O País dos Generais
16 Como Melanie
Notas iniciais
"Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Prendia o choro e aguava o bom do amor"
Quando entrei em casa ao voltar de mais uma visita na casa de Katniss encarei meu rosto pela primeira vez desde que apanhara. O espelho da sala de jantar me mostrou alguém que eu mal conhecia. Eu estava me recuperando rápido da pancada sofrida há dois dias, mas ainda assim eu conseguia ver um roxo no canto do meu olho esquerdo. Sorri. O olho roxo era a única coisa verdadeira no meu rosto. As roupas bem cuidadas, o cabelo bem penteado. Eu era o típico rapaz rico da alta sociedade porto alegrense. Até meu corte de cabelo era militar.
Uma queda, foi o que eu disse a todos na faculdade. Patético. Para futuros médicos, eles acreditavam facilmente nesse tipo de mentira. Eu tinha que continuar fazendo o papel do bom garoto se quisesse continuar na Ufrgs e, principalmente, se quisesse descobrir o que acontecera com Melanie.
— Ou você perdeu feio uma briga ou foi atropelado pelo bonde- falou meu irmão que, assim como eu, acabara de chegar em casa.
Ele passara os últimos dias de plantão e perseguindo a namorada. Clove. Eu a vira uma ou duas vezes. Assim como meu irmão, ela trabalhava para os militares e era enfermeira no Hospital Militar. Os dois se conheceram em um dos plantões do meu irmão no local. Almas gêmeas.
—Não, um bonde seria mais gentil-respondi de má vontade.
Cato revirou os olhos.
—Se arrume. Hoje Snow vem jantar com a gente. Parece que ele trará toda a família também.
Não me surpreendi em ficar contente com a vinda de Snow. Eu precisava conversar com ele. E, se o velho bebesse, tenho certeza de que conseguiria tirar muitas verdades dele. Só havia um obstáculo. O resto da minha família, claro.
Duas horas depois, como o bom filho que era, sai do meu quarto para esperar os convidados. Eu não fizera nada para disfarçar o roxo no meu olho, o que é claro, irritou um pouco meu pai. Quanto tempo poderíamos continuar jogando esse jogo? Eu não sabia.
Já estava me resignando a uma noite com as pessoas mais intragáveis do planeta quando senti o inconfundível perfume da minha tia. Ela estava sentada com as pernas cruzadas, o cabelo puxado para cima em um coque loiro e o vestido verde elegantemente se espraiando pelo sofá. Ela parecia uma fada saída daqueles livros que eu via as babas no Estados Unidos lendo para as crianças.
Ela abriu um sorriso largo assim que me viu, mas logo sua expressão se tornou preocupada. Preocupada não, profundamente irritada. Ela encarou meu pai mas não falou nada. Não precisava. TIa Effie era um doce, mas podia matar com um olhar. Pena que meu pai nunca se dignava a olhar duas vezes para a cunhada. Minha mãe parecia alheia importunando Matina para que o jantar saísse perfeito.
Quando fui até cozinha fiquei feliz em ver o fogão a lenha aceso, Eu tinha morado nos Estados Unidos, mas lá eu estava preparado para o frio. Era tão estranho sentir frio em agosto depois de 11 anos.
Como suspeitava minha tia me seguiu até lá.
—Você sempre soube o que é bom- Ela retirou as pesadas luvas de inverno e colocando as mãos sobre o fogão- Ah Peeta... eu tinha tantas esperanças que você escapasse do seu pai- suspirou ela, encarando meus machucados.
Não ousei encará-la.
—Não se preocupe Tia. Eu sou um adulto, consigo lidar com ele.
Tia Effie mordeu o lábio. Nunca a tinha visto assim. Ela parecia estar contendo a raiva.
—Sua irmã costumava dizer a mesma coisa sabe. E você não é muito mais velho que ela.
A encarei irritado.
—Sou quase 10 anos dez mais velho do que ela era quando morreu tia! — E pela primeira vez percebi o quão jovem minha imã era- E eu nem consigo me lembrar por que ela morreu.
Ela sacudiu a cabeça como se tivesse tentando se livrar de um pensamento. Era tão bom, tão bom estar conversando sobre isso com alguém pela primeira vez, alguém que se importava, de verdade.
