O Pecado Mora ao Lado
9 TOMARA QUE MORRA - Lispector, Alice
Notas iniciais
POV ROSIE.
― Uh, okay, deixe-me ver se entendi. Você está dizendo que nós vamos assistir um filme com o Matt e o Marcus? ― Lice perguntava pela terceira vez à Mel, com uma sobrancelha arqueada e a sombra de um sorriso no rosto.
― Isso mesmo pequena. ― Mel respondeu, prestando atenção ao guarda roupa, escolhendo o que ia vestir, enquanto esperava Kaath sair do banho. ― Me ajuda aqui Lice.
Mas Alice não respondeu. Ela estava sentada na cama, olhando a janela com cara de quem estava analisando uma teoria da conspiração, com base em diagramas de física e quadros do Leonardo Da Vinci. Tipo isso.
― Alice? ― Chamei, mas ela apenas fez um meneio coma a mão, me fazendo revirar os olhos. ― Deixa que eu ajudo você Mel.
Caminhei pra perto dela e Mel sussurrou:
― O que aconteceu?
― Deve estar fazendo um roteiro mental de “Como Agir Perto do Marcus”. ― Eu respondi, pegando uma blusa de dentro do armário e me virando para Mel que me encarava com cara de “É sério, Rosie”. Eu suspirei.
― Nós vamos ajudá-la. ― Mellany exclamou convicta.
― Ótimo, assim ela fica mais segura... Espera aí, nós? ― Mel me encarou outra vez. ― Você sabe que eu não levo o menor jeito pra coisa...
― Não interessa. Você é amiga dela e vai ajudá-la. Nem que seja dando apoio moral.
Se tem uma coisa que eu aprendi convivendo com Mel e Lice é: nunca tente discutir com uma das duas.
Então apenas suspirei e Mel tomou isso como um sinal de rendição.
― Ah, então, acho que as meninas vão demorar ainda. Vamos Lice, lá pra minha casa. ― Eu disse, sentando na frente dela e puxando sua mão.
― Por que vamos pra sua casa? ― Alice me perguntou.
― Porque eu estou mandando. ― Disse a puxando pra fora do quarto, ouvindo Mel rir.
― E desde quando você manda em mim?
― Mel! ― Gritei já na porta do apartamento
― Alice, não reclama, vai logo! Quer se atrasar? ― Mel retrucou e Lice fechou a cara, cruzando os braços e, por fim, cedendo, seguindo-me até minha casa, sem para de reclamar um só segundo.
–-X--
― Okay, foi uma penação fazer a Lice parar de reclamar enquanto eu tentava arrumá-la.
― Não sei pra quê. ― Alice retrucou.
― Fiz o melhor que pude com as roupas que ela tinha lá em casa. Minha parte está feita. Sua vez. ― Terminei de falar pra Mel, que já estava Ana portaria do prédio, esperando Kath descer, que tinha voltado pra buscar a bolsa que havia esquecido no apartamento da Mel.
― Como assim? Parte do quê? O que vocês estão fazendo? Vocês duas estão agindo pelas minhas costas? Mentindo pra mim? Armando conspiração? Me enganaram!? Tenho certeza que foi tudo ideia da Rosie! Eu sabia que ela era um tarada, má influência do caralho! ― Alice soltava frases aleatórias sem parar no meio da rua praticamente, fazendo várias pessoas que passavam por ali nos encararem. É claro que eu fingia que não era comigo enquanto Mel ria.
― Senhor, quanto drama. ― Suspirei.
― Lice, não é nada disso. Nós queremos te ajudar com o Marcus. Rosie disse que fez a parte de dela te arrumando. Agora, eu que assumo.
Alice olhou as próprias roupas e me lançou um olhar confuso.
― Como assim você me arrumou? Eu estou exatamente igual a todos dias.
― Exatamente. Primeira lição: seja você mesma. Você não é tímida, muito menos de falar pouco, portanto aja naturalmente, puxe assunto, conte piadas e ria da minha cara. Como se estivesse conversando com a gente. ― Expliquei para Alice que parecia entender o que eu fiz agora. Mel aprovou.
