O País dos Generais
15 Rebeldes,amigos e saudades
Notas iniciais
"Eu gosto da cidade quando dois mundos colidem
Você vê o povo e o governo
Todos tomando lados diferentes (...)
Rondando minha cidade natal
Memórias estão frescas
Rondando minha cidade natal
Ooh, as pessoas que eu conheci
São as maravilhas do meu mundo"
Meus pés caminhavam com uma lentidão dolorosa até a Usina do Gasômetro. Cada passo que eu dava era como se estivesse fotografando a cidade. Daqui a três dias eu abandonaria tudo isso. Era incrível como só agora percebera o quanto Porto Alegre me moldara. As ruas da cidade, a catedral no centro, as lanchonetes que gostava de ir com meus amigos, a redenção com sua música, o Mercado público onde tivera meu primeiro emprego quando entrara na faculdade, o Bom Fim e nossa sinagoga, a escola onde conhecera Cato, meu primeiro amigo antes de Gale.
Mas essa já não era minha Porto Alegre. Essa era uma cidade diferente, onde eu tinha que cobrir meus olhos, andar com discrição e onde já não havia mais tanta música e alegria nas ruas. Tudo parecia o mesmo, mas tudo estava diferente. Cartazes grudados em um prédio em frente ao quartel foram uma lembrança dolorosa disso. "Jango comunista. Intervenção militar já". "Brasil não será uma Cuba." Ainda havia um resquício de tinta de onde havia sido retirado outro cartaz "Salvem a democracia brasileira! Viva Jango".
Lancei um olhar disfarçado para as minhas costas. Johanna estava há alguns metros atrás de mim, Preparada caso alguém me interceptasse. Imaginei o que ela estava pensando quando encarava os cartazes. Vir junto fora ideia dela. Minha família concordou, é claro. Era a melhor maneira de sair do apartamento. Acompanhada, a luz do dia e na surdina.
Respirei fundo. Três dias, três dias e depois eu não precisaria de escolta para encontrar meu melhor amigo. Três dias e eu estaria em um ônibus com destino a Buenos Aires. Depois pegaríamos um avião da capital argentina para Paris.
Quando cheguei na Usina do gasômetro e me sentei na grama foi como se meu corpo liberasse descargas elétricas que faziam com que eu quisesse me fundir com a paisagem, com o lago na minha frente e com toda a cidade atrás de mim. Sem pensar, tirei os sapatos e afundei meu pé na grama. A sensação era maravilhosa. A usina soltava uma fumaça negra, que servia para encher a cidade de luz elétrica. Naquele dia, nem mesmo ela conseguiu apagar a beleza do pôr do sol e a clareza do lago a minha frente.
Não demorou muito e senti uma presença do meu lado. Gale como sempre fora silencioso. E como sempre a primeira coisa que notei foi seu sorriso ao me ver. Com a ajuda de Johanna, eu conseguira marcar um encontro com Gale aqui. Imagino o que ela disse para convencer o pobre coitado a aparecer.
Ele me abraçou e senti como se a pressão atmosférica tivesse atingindo níveis insuportáveis. Eu tinha que contar, era como se eu pudesse sentir cada pedacinho do meu coração se rasgando ao me imaginar deixando Gale para trás.
—Catnip! Você parece melhor do que da última vez que a vi.
Forcei um sorriso. Estávamos sentados bem próximos, encarando o por do sol, de modo que se alguém de fora nos visse seriamos apenas um casal de namorados. Ainda assim era perigoso. Mais de quatro pessoas juntas era considerada uma reunião politica. E os militares não deixavam barato. Eu sabia que Johanna estaria em algum ponto da Usina. Provavelmente rolando os olhos sentada sob a sombra de uma árvore enquanto cuidava minhas costas. Forcei um sorriso para Gale.
—É, as coisas estão um pouco mais tranquilas- respondi, minhas mãos pegando a de Gale como se eu tivesse tentando segurar um bote salva vidas.
—Como está sua família?
Eu ia responder que estavam todos bem, ia responder que meu pai já estava bem melhor graças a Peeta mas eu sabia que, se eu respondesse isso, que seu eu deixasse a conversa seguir, nunca conseguiria contar ele.
