O Patrono Perdido
5 Capítulo 4: O Desenho Escondido
Notas iniciais
O coração de Remo novamente disparou quando começou a ouvir diversos sons chegando aos seus ouvidos. Inúmeras vozes, risadas, sussurros; barulhos de pessoas mastigando e conversando; o tilintar de copos e talheres. Teve medo de ter sido transportado a outro lugar ou época por meio do Portal, mas, assim que conseguiu superar a tontura e abrir os olhos, viu-se num lugar que tomaria como irreconhecível.
Quatro gigantescas mesas, paralelas entre si, ocuparam o enorme salão que se estendia à sua frente. Quatro enormes bandeiras, com quatro diferentes cores, pendiam de quatro pontos do teto; as cores que traziam eram amarelo e preto, vermelho e ouro, azul e bronze, verde e prata — e os respectivos nomes estavam também à mostra: Lufa-lufa, Grifinória, Corvinal e Sonserina. Cada mesa correspondia a uma Casa, e as quatro estavam lotadas de alunos das mais diferentes idades. Estavam no Salão Principal — no entanto, algo parecia diferente.
Um aspecto mais escuro e mais sombrio pairava sobre todo o ambiente. As mesas das quatro Casas, que na memória de Remo eram feitas de uma madeira clara e reluzente, agora tinham a coloração de um marrom quase preto. Os símbolos das Casas conhecidos por Lupin — um texugo, um leão, uma águia e uma serpente — pareciam maiores e mais assustadores na estampa das quatro respectivas bandeiras, de forma que Remo teve um sincero medo de encará-los por muito tempo. Havia velas que flutuavam, por magia, em todo o gigantesco salão e, acesas, tremulavam com a forte corrente de vento que o perpassava, dando ao cômodo a aparência de um cenário um tanto obscuro.
No entanto, ainda que houvesse velas acesas, era dia. Ao olhar para cima na tentativa de identificar a abóbada do Salão Principal — uma majestosa estrutura em forma de semi-círculo que lembrava a cúpula invertida de uma igreja -, Lupin viu um céu característico de uma tarde qualquer, a não ser pelo fato de que estava um tanto acinzentado e coberto por muitas nuvens. O teto do castelo não era vazado, mas a abóbada refletia, por conta de um feitiço, o céu atual que a encobria. Enquanto encarava aquele céu, Remo tinha a impressão de que era fim de tarde, talvez cinco ou seis horas; mas, estranhamente, o grande relógio do Salão indicava que não passava das oito horas da manhã.
Todo aquele ambiente macabro passava a lhe causar calafrios: lembrava-se de que o cenário de Hogwarts na década de setenta era um tanto mais amedrontador, mas não se lembrava da intensidade daquela sensação. Ainda assim, não teve muito tempo de temer, pois logo uma nova voz surgiu e chamou a sua atenção para seu verdadeiro propósito ali.
"Eu não acredito nisso", bufou a voz de um dos seus três melhores amigos da época. Novamente, o coração de Remo deu um pulo de alegria e emoção: parecia a voz de Tiago. "Se vocês não fizerem nada a respeito, eu vou fazer".
Ele então virou-se finalmente para olhá-los e deu-se conta do que se passava: estavam os quatro na mesa da Grifinória, como muitos outros alunos. Apesar do cenário assombroso do restante do Salão, a mesa daquela Casa parecia um tanto animada e receptiva. Os alunos falavam e riam ao redor, e na sua frente estava um verdadeiro banquete de café-da-manhã: panquecas, omeletes e waffles; frutas de todos os tipos, pães e queijos de todos os tipos. Fora as comidas comuns aos trouxas, algumas outras, mais exóticas, exibiam-se também: torta de feijões com recheio de menta, suco de abóbora, salsichas de carne de arminho e bolos de caldeirão, entre outras.
Somando tudo aquilo à felicidade de sentar-se novamente perto de Sirius e Tiago, Lupin esqueceu-se de todo o resto. Tremia de nervoso e emoção por ver que novamente obtivera o êxito de voltar à juventude utilizando o Portal. E fosse aquilo uma armadilha ou não, um sonho ou não, um grande perigo ou a última oportunidade de viver de novo a melhor época da sua vida, nada mais importava. Esquecia-se de todo o resto.
Pedro, disposto ao seu lado direito, enchia as mãos e a boca de um pedaço farto de bolo de caldeirão. Sirius, sentado à sua frente, remexia sem muito entusiasmo uma xícara de chá de erva daninha. Enquanto Tiago, sentado na direção da diagonal de Lupin, encarava com raiva alguém que estava sentado em outra mesa.
