O País dos Generais
9 Malek
Notas iniciais
Passar um tempo com Peeta Mellark era uma das coisas que eu nunca tinha imaginado que iria fazer espontaneamente. Eu sabia que tinha que me aproximar dele, afinal era isso que a resistência queria. E, se eu quisesse respostas e um pouco de ajuda para encontrar Hazelle, eu devia começar a fazer o que eles queriam e descobrir mais sobre os Mellarks. Pelo menos, mais do que descobrira nos meus anos de amizade com Cato.
Aproveitei que ele também havia matado aula e o convidei para um café. Passar a tarde com ele foi estranho. Ele se esforçava para manter a fachada de filho de militar durão, mas havia momentos em que eu jurava que podia ver o menino que desenhara um sol brilhante alguns anos atrás. Um artista que gostava de pintura, música e podia até viajar quilômetros para Las Vegas para ver o Show do Elvis. Era engraçado ver ele observar a cidade e a universidade, parecento estrangeiro e nativo ao mesmo tempo.
Quando ele pegou meu livro e perguntou se eu costumava marcar daquele modo minhas leituras senti um medo frio tomando conta de mim. Tentei me acalmar porque seria quase impossivel ele saber sobre o código que a resistência havia inventado. Minha cabeça começou a girar com possibilidades e mais possibilidades dele estar trabalhando para os militares e saber nosso código. Se ele soubesse, eu estava encurralada. Então fiz o possível para esconder meu medo e sorri para ele.
–Sim, obrigada-disse pegando o livro antes que ele pudesse examinar com mais calma- Vejo você amanhã, então.
Peeta sorriu, mas havia algo em sua expressão que traia alguma coisa. Algum medo. Decidi deixar para lá, decifrar Peeta Mellark era uma tarefa quase impossivel.
–Até amanhã-respondeu, parecendo meio exitante.
Sai antes que o diálogo pudesse se prolongar e fui para a casa de Gale. Ele estava terminando de fritar os últimos salgados e atendia o último cliente do dia. Quando me viu, seu rosto cansado adquiriu um pouco de vida.
–Veio comer um dos meus salgados já senhorita Everdeen?- perguntou. Uma pontada me atingiu como um soco, mas sorri para Gale. Hazelle costumava fazer essa piada.
–É inevitável-respondi- Mesmo que tenha que aturar sua companhia desagradável.
Gale respondeu com um muxuxo e continuou arrumando as coisas. Me levantei para ajudar, mas ele me deteve com um movimento da mão. Gale era tão orgulhoso que às vezes me irritava. Me irritaria, se eu não fosse exatamente como ele. Eu queria perguntar se havia alguma noticia. Só que eu sabia a resposta. Eu sabia quem havia pego Hazelle.
–Como estão as crianças?- Os irmãos de Gale estavam brincando na rua. Só voltariam para casa lá pelas 8h quando Gale chamasse incessantemente e depois lutaria com os dois meninos e a menorzinha para que tomassem banho.
Era sim a vida do meu amigo agora. 24 me parecia cedo demais para ter que carregar um peso tão grande.
Gale olhou para a porta como se estivesse avistando os três irmãos.
–Bem, na medida do possível. Posy acorda chamando a mãe toda a noite, mas vai ficar bem.
Senti meu estômago afundando. Pensei em contar para Gale o que sabia, mas… que bem isso poderia fazer? De repente me ocorreu algo.
–Gale, você sentiu que ia acontecer algo, não sentiu?
Ele continuou lavando a louça, mas pude ver o imperceptivel movimento de seus músculos, como se doesse pensar nisso.
–Você sabe que nós muçulmanos acreditamos em anjos não é?- Assenti. Eu tinha adoração por ver ele falando de sua religião. Como filha de um rabino, eu aprendera amar história de religiões e sabia que não erámos tão diferentes assim- Bom, eu sonhei. Lembra quando fui te buscar no dia… no dia em que os militares tomaram o poder?
Concordei com a cabeça. Gale estava tão assustado naquele dia! Não era o mesmo amigo brincalhão. Demorou alguns segundos, mas ele continou falando.
–No meu sonho minha mãe desaparecia, havia homens fardados. Eles ...a machucavam. A torturavam. Depois era como se eu sentisse na minha própria carne. Você estava no meu sonho também. Eles tentavam pegar você, mas você corria. Eu ficava gritando...corra Malak.
Evitei olhar para ele, evitando a todo custo que o calor dentro dos meus olhos se transformasse em lágrimas. Malak. Anjo. Fora assim que ele me chamara da primeira vez. A palavra islâmica para Anjo.
–Quando acordei parecia que havia uma presença. Ela tinha cabelos negros como os seus, então supus que fosse boa. Eu sabia que o sonho era um aviso.
Agora eu entendia o medo de Gale no dia. Ele havia percebido que seus pesadelos estavam se tornando realidade.
