O Patrono Perdido

19 Capítulo 18: A Volta do Patrono Perdido


Notas iniciais
Olha... eu estou desapontadííííssima comigo mesma, porque aparentemente perdi pelo menos uma boa metade dos meus leitores. Mas, como ainda me sobraram alguns poucos (e queridos), resolvi aparecer. Esperei muito tempo para poder postar esse capítulo, então aí vai ele. Boa leitura!

Quando Remo abriu os olhos, esperava encontrar à sua frente uma Madame Pomfrey preocupada com seu estado. Ao invés dela, quem se materializava dentro do seu campo de visão era o Professor Alvo Dumbledore, já consideravelmente envelhecido.

"Não", murmurou Remo, já prevendo o que aquilo devia significar. "Não pode ser", repetiu a si mesmo, erguendo a coluna para olhar ao redor.

Estava em um cômodo diferente. Aquela não era a enfermaria do ano de 1975, mas também não era a do seu ano atual. Tampouco era a antiga residência do Largo Grimmauld, tampouco era sua própria casa. Um quarto amplo, cheio de pequenos móveis e adornos, quadros que estavam vazios e silenciosos.

"Onde estou?", perguntou em sussurro, olhando o Diretor com desespero. Já não se surpreendia por não saber onde se encontrava — tudo o que queria era saber onde estava e por que motivo se encontrava ali.

"Não posso ter voltado ao meu tempo", justificava-se a Dumbledore. Sua cabeça doía, mas Remo agia como se nem mesmo o percebesse. As dores fisicas já passavam mesmo despercebidas. "O Portal não estava mais-"

"Funcionando?", interrompeu-o o Diretor. "É verdade", respondeu. "Não estava. Receio então que você já tenha descoberto o segredo do Portal".

Remo baixou os olhos, pensativo. Na verdade, queria estar pensativo, mas a sua mente estava em branco. Não havia um pensamento sequer que passasse por ela.

"Sirius", sussurrou. "Sirius deve ter entrado na enfermaria..."

"Você descobriu, Remo?", insistiu o outro.

Os olhos cor de mel direcionaram-se à imagem daquele velho maluco.

"O senhor está por trás disso, Professor", concluiu.

Dumbledore riu com aquela conclusão, mas não com a intenção de deboche. Estava apenas querendo expressar o seu bom-humor e o quanto aquela frase não fazia sentido aos seus ouvidos.

"Remo, veja só..."

"Não faz sentido", insistiu Remo. "O Portal não funcionou quando tentei alterar o passado. Mas eu já havia alterado muito tempo antes, e mesmo assim continuou funcionando."

"Já havia?", perguntou o Diretor, com interesse. Os seus olhos claros encaravam a Remo como se nada daquilo fosse uma surpresa.

"Eu beijei Sirius Black."

Dumbledore fez pouco mais que arquear as sobrancelhas em sua direção. Respondeu apenas com uma palavra:

"Sei."

Beijara Sirius Black no Jardim das Sombras. Tinha se apaixonado por ele e feito com que Sirius também alimentasse sentimentos recíprocos em relação à sua pessoa. Mesmo assim, depois do beijo, o Portal ainda tinha funcionado. Remo tinha claramente alterado a sua relação com Sirius e, portando, alterado o passado.

A prova daquilo era Severo Snape. Enquanto os grifinórios se beijavam num jardim onde Remo nunca havia estado antes, Severo estivera nas proximidades. Ele tinha visto o beijo. Teve a chance de observar ainda enquanto Remo lutava contra dementadores bem em frente ao Salgueiro Lutador.

O próprio Severo Snape já envelhecido, no ano de 1995, lembrava-se daqueles fatos. Aquilo indicava que Remo tinha mudado o passado e, portanto, até mesmo alterado a memória de Snape. Mas o Portal ainda tinha funcionado. Mesmo com todas aquelas alterações, prosseguira funcionando.

Por que então apenas recentemente, quando Remo continuara alterando os fatos, ele perdera seu efeito?

"Imagino que você tenha visto seu rosto", disse-lhe Alvo. Ao ver que Remo franzia o cenho em confusão, Dumbledore pegou um pequeno espelho em mãos e estendeu-o ao outro. "Veja", orientou.

Lupin enquadrou a própria face no reflexo do espelho. Seus olhos arregalaram-se em medo. Como era possível?

A enorme cicatriz que costumava ter sob o olho direito havia retornado ao seu lugar. Estivera sumida durante muitos dias — e mesmo Ninfadora Tonks tinha ficado atônita ao notar que a profunda marca tinha simplesmente desaparecido da sua face. Agora, no entanto, ela tinha voltado.

Estava vermelha como se tivesse sido feita há poucas horas. Marcas de sangue ainda se posicionavam pelos seus arredores.

