O Plano B

17 XVI - Divine Intervention.


Notas iniciais
Olá minna-san *-* Espero que estejam tendo um feriado bom... Não sei se demorei para o capítulo... Mas espero que compense, anyway :3 kk Às vezes sinto que estou enrolando vocês com essa minha escrita longa e cheia de detalhes... Mas não é minha intenção, realmente não é... ^^ Se estiver entediante, podem me avisar USIHSUISAIU Hm, pelo menos, a partir de hoje, vocês terão a garantia de não ler um capítulo com erritos de distração... Agora minha bff linda, a D-sama, está betando para mim... e colaborando para deixar tudo bonitinho, hehe s2 Obrigada pelo seu tempo, D...*-* Eu realmente espero que vocês gostem de quem vai aparecer por aqui õ/ Enjoy it...

Raito já estava quase se acostumando à ideia.

Quase.

Quando parava para refletir sobre os detalhes, tudo ainda parecia um pouco estranho, ou no mínimo impressionante demais. Irreal.

Entretanto, era justamente por esses motivos que conseguia constatar o quão absoluto era o grau de genialidade de seu plano...

Era simplesmente perfeito.

Claro que ele sempre soube que L pertencia à espécie humana. Mas havia uma enorme diferença entre isso e ser humano de verdade. Possuir sentimentos. E desde a primeira vez que se deixara mergulhar no breu das íris dele, Raito começara a nutrir dúvidas a respeito de L ser ou não capaz de sentir.

Era algo que ia além da escassez de ímpeto no olhar, além da ausência de emoção na voz, além daquela inexpressividade facial... Involuntariamente, Raito havia se convencido da superioridade dele nesse quesito, porque mesmo que L sentisse alguma coisa, nada em seu comportamento parecia denunciá-lo -muito pelo contrário, aliás.

Todas aquelas manias compulsivas e bizarras só pareciam acentuar seu nível de egoísmo e indiferença. A maneira excêntrica e primitiva de se sentar e de segurar os objetos, a forma indiferente de distribuir ordens e de andar, até mesmo a fixação oral e a compulsão por doces, aliadas a seu vício em solucionar casos insolúveis.

Durante muito tempo, Raito acreditou que não havia como ultrapassar esses obstáculos, e desconfiou de que se houvesse, era bem capaz de acabar não achando nada por detrás do espesso véu de insensibilidade.

No entanto... A brecha estava lá, o tempo todo, só faltando que quisesse abrir os olhos para ver. Tudo isso podia ser demonstração da grande força e superioridade que L inevitavelmente tinha, mas ao mesmo tempo se denunciavam como seus pontos fracos mais vitais, seu calcanhar de Aquiles. Se fossem atingidos de forma tão repentina e ousada, como acontecera não havia nem uma semana, as consequências poderiam ser catastróficas.

Para L, é claro.

Deveria ser só para L, não deveria?

Raito realmente entendia a necessidade que o detetive tinha de se apegar às muralhas protetoras e geladas da indiferença. Entendia seus motivos. Privar-se de emoções deveria ser, de fato, um excelente escudo. Diferente de Raito, que vinha lutando com as duas mãos na espada. Aquilo lhe dava certa margem de... Segurança. Entretanto, investidas poderosas eram fortes o suficiente para quebrarem o metal de proteção, e golpes de uma mão só eram menos certeiros que os de duas.

A vulnerabilidade estava lá.

E hoje, ela havia se manifestado na mais traiçoeira das emoções: o ciúme.

Sim, era mesmo difícil de crer, mas era inegável que fora o ciúme que conseguira fazê-lo escapar do QG e da vigilância, mais uma vez...

Raito havia pensado em cada mínimo detalhe.

Não precisava ser um gênio (e ele com certeza tinha um QI superior a 150) para compreender que L não queria que ele utilizasse de seu recém-adquirido livre-arbítrio. Tanto que o detetive facilmente se aproveitaria da condição de “juntos” em que se encontravam para impedi-lo de fugir. Enquanto Kira não fosse capturado, nenhuma Regra Inviolável seria capaz de fazer L ter suas suspeitas zeradas. Ele próprio dissera isso.

Talvez elas fossem baixas –pareciam ser, já que ele nunca citara desconfiar da regra-, mas também podiam ser altas. O que implicava que o garoto estaria condicionado a um sistema de vigilância inevitável e permanente. Mas naquele dia – o quinto dia desde a sexta-feira que viera ter com Misa fornecendo-lhe as instruções sobre o que ela deveria fazer após receber seu sinal- Raito precisava sair. E precisava, também, não ser vigiado.