– Vai ficar tudo bem Gale. Hazelle vai achar um jeito de voltar para casa-Eu ia fazer o possível para ajudá-lá. E faria o possível para que Gale continuasse acreditando.
–Vai sim. Se ela tiver um Malak tão forte como o meu- respondeu com um beijo em minha testa antes de sair para chamar os irmãos. Ajudei ele com as crianças e depois que os pequenos já estavam dormindo Gale esquentou alguns dos salgados para nós.
Com essa conversa toda não pude deixar de lembrar da primeira vez que ele me chamara de Malak, o anjo. Fora na primeira vez que o vira. Ele tinha uns 11 anos. Me lembro como era alto e magrinho. Seus olhos castanhos observando os outros meninos. Logo ele estava mais interessado no pequeno boneco de madeira que estava fazendo.
Gale nunca pedia para jogar futebol com os outros. Eu já tinha o visto por ali. Sabia que ele morava perto da minha casa, mas nunca brincava com ninguém. De repente quando um dos meninos, um dos garotos que costumava frequentar nossa sinagoga, percebeu que ele estava ali, entendi porque ele nunca havia se misturado.
–Ei árabe, porque não vai rezar para Alá te dar uma bola como a minha?
Eu sabia que não deveria me envolver. No entanto, aquele garoto implicando com Gale era tão famíliar que não pude evitar sair do degrau onde estava lendo. Toda minha fúria estampada no meu rosto de 10 anos recém feitos.
–Deixe ele em paz Joel- mandei, enquanto o garoto se virou para mim.
–Katniss, vá brincar com sua boneca. Não quero machucar você. Não estou fazendo nada com o árabe- respondeu.
Os outros meninos riram e continuaram implicando com Gale. Eu continuei parada, alguns deles também disseram para eu voltar para as minhas bonecas e meus livros. Quando um deles partiu para cima de Gale, usei toda a raiva por eles sempre terem me dispensado das brincadeiras e a raiva pelo que estavam fazendo com Gale e soquei o primeiro garoto que vi.
Joel saiu com o nariz sangrando e com uma boa chance de não ter filhos. Eu sai com dois arranhões e sorri vitoriosa. Quando um deles partiu para cima de mim por vingança Gale o colocou no chão com um tapa certeiro na nuca.
–Venha Malak, vamos embora.
Quando estávamos longe deles olhei para Gale e ele sorria. Os olhos castanhos tinham um brilho divertido e sorri de volta.
–Obrigada Malak- disse
Olhei para ele meio irritada.
–Meu nome não é Malak
Ele riu.
– Malak significa anjo. Qual o seu nome Anjo?
Respondi e ele me encarou.
–Muito bem Catnip. Você foi meu Malak hoje. Alá foi muito bem comigo.
–Meu nome é Katniss.
E desde então era como se fossemos dois guerreiros inseparáveis. O menino muçulmano e a estranha garota judia. Eu já ouvira diversos comentários sobre o fato de eu e Gale nos casarmos um dia. Para mim essa era a coisa mais hilária do mundo, porque, embora Gale fosse lindo, erámos muito mais do que um casal, éramos quase irmãos de guerra. Nenhum de nós pesaria de outra maneira.
Quando contei do jantar que teria na casa dos Mellark, Gale deu um risinho e o encarei.
–Sabe, eu não tenho medo por você- respondeu ele- Você consegue aturar a pompa e até mesmo o velho Mellark. Estou com pena pelo coração do pobre Peeta.
Atirei uma almofada nele e ele riu com mais vontade. Deus, o que nós estávamos fazendo. Rindo, mesmo com todos os problemas. Essa era a magia de Gale.
–Não tem nada entre mim e Peeta. E, sinceramente, dúvido que o Mellark caçula tenha um coração.
Gale levantou um sobrancelha com uma expressão que dizia claramente que ele não acreditava em nada do que eu estava dizendo.
–Eu vi o jeito que ele olha para você. Você derreteu o coração de pedra do soldado junior
Desta vez eu atirei duas almofadas no rosto dele, ele me atirou outras duas de volta e ficamos nisso por uns 5 minutos. Depois conversamos sobre ameninadades. Fiz ele me prometer que iria no show de Rue, que eu esperava que não fosse cancelado pelo toque de recolher na próxima semana. Antes de ir embora, ele me abraçou.
–Obrigada por não me abandonar Catnip.
Sorri e olhei nos olhos castanhos do meu iraniano preferido.
–Sou seu Malak não sou?
No outro dia eu já estava quase arrependida de ter aceitado o convite de Cato. Mas eu tinha que fazer isso. Por Hazelle e por Gale. Tentei me acalmar lembrando do que eu sabia sobre a família e pensando em todas as informações que eu poderia conseguir com eles.
