O País dos Generais
8 Suspicious Minds
Notas iniciais
A semelhança doía. Os cabelos negros dela caiam parecendo uma cortina, cobrindo os olhos como a noite escondendo as nuvens cinzas de chuva. Eu me lembro de observar outra mulher desse jeito. Só que não era um livro, era um violão. E os cabelos eram tão loiros que pareciam um raio de sol.
Até hoje eu não conseguia imaginar como Melanie fizera para conseguir o instrumento sem que meu pai botasse a casa a baixo. Ela sempre dava um jeito. Acho que era isso que eu mais amava nela, o fato de ela sempre driblar nosso pai. Melanie era um espírito livre, nem o coronel Mellark conseguira dobrá-la.
Eu sabia que não devia me aproximar. Deveria me contentar em observar Katniss, em um dos raros momentos em que ela baixava a guarda. Eu podia ler a história por cada expressão dela. Katniss ria, bufava, ficava pensativa de um segundo para outro seguindo o ritmo da páginas como se estivesse seguindo o canto de uma sereia, perdida em um mundo em que só ela tinha acesso. Mas a tentação de falar com ela, apenas ouvir a voz de um ser humano sem que tivesse recheada de falsidade, era forte demais.
Além disso...ficar aqui era perigoso. Meu sangue fluía mais lento só de imaginar ela sofrendo o que Johanna sofreu.
–Sabe- comecei com uma segurança que eu não sentia- Se você continuar matando aula de Educação Cívica podem tirar seu diploma.
Ela não se assustou. Parecia um pouco de ser interrompida, mas também parecia estar curiosa com minha audácia. Percebi que Katniss Everdeen era curiosa 24 ho irritada ras por dia.
–Você não se importa de perder seu diploma senhor Mellark?- Questionou, sorrindo desafiadora. Ela parecia achar que eu era de alguma maneira perigoso . Não pude conter um sorrisinho. “Ah Katniss, se você soubesse que não sou nada mais do que uma pessoa quebrada”
Dei de ombros, eu não perderia meu diploma por perder uma aula que aliás, seria repetida milhares e milhares de vezes.
–Eu passo o dia com Cato e com meu pai. Não há nada que eu não saiba sobre essa aula- Falei. E era verdade. Eu passara a vida ouvindo sobre meu dever com a pátria, sobre ser um ser superior e ter uma responsabilidade com essa nação de índios e negros mal educados e toda a baboseira pseudo nacionalista. Se meu pai tivesse nascido na alemanha, poderia muito bem ter se aliado a Hitler 20 anos atrás
–Gostaria de tomar um café? Você não parece interessado em voltar para aula- Katniss perguntou.
Era incrível. Com uma pergunta, apenas uma pergunta, ela conseguiu fazer com que o sol de inverno ficasse menos tímido. Até mesmo o vento pareceu se acalmar. “O minuano sente”, dizia Melanie. A encarei vendo se aquilo não era um truque, apenas uma formalidade. No entanto ela realmente parecia interessada em companhia.
–Por que não?- Por que as estrelas não param de brilhar? Por que o sol continua nascendo. Que pergunta estúpida, estúpida.
Eu estava acostumado a me sentir um idiota. Numa família de militares, um pacifista tinha a tendência a se sentir assim cada segundo do dia. Ali com Katniss, eu me sentia completamente longe de algum pensamento inteligente. De alguma forma, aquilo não importava.
Aquela hora não havia quase ninguém na pequena cafeteria da Ufrgs. Diziam que muitos casais tinham encontros clandestinos naquele local. Tive que conter uma risada, me imaginando tendo um encontro com Katniss ali. “Papai estou namorando uma judia do Bom Fim! Não, ela não é rica, essa é a melhor parte. Vou me converter!”
Enquanto esperávamos o café comecei a cantarolar 'I wanna hold your hand”, dos Beatles porque, convenhamos, era exatamente isso que eu queria fazer. Katniss me olhou intrigada, enquanto o homem do balcão lhe entregava o café.
–Não sabia que você era um fã dos Beatles- comentou ela espantada, assim que nos sentamos em uma mesa afastada, perto de uma janela- Você parece gostar mais de...sei lá, alguma coisa clássica, americana e empolada como Frank Sinatra.
Não pude deixar de rir. Ela deveria ter uma visão e tanto de mim. “Clássica, americana e empolada”. Jesus, ela pensava que eu era meu pai!
–Na realidade senhorita, eu sou um fã ardoroso do Elvis- comentei saboreando sua expressão enquanto ela me encarava impressionada. Tive vontade de começar a cantar “Baby, Let's Play House”-Eu fui até Las Vegas, sabe… ver a estreia de Galahad. Oh deus, estou soando como uma adolescente desvairada agora, não? Juro, Elvis não faz meu tipo.
