O País dos Generais
14 Memórias vivas
Notas iniciais
Eu me lembrava do vestido florido, do cabelo loiro dela voando como se fizesse parte da paisagem e do cheiro de terra molhada e de peixe. Também me lembrava do local por onde corríamos, os pés dela mal tocando a areia. A risada da minha irmã ecoava, parecendo tomar conta da minha mente. Eu fazia esforço para acompanha-la, mas minhas pernas de garoto magricela de 9 anos não deixavam.
Ela parou esperando por mim, sentando na beira do mar. Eu podia sentir a felicidade tão palpável como as conchas que eu pegava enquanto a seguia.
—Corra Peeta!- ouvi e dei uma risada- Corra!
Finalmente consegui chegar até ela e me sentei, abismado com toda a beleza do mar. Olhei para o outro lado mas estava completamente sozinho.
Acordei suado e gritando. Desde de que voltara para o Brasil esses pesadelos tinham se tornado presentes. Tinham sumido nos Estados Unidos, aqui era como se o fantasma de Melanie fosse uma constante.
Torres. Era esse o lugar do sonho. Eu me lembro que aquele foi o melhor verão da minha vida. Papai ficara em Porto Alegre com Cato, que tinha que se prepara para entrar no colégio militar. Minha mãe dormia o dia inteiro então erámos apenas minha irmã, eu e a praia. “Ela está morta Peeta, você precisa superar isso”. Eu sabia que podia, mas só depois que soubesse o que havia acontecido com ela.
Ouvi uma batida na porta e com um resmungo fui atender. Cato parecia preocupado.
—Você levou Katniss para casa ontem? — Perguntou ele sem rodeios.
Ergui a sobrancelha para ele, como se dissesse “Não é obvio? Por que está me perguntando isso?”
—Por favor, Peeta, me diga o que aconteceu quando você a levou para casa.
Levantei as mãos em sinal de rendição.
— Eu a deixei em casa como um bom cavalheiro. Não se preocupe, ela chegou bem. Aliás, qual é a dos homens dessa família com ela? Papai praticamente disse que eu estava proibido de ver a garota.
Eu podia bancar o sonso tão bem quando queria! Cato sentou na minha cama e passou as mãos nervosamente pelos cabelos loiros cuidadosamente penteados. Eu conhecia meu irmão, ele estava apavorado.
—Ela está com problemas Peeta. Com grandes problemas. Droga! Essa garota tinha que se meter em politica?!
Acho que era a primeira vez na vida que tinha que concordar com Cato. Olhei disfarçadamente para a janela para ver se o mundo não estava acabando, esse com certeza era um milagre, talvez um sinal do apocalipse. Com a melhor expressão impassível perguntei a Cato.
— O que aconteceu? Te avisei que ela não era muito confiável. Por que está tão interessado nela?
Cato me olhou irritado.
—Não tem nada a ver com isso. Katniss é como...
Por favor, não diga como uma irmã! Nós dois sabemos como você trata suas irmãs.
—Ela é minha melhor amiga Peeta. Eu sempre soube que ela tinha uma personalidade forte e tinha ideias meio esdruxulas, mas isso...
Cato parecia estar realmente preocupado. Pensei em tudo que acontecera na última noite. Eu precisava saber o que meu irmão sabia, precisava proteger Katniss da minha família.
— O que aconteceu?- Questionei, fingindo procurar uma blusa qualquer para que meu irmão não visse o quão estava preocupado.
Cato suspirou alto e começou a andar de um lado a outro do meu quarto. Se eu não estivesse preocupado com Katniss, até riria da cara do meu irmão.
—Snow acha que ela está... que ela deve estar envolvida com um grupo de resistência.
Me virei de repente, fingindo que aquilo era novidade.
—Você acha que ela pode estar?- Questionei, sentindo meu coração pdar uma batida mais lenta. Cato não respondeu de imediato. Ele brincava com um fio da calça do uniforme, com o olhar distante.
— Não sei. Sinceramente? Katniss é minha amiga há anos. Nunca conversamos sobre política. De algum modo sempre soubemos que tínhamos visões completamente diferentes. Mas isso nunca importou. Até agora.
Balancei a cabeça concordando.