—Eu nunca deveria ter viajado naquele ano! — suspirou ela.
—Por que eles internaram Melanie naquela clinica psiquiátrica? Ela morreu uma semana depois, mas eu não me lembro de ir visitá-la. Eu não lembro de vê-la depois...
Eu não conseguia me lembrar. Só lembrava de meu pai indo embora, com minha irmã. Uma faixa de sangue na cabeça dela, os homens gritando algo que eu não conseguia lembrar. Meus gritos. Cato me segurando e tentando segurar o choro... tudo tão distante mas como se fosse ontem. Eu só não conseguia juntar as peças na minha cabeça.
Tia Effie segurou minhas mãos. Matina veio nos avisar que os convidados haviam chego. Minha tia me encarou séria. Mais séria do que eu jamais a vira.
-Peeta, eu não sei- Sussurrou minha tia antes de deixarmos a cozinha- Mas vamos descobrir.
E juntos nos seguimos para a sala. A atmosfera do local era parecida com uma festa. Eu odiava como papai parecia acender uma vela de adoração em cada local que Snow passava. Os dois trabalhavam juntos há anos, mas isso não era motivo para meu pai considerar o homem um Deus.
Fui apresentado aos dois filhos dele. O mais velho era um homem de 30 anos, o sorriso maroto de quem tinha o mundo nas mãos. E ele provavelmente tinha. O segundo rapaz parecia ter a idade de Cato e era mais tímido que o irmão mais velho. Fiz o possível para ignorar todos eles o máximo que pude sem parecer rude. Eu não me importava em apanhar, mas só de pensar em perder meu curso de medicina porque não fora simpático com Snow me fazia tremer de raiva. Eu não deixaria eles ganharem de mim assim tão fácil.
—Effie, querida! — comentou Snow sorrindo para minha tia- Não acredito como uma mulher como você ainda está solteira.
Minha tia deu uma risada. Eu sabia que ela devia estar constrangida. Quando a encarei percebi que apesar da cordialidade e do riso havia uma tristeza que ela teimava em esconder. Não por estar sozinha, ela estava bem assim, mas porque, no final das contas, o mundo sempre a veria como alguém derrotada por não ter namorado. Alguém que por um triste acaso do destino sobrara.
—Ah obrigada pelas batatas senhora Mellark, estão deliciosas- Ouvi o mais velho dos filhos de Snow se servindo de mais comida.
Não sei se foi a voz, o tom que ele usou, mas as memórias vieram todas com uma força que eu mal pude conter. A primeira coisa que me lembrei foi de minha irmã me apresentando uma amiga. Uma bonita garota de olhos castanhos. Ela gostava de música. E se chamava ... Ella... Ellie. O nome era Ellie.
Ellie deu um sorriso travesso quando entramos na lancheria. O lugar ficava perto da escola dela. O Julio de Castilhos.
—Você precisa ouvir Peeta. Sei que sua irmã prefere música clássica. Mas Judy Garland... um dia vai ser grande.
Melanie revirou os olhos para Elie, como se elas já tivessem tido essa discussão milhares de vezes.
— Pare! Daqui a pouco ele vai estar ouvindo aquelas músicas das divas do rádio que você ama.
Olhei para ela, feliz por elas estarem me envolvendo em uma discussão super importante como aquelas.
— O que há de errado com as divas do rádio? –perguntei sério para minha irmã
Ellie riu. O cabelo castanho dela balançou no rabo de cavalo enquanto ela gargalhava.
— É Melanie, o que há de errado com as divas do rádio?
As duas caíram na gargalhada. Fiquei meio irritado porque elas pareciam estar no mundinho só delas.
—Hey Peeta- Falou Ellie chamando minha atenção- Você sabia que sua irmã tem uma voz linda?
Sorri para ela enquanto Melanie fazia o possível para esconder seu embaraço.
— Ela tem sim- Respondi com toda a convicção porque era verdade.
Melanie nos encarou sorrindo. Naquele momento adorei Ellie porque eu via o quanto ela fazia minha irmã feliz. Ela pegou do bolso do vestido algo rosa e brilhante.
—Toma. É uma palheta. Você tem talento Mel, deveria continuar tocando.