Ele enviara o e-mail para Misa, com duas letras “a”, justamente como disse que faria, no intuito de avisá-la que ela deveria seguir suas Instruções e abdicar do Death Note. Se ela tivesse feito sua parte de, ao menos, entender o recado, era para o Caderno estar enterrado no mesmo lugar daquela vez que ambos foram confinados. Só que, ao mesmo tempo em que isso fora um sinal, fora também sua maior estratégia. Ele podia ter escrito qualquer frase que tivesse duas letras “a” em sua composição, mas optara por escrever “Misa, eu amo muito você”.

Era óbvio que ele sabia que depois de tudo, o detetive não ficaria nada satisfeito. L sentia, no final das contas. E sua intenção era sugerir que precisava terminar com a Amane – pedido que o detetive não podia recusar- mas o próprio o antecipara e o mandara realizar esse ato. Era quase como se quisesse que Raito deixasse o QG, daquela vez. Fato esse imensamente intrigante, e até digno de suspeitas. Mas não era como se o mais novo pudesse recusar essa brilhante oportunidade.

Havia uma coisa que precisava ser feita, antes de prosseguir com o Plano B.

Ter Misa atuando como Kira era agir nos limites do risco, e uma situação simplesmente insustentável, visto que L parecia preferir viver sem açúcar a viver sem suspeitar de Raito.

Era questão de tempo para que ele suspeitasse o bastante para realizar uma Nova Investigação, e a Amane seria a primeira a ser apontada como sua potencial comparsa, de forma que não podia ter qualquer evidência rodeando-a.

Precisava que ela se esquecesse de tudo.

Precisava que alguém assumisse o papel de Kira no lugar dela, trabalhando para que o Deus do Novo Mundo eliminasse de vez todas as ameaças à sua práxis.

E Raito já havia encontrado o comissário perfeito.

Estava olhando para ele, com sorriso de lado, naquele exato momento.

E Mikami retribuía tirando ocasionalmente os olhos do jornal, e ajeitando os óculos, como se tivesse ciência de estar sendo observado, mas se limitasse a folhear as páginas e bebericar hora ou outra sua pequena xícara de café.

Raito não tinha dúvidas de que ele já havia percebido sua presença constante nos últimos dias. Impossível não perceber, uma vez que passara a frequentar quase todos os lugares que ele frequentava, fazendo uma análise minuciosa de cada ato seu e de cada rastro que deixava para trás. Fora uma ótima maneira de usufruir de sua liberdade nos quatro dias depois do ultimato que fizera a L.

Mikami era alguém... Extremamente interessante de se observar, por assim dizer. Metódico, ele parecia possuir programado, numa agenda mental, cada passo que viria a ser dado no dia em que estava vivendo.

Sempre vestia os mesmos ternos escuros, feitos para negócios, e havia certas atividades peculiares que ele jamais excluía de sua rotina diária, como por exemplo, sua assídua frequência à academia e sua escolha do mesmo lugar no metrô; sua compra do jornal vespertino, sua leitura às quatro horas e quinze minutos sob a ala oeste da cafeteria de Shinjuku e seu degustar de um café expresso curto e sem açúcar.

Ele também dedicava boa parte de seu tempo livre assistindo documentários que falavam sobre Kira. Não só os sensacionalistas da Sakura TV, como também os da NHN e das outras emissoras, e a maioria dos artigos em que passava os olhos abordavam os criminosos recém-eliminados.

Mikami não escondia o brilho de satisfação que seus olhos e micro-expressões faciais denunciavam em cada um desses eventos, e Raito também estava ciente de que muitas vezes ele fizera parte dos espectadores, pois fora justamente em gravações que o vira pela primeira vez, e tivera essa sua intuição inicial em relação a ele.

Depois de algumas investigações ilícitas sobre o oficial de Justiça, não foi preciso passar muito tempo o escoltando para notar que ele também possuía uma forte ambição de punir o mau do Mundo. Não só expressa em sua profissão, como também em seus atos corriqueiros; na primeira vez que Raito o supervisionara, conseguira presenciar uma cena extremamente intrigante, que fora a intervenção de Mikami numa briga de crianças, onde dois valentões tentavam espancar um garotinho indefeso.