― Por isso você me “arrumou”? ― Ela perguntou.
― Yeep. ― Sorri pra ela.
― Até quando essa morcega vai ficar aqui? Será que ela ficou aleijada no meio do caminho e agora tem que andar se arrastando aqui? ― Alice mudou de assunto rapidamente, me fazendo rir e Mel ralhar com ela.
― Alice!
― Pelo menos isso explicaria a demora! ― Ela disse fazendo careta. E eu sabia que estava certa. Alice nunca admitiria, mas eu a conheço pra saber que se ela mudou de assunto é porque eu estava certa.
― Enquanto ela não vem, ― Mel se pronunciou. ― vamos à segunda lição: não se sinta intimidada perto do Marcus. Siga o conselho da Rosie e seja você mesma. O resto é por conta dele, mas fique atenta às suas respostas. Enquanto eu estiver lá, vou te ajudar, mas depois você vai ter que se virar sozinha, portanto, preste atenção no que você fala. Você precisa ser só a Alice, não a garota que ele quer que você seja. Se você quer conquistá-lo, é por você mesma que ele tem que se apaixonar, não por alguém que você inventou para atrair a atenção do Marcus.
― Okay. Isso vai ser fácil. Eu espero. ― Ela parecia ansiosa, mas tato eu quanto Mel tínhamos certeza de que ela se sairia bem.
Chega de vê-la suspirar pelo Marcus sem ele dar a mínima atenção à Alice. Encarei Mel e em seus olhos eu tinha certeza de que ela iria fazer alguma coisa. Eu não tinha muita certeza, mas podia apostar minha pizza que ela falaria com Marcus para abrir os olhos dele.
― Podemos ir. ― Só reparei que tínhamos caído no silêncio quando Kath finalmente chegou.
― Posso ouvir um coro de aleluias?! ― A voz de Alicia saiu afiada como uma faca. Óbvio que ela ainda estava chateada pelo que aconteceu mais cedo, mas nem por isso ela passaria a gostar mais de Kath. Mel apenas suspirou e começou a caminhar para alcançar Alice. Eu ia segui-la quando reparei que Kath continuava no mesmo lugar.
― É sempre assim, não é? Acho que nunca vou conseguir ser a garota que Lice queria que eu fosse. São muitas coisas que acontecem comigo. Eu não aguento. Acho que vou...
― Vai parar de falar porcaria e começar a andar. ― Eu interrompi Katherine antes que ela começasse o tão odiado discurso melodramático que já sabíamos de cor.
Seus olhos castanhos escuros, quase negros, sempre foram sem brilho. Por isso sempre pensei que todo aquele drama que ela fazia, tinha um fundo de verdade. Olhos opacos que poderiam passar por olhos de cera às vezes. É verdade que Kath exagerava na maioria das vezes, mas ela só queria a atenção que ela acha que nunca teve. Ela é egoísta achando que os problemas delas são os piores do mundo e esqueçe que existem pessoas vivendo em volta dela que possuem problemas de soluções muito mais dolorosas do que um psiquiatra e aceitar que ela não é o centro do mundo. Que ela faz tempestade em copo d’água e que as pessoas se preocupam com ela (ou já se preocuparam), mas ela é tão egocêntrica que não enxerga nada além do seu sofrimento e anseia, deseja o carinho que um dia foi oferecido, mas por estar ocupada demais se automartirizando, esqueceu-se de notar.
Balancei a cabeça ao perceber que divagava e notar que Katherine me encarava com seus olhos de cera em um misto de incredulidade e confusão.
― Kath, você sabe que exagera às vezes e que o mundo não gira ao seu redor. Você precisa parar de agir como uma garotinha mimada e se comportar como uma adolescente que só quer aproveitar a vida antes de ter cabelos brancos. ― Eu falei sem pensar e quando ela ficou um bom tempo me olhando em silêncio, tive medo de tê-la machucado e piorado a situação ao invés de ajudar.