"A respeito de quê?", perguntou Rabicho, referindo-se a Tiago, enquanto alguns pequenos pedaços de bolo voavam da sua boca por todos os lados.
"Você não entende, não é?", replicou Potter, irritadiço. "Claro que Slughorn teria convidado Sirius, se não fosse aquele otário!"
"Snape?", perguntou novamente Pedro.
"Régulo", respondeu Sirius, com apatia. "Francamente, eu não estou me importando".
Sirius não precisaria ter falado para que os olhos de Remo se voltassem a ele. Desde que Lupin se dera conta da proximidade à qual estava em relação aos três, era nele que quase toda a sua atenção residia. Algo nele chamava-lhe a atenção, e não saberia dizer se eram os cabelos mais cheios, a juventude exibida no rosto ou os olhos mais apáticos; mas algo naquele amigo parecia deixá-lo um tanto confuso e hipnotizado. Já não prestava atenção alguma na conversa — e mesmo se prestasse, pouco teria entendido.
"Como não está se importando?", continuou Pontas, incrédulo. "Era pra termos sido convidados eu, Remo e você! Você só não foi convidado porque ele convenceu Slughorn a não te convidar".
"Eu não queria ir".
"Um jantar com bebida de graça e você não queria ir?", indagou Rabicho, sorridente. "Duvido!"
"Dane-se", murmurou Sirius, agora já visivelmente incomodado com o assunto. "Se Régulo vai estar lá, eu não quero ir."
Um breve momento de silêncio instalou-se sobre a mesa. Como era de costume quando estava nervoso, Sirius dirigiu-se com hostilidade à única pessoa que não se pronunciava no grupo:
"E você, Lupin? O trasgo comeu sua língua?"
"M-minha?", perguntou Remo, assustado. Acabava de despertar do seu transe. "Não... Não comeu."
Lupin. Mas desde quando Sirius Black, um dos seus melhores amigos de toda a vida, chamava-o pelo sobrenome?
"Então quem é que você vai levar?", insistiu Sirius.
"Levar pra onde?"
Rabicho e Pontas irromperam em risadas com aquela pergunta, mas Sirius não pareceu nem um pouco satisfeito.
"Esse realmente é Aluado!", sussurrou Tiago, dando-lhe uns tapinhas no ombro, com bom-humor. "Você está no mundo da Lua, Remo?"
"Só quando eu falo é que ele entra no mundo da Lua", rosnou Sirius.
Mas Tiago pareceu ignorá-lo, e Remo sentiu que o amigo fazia isso justamente para contornar a situação da melhor forma possível.
"Estamos falando do Clube do Slugue", explicou ele. "Você sabe, o jantar da sexta-feira. Sirius não foi convidado, mas nós fomos. E quem você vai levar?"
Imediatamente, Remo deu-se conta do que se tratava. Slughorn comumente fazia jantares aos seus alunos mais queridos — ou, na verdade, aos alunos que considerava brilhantes e que tinham, na sua visão, algum potencial no futuro. Tratava-se do famoso Clube do Slugue. Era um jantar de gala aberto apenas a convidados, no qual se fazia necessário levar um acompanhante.
Aparentemente, Sirius Black não tinha sido convidado porque Régulo, seu irmão um ano mais novo, era aluno da Sonserina, e provavelmente um dos mais queridos do Professor Slughorn. Naquele ano, Slughorn dava aula a quase todas as turmas de Poções, e certamente havia tomado pelo menos o quarto e quinto ano.
Régulo e Sirius não suportavam sequer encarar um ao outro.
"Eu... ainda não sei", murmurou Remo, infinitamente grato por ter alguém como Tiago no grupo. "Vou pensar em alguém".
"Mas hoje já é quarta-feira! Você precisa pensar logo!", exclamou Pedro, que acidentalmente cuspiu mais alguns pedaços de bolo nos amigos. Uma migalha foi parar na manga comprida da capa de Sirius, e ele bateu a mão sobre ela, irritado. Rabicho se encolheu na cadeira.
"Você sabe", começou Pontas novamente. "Você deveria levar Dorcas. Ela é bonita e gosta de você". Dito isso, ele indicou com os olhos a direção na qual estava a garota, e Remo virou-se, seguindo a indicação.
Dorcas era da Lufa-Lufa. Sentada à frente da mesa que trajava a cor amarela da sua Casa, esbanjava bonitos cabelos castanho-claros que ficavam quase sempre arrumados em uma única e longa trança jogada de lado. Era mesmo bonita, espontânea, bondosa — e parecia ser um bom par. Apesar da diferença de Casas, não era incomum que ela e Lílian Evans andassem juntas, para cima e para baixo, como duas andorinhas fugazes e sorrateiras.