"Essa cicatriz...", sussurrou. "Eu a fiz... Quando caí da Torre de Astronomia?"

"Eu não sei, Remo", respondeu o outro. "Pensei que você tivesse feito isso a si mesmo enquanto estava transformado pela licantropia. Mas não importa mais como você a fez... Ela está aí."

"Importa", corrigiu Remo. "Importa sim. Se eu tiver feito essa cicatriz quando caí da Torre, isso quer dizer que continuo alterando o passado e fazendo alterações no tempo de agora."

"Você ainda não percebe".

Lupin continuou a olhá-lo, em busca de explicações. Por que Dumbledore não dizia logo o que queria lhe dizer?

"Remo, não importa quantas vezes você voltar ao passado, não vai conseguir alterá-lo. Você pode mudar suas ações e a forma como as realiza, mas o resultado delas continuará sendo o mesmo. Não importa se você conseguiu essa cicatriz quando estava em forma de lobisomem ou quando pulou de uma torre. O que importa é que você é o responsável por tê-la no seu rosto. E aí ela está."

Não era verdade. Não podia ser verdade.

"Todas as vezes em que você tocou o Portal e ele funcionou, o passado e presente permaneceram interligados. Isso quer dizer que você não alterou o passado. Quando você passou a tentar alterá-lo e conseguiu, a ponte foi quebrada. Você ficou preso no tempo, porque o passado alterado deixa de ser passado. Ele passa a ser seu presente, e o futuro torna-se desconhecido. Tão desconhecido como é o futuro hoje para nós."

"Professor...", murmurou Remo. "Você não entende. Eu tenho certeza que alterei o passado", concluiu, referindo-se à sua relação com Sirius e ao fato de ter alterado também uma memória de Snape.

"Você pensa que o alterou", explicou o Diretor. "Mas todos os fatos que você viveu são como a cicatriz no seu rosto, Remo. Você pode alterar a forma e a ordem dos fatos, mas não pode alterar o resultado final deles. Se tivesse alterado o resultado final, o Portal não teria mais funcionado e você não estaria de volta aqui."

Poderia alterar a forma e a ordem dos fatos, mas não poderia alterar o resultado final deles. Se tivesse alterado o resultado final... Se tivesse alterado o resultado...

"Professor", chamou Remo mais uma vez. "Se eu não alterei o resultado final dos fatos... Isso quer dizer que Sirius..." e interrompeu-se, gaguejando. "Quer dizer que eu e Sirius..."

"Você e Sirius nunca foram só amigos da maneira como você pensa."

Lupin tremia.

"Isso não pode ser verdade."

"Você pensa que alterou o passado e que, portanto, alterou aquela memória de Snape. Mas você não a alterou, Remo. Você, na verdade, esteve recuperando a sua própria memória. Revivendo fatos que foram apagados das suas lembranças. Você nunca alterou realmente sua relação com Sirius Black."

"Por quê?", sussurrou. Não compreendendo qual era exatamente a pergunta, mais uma vez o Diretor arqueou as sobrancelhas na sua direção. "Por que então eu não tenho essas lembranças?"

Dumbledore suspirou. Desviou os olhos e deteve-os sobre um dos quadros vazios da parede. Estariam por um acaso na casa daquele homem? Remo perguntou-se, mas perguntava-se tantas coisas, que se perdia entre elas.

"Elas foram tiradas de você", respondeu ele.

"Por quê?", insistiu Remo, impaciente. "Por quem?"

"Se você mesmo não sabe, não sou eu que posso lhe dizer."

"Eu tenho o direito de saber", rebateu Lupin, e sua voz já apresentava indícios de alteração emocional. "Eu estive voltando ao passado, achando que poderia-"

"Que poderia ressuscitar os mortos?", interrompeu-o o mais velho.

Uma nova dor instalou-se no peito de Aluado. De repente, ficava difícil até mesmo respirar.

Não era possível que sempre tivesse tido aquela relação afetiva com Sirius. Não era possível que sempre o tivesse beijado, tirado suas roupas, dormido com ele. Simplesmente não podia ser.

Onde estavam aquelas memórias? Onde haviam estado durante toda a sua vida?

"Remo...", chamou-o o Diretor, que parecia preocupado com as suas feições. "A varinha que foi enviada a você... Não é um Portal comum."

"Você sabia disso", interrompeu Remo. "Desde o começo, você sabia que alguém estava me fazendo voltar ao passado para recuperar memórias. É por isso que eu estou voltando, não é?"

Estava alterado, sim. Estava visivelmente alterado. Mais uma vez, lágrimas formavam-se no canto dos seus olhos — mas agora, eram de raiva. Tinha vontade de pular no pescoço daquele homem que vinha escondendo-lhe a verdade desde a primeira vez que tocara a porcaria da varinha.