Basicamente, Mikami possuía todas as características que faltavam a Misa: era centrado, organizado, sério, e tinha um Senso de Justiça absoluto e não-fútil, de modo que ele fora o escolhido pelo Deus do Novo Mundo para ser seu novo instrumento, embora não soubesse disso.

Ainda.

Talvez ele até desconfiasse, pois além de tudo isso, ele parecia demonstrar nítidos sinais de Inteligência abundantes... Mas Raito faria questão de demonstrar a ele que o havia escolhido.

Desencostou-se do pilar em que estivera apoiado, fingindo observar os menus enquanto era dissecado pelas garçonetes, e embocou uma caminhada lenta, mas despojada, até onde o moreno estava sentado; e embora ele não demonstrasse, Raito sabia que ele não só sabia, como também estava completamente ciente de cada passo seu, naquela direção.

—Importa-se de eu me sentar? –Perguntou, fazendo uma pausa estratégica, quando chegou perto o suficiente para ser ouvido por Mikami. O moreno levantou os olhos do jornal, vagarosamente, fazendo uma silenciosa inspeção do Yagami, repleta de minúcia e suspeição. -Todas as outras mesas estão cheias e eu não queria ficar de pé. –Justificou-se Raito, ao que o mais velho fez um gesto com a mão, apontando a cadeira à sua frente.

— Sinta-se à vontade. – Disse, sem voltar os olhos para o jornal, no entanto, como Raito imaginou que ele fosse fazer. Deixou os orbes por detrás das lentes percorrerem cada um de seus movimentos, enquanto puxava a cadeira e sentava-se nela, demonstrando certa curiosidade inédita.

— Obrigado. – O Yagami replicou, extremamente satisfeito, e voltando a dar aquele sorriso de lado, embora mais discreto, dessa vez. Cruzou uma perna por cima da outra, e ficou esperando enquanto Mikami tomava outro gole de sua xícara de café, provavelmente para não ter de dizer nada, por enquanto. – Você vem sempre aqui, não é? Essa não é a primeira vez que o encontro, por acaso.

— Hm. Posso dizer o mesmo de você, ahn... Seu nome seria?

— Raito. – O garoto não hesitou em dizer, mesmo sabendo que essa medida poderia não ser muito inteligente, diante dos acontecimentos que planejava para o futuro. Havia algo em Mikami, porém, que fazia Raito sentir confiança nele, quase por instinto, mesmo aquela sendo a primeira vez que conversavam efetivamente. – Yagami Raito. Escreve-se “Yagami” com os ideogramas “Noite” e “Deus”, e depois se escreve “Lua”, mas lê-se “Raito”. Diferente, não acha?

— ...Sim. Muito autêntico. Eu sou Mikami. – O moreno se apresentou, simplificadamente.

— É um prazer conhecê-lo, Mikami. – Raito sorriu mais uma vez. O mais velho, talvez pela bizarrice da situação, tentou parecer confortável, mas acabou apenas por ajeitar os óculos e voltar a encarar a página do jornal com avidez. Ele provavelmente não estava acostumado com desconhecidos sorridentes parecendo stalkers, mas também não parecia repudiar tanto a ideia, visto que o Yagami, ao comprimir de leve os olhos, conseguiu enxergar o que devia ser vestígios de um sorriso nos lábios dele. Deu-lhe alguns momentos de silêncio, que achou serem úteis, enquanto dispensava com um aceno as garçonetes que vinham lhe oferecer café. É claro que esse ato também não passou despercebido pelo moreno, afinal, por que diabos ele iria querer se sentar se não fosse para beber ou comer alguma coisa?, mas se ele achou estranho, preferiu não dizer nada. Raito ficou analisando as pupilas dele correrem da direita para esquerda, em sua leitura, e se surpreendeu ao perceber que não era uma atividade tão entediante assim. Estava até curioso, na verdade. – Hm, será que se importaria de me dizer o que tanto lê nesse jornal?

— É um artigo sobre Kira. – Mikami ergueu os olhos mais uma vez, como se estivesse esperando que ele perguntasse. Na realidade, era quase como se aquela pudesse ser a melhor pauta de assunto que o Yagami poderia ter para puxar.

— Kira? – Raito fingiu estar surpreso. – Ah, puxa... Ouvi dizer que a polícia quase conseguiu pegá-lo, nos últimos tempos...