Uma forte dor instalou-se de repente no peito de Remo Lupin, porque acabava de se lembrar de Ninfadora Tonks. Como Dorcas, Dora também era da Lufa-Lufa; e certamente estava muito preocupada com ele àquela altura.
"Dorcas não tem nada a ver", respondeu Sirius.
"Você não era assim ciumento", sorriu Tiago, dando mais uma dose de seus tapinhas no ombro; dessa vez, no ombro de Sirius.
Tiago Potter era mesmo do tipo diplomático. Remo lembrou-se de como ele costumava tirar os amigos das mais diversas enrascadas em que os Marotos se enfiavam — mas, mais do que isso, tirava-os das enrascadas que eram causadas por eles mesmos, dentro do próprio grupo. Sabia usar bem as palavras, e toda a postura inconsequente que se guardava em seu interior pouco transparecia pelo exterior. Sempre dava sugestões começando por tapinhas nos ombros e palavras como "Você sabe, por que não tenta isso? Por que não tenta aquilo?". E todas as suas sugestões, sem exceção, eram bem-sucedidas.
*
Depois de fazerem o desjejum, os alunos seguiam para suas respectivas aulas daquele dia. Como não sabia ao certo as suas, Lupin apenas seguiu os três amigos, até que chegassem juntos justamente na aula do Professor Slughorn, que recebia a todos logo na porta de entrada da sala de Poções.
"Ei, garotos", chamou ele, fazendo um sinal de jóia enquanto indicava a todos os alunos que entrassem e se acomodassem logo. "Espero vocês na sexta, hein?". E afastou-se logo para o tablado, um sorriso amarelo sempre estampando-lhe o rosto.
Tirando o fato de que boa parte das rugas tinham abandonado seu rosto, o Professor Horácio Slughorn parecia exatamente a mesma pessoa que Remo tinha visto há poucos dias, em seu tempo real. Um tanto rechonchudo, com um semblante bondoso e jovial — mas também um tanto puxa-saco -, ele começava a falar sobre como utilizar partes de ararambóia, sangue e extrato de lesma para causar enrolamento de língua no inimigo.
Os Marotos, em geral, ficavam um tanto perdidos na aula de Poções. As poções nunca haviam sido realmente úteis a eles — pelo menos não tão úteis quanto os feitiços de defesa e encantamentos -, então dedicavam a ela a atenção que verdadeiramente merecia: pouca. No quinto ano, as poções eram confusas e complexas, e a sala ficava um tanto cheia e barulhenta, porque a turma era grande.
Dispunham-se quatro longas mesas que ficavam paralelas ao tablado onde se encontrava Slughorn. Os instrumentos utilizados no experimento ficavam dispostos nas mesas, assim como os livros. Mas os materiais em si — no caso, as partes de ararambóia, sangue e o extrato de lesma — ficavam sobre a gigantesca mesa do Professor, e cada grupo de alunos ia buscá-los conforme necessitasse dos mesmos. Slughorn comumente dizia que aquela disposição servia pra evitar o desperdício, mas uma certeira intuição sempre dissera a Remo que era apenas para supervisionar quais alunos realmente levantavam e trabalhavam na aula, tornando-se assim passíveis de serem considerados pelo homem como bons alunos em potencial.
Quando se sentou à mesa com os amigos, Remo teve a absoluta certeza que estaria perdido se tivesse que novamente passar por um exame de Poções. Não identificava quase nenhum daqueles instrumentos antigos e antiquados, e o livro com instruções da elaboração da poção estava tão velho que quase não se liam as letrinhas miúdas que o compunham. Era realmente estranho voltar àquele tempo.
"Bem...", iniciou Slughorn, com sua entusiasmada voz de sempre. "Abram seus cadernos e venham buscar os materiais!"
Agindo da forma como lhe pareceu mais natural possível, Remo pegou o pesado caderno de Poções e abriu-o. Era inacreditável tê-lo em mãos novamente. Há quanto tempo não colocava as mãos sobre aquele caderno? Há quanto tempo não via um de seus materiais escolares?
Identificou sua letra corrida sobre as folhas amareladas e um sentimento de profunda nostalgia, e também felicidade, percorreu seu corpo, aquecendo-o. Começou a virar as páginas, percebendo que, em cada uma delas, aparecia um novo diferente título de aula. Sempre fora cuidadoso com seu material.