— Entendi. Você veio me pedir para me afastar dela. A amiga sempre foi sua.
Para minha surpresa, Cato negou veemente com a cabeça. Meu irmão segurou meu braço. Não forte, mas firme o suficiente para que eu entendesse sua urgência.
—Não. Pelo contrário. Papai está atrás dela. Tudo por uma suspeita idiota do chefe.
Uma suspeita idiota que custara o lar de Katniss. Eles não brincavam em serviço.
— Eu sei que você tem como encontrá-la. Eu sei que você pode ajudá-la. Eu não posso fazer isso. Por favor, leve ela para longe daqui.
A situação era tão surreal que por um momento fiquei parado sem reação. Cato estava não só me pedindo para desobedecer meu pai, como estava traindo seu dever como militar. Eu podia imaginar tudo menos isso.
— E por que eu faria isso?- respondi lacônico.
Cato soltou meu pulso e voltou a andar pelo quarto.
— Peeta. Katniss e eu... ela é minha melhor amiga. Podemos ser diferentes, mas ela é a única pessoa que conseguiu me entender. Entender de verdade.
Ele sentou na cama, como se estivesse lembrando de algo e sorriu.
— Houve um tempo que eu achei que amava ela, sabe. Antes de conhecer Clove- A voz de Cato era cheia de ternura. E não sei por que isso me irritou tanto- Ás vezes parecia que eu era o único que conseguia ve-la de verdade. Forte. Inteligente. Ávida por mudar o mundo. Por fazer parte do mundo. Ela é muito importanet para mim.
Não pude mais aguentar. A chuva caia pela janela quando me virei para olhar meu irmão
— Como Melanie? — Eu não me importava se era cruel. Eu só queria que ele sentisse um pouco da dor que eu sentia todos os dias. Mas isso nunca aconteceria. Melanie era um fantasma só meu.
Cato passou as mãos pelos cabelos mais uma vez exasperado. A mágoa era visível em cada movimento do meu irmão.
—Por favor Peeta.
Soltei um suspiro. Era irônico que meu irmão estivesse tentando me convencer a ajudar a mulher que eu amava. E, depois do que vira ontem eu não tinha muita certeza se não éramos nós que precisávamos nos cuidar .
Não quis contar a ele que já iria fazer uma visita a casa de Johanna depois da faculdade para ver como Katniss e a família dela estavam. Cato só ficou mais tranquilo quando garanti que faria o possível. Antes de sair no entanto ele parou na porta do meu quarto.
— Você não foi o único que perdeu Melanie Peeta.
Não respondi. Era a primeira vez que ele falava nela e de alguma maneira me pareceu errado. Eu achei que meu diálogo com a família já tinha se esgotado naquela manhã e que estaria livre de ter que conversar com mais já que tomaria meu café na universidade, mas meu pai já me esperava na sala.
—Peeta, que bom que você desceu. Preciso conversar com você.
Eu já ia dar uma desculpa quando ele me lançou aquele olhar que não deixava lugar para recusas e me levou até o escritório dele. Quando cheguei lá, a empregada já estava servindo duas xicaras de café e um pedaço de bolo de fubá. Meu estômago deu uma cambalhota satisfeito. Bolo de fubá era uma das raras coisas que eu sentia falta do Brasil. Sorri agradecido para Matina que apenas retribuiu meu sorriso e saiu me deixando com meu pai.
—Tomei a liberdade de trazer seu café para cá. Eu quero explicar para você Peeta... coisas que já deveria ter explicado antes. Quando você voltou.
Tinha tanta coisa que ele tinha que explicar. O que havia acontecido com Melanie, por que ele precisava de mim aqui agora...
— Como você sabe, nosso país vive um momento delicado. Nosso estado vive um momento delicado e nossa cidade também.
—Papai, o mundo vive um período delicado. O medo de comunistas, a guerra espacial.. O que nós temos a ver com isso?- Respondi sem conseguir esconder minha impaciência como uma mordida de bolo.
— Por favor, não diga a palavra comunista perto de mim- Meu pai colocou a mão no canto esquerdo da testa como se só o som da palavra lhe desse dores de cabeça- E esse seu problema Peeta. Você nunca entendeu sua responsabilidades como cidadão. Nós temos tudo a ver com esses assuntos.