— Ah. Eu sinceramente não acredito que eles serão capazes de fazer isso, um dia. – Mikami se limitou a contradizê-lo.

— Sério mesmo? Nem com o grande detetive L no comando das Investigações? – Raito logo se sentiu mais empolgado, embora seu tom de voz não pudesse denunciá-lo em absolutamente nada.

— Quem quer que seja L, ele deve beirar à impotência diante do enorme poder que Kira possui. –E depois disso, ele poderia ter atirado as instruções a Mikami sem nem cogitar seguir os passos de seu roteiro previamente instituído para análise final.

Era simplesmente maravilhoso ver o conceito de L ser rebaixado daquela maneira diante de si, ainda mais por alguém no nível de Mikami, um próprio oficial de Justiça. Chegava a fazer suas pupilas acastanhadas brilharem.

— Hmm... – Não evitou ampliar o sorriso para ele, pela terceira vez. Mas depois dessa fala, não era só isso que ele merecia ganhar.

Raito pegou um dos guardanapos de papel pousado sobre a mesa, e sentiu os olhos do outro sobre si enquanto o desdobrava lentamente, até tirar uma caneta do bolso e começar a escrever, apoiando-se na mesa, mas ocultando o gesto com a outra mão.

Mikami quase inclinou a cabeça para ler, mas pareceu recordar-se das regras de etiqueta segundos depois, mordendo repreensivamente o próprio lábio inferior.

Não demorou, entretanto, para que Raito lhe entregasse o guardanapo, por debaixo da mesa, e cruzasse os braços, enquanto Mikami lia, em sua caligrafia propositalmente distorcida:

“O quão profunda é sua crença em Kira, Mikami?”

O moreno erguera as sobrancelhas para Raito, subitamente desconfiado com a pergunta (e o fato dela não ter sido proferida, por algum motivo), mas ao mesmo tempo demonstrou um brilho na íris digno de um verdadeiro expectador.

— O tempo está ruim hoje, não está? – O garoto perguntou, para manter o disfarce, ao mesmo tempo em que estendia a caneta, no intuito de que o oficial respondesse no mesmo guardanapo.

Mikami hesitou por alguns segundos, antes de pegá-la, mas no final acabou cedendo à própria curiosidade.

— É. A chuva parece não querer cessar...

“Por que você deseja saber?”

Ele escreveu, em uma caligrafia fina, que como tudo que provinha dele, era perfeitamente simétrica e delineada.

Em seguida entregou para que Raito lesse, também por debaixo da mesa, ao que o garoto respondeu sem expressões explícitas, apenas tomando-lhe indiferentemente a caneta.

— O pior é que eu nunca ando com um guarda-chuva para me prevenir.

“Você precisa responder antes de saber.”

— Uhum. É realmente difícil prever quando contratempos irão surgir... – Mikami pontuou, não só para manter a conversa que prontamente compreendera ser de fachada, como também numa forma de resposta à frase na qual acabara de bater o olho.

Raito lhe estendeu a caneta, de novo, mas dessa vez, o moreno, quando a tomou, não escreveu tão rápido como gostaria, preferindo ponderar sobre suas opções e sobre os meios mais sensatos de agir, diante da pergunta proferida.

Não era como se fosse fácil, diante da pressão exercida pelo castanho dos olhos do mais novo, tão autoconfiantes e imponentes, nitidamente cientes da prepotência que parecia emanar dos gestos mais simples dele, como a forma de segurar a caneta, falar calmamente e distribuir sorrisos aleatórios, a maioria, de lado.

Mikami girou a caneta entre os dedos, hesitou novamente, e, por fim, escreveu.

Deu o guardanapo para Raito.

Para mim, Kira é Deus. O Deus absoluto que desceu a Terra para livrar o mundo de todo o mau expresso por meio dos criminosos e de seus atos abomináveis. Ele deveria ser respeitado e adorado pela polícia, ao contrário do que vem acontecendo nos últimos tempos.”

Outro sorriso disperso nos lábios do Yagami. Dessa vez, um pouco mais longo e intenso do que os demais. Ele também desferiu um olhar perscrutador a Mikami, que só fazia se perguntar como um desconhecido poderia fazê-lo se sentir tão... encabulado e, ao mesmo tempo, nada desconfortável. Além de confuso, é claro. Ele só suspeitava dos motivos de todas aquelas perguntas, mas nada era realmente concreto. E isso era frustrante, definitivamente.