Assim, passava despreocupadamente pelas folhas que exibiam nomes como "Poção do Desmaio Inimigo", "Elixir da Cor dos Olhos", "Sólido da Flutuação Momentânea", "Poção da Habilidade Culinária", e assim por diante, até que chegou a um ponto no qual as páginas estavam brancas. Tendo uma página branca à sua frente, no entanto, pôde perceber que, mais adiante, havia algumas folhas escritas ou desenhadas. Virou as páginas restantes até encontrar o que procurava.
De repente, achou-o:
Um enorme desenho exibiu-se, ocupando toda a folha à sua frente. Suas pupilas dilataram-se em surpresa ao passarem pelo que se mostrava ali.
O desenho parecia de um rapaz. Em verdade, de um menino. Feitos em traços elegantes de caneta de pena comum, traços desconexos compunham a imagem de um cabelo extremamente desgrenhado. Mais ao centro, um rosto jovem, com um olhar penetrante e, ao mesmo tempo, desinteressado; eram olhos que, apesar de pretos como o restante do desenho, tinham trabalhado um jogo de sombreado extremamente convincente. Pouco mais abaixo, um cachecol listrado, parecido com o típico da Grifinória, e uma capa cujo traçado ia desaparecendo conforme o tronco da pessoa desenhada chegava ao limite da página. Mas o mais estranho sobre aquilo era que a pessoa desenhada se parecia com... Bem, se parecia...
"Que é isso?", perguntou Rabicho interessado, esticando o curto pescoço para se meter onde não tinha sido chamado. Remo assustou-se com aquela pergunta e perdeu a linha de raciocínio, fechando o caderno rapidamente, com um estrondo.
"Nada", murmurou, constrangido. "Não era nada."
Nesse instante, Sirius Black e Tiago Potter, percebendo que seriam os únicos dispostos a pegar algum material naquela aula, ergueram-se das cadeiras para sair em busca dos mesmos, na mesa do Professor. Pedro então pareceu um tanto mais à vontade para desenvolver aquele assunto desagradável e confuso.
"Era um desenho do Sirius", murmurou ele, lançando um olhar temeroso na direção de Sirius, como se ele pudesse ouvi-lo àquela distância. "Não era?"
"Não", respondeu Lupin, por entre os dentes. "Você pode parar de me perseguir?"
"Não sou eu que estou te perseguindo, parceiro!", justificou-se Pettigrew, parecendo ofendido. "Você vai ficar de segredo comigo?"
"Eu não estou de segredo", disse Remo rispidamente, imitando as suas palavras.
"Eu sei que você gosta dele. Não tem nada demais."
"Mas de que porra você está falando?"
"Você mesmo quis me contar outro dia!", exclamou Rabicho, agora um tanto irritado também. "Não sou eu que estou inventando."
"Ah!", Remo riu, ironicamente. "Eu disse a você que gostava de Sirius? Conta outra, Rabicho."
"Por que não?"
Então, violentamente, Aluado puxou-o para perto de si pela gola da capa e murmurou de forma muito clara as palavras ameaçadoras: "Porque não gosto. E se gostasse, você seria a última pessoa a saber. Vá se meter com o seu pessoal."
"Pessoal?". Agora Rabicho parecia realmente amedrontado, mas também um tanto confuso. "Q-que pessoal?"
De repente, deu-se conta. Que estava fazendo? Pegando um Pedro Pettigrew de quinze anos pela gola da capa em plena aula aula de Poções. Dissera a Rabicho para ele se meter com seu pessoal — o pessoal traíra e maldoso da Sonserina, o grupo ao qual Pettigrew realmente pertencia. Mas como esperava que ele entendesse, se ainda não pertencia? Não era ainda o Rabicho traidor de Tiago e Lilian Potter.
Percebendo o evidente erro da sua atitude — e desconhecendo aquela sua violência típica da adolescência -, Remo suspirou e calmamente soltou-o.
"Desculpe", murmurou. "Os hormônios devem ter afetado meu cérebro."
"Bom", respondeu o pequeno Pedro, passando a mão pela gola da capa para desamassá-la. Era muita sorte daqueles dois que ninguém na sala tivesse reparado a cena. "Desculpe, estava só tentando ajudar."
Uma palavra estranha, usada em um contexto estranho.
"Como assim, ajudar?"
Rabicho soltou então um curto suspiro, antes de responder: "Não quero me meter no assunto de vocês dois. Mas acho que o que Sirius mais queria era fazer mesmo as pazes com você."
"As pazes?"
"Claro, parceiro. Olha só pra ele."