"Por que não me contou?", perguntou, desolado. Passava repetidas vezes as mãos na face, tentando despertar daquele pesadelo. Mas não era sonho.

"Porque não adiantaria, Remo...", murmurou o outro. "Você precisava viver de novo os momentos do passado, como se fosse a primeira vez que os tivesse tendo..."

"Por quê?"

"Existia algo mais que você precisava recuperar."

Os olhos cor de mel arregalaram-se na direção do Professor, como se Remo pudesse compreender o sentido daquelas palavras. Existia algo mais que precisava recuperar...

Com o canto dos olhos, identificou algo sobre a mesa do cômodo em que se encontrava: era a caixa de lebre. A caixa na qual viera a varinha, a caixa na qual Remo e Sirius tinham colocado aqueles pequenos papéis quando ainda eram adolescentes.

"Algo mais que eu precisava recuperar", repetiu ele, em um sussurro.

Praticamente lendo a sua linha de raciocínio, Dumbledore interviu:
"Mas você está fraco e não está em condições de fazer isso agora."

"Você não saberia o que eu estou em condições de fazer, Professor."

Trêmulo como estava, Remo Lupin sacou sua própria varinha. Mirou-a nos ares, a um canto qualquer da sala. Fechou os olhos que ainda teimavam em derramar as lágrimas de raiva — ou mágoa. Concentrou-se em uma lembrança feliz.

Pensou em Sirius. Em um jardim muito distante e silencioso. Nele, árvores espaçadas entre si eram adornadas por flores e trepadeiras. O cheiro misturava um aroma de terra fresca com o perfume natural das flores. No ar, chamuscas-roxas acumulavam-se e formavam, sobre o chão, pequeninos pontos de sombra por todos os lados. E, à sua frente, estava Sirius.

Enquanto Remo o observava de perto, os cabelos escuros e desgrenhados eram agitados pelo vento e chegavam a tocar a sua face. Estavam muito próximos. Olhos tão escuros que nem se podiam distinguir íris e pupilas sorriam na sua direção, e era como se toda a dor e toda a mágoa se extinguissem dentro do seu ser.

Sirius libertava-o daqueles sentimentos e os jogava para bem longe. E tudo o que Remo tinha vontade de fazer a ele era beijá-lo. Agradecê-lo.

Com as mãos enfraquecidas ainda sobre a varinha, Remo murmurou, antes de abrir os olhos:

"Expecto Patronum!"

Da ponta de sua varinha, então, saiu uma luz prateada que se espalhou no ar como fumaça. Cintilante como o brilho da Lua, a luz alastrou-se por todos os lados, ampliou-se e reluziu no meio do cômodo, passando a formar uma silhueta melhor definida.

De súbito, formou-se, na fumaça de luz, a imagem de um enorme cão preto. Formado por feixes agora quase ofuscantes, o cão caminhava sobre um chão imaginário, dando àqueles que o olhavam uma sensação de pura alegria.

Era possível que os Patronos mudassem de forma?

Por entre soluços, Remo olhou mais uma vez a caixa de lebre sobre aquela mesa. Antes de voltar ao passado, o seu Patrono também tinha formato de lebre; mas agora, Remo percebia.

Percebia que o seu Patrono original era um cachorro. Sempre fora um cachorro. E apenas deixara de sê-lo quando as suas memórias em relação a Sirius tinham sido arrancadas da sua pessoa.

Alguém tinha alterado as suas memórias e formado com elas uma nova imagem de Patrono: de uma lebre. Um animal que jamais poderia remetê-lo a Sirius ou aos sentimentos que por ele alimentava. Mas quem?

Bem, a verdade era que já imaginava quem havia sido — apenas não estava disposto a acreditar naquela terrível verdade. Conforme os tristes pensamentos voltavam à sua mente, o maravilhoso cachorro voltava progressivamente a ser uma fumaça cintilante para então dissipar-se no ar.

"Talvez...", iniciou Dumbledore mais vez, inevitavelmente também desmonstrando que não estava imune à dor do outro. "Tenha sido para protegê-lo."

"Não me importa para que foi", sussurrou. "Fazer um feitiço que me fizesse perder a memória para só recuperá-la depois de vinte anos..."

"Oh, não", corrigiu o Diretor. "Ele não esperava que você a recuperasse. Houve um erro..."

Lupin ergueu os olhos cansados em sua direção mais uma vez.

"Um erro...", repetiu, descrente.

"Bem... Um erro previsto. Um Feitiço de Alta Injúria."

Remo refletiu por um momento. Sabia o que aquilo significava, porque já havia estudado aquele tipo de feitiço ao longo de sua formação como professor.