—Gale, eu vou embora- falei de supetão. Quando disse isso me senti uma traidora. Não o encarei, mas dizer em voz alta me fez sentir a pior pessoa do mundo.
Senti o abraço de Gale ficar mais forte, enquanto o sol ia ficando cada vez mais fraco a medida que a tarde passava. Eu tinha que me controlar para não lembrar que aqueles eram meus últimos em Porto Alegre, os últimos no Brasil. O rosto de Gale era todo resignação, como se ele esperasse por isso e até ficasse um pouco aliviado.
— Eu sabia que tudo ficaria mais complicado quando eles assumissem o poder, só não imaginava o quanto.
O encarei, ele brincava com o Hamsá, a corrente dourada com um olho no meio, seus dedos viajando distraidamente enquanto me segurava com a outra mão, enquanto meus olhos seguiam seus movimentos.
—Gale...o que você não está me contando?- O encarei séria.
Gale suspirou fundo e não tirou os olhos do céu que se tingia de laranja, roxo e ia se tornando cada vez mais escuro com o passar dos segundos.
—Ontem fui entregar uma encomenda de salgados no norte da cidade. Quando voltei, minha casa havia sido pichada. A tinta era vermelha, de um vermelho que me lembrou sangue seco. "Voltem para sua terra comunistas, "
Me levantei de supetão, o encarando apavorada.
—Gale! — Eu queria gritar, queria pegar a mão dele e sair correndo, levando meu amigo para um lugar seguro. Comecei a andar para frente para trás.
—Por favor, venha comigo –disse depois de alguns segundos-Vamos embora daqui. Esse país não é mais para a gente.
O olhar de Gale foi o mais triste que já vira em toda a minha vida.
—Só tem dois problemas Catnip, quatro crianças. Eu não conseguiria ir embora com elas, você sabe disso. E minha mãe. Acha que conseguiria deixar ela aqui com eles, sozinha, sem saber o que aconteceu direito?
Escorreguei na frente dele, sentando em cima de minhas próprias pernas. Eu não podia abandonar Gale, não depois disso. Só que eu não podia deixar minha família aqui também. Lutei contra as lágrimas, seria uma estupidez chorar agora.
—Tem que haver uma solução Gale!- sussurrei desesperada. Ele pegou minha mão novamente.
—Vá para longe com sua família, você é o que eles estão perseguindo agora. Uma estudante, uma rebelde. Eu sou apenas mais um garoto idiota, estrangeiro, que eles não conseguem entender muito bem.
Senti uma raiva se apossando de mim imediatamente.
—Você sabe que não é verdade!- Eu falei, no tom desesperado. Se pudesse eu já estaria gritando.
Assim que ele me abraçou senti a raiva indo embora aos poucos, sendo consumida pelo desespero e pela impotência. Gale sabia que estava mentindo. Ele não era um zé ninguém. Ele era filho de Hazelle, uma presa politica comunista. E se eu estivesse certa...
—Não consigo evitar de pensar que eles fizeram isso para nos assustar. A mim, mas principalmente a minha mãe. Eles estão com ela, eles sabem onde nós estamos. Eles mostraram a ela que se quiserem podem nos machucar- falou ele ecoando os meus pensamentos.
Tentei contar os batimentos cardíacos de Gale para me acalmar.
—Proteja sua família Malek, eu vou proteger a minha. Talvez, quando tudo isso acabar, eu ainda possa te encontrar.
Dei um grunido abafado no peito dele. De repente tive uma ideia. Eu iria embora, mas Peeta e Johanna não. Os dois já tinham feito tanto por mim, eu precisaria pedir algo que eu não teria como pagar a eles, mas Gale valia pena.
—Sabe todo esse ódio, toda essa divisão, nunca acaba bem- falou ele depois de um tempo- Em um lugar diferente, você e eu nunca poderíamos ser amigos. E isso seria um sacrilégio.
Pela primeira vez um sorriso encontrou meus lábios. Ele tinha razão. Havia tanto ódio no mundo, mas acho que era isso que me ligava a Gale, nós não nos deixaríamos vencer por isso. Senti um medo terrível por ele. Meu amigo, que assim como eu, era diferente e que por isso tinha que lutar todos os dias para se encaixar.
—Vamos ficar bem Gale. Você e eu- Disse o abraçando mais forte que eu conseguia- E é uma promessa, assim que isso tudo acabar...você e eu vamos nos encontrar.
