O Perdedor
9 Quarto dia.
Ao longe, eu ouvi o despertador tocar, e sem abrir os olhos tateei a mesa de cabeceira ao meu lado até ouvir o aparelho digital cair no chão e, provavelmente, quebrar. Olhei o lugar e logo me situei: estava na casa de Aoi, e em seu quarto.
Ao lado do despertador havia dois bilhetes, e eu sorri só de imaginar de quem seriam. Peguei o primeiro e, piscando algumas vezes para conseguir limpar a visão, li:
\" Chibi,
Saí mais cedo para ajudar Kai e Miyavi nos preparativos do templo. Não sei se lembra, mas haverá um festival de começo das férias.
Ontem Reita veio deixá-lo aqui. Você estava dormindo e parecia realmente cansado, por isso pedi para ele colocá-lo em minha cama e eu tomei a liberdade de ir dormir no quarto de hospedes — no caso, no seu quarto. Qual a razão desse cansaço, hein? UUHHH, Ruki é um safadinho. Haha.
Seu café da manhã está no microondas. Nos vemos na escola.
Aoi.♥ \"
Ele era, realmente, um idiota por se preocupar tanto assim comigo, a ponto de me deixar dormir no quarto dele por achar que eu estava \" cansado demais \". E isso só me fazia sorrir mais ainda.
Peguei o segundo bilhete com uma caligrafia — leia-se: garranchos — não conhecida por mim.
\" Ruki,
Tive que ir ao trabalho ontem, por isso deixei-o na casa de Aoi.
Estarei ocupado hoje e não vou a aula. Assim, considere o quarto dia da nossa aposta como um descanso.
Reita.\"
Ri baixo, passando os olhos novamente pelo papel rabiscado. Nenhum dos dois tinha jeito, e eu tinha sorte por tê-los comigo.
~
− Então... Vai me contar o que você e o Reita tem, ou não? − Tamanha fora a força com que Aoi bateu as mãos contra a minha carteira, até fez com que eu me assustasse.
− Se eu disser que não, você vai me encher até eu contar. Então é melhor sair por bem.
Eu e ele nos dirigimos a saida, Aoi levava minhas coisas.
No caminho até em casa, eu fui contando-lhe toda a historia da aposta, os encontros, o beijo e enfim... Tudo − inclusive o acontecimento de ontem.
− ... Mas eu quero parar a aposta. Desistir dela. − Falei melancólico.
− Por...?
− Por que...
− Hn...?
− Eu gosto... Do Reita.
Aoi parou, olhando o horizonte e abrindo um largo sorriso. Procurei o que ele olhava e quando encontrei, não evitei sorrir também. Um sorriso um tanto triste.
Reita estava parado na frente do prédio de Aoi. Certamente, me esperando. Shiroyama saiu andando na frente, não deixando de me desejar um “boa sorte”, antes. Logo entrou pela porta de vidro que dava para as escadas do prédio. Eu fiquei para trás, andando mais lentamente e o outro loiro vinha em minha direção.
− Ruki, tem tempo pra mim? – perguntou inocentemente, abrindo um sorriso que se fosse maior chegaria as orelhas.
− Por que não teria? – brinquei. – Alem disso, você ainda está me devendo uma resposta.
− Hn? Qual?
− Você ainda não me disse em que trabalha.
− Ah, isso... Bem... Eu... – Ele pareceu incomodado, pois coçava a nuca e desviava o olhar de mim o tempo todo.
− Esqueça. Não precisa me dizer se não quiser. Afinal... Deve ser algo bem vergonhoso. – ri.
− Só se torna vergonhoso quando é a você que eu tenho que dizer o que faço. – Comentou, rindo também – De qualquer forma... Eu vou contar quando estiver pronto.
− Tanto faz. Eu não queria meeeesmo saber. – brinquei.
− Nee, Ruki... Vamos a algum lugar?
− Você espera eu trocar de roupa? Seria humilhante para você, que está todo arrumado, sair com um garoto de uniforme escolar.
− Oh, que drama por causa de uma roupa. – Brincou – Mas tudo bem, eu espero sim.
~
Decidimos, por fim, que iríamos ao restaurante de Kai. Antes passando na casa de Reita, para pegar o carro, claro. Não iríamos ao centro de Tókio a pé nem mortos!
Por sorte (ou azar) era Miyavi quem estava atendendo logo nesse dia. Ele veio até nós, praticamente saltitando, fazendo com que eu e Reita ríssemos. As vezes ele parecia-se com uma criança. Fato.