— Contratempos fazem parte da vida... E algumas vezes, sequer são contratempos de verdade. – Raito amassou o guardanapo de antes, pegou outro, e num instante estava escrevendo algo definitivamente incisivo.

Compreendo. E você estaria disposto a seguir os ideais de Kira? Lutar por ele, contra a polícia e contra L, mesmo que isso redobrasse os riscos que você fosse correr?”

Essa era pergunta-chave, suficiente para finalizar a última etapa da metamorfose de Mikami, de potencial para oficial, o escolhido de verdade, seu novo leal subordinado.

Tudo dependia do quão satisfatória seria a resposta que ele iria dar, e dos níveis de honestidade que Raito pudesse captar em sua expressão. Assim como em tudo o que fazia, o Yagami era especialmente bom em lê-las, isso sem citar o fato de ter um pressentimento especial em relação à Mikami.

Contemplou-o escrever com uma pressa e rapidez diferentes das de outrora, sem hesitar por um só segundo mais.

Os cabelos dele eram tão escuramente negros, não pôde deixar de reparar. Mas não, não era como se devesse pensar em pessoas com cabelos negros. Não agora.

Eu faria absolutamente tudo por Kira. Independente do nível de periculosidade que estivesse envolvido.”

Oh.

Ele mal poderia imaginar que Raito sorria porque seu ego beirava às nuvens, naquele instante. Seu não mais escolhido em potencial estava confessando que o respeitava e o adorava, e faria qualquer coisa que ele pedisse, sem ao menos se dar conta de que era uma confissão.

Essa noite, vá até o lugar cuja localização irei escrever em outro guardanapo de papel. Há uma coisa enterrada lá; uma coisa que só você pode saber que existe, além de mim. Você precisa desenterrá-la, e se apropriar dela, com a maior discrição possível, se tudo que disse até agora foi verdade.”

“E o que seria essa coisa?”

Algo que você terá que usar depois de obter sua posse. Há instruções.

— Por que não podemos saber explicitamente se é ou não um contratempo? Eu não gosto de mistérios. – Mikami parecia em dúvida sobre aquilo ser algo sério e estritamente relevante ou apenas uma piada ridícula.

Ajeitara os óculos mais umas três ou quatro vezes, os olhos um tanto mais abertos que o normal, ligeiramente apreensivos, em contraste com o total despojo do outro.

Mas o garoto definitivamente não parecia fazer o tipo que gostava de fazer brincadeiras de mau-gosto assim. E toda aquela atmosfera que havia em volta dele e de seus sorrisos emblemáticos, era simplesmente demais para ser ignorada.

Por que eu precisaria fazer isso? Quem é você, afinal?”

Quando Raito tomou o guardanapo e a caneta de seus dedos, Mikami não poderia imaginar que aquela seria a última vez.

Tão logo seus dedos se encostaram, levemente, foi como sentir uma corrente elétrica em sua pele, e de repente nada parecia ser mais importante que ir ao local que o Yagami escrevera, com pressa, num outro guardanapo, enquanto se levantava da cadeira.

Ele o colocou, sem pedir permissão, dentro do bolso do terno de Mikami, que ficou observando o gesto de sua mão com um nível de surpresa que mal podia disfarçar. A única palavra que conseguira enxergar, em meio à oscilação, fora um singelo ‘Queime tudo isto’, no final.

Ele colocou, em seguida, a mesma mão sobre seu ombro direito, ficando então em pé ao seu lado.

Mikami não podia negar: dessa vez se sentiu bastante desconfortável diante do ato. Jamais saberia dizer exatamente o porquê, mas era algo simplesmente inexplicável. Perguntava-se se Raito teria lido sua última pergunta; se ele iria respondê-la, agora, que se preparava para sair.

Observou-o balançar a cabeça, expulsando um pouco do cabelo castanho que cobria os olhos. E só pôde franzir o cenho quando ele segredou-lhe, numa voz impactante e serena:

— Haverá um tempo em que o homem conhecerá todas as verdades sobre os mistérios desse mundo. Por enquanto, é mais racional que ele se retire à própria ignorância. Talvez até mais seguro... – Batera levemente em seu ombro, por duas ritmadas vezes, e em seguida desmanchara o último de seus sorrisos de canto, cultivando um ar repentinamente frio e cáustico. – Foi realmente um prazer conhecê-lo, Mikami Teru...