Meu amigo deu um sorriso maroto que eu conhecia como a palma da minha mão.
—E antes de você partir teremos uma festa para ir- Falou
Ele silenciou meus protestos de que era muito perigoso quando disse que essa seria a última vez que nos veríamos em muito tempo.
Quando encontrei Johanna ela parecia entediada e me encarou como se tudo aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
—Vamos, você precisa falar Coin.
Respirei fundo. Quando Johanna me disse que a mulher queria falar comigo neguei veemente dizendo que não colocaria mais minha família em risco. Eu sabia que eles provavelmente não nos ajudariam a sair do pais e eu sentia como se já não tivesse mais nada a ver com a resistência.
No entanto, assim que Johanna disse que eles podiam ter contatos na Argentina e que isso poderia ser mais seguro para Peeta fui obrigada a repensar. Eu sentia que devia a Peeta depois de toda a ajuda que ele dera a nossa família. E devia principalmente a Cato, que sempre fora meu amigo, mantê-los seguros. Sequestrar Peeta não ajudaria a resistência e eu poderia deixar as coisas mais brandas, mas depois que eu fosse embora, só Deus sabia o que eles fariam com meus amigos.
Johanna me levou até a catedral metropolitana onde uma mulher estava com a cabeça abaixada. Alguém de fora juraria que ela estava compenetrada orando, só que eu sabia que a situação era bem diferente. Os cabelos loiros de Coin não me enganavam.
Quando entrei percebi uma figura conhecida ao lado da porta, provavelmente escoltando a mulher. Tresh, O garoto que estivera nas duas primeiras reuniões da resistência e servira de motorista para Coin quando ela viera me dar a missão de sequestrar Peeta. E ele, assim como eu, estava infiltrado na casa dos Mellark.
Tresh me deu um sorriso complacente, como se sentisse muito pela minha situação. Retribui da melhor forma que pude e andei até onde Coin estava. Johanna se posicionou do outro lado da porta da catedral de modo que ficássemos protegidas caso alguém entrasse.
O Silêncio na catedral era total. Coin levantou os olhos e percebi que eles pareciam prata liquida. Havia algo de perigoso por trás deles.
—Sabe, é estranho não? Nos encontrarmos em uma catedral, como na idade média. Irônico também, já que a maioria da igreja apoiou a revolução militar. Me pergunto quanto tempo levará para que o Arns se arrependa.
—Coin, você sabe que estou indo embora- a cortei antes que ela começasse a divagar até mesmo sobre a influência russa na Asia- Johanna me falou que você iria me ajudar.
Quando ela olhou para o altar, todos os seus movimentos eram deliberados.
—Sim, mas tem alguns pontos que precisamos deixar resolvidos antes que você vá.
Era engraçado como todos os meus instintos diziam para ficar na defensiva quando eu estava perto dela. Pela primeira vez, ela tirou os olhos do altar e me encarou.
— Seu serviço para a resistência foi bem feito. Apesar da vigilância, você conseguiu informações importantes sobre a inteligência militar em Porto Alegre. Conseguimos,inclusive, salvar três famílias e mais dois companheiros que estavam no radar do Coronel Melark e do General Snow.
Meu coração deu uns três saltos. Apesar de ter sido quase apanhada eu salvara pessoas dos militares. São Pedro parecia me olhar com reprovação, sabendo que apesar da felicidade eu ainda estava desapontada por uma dessas pessoas não ser Hazelle.
—Agora, antes que você vá- Continuou Coin, pegando a biblia e fingindo ler uma passagem -Precisamos das informações que você tem sobre Peeta Mellark. Tresh conseguiu a planta da casa e mais algumas informações, mas tudo o que você souber vai ajudar Johanna que agora é a encarregada do sequestro.
Senti o ar lentamente sendo sugado dos meus pulmões e virei meu rosto para minha amiga que parecia tão atordoada quanto eu.
—Vocês ainda vão sequestrar Peeta?- Perguntei sem saber o porquê de agora a ideia me parecer hedionda. Seria só porque ele me ajudara? Porque ele cuidara do meu pai? -Ele não sabe de nada.
Coin soltou uma risadinha que me pareceu sombria e profana dentro da igreja.