— Papai. Você não me chamou par falar sobre política, não foi?
Ele me olhou zangado. Eu tinha visto a fúria dele quando voltei para casa na ultima noite. Ele não mudara nada, ainda era o mesmo carrasco de quem eu fugira aos 13 anos.
—Eu construí uma carreira Peeta. Uma carreira brilhante. Três anos atrás quando Brizola invadiu o Piratini com aquela baboseira de legalidade, eu estava lá. Enquanto você estava aproveitando a vida nos Estados Unidos, sendo bem educado graças a cada centavo suado meu, eu construí um nome de prestigio. E é por isso que preciso de você aqui.
Senti meus punhos fechando em torno da cadeira em que estava sentado. Coloquei o bolo de fubá na travessa, com medo que se ficasse com ele na mão pudesse esmagá-lo. Meu pai achava que eu era um fantoche. Alguém que ele pudesse mandar embora e chamar de volta quando precisasse.
—E para que exatamente você precisa de mim?- Minha boca estava seca. Nem mesmo o café era capaz de tirar o gosto ruim da raiva. Cada esforço que eu fazia para esconder minha ira era como um gole de ácido.
—Porque você é meu filho, apesar de agir como um moleque sem família. Precisamos estar unidos. Você sabe que aquele idiota do prefeito da cidade foi preso não foi? Ele ficou do lado errado. Sereno Chaise* achou que podia impedir nossa luta para limpar esse país. Acreditou em Jango e isso...foi um erro. E uma oportunidade para nós.
De repente eu entendi. Ele tinha conseguido um dos cargos mais importantes do estado, chefe do sistema nacional de informações. Isso não bastava, ele queria a prefeitura. Talvez até o governo do estado. E, como os governadores eram indicados pelos chefões de Brasilia desde que o novo regime fora implementado eu não duvidava que ele quisesse isso também. Minha raiva se transformou em desprezo ao perceber o que ele queria.
—Você vai me ajudar a conseguir a prefeitura Peeta. Como meu filho, e um jovem formado nos Estados Unidos me trará os melhores contatos dentro e fora do país.
Me levantei da cadeira rápido. Era como se toda a raiva que eu sentira nos últimos anos resolvesse explodir agora.
—Eu não vou ajudar você em nada. Não vou bancar o bom filho enquanto você acumula mais poder. Pode concorrer ao que você quiser, conseguir o que você quiser, mas você nunca terá meu apoio. Eu vou voltar para os Estados Unidos. Se foi para isso que você me chamou de volta não me conhece nem um pouco.
O que veio a seguir foi tão rápido, tão repentino que não tive como evitar. Um soco atingiu o lado esquerdo do meu rosto e cai no chão. Senti dois pontapés na minha costela e foi como se eu pudesse ver a rotação da terra, o mundo girando com uma velocidade assustadora. Foi como se a queda liberasse memórias trancadas no meu cérebro.
Um grito. Os braços do meu irmão me segurando, o rosto roxo da minha irmã no chão enquanto meu pai a espancava, ajudado por um de seus subordinados, Snow. O rosto da minha mãe, impassível mas cheio de nojo enquanto olhava a própria filha indefesa no chão, como se não a conhecesse.
Percebi que Cato tremia enquanto me segurava, mas ele ainda era mais forte que eu, eu não conseguiria me desvencilhar dele e chegar até Melanie, tudo o que eu queria era chegar até a Melanie. Ela olhava para mim e para Cato como se pedisse desculpas, como se nós também estivéssemos apanhando.
—Mel!- Meu grito era seguido de um aperto mais forte de Cato que tremia cada vez mais forte-Mel!
E tudo que eu podia ver eram olhos de Melanie, pedindo desculpas, desculpas...
Voltei ao presente e dei de cara com o rosto furiosa de meu pai.
—O que você fez com Melanie?- Tive forças para perguntar, ainda com o rosto no chão, o sangue escorrendo da minha boca. Era humilhante demais.
Ele não me respondeu, andou calmamente até o outro lado da escrivaninha como se nada tivesse acontecido. Seus olhos azuis faiscando perigosamente enquanto ele sentava na cadeira.