A timidez enrubescendo-lhe a face, Remo virou as íris cor de mel para o amigo Sirius, que permanecia de pé ao lado da mesa de Slughorn. Com o canto dos seus olhos, viu os dele, sérios, direcionados para si. Imediatamente desviou os seus. Focou-os sobre o caderno fechado à sua frente.
Queria afundar na cadeira, ou ser engolido pelo chão. Mas precisou contentar-se apenas em realizar aquela aula de Poções da forma menos suspeita possível. Por que ele o olhava daquele jeito?
"Eu não sabia... que estávamos brigados", murmurou Aluado, com os olhos muito fixos naquele mesmo caderno. Apesar de não saber do que se tratava realmente, fazia todo o sentido que ele e Sirius estivessem brigados. Afinal, ele o tratara de forma um tanto rude no café-da-manhã, e mesmo no retorno anterior de Remo àquele tempo, Sirius tinha parecido um tanto agressivo em relação a ele.
"Você não sabia?", perguntou o mais baixo, com o cenho franzido em sua direção. "Você só pode mesmo ter batido com a cabeça, meu amigo."
Por mais que tivesse o desejo de fazer mais perguntas sobre a sua briga com Sirius, Lupin teve medo daquilo parecer suspeito aos olhos de Pettigrew; afinal, se o próprio Remo é que estava brigado, seria mais do que sua obrigação saber o motivo. Somado ao medo de levantar suspeitas em Rabicho, faltou-lhe também tempo, pois logo Sirius e Tiago voltaram à mesa com os materiais, exterminando qualquer possibilidade de continuarem o assunto.
O restante da aula foi uma verdadeira catástrofe para os Marotos:
Pedro acidentalmente jogou dentro do caldeirão o extrato de lesma sem antes dilui-lo e, apesar de não ter havido nenhuma explosão, a mistura resultou numa substância verde-escura e viscosa, enquanto que a dos outros grupos parecia rósea e rala.
Para piorar ainda mais a situação, Slughorn resolveu caminhar pela sala e ver por conta própria como os alunos estavam se saindo ao longo da aula, e aquilo causou em Pontas um grande desespero, pois não queria perder o convite para o Clube do Slugue — afinal, ele ia com ninguém menos que Lílian Evans. Assim, foi o único que trabalhou; começou a ler o livro e jogar folhas de louro freneticamente dentro do caldeirão, enquanto Rabicho perguntava, repetidas vezes, "Desculpe, o que posso fazer agora?".
Quanto a Sirius Black, era como se estivesse em um mundo paralelo; entediado, ele revirava algumas folhas do livro e bocejava como se nada daquilo tivesse a ver com a sua pessoa. Acima dele no quesito de inutilidade durante a aula, estava o próprio Remo, que nem sequer virava folha alguma ou bocejava — mantinha apenas os olhos abertos sobre aquele velho caderno, mas a mente distante e o rosto ainda corado por ver Almofadinhas encarando-o. As perguntas que residiam em sua cabeça eram muitas, mas as principais envolviam Sirius Black. Por que estavam brigados? E, mais do que isso, por que havia um desenho dele no seu caderno?
*
Conforme a aula de Poções chegava ao fim, Remo começava a se dar conta de alguns fatos que antes não haviam chamado a sua atenção. Além de ter voltado vinte anos no tempo e estar ao lado de dois amigos que supostamente deveriam estar mortos, muitas outras coisas estavam mudadas. Algumas coisas nele mesmo estavam mudadas.
As suas atitudes e os seus pensamentos agora pouco correspondiam aos de um homem de trinta e cinco anos. O seu aspecto físico era de um garoto de quinze anos, e também a sua compreensão do mundo parecia assemelhar-se à de um adolescente: sentia muita vergonha e constrangimento quando Sirius o encarava; tinha muita raiva de Pedro quando ele se metia em seus assuntos, e chegara a quase agredi-lo fisicamente em plena sala de aula — não sem antes proferir um palavrão, coisa que também não fazia há algum tempo; e, acima disso tudo, os seus pensamentos já não eram moldados pelo senso de responsabilidade que costumava ter quando adulto. Afinal, já não pensava por que ou como havia voltado no tempo; tudo no que pensava era em por que tinha brigado com o amigo, e como poderia reparar aquilo.
Aqueles pensamentos acompanharam-no durante todas as aulas da manhã, de forma que quando tiveram o mais longo intervalo que antecedia o almoço, Remo chegou à absoluta conclusão de que não poderia ainda voltar ao seu tempo; não antes de ao menos tentar entender o que estava se passando entre os Marotos. Assim, permaneceria ali por, pelo menos, mais algumas horas, para o bem de todos.
Ao menos mais algumas horas.
Fale com o autor