Desse dia em diante as vezes Melanie me levava para encontrar Ellie. Pegavamos o bonde e descíamos na lancheria perto da redenção onde ela estava nos esperando. Melanie me explicou que papai jamais aprovaria a amizade das duas por isso garanti que manteria segredo. Como sempre, éramos cúmplices.
Eu vi Ellie umas três vezes. Acho que aquele outono foi mágico para nós. Papai estava muito ocupado puxando o saco de políticos, Cato entrara no Colégio Militar e não prestava muita atenção em nós. Eu me sentia tão feliz por minha irmã me incluir na pequena aventura dela.
Um dia estávamos na lancheria de costume quando Ellie parou abruptamente o que estava falando. Melanie e eu olhamos para a direção em que a vista dela estava plantada. Dois garotos da idade das duas tinham entrado no local. Percebi Melanie segurar a mão de Ellie. Foi por segundos, mas o suficiente para que a garota se acalmasse.
— Olha-Disse um deles com desprezo encarando a amiga da minha irmã-Não sabia que esse lugar atendia sapatão.
Ellie congelou na cadeira. Melanie me segurou e olhou para a amiga apavorada.
—Ellie vamos embora daqui por favor!
Ellie ia se levantar quando o garoto a puxa.
— Você me dispensou na festa da escola. Agora sei porque. Eu devia chamar meu pai para lhe dar uma surra.
As lágrimas de Melanie caíam vertiginosamente agora. Comecei a chorar também. Aquele garoto estava me assustando.
—Eu sei o que seu pai é. Eu sei o que você é, seu integralista filho de uma puta!
O garoto deu um tapa na cara dela. Melanie deu um grito enquanto eu chorava com mais força.
— Você sua judia machorra vai me pagar-Ele observou a lanchonete lotada, a maioria das pessoas olhando para nossa mesa. O amigo dele parecia entediado enquanto ele arrumava briga.
Ele prendeu Ellie na parede. Ellie chutou mas ele era mais forte.
— É uma pena que tenha muita gente aqui-Falou para que só nós pudéssemos ouvi-lo -Não se preocupe você ainda vai fazer o que não quis fazer na festa.
O dono do bar chegou na hora e ao ver a confusão separou os dois.
— Senhor, o que está acontecendo aqui? — Perguntou o dono da lanchonete.
O garoto olhou para ele como se estivesse voltando a si e encarou o amigo rindo.
— Desculpe mas não vou ficar num lugar que recebe sapatões.
Quando se virou para Ellie a expressão do dono do bar era impassível.
— Acho melhor a senhorita se retirar-Disse simplesmente e se voltou para Melanie -Você também querida, uma menina bem cuidada como você não deveria se envolver nesse tipo de confusão.
Melanie olhou para Ellie, paralisada, tentando dizer algo.
—Eu quero ir para casa Mel- respondi no meio de lágrimas- Minha irmã me abraçou e disse que já estávamos indo.
O garoto que arrumara confusão deu uma risada enquanto saia pela porta.
—Até mais. Se cuida Ellie. Melanie mande lembranças ao seu pai. Lembrem-se meninas Deus, Pátria e Família- falou antes de sair rindo com o amigo. Senti Melanie estremecer. Olhei para ela, me sentido confuso.
—Por que ele fez a oração do papai?- Perguntei encarando as costas do garoto.
Melanie gelou e olhou para Ellie que a encarava como se a estivesse vendo pela primeira vez, a mágoa era visível em seu rosto.
—Vão. Acho melhor vocês irem-repetiu o dono do estabelecimento, claramente já perdendo a paciência. Melanie agarrou minha mãe e saímos correndo, pegando o primeiro bonde para casa. Ela não falou nada. Quando chegamos ela se trancou no quarto. Eu podia jurar que ela estava chorando. Pensei que tinha feito algo de errado e me senti mal. Melanie veio no meu quarto aquela noite e se abraçou a mim.
—Sinto muito- eu disse, sem entender porque. Eu não queria que ela tivesse perdido a amiga, sabia como era difícil para nós. Ela me abraçou ainda mais forte, pousando um longo beijo na minha testa.
—Eu também.
Nunca mais vi Ellie. E minha irmã nunca mais abandonou sua palheta rosa.