Os Feitiços de Alta Injúria estavam dentro da categoria de feitiços que não eram lecionados nas escolas. Tratavam-se de ecantamentos dos mais variados, geralmente um tanto complexos e um tanto poderosos — mas com inigualável margem de erro. Nem sempre eram definidos como feitiços das Artes das Trevas, mas sempre prometiam feitos inacreditáveis a quem os executasse, com o único porém de que o executor tinha grandes chances de ser negativamente afetado pelo feitiço depois de conseguir o que tanto desejava.

Por mais que fosse contra a Lei praticá-los — já que ofereciam grande risco aos executores e às pessoas ao redor -, muitos ainda o faziam, já que consistiam, muitas vezes, na única maneira de se obter algo quase impossível de ser feito no mundo da Magia.

"Você nunca se perguntou, Remo, por que você foi o único que se salvou?"

"Como é?"

"Você sabe... Tiago Potter faleceu logo depois de nascer um filho que ele nem ao menos teve a chance de conhecer. Pedro Pettigrew enlouqueceu de medo e sucumbiu aos poderes do Lorde das Trevas, vivendo uma vida na escuridão depois de ter de passar doze anos em forma de rato de estimação. Sirius Black foi condenado por um crime que não cometeu e passou doze anos em Azkaban, vigiado por dementadores, e quando finalmente escapou, durou apenas dois anos antes de ser morto pela própria prima."

"Eu me pergunto isso todos os dias", sussurrou Remo, cansado.

"Você deve voltar", disse o Diretor. "O Portal não vai durar para sempre. Agora que você já recuperou boa parte de suas memórias e até mesmo os sentimentos por Sirius que trouxeram de volta o seu Patrono, o Portal deve estar próximo do seu fim. Use-o enquanto você tem tempo, Remo."

"O que eu devo fazer?", perguntou o mais jovem, agora inconsolável, como estivesse na iminência de receber uma nova missão.

Pensar que sempre tivera uma relação afetiva com Sirius, mas que as lembranças da mesma tinham sido arrancadas da sua pessoa por ninguém menos que o próprio Sirius...

Remo queria sentir raiva dele e tudo o que o envolvia. Mas quanto mais tentava, só sentia aumentar a raiva que estava de si mesmo.

Talvez para consolá-lo, Dumbledore agora mantinha um sorriso bondoso em sua direção. Respondeu:

"Você deve fazer o que achar certo e o que tiver condições para fazer. Precisa descansar por enquanto. Quando recuperar suas forças, poderá resolver entre voltar e descobrir o que falta ou apenas conviver com o que já foi feito a você."

"Professor..."

Estava fraco. Sentia-se fraco até mesmo para falar. Mas precisava expressar os seus pensamentos, ou então jamais conseguiria encarar a dura realidade que se fazia à sua frente. Completou:

"Eu queria apenas... Poder mudar o passado. Poder trazê-lo de volta."

"Meu bom Remo", iniciou mais uma vez Alvo, ainda com aquele sorriso. "Não se pode mudar o passado, mas sempre é tempo de mudar o presente."

Remo bufou com aquela maldita frase feita. Às vezes Dumbledore parecia querer ser um velho sábio, mas soava apenas como um velho caduco.

"Eu não quero mudar o presente", rosnou, um tanto irritado. "Era o passado que eu queria mudar."

"E qual é mesmo a diferença entre eles? Se um dia o passado foi nosso presente... E se um dia o presente será nosso passado... Pense bem, Remo. Eu não sei mais se há mesmo tanta diferença."

Quando Remo foi rebater, faltaram-lhe argumentos. Até que a linha de raciocínio do Diretor fazia sentido, mas o que aquelas palavras queriam dizer, exatamente?

Não demorou até que Dumbledore deixasse o cômodo, sob pretexto de que Remo deveria descansar. Estava mesmo cansado. Estava exausto. O que queria realmente fazer era ir atrás de Dora e avisá-la que estava de volta. Saber como ela estava era uma necessidade que não deixava sua mente, mas a exaustão ainda falava mais alto. Contava com a possibilidade de Alvo avisá-la — e a todos os da Ordem — que Remo estava bem e de volta ao tempo real.

Ao entardecer, e por mais que achasse que demoraria a dormir, já que estava tão agitado, o sono chegou como uma bela paulada na sua cabeça. Adormeceu. As últimas palavras que ecoaram na sua mente antes de fazê-lo foram:

Pense bem, Remo. Eu não sei mais se há mesmo tanta diferença.

Notas finais
Eu não sei quanto tempo vou demorar pra postar, porque estou recebendo muitos poucos comentários e estou, mais uma vez, desestimulada :( Mas, se estiverem aí, me façam feliiiiiz! Beijos, té+