Irrelevante comentar o ar de perplexidade que acometeu o rosto já confuso do moreno, quando Raito enunciou seu nome, provocativamente frisando cada sílaba da palavra. A boca entreaberta, o olhar vidrado, o cérebro tentando resgatar qualquer menção que pudesse ter tido feito de seu primeiro nome...

As reações de Mikami eram simplesmente óbvias demais. Embora ele tivesse tido o bom-senso de disfarçar e agir como se nada estivesse acontecendo, ao menos, quando Raito lhe virou as costas e começou a andar em direção da saída do café.

Depois daquela conversa, Kira tinha certeza, e podia afirmar com todas as letras, que Mikami seria extremamente útil para ele...

Muito mais do que Misa jamais fora ou conseguiria ser.

No entanto, não era como se, se ele cometesse um deslize, fosse hesitar em eliminá-lo, só pela adoração e argúcia que ele tinha a lhe dar.

Talvez fosse um ótimo escudo demonstrar a insensibilidade.

Mas ocultá-la através de sorrisos falsos, era algo tão bom quanto.

Quer dizer, na verdade não...

Era infinitamente melhor.

—x-

O fato é que a visita à Corporação fora tão útil quanto sua leitura dos dados que Watari repassara a seu notebook privado. Senão menos, pois para ver tudo aquilo com os próprios olhos, L tivera que fazer o imenso sacrifício de se socializar.

O detetive quase perdeu a conta das vezes que pensou, naquele dia, o quanto seria mais simples se testasse o Death Note em si próprio. É claro que não seria estúpido o suficiente para arriscar a própria vida, mas, ao menos, se não tivesse que depender das forças governamentais dos demais países, se não precisasse usufruir de outras vidas humanas para fazer o teste...

Seria tudo tão mais... Fácil.

No entanto, nunca havia pedido para ser fácil, certo?

Era só o desafio o que realmente importava.

Em relação a tudo.

Obviamente, Lawliet não se apresentara como L à Corporação; somente como alguém vinculado a ele. Mas desde quando souberam que tanto ele quanto Watari, agentes oficializados, viriam inspecionar os testes secretos, a euforia já se instalara no ambiente investigativo.

Quando deu seu primeiro passo lá dentro, todos os membros da Corporação se voltaram para ele, de olhos arregalados.

Encontraram um suposto policial da confiança do maior detetive do mundo, pois esse era o disfarce ao qual L se submetera -até colocara farda, e para seu sacrifício pessoal, sapatos.

Aos poucos, porém, perceberam que era inútil continuar encarando-o.

O “policial” mal se dava ao trabalho de dar de ombros, pedindo para ir direto ao que importava: as Investigações.

E eles lhe mostraram tudo. Cada procedimento desde que o Death Note se transferira da Central de Investigações de L para lá. O condenado que havia consentido em escrever o nome no Death Note -Akira Usui, 56 anos- estava confinado em uma cela solitária, desde o instante em que escrevera o nome do outro condenado -Saito Taka, 26, completamente falecido de parada cardíaca, com seu nome impudicamente delineado em toda uma página do caderno assassino. Havia mais dois pares de condenados Tanaka e Honto, Unui e Meka, que haviam concordado com semelhante situação, e estavam sendo usados como controle, para dizer que a morte de Akira havia sido morte por causas naturais.

Pelas filmagens, e pela calmaria transparente nas sutis expressões faciais dele, mal parecia que era um assassino que havia estuprado uma garotinha de seis anos de idade.

Aparências enganavam – L mais do que ninguém sabia qual era o nível de verdade dessa sentença.

E ele tampouco parecia se importar com a possibilidade de morrer dali oito dias, caso a Regra dos 13 dias vingasse. Se um assassino tão medíocre conseguia ser tão frio assim, que se poderia dizer do maior serial-killer do mundo?

Kira escrevia nomes no caderno sem dar a mínima atenção ao fato de arrancar vidas a cada palavra. Transcendera os limites de um ser humano... Só que da forma mais nojenta possível.

E se aquela Regra fosse falsa, esse transgressor seria Yagami Raito. Aquele por quem estava desesperadamente apaixonado, se paixão fosse mesmo tudo aquilo que L pensava.

E como poderia perdoá-lo por isso? Como não poderia incriminá-lo com todas as evidências que tinha reunidas? Como poderia se abster de odiá-lo conforme aquilo que chamavam de amor queria tanto que fizesse?