― Você precisa seguir o próprio conselho, Rosalie. ― Aquilo foi como um soco no meu estômago.
Talvez ela tivesse razão.
Mas Katherine já corria pela calçada em direção à Mel e Lice que conversavam (provavelmente sobre Marcus). Eu também corri para alcançá-las.
― E então, onde é que nós vamos? ― Alice perguntou quando cheguei até elas.
― Ver um filme com o Marcus e o Matt. ― Mel respondeu.
― Mas o cinema não fica para o outro lado? ― Alice parecia confusa.
― Ah, nós não vamos ao cinema. Vamos à casa do Marcus. ― Eu achava que Alice ficaria lívida quando ouvisse a resposta de Mel. Mas ao invés disso, ela apenas sorriu maliciosa.
–-X--
― E então, qual filme vai ser? ― Matt perguntou quando todo mundo finalmente parou de falar.
Faz vinte minutos que estamos discutindo qual filme vamos assistir. Matt e Mel queriam ver Velozes e Furiosos. Eu queria ver Homem de Ferro. Kath queria assistir A Última Música e Marcus queria O Exorcista. Até Lice dar a ideia de assistir Harry Potter, já que todos éramos fãs. Mas se você pensa que a discussão acabou aqui, está enganado: começamos a discutir qual dos filmes da franquia veríamos.
― Harry Potter e a Ordem da Fênix. ― Disse Marcus.
― E o que nós vamos comer? ― Mel perguntou.
― Já estou pedindo pizza. ― Falei, pegando meu celular e apertando a tecla 1 da discagem rápida, salva com o número da pizzaria.
― Só pra fugir da rotina, não é Rosie? ― Mel exclamou.
Depois de mais vinte minutos, finalmente começamos a assistir o filme. E o meu celular vibrou também. Franzi o cenho para o celular quando vi que a mensagem era de Mel:
“Rosie, diz que é a sua mãe e inventa alguma coisa, sei lá. Vamos deixar os dois sozinhos. Já falei com o Matt e ele também vai inventar uma desculpa.”
― Gente, desculpa, eu preciso. Minha mãe me mandou uma mensagem dizendo que meu irmão foi atropelado. ― Falei a primeira coisa que veio à minha cabeça. E me arrependi no segundo seguinte.
― Atropelado?
― Como assim?
― Foi grave?
― Ele está bem?
Pelo canto do olho viu Mel abaixar a cabeça, sem saber se ria ou se chorava.
― Não, está tudo bem, foi só um susto. Mas de qualquer jeito eu preciso ir.
― Eu vou com você. ― Mel se levantou e olhou para Kath.
― Então eu também vou. ― Kath se levantou e em seguida Lice.
― Então o filme já era. ― Vontade de pular no pescoço daquela menina.
― Minha namorada está me ligando. Parece que eu esqueci que eu ia sair com ela hoje, foi mal cara. ― Matt trocou um soco com Marcus e se dirigiu para a porta.
― E eu vou ter que assistir o filme sozinho?! ― Marcus parecia indignado.
Mel encarou Lice que entendeu o recado. E depois eu sou a lerda.
― Hãm, bom, já tem muita gente indo com a Rosie para o hospital, não sei se eles deixariam todas nós entramos. E de qualquer forma eu nem gosto do irmão da Rosalie. Tomara que morra.
― Alice! ― Gritei com ela, que apenas riu com Marcus se sentando no sofá outra vez.
― Espero que esteja tudo bem com seu irmão, Rosie. ― Marcus disse quando nós já estávamos na porta.
― É, e bom filme pra vocês!― Mel gritou por cima o ombro e até nós chegarmos na próxima quadra já estávamos rindo.
― “Meu irmão foi atropelado”, Rosie?! ― Mel continuava rindo e Kath estaca com cara de perdida.
― Foi a primeira coisa que me veio na cabeça. ― Me defendi.
― Contanto que dê certo, ótimo. ― Mel retrucou.
― Dar certo o que? ― Perguntou Kath.
― Você explica, Mel.
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