O pai de Cato e Peeta era um homem distante, sempre educado. Já a mãe dos Mellark era uma mulher arrogante. Eu me lembrava de como ela nos olhava quando ia na casa dos Mellark brincar com Cato. Ela só me aturava por parecer uma menina bem educada e por que ser judia não era um pecado tão grande. Eu sabia que ela não mostraria a mesma cortesia com Gale se ele fosse o amigo de infância de Cato. Respirei fundo, era esse tipo de pessoa que eu teria que encarar.
Olhei no espelho mais uma vez. Meu vestido estava ajeitado e me odiei por nunca conseguir ficar tão perfeita como as garotas que frequentavam a casa deles. Se eu ao menos fosse mais bonita seria tudo mais fácil. Suspirei, se tivesse que aturar os Mellark, que fosse!
Assim que terminei de me arrumar, ouvi a voz da minha mãe me chamando pelo corredor. Havia uma mulher me esperando na entrada da casa. Ela tinha o cabelo de um estranho tom de loiro e o os olhos de uma cor que eu não conseguia decifrar, mas pareciam dourado. Ela era uma das mulheres mais elegantes que eu já vira.
–Olá Katniss, vim pegá-la para o jantar na casa do senhor Mellark, sou Alma Coin.
Minha mãe parecia estar no céu com alguém vindo me buscar. Eu sabia que ela sonhava que eu casasse com Cato. Ela não parara de falar sobre a festa de que eu fora convidada. Era meio irritante, mas eu sabia que minha mãe não estava apenas querendo me casar. Ela queria o melhor para mim e para Prim, e isso significava sobrevivência.
Só que, assim que olhei para o motorista percebi que não era um carro da família Mellark. Tresh me deu uma piscadela e senti meu sangue gelar. Não disse que pretendia visitar Gale antes do jantar. Não fazia sentido, então apenas entrei no carro ouvindo as milhares de recomendações da minha mãe.
Andamos por cerca de 10 minutos, o carro se dirigindo para o centro, quando demos uma volta e voltamos para o Bom Fim, perto da casa de Gale, o carro estacionou em um lugar isolado. Eles tinham escolhido o lugar perfeito para me lembrar de Gale e da Hazelle e do motivo porque eu deveria estar cem por cento comprometida com a causa.
– Certo, me digam logo o que querem. Não posso chegar atrasada no jantar dos Mellark. Como descobriram sobre a festa?- Falei, sem me importar em deixar a exasperação falar mais alto.
Coin, pela primeira vez desde que entramos no carro, se dignou a olhar para mim. Seu olhar era ainda mais impenetrável e obscuro do que eu achava.
– Tresh é o motorista da família. O que será perfeito para você cumprir sua tarefa.
Senti meu coração acelerando como se tivesse levado um choque. Mais uma tarefa. Eu tinha que crer que cada uma delas me deixaria mais perto de Hazelle.
–Alguma noticia dos camaradas que foram pegos?- Perguntei, querendo deixar claro que aquela não era uma estrada de mão única. Você dava, você recebia. Coin me olhou como se fosse estúpida.
–Estamos investigando. Primeiro, antes de iniciar sua missão, você deve me dizer se está comprometida com a causa. E, caso sua resposta seja positiva, você deve se comprometer a ter aulas de defesa e se preparar melhor para sua grande tarefa com Albernath. Ele é um ex soldado, veterano de guerra. Vai poder te ajudar.
Olhei para ela em choque. Ela praticamente estava me transformando na coisa em que eu mais odiava no mundo, um soldado. Lembrei de quando Hazelle me perguntou se eu estava disposta a entrar na luta armada, lembrei do que aconteceu com Johanna, lembrei das pessoas dormindo tranquilas com o toque de recolher, sem saber dos desaparecidos, dos direitos que eram violados todos os dias. De como eles tinham um poder muito maior do que deveriam. E dei a mesma resposta que dei a Hazelle, tempos atrás.
–Sim. Tudo bem. Qual é minha tarefa?
Coin sorriu, e não pude deixar de ver que o sorriso dela era um dos mais sem vida que eu já tinha visto. Seus olhos pareciam duas geleiras quando ela falou, num tom mais baixo, mas ainda sim claro.
–É perfeito que você já tenha começado a se entrosar com os Mellark. Nós achamos que há uma forma melhor do coronel cooperar. Vai levar um tempo, mas assim que estiver preparada você terá uma grande trabalho a fazer,
Engoli em seco, enquanto queria gritar para ela para que me dissesse logo o que eu tinha que fazer.
–Você Katniss, vai sequestrar Peeta Mellark para a resistência.
Olhei para a janela acesa na casa de Gale, pensei na loucura de tudo aquilo, da magnitude da tarefa que eu tinha pela frente. Só podia esperar que, se houvesse mesmo um anjo, que meu Malak me ajudasse.
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