esse prédio.

– Mesmo assim. Eu continuava sendo seu amigo. – Raito de fato se sentia ofendido por ser visto como um simplório assassino que poderia se arrastar pelas sombras só para cravar um punhal nas costas de L. Que blasfêmia! A morte do detetive tinha que ser algo muito maior e mais planejado do que isso. Tinha que ser algo digno do único capaz de sustentar um duelo com Deus. Entretanto, se sentia mais magoado ainda por L ter sempre sabido de sua identidade, mesmo quando não se encontrava nela. E por ter desejado tão amargamente sua captura, cuidando para que jamais houvesse a possibilidade de escape. Não era como se não soubesse antes, mas vê-lo atirando isso em sua cara, depois de tudo... Quer dizer, ele ainda podia desejar esmagá-lo, silenciosamente. E nesses momentos, era quase como se não fosse o próprio Kira, tentando fazer exatamente a mesma coisa. Quase como se o detetive estivesse sendo cegamente injusto com ele. – Seu único amigo. Não deveria ter feito qualquer diferença para você, seu... insensível?

– É claro que não. Até parece que não sabe do óbvio, Raito-kun.

– O quê?

– É bem fácil ferir alguém que nutre sentimentos por você.

Por um momento ou dois, tudo que o Yagami pôde fazer foi ficar boquiaberto, olhando para L e digerindo o sabor das palavras que ele arremessara tão indiferentemente.

Aquela era a lógica, a verdadeira lógica, mas ela supostamente deveria funcionar apenas com as outras pessoas...

– Agora estou vendo.

Decidiu que não valia a pena mais continuar encarando o detetive.

Suas convicções de que ele estava deixando o escudo cair e dando uma brecha para suas emoções, embora já tivessem se provado tão reais, soavam quase infundamentadas.

L realmente parecia ser um monstro insensível.

Tudo na inexpressividade dele era imensuravelmente irritante, e Raito já se sentia tão irritado, que se continuasse a analisá-lo daquela maneira poderia acabar perdendo o controle.

O que não seria nada bom para suas suspeitas. Pff. As mesmas suspeitas que, mesmo com mil evidências, jamais iriam se dissolver na mente do intragável detetive. Seu amante, só para constar.

E que não podiam aumentar, por nada nesse mundo.

Mas... Pelo que estava vendo... E se já tivessem aumentado?

– Você parece chateado. – O timbre rouco de L cortou seu fluxo de pensamentos, demonstrando algo semelhante a... Pesar ou alguma espécie de arrependimento.

Mas Raito sabia que não podia ser isso.

– Não estou.

– Por acaso eu falei algo que não deveria? – Ele não devia ter a mínima noção do quanto soava patético fazendo uma pergunta daquelas. Principalmente quando a resposta era tão óbvia. Raito preferiu deixá-lo à mercê do silêncio, mas riu quando teve o relance de uma tentativa de aproximação ridícula, que acabou culminando em regresso. – Ahn.... – Ele parecia indeciso sobre o que fazer, agora que era a vez de Raito ignorá-lo. – Eu não sei lidar com isso. Não é como um quebra-cabeça, que você pode simplesmente encaixar as peças, entende...? E por um lado a culpa é toda minha.

– Culpa pelo quê, exatamente? – Raito não conseguiu se refrear ao ouvir falar de culpa. Não permitiria que L visse as coisas daquela maneira, por mais que estivesse furioso com ele.

O detetive suspirou.

Finalmente.

– Culpa por ter deixado que ultrapassássemos o limite entre detetive e suspeito. – Por trás do véu de toda a indiferença, ele finalmente parecia, de fato... ressentido. Coçava o tornozelo com os pés e inclinava a cabeça, involuntariamente, e por mais que Raito soubesse que a maior parte disso se devia ao fato das suspeitas ainda estarem presentes, não conseguia enxergar por que L estava considerando esse ultrapasse como uma lástima. Será que ele não conseguia enxergar o lado maravilhoso que havia em sentir? – A verdade, Raito-kun... É que não deveríamos nem ter sido amigos. Eu simplesmente me deixei envolver por você.

E os muros optavam por recuar.

O monstro voltava a exibir seu lado vulnerável...

E era impressionante como L podia se metamorfosear em milésimos de uma criatura ameaçadora para uma criatura quase... frágil.

– Mas isso é algo completamente natural, Ryuuzaki.