Então aconteceu algo que nunca imaginei que fosse acontecer. Talvez, os deuses lá em cima tivessem finalmente se apiedando de mim porque Katniss, a minha mal humorada e desconfiada Katniss, começou a rir. Descontroladamente.
–Você está brincando né?- Perguntou ela limpando uma lágrima do rosto- Você é um fã do Elvis… digo do Elvis?
Olhei para ela sério
–Eu nunca brinco com Elvis- comentei como se estivesse falando de alguém da família.
Então ela riu ainda com mais força. Não pude evitar e rí também. Acho que aquela era a primeira vez que ria de verdade desde… bom desde a morte da minha irmã. Katniss parou de rir, mas continuou sorrindo. Ela tinha uma sombra nos olhos como se, de algum modo, lembrasse que não deveria estar rindo, mas ainda assim tinha a expressão mais relaxada que eu já havia visto em seu rosto
–Você está preocupada com algo?-perguntei sem conseguir me conter- Eu estava brincando quando disse que eles podiam retirar seu diploma,sabe?
Ela me encarou com aqueles olhos cinzas que tinham a mania de observar tudo e todos como se fossem um objeto curioso.
–Não-Ela deu um sorriso que não chegou aos olhos- Só estou pensando em uma amiga que está com problemas.
Não soube o que dizer depois disso, então disse a primeira coisa que me veio a cabeça.
–Se eu fosse você não me preocupava muito com os problemas dos outros. Eles são dos outros, não seus.
–Claro e você acredita que todos devem ser fortes o suficiente para sobreviver sozinhos- Alfinetou.Katniss tinha deixado de sorrir e sua expressão assumiu um tom de desafio. Se eu gostei? Essa mulher me deixava louco.
Dei de ombros Meu pai com certeza acreditava. Já eu... Estava envolvido demais no meu próprio luto para filosofar sobre o bem e o mal.
A garota suspirou e se levantou.
–Que tal darmos um passeio pela redenção? Ficar dentro de 4 paredes em um dia como esse é meio que um crime.
Sorri e levantei na mesma hora. Eu não tinha ido ao parque desde que voltara, mas se há algo em Porto Alegre que nunca muda é a redenção. As árvores, os alunos do colégio militar aproveitando o intervalo, a sensação de estar em um ambiente fora do tempo. Tudo era familiar ali. A redenção de certo modo era parecida com o Central Park, mas ainda mais selvagem.
Katniss parecia completamente em seu ambiente. Sua postura relaxara e ela parecia ter tirado novas forças do local.
–Você ama esse lugar né- Falei, mais em tom de afirmação do que pergunta. Katniss fez que sim com a cabeça.
Ela sorriu e mordeu os lábios como se pensando em me dizer algo.
–Quando eu era criança- começou ela e fiquei feliz por ela ter decidido falar- Achava que a redenção era um lugar mágico. Mamãe sempre ficava com medo daqui. Dizia que há muitos jovens perdidos, marginais rondando o parque. Acho que era exatamente isso o que me fascinou por esse lugar. Tanta gente diferente. De todos os tipos. Acho que aqui você pode ser quem quiser ser.
É, não pude não concordar com ela.
–Mas como está sendo para você voltar para o Brasil?- Me questionou. Engraçado, ninguém nunca tinha me feito essa pergunta até agora.
–Interessante- respondi da melhor forma que podia. Nos sentamos perto de um Chafariz, alguns metros do pórtico que me lembrou o arco do triunfo.
– O que é aquilo- Perguntei curioso. Eu tinha visto umas poucas vezes quando era criança no Parque Farroupilha, mas não me lembrava daquele monumento.
–Ah- disse Katniss apontando- É o monumento ao expedicionário. Construiram esse pórtico em 1957 em homenagem aos pracinhas, os soldados que lutaram na 2ª guerra. Todo mundo conhece como “o arco da redenção”, na verdade.
–Ah! Nos Estados Unidos existem monumentos para os soldados em todos os lugares- Comentei, observando o monumento.
Katniss assentiu.
–Seria melhor se tivesse um monumento para artistas. Pessoas que cantam, escrevem, dançam. O mundo seria um lugar bem melhor.
Rí com o pensamento. Eu queria dizer que concordava, mas eu tinha que me comportar como o bom filho de militar que era, mesmo ali com ela.
–Você tem algumas ideias bem controversas, senhorita Everdeen.
Ela deu de ombros.
–Não se preocupe. Costumo manter minhas ideias para mim. Mas e você Peeta, no que acredita?
–Isso é um interrogatório?- indaguei com o que esperava que fosse meu sorriso mais deslavado.
–Não- disse ela- Só estou curiosa. Você passou tanto tempo nos Estados Unidos. Gostaria de saber como eles pensam. O que o trouxe o Brasil, o que você acha do nosso país. Está feliz que agora finalmente existem pessoas decentes no poder? Esse tipo de coisa. Apenas curiosidade.