—Sua irmã era uma idiota. E sinto que você seja parecido com ela. Eu estou avisando, a história não vai se repetir. Você vai me obedecer e vai fazer tudo que eu mandar.
Tão frio, tão distante. Via seu rosto estava distorcido por causa da pancada. Agora você parece o monstro que é
—Posso mandar uma carta para o reitor da UFRGS, um amigo pessoal, dizendo que você está impossibilitado de estudar medicina. E posso fazer muitas outras coisas Peeta. Você vai me obedecer. Caso contrário, sua vida medíocre se tornará um inferno.
Eu sabia que ele podia fazer isso. Ele podia tirar a única coisa que eu amava, que ainda me mantinha são. Eu precisava voltar para os Estados Unidos, mas sabia que a única maneira de descobrir o que acontecera com Melanie era ficando aqui. Me lembrei do sonho enquanto minhas mãos se fechavam em torno do tapete tentando segurar algo que me escapava pelos dedos, exatamente como as areias de torres.
Senti meu pai se levantar e chegar até perto de mim, suas mãos pegaram pela gola da camisa me forçando a encará-lo.
—Deixe de ser um maricas e esqueça sua irmã. Fique longe dessa história. E me obedeça- Meu rosto caiu novamente no chão quando ele soltou a minha camisa- Espero que tenhamos nos entendido.
Quando ele saiu do escritório, deixando um silêncio sepulcral para trás, as lágrimas vieram, se misturando com o sangue da minha boca e deixando uma marca escarlate no tapete perfeitamente bordado.
Não tive vontade de ir para aula. Minha cabeça ficaria flutuando enquanto tentaria decorar o nome dos ossos humanos. O melhor que eu poderia fazer era passear um pouco pela cidade. Porto Alegre tinha mudado muito desde que eu saira daqui há 10 anos. Alguns estudantes passaram por mim, todos eles agitados e falando algo sobre professores que cobravam demais. Mesmo com os militares no poder algumas coisas não mudavam. Mesmo eles estando mais sisudos que de costume.
Antes de ir ver como Katniss estava, resolvi almoçar em uma lanchonete perto da universidade. O garçom olhou meus machucados com curiosidade mas não me importei. Deixei que minha mente vagasse, mas então me lembrei de uma das últimas vezes que eu estivera ali. Eu tinha 11 anos. Foi um pouco antes de Melanie morrer. Havia uma garota junto com a gente. Mas o nome...eu não conseguia me lembrar do nome.
Segurei meu copo de suco de laranja com força, evitando as lágrimas com a força das memórias voltando. A menina, a amiga de Melanie. Ela tinha o cabelo castanho. Eu me lembro de um vestido, simples, verde. Eu tinha que saber quem ela era. Ela tinha...um violão com ela. Ela gostava de música como Melanie. Uma palheta rosa. Respirei fundo. Talvez se eu entrasse no quarto de Melanie mais uma vez....
Quando cheguei na casa de Katniss já eram 4 horas da tarde. Fiquei feliz ao ver o pai dela sentado na frente de um rádio, ouvindo atentamente o jogo.
—Como o senhor está-Perguntei, sentando no sofá na frente dele. Johanna, assim como Katniss não havia ido a aula. Johanna estava sentada com ele ouvindo o jogo. Johanna me encarou.
—Caiu da escada foi?- Questionou ela, mas não fez comentários. De alguma forma ela sabia que isso só pioraria a situação,
— Estou bem rapaz. Obrigada- disse ele sorrindo amplamente para mim. Se notou meus machucados não comentou- Você foi muito gentil em tudo. E agora estou melhor. Um homem pode sempre contar com seu inter para deixa-lo mais alegre.
Olhei para Johanna que soltou um muxuxo e não controlei a risada.
—Isso que dá ouvir o grenal com um colorado!
O homem deu um risada.
—Achei que futebol fosse o ópio do povo johanna- disse Katniss entrando na sala.
Johanna a dispensou com um aceno de mão
—Quieta! O grêmio vai marcar uma falta. E não é o futebol, é a religião.