A bem da verdade, todos os sentimentos que Raito dizia possuir por si deviam ser mera fachada. Só um plano para enfraquecê-lo.

Talvez coisa pior.

Não era como se L fosse fraco demais para lidar com isso... Com o fato de Raito só estar consigo porque queria enfraquecer o detetive que o perseguia. É claro que a ideia lhe dava vontade de chutar qualquer ser vivo que estivesse respirando a um raio de um milhão de quilômetros, mas conseguia suportá-la, certo?

Conseguia entender o quanto ela parecia lógica... Diferente de quando estava perto dele. Ali, lhe parecia completamente impossível que Raito estivesse mentindo ao dizer que o amava.

Quase tão impossível quanto o fato de sentir algo de volta, da forma mais intensa possível.

Por que diabos ele tinha que ser sempre o primeiro? Certo que ele fora a única pessoa que já encontrara a seu nível, mas... Primeiro amigo, primeiro amor, e primeiro suspeito. Era demais.

Engraçado foi o quanto se sentiu aliviado quando saiu daquela Corporação Secreta e se afastou daquele maldito caderno estúpido, assassino e, lamentavelmente, poderoso. Foi como tirar um peso enorme da consciência. Como saber que tudo aquilo que analisara podia ser apenas um arquivo com nomes, vídeos e registros em seu notebook. Trancados com trilhões de senhas, e mais trilhões de caracteres. Pelo menos nos próximos oito dias. Dias que L faria tudo para que se tornassem os mais longos e proveitosos de sua vida...

Os dias que podia se atirar nos braços do que a maioria chamaria felicidade, nos braços do que sua mente insistia em dizer que seria adequado chamar de ‘seu amor’... Sem necessariamente estar se atirando nos braços de Kira.

Porque querer se atirar nos braços de Kira seria algo definitivamente problemático, não seria?

Pela sanidade de L, Lawliet não podia nem sequer cogitar querer algo assim. Era vil. Doentio. Péssimo.

Impossível.

Não, tudo que Lawliet queria era Raito. Somente ele. Por mais que as suspeitas escrevessem que Raito não era apenas Raito, e sim Kira. E por mais que se ele fosse só Raito, jamais tivesse chegado a haver qualquer tensão...

Porque, planos à parte, a tensão, de fato, era real. Ou sexo não seria aquilo tudo, seria?

Havia algo de extremamente excitante, pensar em L e Kira, ao invés de Raito e Ryuuzaki. Não que fosse realmente preferível, porque era excitante e errado. Mas o que diabos havia de certo naquilo tudo?

Era tarde demais para recuar.

Era bem mais que apenas sexo; o sentimento era forte.

E se por um lado queria nutrir seu egoísmo, e não suportava a ideia de perdê-lo, por outro, não podia perder seu título de maior detetive, e inocentar um suspeito que tinha tudo para não ser inocente.

A menos que...

Não, espere um momento. L estava mesmo tendo uma ideia tão absurda como aquela?!

Não, é claro que não.

L repugnava Kira com toda a sua alma, disso não havia dúvidas. Não havia porque desejar um “a menos que”.

Lawliet, no entanto...

Lawliet amava certo alguém, cujas chances de ser Kira eram simplesmente incontáveis. E em nome desse amor, ele não conseguiria ficar de braços cruzados, assistindo enquanto L fazia a contagem regressiva daqueles oito dias que faltavam para apunhalá-lo.

Ele havia tido uma ideia.

Esse ‘a menos que’ podia não ter qualquer diferença para L ou para o resultado final daquilo tudo.

Mas ao menos era uma tentativa de Lawliet demonstrar que o amor não era algo falso e vazio, como Raito poderia vir a pensar...

Demonstrar que valia a pena.

Os fins poderiam ser os mesmos, mas não precisava ser uma punhalada nas costas...

Podia ser algo mais limpo, mais ameno.

Algo que L definitivamente não concordava, e que era avançar ainda além dos limites de cometer um erro, mas... A opinião de L não importava naquele momento, L era apenas um espectador dando nós nos próprios pensamentos com a ideia que via formar-se.

Lawliet era mais forte -e teimoso.

Lawliet estava vencendo.

Notas finais
O próximo não vai demorar mesmooo, hehe.. Quer dizer.. Tudo depende de vocês >< Ja nee õ/