Não sei porque mas senti como se a temperatura tivesse caído uns 50 graus. Eu sabia, em primeira mão, que havia uma resistência em Porto Alegre. E esperava de todo o coração que Katniss não estivesse nela. Não porque eu achasse o regime militar e revolução algo bom. Mas porque era perigoso. “Não seja assim tão obvia Katniss, não faça perguntas”
– Não ligo para Politica. Você também não deveria- comentei sentindo o gelo em cada palavra.”Não me faça agir assim Katniss, pelo amor de Deus”.
–Por que sou uma mulher- Senti mais uma vez o desafio na sombrancelha erguida de Katniss.
Sacudi a cabeça frustrado.
–Porque é perigoso- Eu queria sacudir a garota para que ela entedesse- Já vi alguém...uma pessoa importante se envolver com isso… e não acabou bem.
Katniss pareceu ficar em ainda mais confusa com o que disse. Percebi que ela estava se segurando para fazer perguntas, mas decidiu deixar para outra hora. Depois disso, ficamos conversando sobre amenidades. Uma parte de mim ficou feliz como uma criança ao perceber que Katniss e eu gostávamos das mesmas coisas como romances históricos e até um pouco de bossa nova.
Percebi que era fácil falar com ela. Mas era perigoso também. Eu não podia me distrair da missão de descobrir o que havia acontecido com Melanie. O Brasil não tinha nada para mim. Apenas um bando de lembranças tristes. Lembranças que eu tinha que deixar para trás para poder recomeçar em um lugar bem longe daqui.
Quando estávamos voltando para a Universidade encontramos Cato e a namorada. Ele estava saindo de uma de suas aulas e logo voltaria para a Universidade, para ajudar na vigia do campus. Era engraçado ver soldados na universidade, mas eu sabia que eles estavam em todos os lugares considerados estratégicos.
–Katniss- Cumprimentou com um sorriso que eu daria tudo para apagar- Como você está? Parece que finalmente meu irmão está com uma boa companhia.
Katniss riu, mas senti minhas bochechas esquentarem. Cato era definitivamente um cretino.
–Por que você não vai jantar com a gente amanhã a noite? Teremos um jantar especial de aniversário para nossa mãe.
Se eu odiava Cato, agora eu queria retirar cada gota de sangue da forma mais dolorosa possível. Como ele podia levar Katniss lá em casa? Sabendo que lá era quase um túmulo! Como ele poderia deixar que ela tivesse contato com nosso Pai? Será que ele era tão cego a ponto de não ver que ela era tudo que nosso pai odiava? Que nosso pai era tudo o que ela odiava?
Katniss pareceu ponderar por um momento. Eu sabia que jantar na nossa casa era a última coisa que ela queria. Ela podia ser amiga de Infância de Cato, mas ela detestava cada ideia da cabeça loira dele. Mas, mais uma vez naquele dia, ela me surpreendeu
–Seria um prazer. Vou passar na casa de uma amiga antes, mas estarei lá as 20h.
Senti uma vontade louca de gritar. No entanto, sabia que não havia nada a fazer. A não ser.... proteger Katniss da melhor forma que eu pudesse. Será que eu seria páreo para meu pai agora? O problema é que eu nunca fora.
Cato se foi, dizendo que me via em casa e que precisava fazer alguma coisa.
–Sabe... Nunca vou entender essa sua amizade com Cato. Quer dizer...Você parece discordar de tudo o que ele diz; mas ainda assim tem uma boa relação.
Katniss assentiu.
–É verdade, mas ele é um bom amigo. O conheço desde que éramos crianças. Algumas pessoas ficam apesar de tudo, eu acho.
Dessa vez eu não pude concordar com ela. Pessoas não ficam. Elas vêm e vão. Se você for um azarado como eu, tudo o que resta são fantasmas e memórias.
Duas pessoas passaram por Katniss e ela pareceu congelar. Percebi que ela segurou o livro que carregava com mais afinco, como se fosse algo precioso.
O livro que ela usava para aulas de Educação cívica caiu e quando peguei para entregar a ela percebi que haviam partes marcadas. Eu reconheci um dos códigos utilizados que meu pai havia feito com que estudássemos a exaustão.
Katniss havia me surpreendido várias vezes aquele dia, mas dessa vez ela tinha conseguido me deixar completamente atônito. Naquele momento, odiei meu pai por ter feito com que nós, os filhos e futuros protetores do Brasil, soubessemos tudo sobre espiões. Os movimentos de Katniss a entregavam. Ela com certeza estava envolvida em algo.
–Então, você costumava marcar as partes que acha interessante é?- Perguntei o mais calmo que pude, fingindo que aquilo não era nada.
Senti que ela estancou. Seus olhos adquiriram um medo que eu não tinha visto até agora e eu tive certeza de minhas suspeitas não eram infundadas. Katniss estava com a resistência que meu pai tanto temia.
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