− Boa noite! Sou Ishihara Takamasa e... – Ele parou ao olhar para Reita, arregalando os olhos – REITA? VOCÊ E RUKI ESTÃO-... ?
− Não exatamente. – cortou-o.
− Ele já sabe sobre-...?
− Não, Miyavi! Ele não sabe. – Cortou-o novamente, lançando-o um olhar ameaçador.
Miyavi olhou-me com preocupação, logo sorrindo. Fizemos nossos pedidos e Ishihara pediu licença, retirando-se e indo atender outra mesa.
O restaurante dos dois era bastante agradável; todo climatizado, uma comida ótima, decoração suave, espaço consideravelmente grande, banheiros higiênicos (o que não se encontra em qualquer lugar), e eu tenho certeza que 90% das pessoas que o freqüentam são de mais fina linhagem.
Olhei para Reita, levemente desconfiado. Ele sorriu meigo, me fazendo corar. Exatamente: EU corei. Havia sido o sorriso mais lindo dele, desde que nos conhecemos.
− Então... Você e Miyavi já se conheciam?
− Na verdade, sim.
− Aoi te apresentou?
− Não.
− Kai, então.
− Também não.
− Então como-...?
− Meu primo, Uruha, o conheceu sei lá onde, e um dia nós três saímos juntos. Mas faz tempo já. Acho que ele e Kai nem namoravam. Aliás, nem se conheciam. − fez uma pequena pausa. − Nós não morávamos aqui, por isso quando nos mudamos perdemos contato. Mas Uruha sempre me dava noticias dele, passava recados dele para mim. Nem imaginava que fosse reencontrá-lo assim e muito menos que fosse “dono” de um restaurante como esse. Apesar de ser o mais velho de nós três, ele nunca demonstrou tamanha inteligência pra montar um negocio como esse.
− E quando você soube que ele e Kai estavam namorando?
− Sexta-feira passada, quando Aoi e eu fomos a casa de Kai, lembra? Ele até falou que Miyavi havia chegado de viagem e eu disse que achava de o conhecia.
− Hn... E onde vocês moravam antes? – Perguntei, não conseguindo conter minha curiosidade.
− Kanagawa.
− Ahh! Lá é muito bom! Já viajei pra lá, mas faz uns dois anos então não lembro exatamente como é.
Conversamos mais um tempo, logo nossos pedidos chegaram e Miyavi ficou nos olhando como se ainda esperasse algo. Tinha um sorriso meio perdido.
− O que foi? – Perguntei rindo. Nunca conseguia não rir quando aquele idiota estava por perto.
− Kai mandou avisar que é por conta da casa e que você considerassem como um presente de namoro. – riu.
− IDIOTA! – ri junto, ligeiramente sem jeito.
Reita segurava o riso, desviando o olhar para a janela. Eu só pude ri mais da situação. Assim como eu, ele havia ficado sem jeito.
− Ah, e Reita, — continuou, tentando ficar sério – não magoe Takanori ou você será um homem morto. – e saiu, ainda com a expressão séria.
Quando chegou no meio do restaurante teve uma crise de risos, soltando palavras desconexas. Era um bobo mesmo!
Fiquei olhando Reita como quem pergunta “o que diabos foi isso?”. Ele sorriu para mim, postando a mão sobre a minha e, em seguida, passando a acariciá-la com as pontas dos dedos.
− Não se preocupe, ok? Não foi nada...- Falou baixo.
~
Quando terminamos de comer, Reita foi me deixar em casa. No caminho, conversamos sobre assuntos banais, riamos, brincávamos, provocávamos um ao outro. Quando chegamos, antes de eu descer do carro, Akira segurou meu braço e me puxou, selando nossos lábios de maneira doce.
− Eu te amo, Ruki. – sussurrou, escondendo o rosto na curva do meu pescoço, me causando um leve arrepio.
Eu sorri melancólico. Não podia dizer o mesmo a ele. Eu era orgulhoso demais. Orgulhoso demais pra admitir que o amava e que havia perdido aquela droga de aposta! Desci do carro em silencio e as pressas, me dirigindo a entrada do prédio. A cena não saia da minha mente. Eu, definitivamente, não conseguiria dormir aquela noite e tudo por causa daquele loiro desgraçado!
Notas finais
Desculpa a demora, desculpa meeeesmo! ;-;
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