Katniss revirou os olhos e notei que havia um pequeno sinal que só aparecia quando ela ria sem querer. E a deixava ainda mais bonita. Ela me encarou, percebendo meus machucados com os olhos escancarados. Ela não me falou nada, mas sem que eu percebesse me puxou do sofá e me direcionou para a cozinha. Pegou um kit de primeiros socorros e começou a limpar os machucados que eu não quisera limpar de sair de casa. Eu não me importava que me vissem assim.
—Peeta! Deus, o que foi isso?- Observei seus olhos ficarem maiores, uma expressão de genuíno pavor passando por eles- Deus, isso não é minha culpa é?
Neguei com a cabeça. Não era culpa dela, mas também não sabia o que falar. O que eu podia falar? Apesar da pele macia e do cheiro de canela que eu podia sentir enquanto ela limpava meus machucados, apesar de todas as coisas que a faziam insanamente linda, Katniss ainda era uma inimiga quase declarada da minha família.
—Estou bem. Foi só...meu pai. Ele fica violento quando é contrariado.
Percebi a expressão de pena se transformar em raiva.
—Isso não deveria acontecer.
Um sorriso rebelde tomou conta da ponta dos meu lábios. Muitas coisas não deveriam acontecer. Mas era engraçado estar com Katniss, ela ainda tinha fé em alguma justiça no mundo. Fechei os olhos enquanto ela limpava meu machucado, aproveitando o cheiro delicioso dela e o fato de pela primeira vez na vida alguém realmente ter se importado comigo.
-Eu sei- respondi depois de algum tempo, enquanto ela aplicava mertiolate do lado esquerdo do meu olho. Segurei delicadamente seu pulso- É por isso que você deve ficar longe dele. E de Snow.
Snow. Visualizei mais uma vez a cena que lembrara enquanto apanhava. E a conversa no jantar de aniversário da minha mãe. Eu tinha que falar com Snow.
Katniss mordeu o lábio como se quisesse me contar alguma coisa, mas não soubesse como. Ela molhou mais uma vez uma pequena toalha no remédio e voltou a aplicar o produto.
—Eu vou embora- disse de repente, a mão a meio caminho do meu olho- Meus pais conseguiram transferência. Acho melhor.
Eu sabia que era o mais sensato. Sabia que isso era o melhor para ela, que ela estaria mais segura longe daqui, m algum lugar em que ela pudesse falar sem ser obrigada a olhar para os lados ou se calar. Ainda assim, tive que controlar a respiração antes que me coração egoísta fizesse minha boca dizer algo que não quisesse.
—Talvez seja melhor- Senti um gosto azedo na boca quando ela me deu um sorriso triste. Katniss teve um sobressalto ao ouvir a campainha tocando. Olhei para ela assustado. Se alguém descobrisse que estávamos aqui teríamos enormes problemas. Ela levantou, de um salto ficando entre mim e a sala como se quisesse me proteger.
Uma figura exaltada entrou na cozinha e soltou um enorme grito aliviado ao ver Katniss. Só pude distinguir os contornos de Rue enquanto ela abraçava Katniss efusivamente.
—Ah Katniss, eu estava tão preocupada- Falou Rue.
—Estamos todos bem- falou Katniss tranquilizadora enquanto colocava Rue em uma cadeira na frente da minha. A garota olhou para os meus machucados e soltou um “oh” triste.
—Peeta, meu Deus! O que fizeram com você?
Sorri para ela
—Acho que já me perguntaram isso hoje. Não se preocupe, vou ficar bem.
Começamos a conversar, Katniss explicou a situação para Rue.
—Bom, acho que antes de ir embora você deve vir ao meu show de aniversário. Katniss sacudiu a cabeça. A expressão de Rue deixava claro que ela estava implorando para a amiga. Sem querer olhei para Katniss do mesmo modo. Ela soltou um longo suspiro. Rue começou a dizer que o show era em um lugar pequeno, escondido do público, ninguém veria Katniss, e que a garota estaria em casa antes do toque de recolher. Com um longo suspiro a garota lançou seu melhor olhar resignado.
—Por que não? Pode ser uma ótima despedida.
Sorri involuntariamente. Mesmo indo embora, Katniss não conseguia não quebrar regras.
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