— Eu achei que você fosse menos ingênua que isso Katniss- Disse ela num tom que deixava claro que ela me considerava ingênua de qualquer modo- Eu sei que você é amiga do irmão dele. Foi por isso que escolhemos você. Mas não se engane pelos belos olhos azuis daqueles garotos. Cato Mellark é militar e Peeta Mellark foi criado nos Estados Unidos. Eles são filhos de um dos figurões mais importantes da revolução. Eles, querida, são a própria revolução militar.
Ela levantou rapidamente do banco e me entregou a bíblia que tinha nas mãos.
— Aqui estão todas as informações da fuga e os passaportes falsos. Até mais senhorita Garcez- Falou já se dirigindo para porta da catedral.
O sobrenome falso me deu arrepios. Era como a confirmação de que eu estava indo embora. Tresh me deu um sorrisinho gaiato antes de ir. Percebi que poderíamos ter sido muito amigos se o mundo não estivesse uma loucura.
Não percebi que tinha ficado paralisada até Johanna sentar do meu lado.
— Ei,princesinha de Saba, você está bem?
Tive que rir lembrando da primeira vez que conversamos. Ela me deu esse apelido porque eu tinha acabado de contar que era judia e eu ficara muito chocada quando ela acendeu um cigarro de maconha. Quando ela disse que eu tinha modos de princesinha e eu respondi que, perto dela, qualquer um era um mar de educação ela gargalhou e nos tornamos amigas imediatamente.
— Estou é que... é muita coisa para processar. Segurar esses passaportes parece tão definitivo.
Johanna deu de ombros
— É definitivo- Apesar da segurança vi um pouco de tristeza na sua voz. Resolvi fazer a pergunta que estava me afligindo.
—Johanna, o que eles vão fazer com Peeta?
Johanna não respondeu de imediato mas assim que o fez sua expressão era dura.
— O que for preciso para conseguir informações dele.
—Isso é o tipo de coisa que os militares fariam- comentei sentindo a bíblia que Coin me dera queimar em minhas mãos.
Johanna deu uma risadinha
—Não, Katniss, isso é o que pessoas em guerra fazem.
Respirei fundo umas duas vezes, sentindo minha pulsação aos poucos voltar ao normal. Eu não queria sair dali. Mas a vida continuava e e eu teria que aceitar que iria embora deixando todos os meus amigos em perigo.
—Johanna-implorei, segurando firma a mão da minha amiga- Por favor, não deixe nada acontecer com Gale e Peeta.
Johanna parecia irritada com meu pedido.
—Você está percebendo o que está me pedindo Katniss?- Falou Johanna mais séria do que já a vira.
Minha amiga tinha diversos problemas em esconder sua loucura. Ela bebia, fumava, andava com rapazes e garotas, tudo em demasia. Mas não havia sombras disso agora. Nunca havia quando se tratava da resistência e da luta dela
— Você está me pedindo para cuidar de dois garotos de lados opostos. Quando você entrou nesse luta, você sabia que teria que escolher um lado.
Ela tinha razão, mas eu não conseguia ser tão profissional e fria como ela.
—Eu não vejo a resistência ou os militares quando olho para eles Johanna- falei, erguendo um pouco a voz- Tudo o que eu vejo é o garoto que cresceu comigo, meu melhor amigo, meu irmão. E o garoto que apesar de ser filho de militar se arriscou para me ajudar a manter minha família a salvo. E, tudo o que vejo quando olho para eles, são os amigos que eu vou abandonar por causa dos militares e da própria resistência.
Johanna suspirou. Demorou vários segundos para falar, mas quando falou ela já não era mais a militante de minutos atrás.
—Você me vê?- sussurrou ela baixinho. E então percebi o quão sozinha ela estava. Percebi que a dor de deixá-la seria lancinante também.
—Mais do que qualquer um- respondi colocando minha cabeça em seus peito.
Ela colocou seu braços desajeitados sobre mim.
—Você é muito sentimental princesa de Saba.
—E você não está me consolando direito Johanna.
E antes que a gente conseguisse se conter começamos a gargalhar dentro da igreja. Um padre apareceu e fez sinal para que nos calássemos. Depois que ele saiu rimos mais ainda. E eu percebi que existem coisas tão sagradas que nem mesmo uma revolução pode mudar.
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