Não. Não para mim, pelo menos. Eu nunca me deixei envolver por ninguém. – L confessou, e mordiscou levemente a unha do próprio polegar, olhando para o chão constrangidamente. – Jamais.

– E daí? Eu também nunca quis me envolver com ninguém. – Raito se entregou, sem se demorar hesitando. Se fosse parar para pensar não estava mentindo. L também fora o seu primeiro real amigo. Tivera colegas... Mas nunca alguém que valesse realmente a pena, para nada. Tanto competir... Quanto compartilhar. – Não dessa maneira. Mas eu não sinto como se isso fosse algo ruim...

– Não sente?

O detetive ergueu o rosto, com um súbito feixe de algo como esperança nele, e essa foi a vez de Raito se deixar agir de forma involuntária. Seus passos lhe guiaram até o espaço de L, mais uma vez, e só então conseguiu constatar o quanto sua pele parecia implorar pela dele.

Por algum motivo que não era simples desejo físico, desejava tocá-lo.

Desesperadamente.

E somente o fez...

Somente espantou uma mecha de cabelo negro do rosto de L. Ela estivera obstruindo um de seus olhos infinitamente escuros. E a verdade é que eles estavam particularmente interessantes, hoje. Eram como os espelhos daquele lugar. Raito conseguia enxergar seu total reflexo através deles. Literalmente, tudo que L queria e temia impresso na escuridão de seus olhos...

–Não. Eu não tenho medo de “nós”, como você...

– Mas deveria ter medo, Raito-kun. – O garoto provavelmente não tinha a mínima noção de qual era o preço que L estava disposto a pagar por dizer aquilo. Ainda que mergulhasse tão profundamente em seu olhar, Raito não podia fazer ideia. Ele nem sonhava que aquilo era L se rendendo a Lawliet. Porque aquilo não era só uma constatação. Era um aviso. – Esse relacionamento é perigoso demais para você.

E para você, então?

Isso era tudo o que Raito conseguia pensar, depois que L anunciara em sua atmosfera tão sombria.

Somente mais tarde, ele viria a interpretar seus significados e acabaria concluindo algo que poderia mudar todo seu destino.

E jamais interpretaria que L havia cometido o deslize por vontade própria.

Apenas sorriu, sinceramente.

– Ele me parece certo.

– Não, não parece. – L balançou a cabeça para os lados, em negação, como se tivesse acabado de ler seus pensamentos. – Não é certo. Você sabe disso, Raito-kun, quase tão bem quanto eu.

– Eu não me importo... – Aquilo tudo, por alguma razão, já estava fazendo a cabeça de Raito rodar. Odiava ouvir o som daquelas palavras na voz dele. Não queria, de maneira alguma, que L enxergasse a situação de uma forma tão... Vazia. Ou suja. Raito era Kira, e aquilo era um plano, mas também... Não era como se fosse só isso. Não era como se ele estivesse sendo o mesmo Raito de Amane, usando palavras doces e olhares apaixonados completamente forjados por seus próprios interesses.

Raito sentia algo por L, algo que transcendia tudo aquilo que imaginara sentir por alguém...

Poderia ser verdade, no final das contas.

Talvez ele realmente estivesse apaixonado por aquele detetive estúpido à sua frente.

Talvez...

Droga, talvez nem precisasse de um talvez.

– Se você não se importar, eu também não irei. – L declarou, e foi estranho como isso soou como um gesto de redenção a seus ouvidos. – É isso que estou tentando fazer que enxergue, Raito.

– Eu já enxerguei, detetive. – Não enxergara absolutamente nada. Mas o importante eram os fins, e não os meios. Desde sempre. – Será que pode calar a boca e me beijar, agora? – Raito colocou, displicentemente, a mão direita no queixo do detetive, soerguendo o rosto dele como se ele fosse seu troféu. – ... Por favor? – Queria que L fechasse os olhos. Havia algo de extremamente inquietante em ter seu reflexo na íris dele.

Era quase como se o despissem de qualquer máscara. E não queria que ele conhecesse seus lados obscuros... Ainda.

– Desde quando Kira implora? – L perguntou franzindo os lábios no que poderia ser -mas Raito não tinha certeza- um sorriso irônico, quebrado quando o garoto pousou os dedos neles, silenciando-os.

Mas ele, como sempre, tinha razão.

Kira realmente não implorava.



-x-

Notas finais
Difícil adivinhar o conteúdo do próximo capítulo, hein HASIHSUAHSSUIHUA
Aproveitem enquanto sou boazinha xD