Tia Effie me encarou preocupada e percebi que estava segurando o copo de maneira muito firme. Aquele garoto... aquele homem conhecia minha irmã. Fora colega dela. E a garota... Ellie? O que acontecera com ela afinal? Eram tantas perguntas. Eu tinha que descobrir o sobrenome da garota. Tinha que descobrir o que ela sabia sobre Melanie e qual era a relação das duas.
Eu era muito criança, mas alguns detalhes como o jeito com que Melanie pegou a mão da menina, o jeito como Ellie encarava Melanie como se quisesse decorar cada detalhe dela. Eu sabia que era loucura presumir alguma coisa só por uma lembrança, mas eu sentia. E isso era tão poderoso que era quase uma certeza.
—Tudo bem querido? — sussurrou tia Effie, sua voz um aviso para que eu me controlasse. Sorri para ela, fingindo mencionar algo engraçado.
—Sim, apenas uma lembrança.
O olhar de curiosidade de Tia Effie durou alguns segundos, mas logo todos eles tinham voltado a conversar. Eu queria ir correndo para o quarto de Melanie para ver se havia alguma pista sobre a garota, só que isso era impossível. Ficar ali era excruciante e fazia com que cada músculo meu quisesse sair correndo, mas sorri e esperei o momento propicio.
Ele chegou uns 30 minutos depois quando meu pai perguntou se Snow precisava de mais alguma bebida.
—Claro!-respondeu ele, sorrindo como um velho bonachão.
—Eu pego. O senhor quer me acompanhar para escolher?- Ofereci, sabendo que essa era minha chance de pegar o velho sozinho.
Ele sorriu.
—Você é um bom garoto Peeta. Vamos ver os tesouros que seu pai tem. Ouvi dizer que ele é um amante de Bourbons.
Concordei sorrindo e fomos até a adega do meu pai do outro lado da sala. Cato e Effie me encararam preocupados, sabendo que eu estava tramando alguma coisa, mas não me importei.
—Aqui está- disse servindo o homem do Borboun mais caro do meu pai- Para o senhor que é um dos mais antigos amigos da família. O melhor!
Meu estômago quase saiu da minha boca quando ele sorriu de volta para mim. Quase me odiei por ser tão simpático com ele. Quase.
—Então. Você conhece nossa a família há muito tempo. Estava pensando Coronel Snow.. Você estava aqui quando... bem... quando a tragédia atingiu nossa família. Minha irmã, mais especificamente. O senhor se lembra dela?
Snow deu um gole deliberadamente demorado em sua bebida como se estivesse pensando na minha pergunta, não havia nenhum sinal do calor de alguns segundos atrás em seus olhos agora.
— Uma boa menina, enlouqueceu. Se envolveu com quem não devia. Ela queria espalhar mentira sobre seu pai. Inclusive sobre mim acredita? — Falou ele baixinho, como se fosse um segredo, como se até mesmo falar em minha irmã pudesse trazer má sorte- O que quero dizer Peeta, é que ela era uma menina com muitos problemas. Seu pai tentou resolver de todas as maneiras possíveis, mas ela era fraca. Uma falha de caráter feminino se quer saber minha opinião. Deixou suas emoções falarem mais alto.
Meu coração tinha parado, eu sabia que tinha. Era como se eu tivesse sugado todo o ar de uma vez só e agora não houvesse mais oxigênio. O encarei tentando parecer o mais desinteressado possível.
— O que o senhor quer dizer com isso?- Perguntei como se tentasse me desculpar por Melanie. Isso pareceu cortar minhas entranhas com um faca afiada.
—Quero dizer meu garoto, que ela começou a questionar seu pai, começou a questionar tudo o que ele lutou para ser e a espalhar boatos sobre integralistas na sua casa. A menina estava doente. Mas não a culpo. É o que dá se misturar com ... bom você sabe. Gente que é capaz de manipular, não que eu ache que todos os judeus sejam assim, claro- disse ele dando um longo suspiro triste.
Ele se voltou para encarar minha família e sorriu para mim.
—Você é um bom garoto Peeta- colocou as mãos no meu ombro de forma paternal. Senti como se uma cobra tivesse chegado perto de mim e estivesse prestes a picar. Ele fez menção de voltar para onde todos estavam mas parou e me encarou sério- Não faça muitas perguntas. Você não vai querer terminar como sua irmã.
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