O Patrono Perdido

20 Capítulo 19: Um Bilhete em Branco


Notas iniciais
Gente! Fiquei tão feliz com os comentários, que até resolvi aparecer no tempo prometido. Hehehe. Capítulo relativamente curto (pra ser meu), mas várias informações importantes... Boa leitura!

Ainda agora, Sirius Black o olhava. Desesperadamente, procurava um indício. Qualquer indício. Qualquer coisa que lhe mostrasse que Remo não tinha esquecido... Ao menos não completamente...

Era inútil. Olhos cor de mel, bem à sua frente, não se direcionavam à sua pessoa. Ao invés disso, Remo os mantinha, um tanto interessados, sobre uma torta de abóbora que estava no seu prato.

As suas feições eram as mesmas. As cores eram as mesmas. Mas o olhar... Tão distante. O que tinha feito?

Não era Remo.

Amaldiçoava-se mentalmente. Merda de varinha. Merda de ideia de escrever, sobre ela, que Remo não voltasse mais ao passado. Pois nada lhe doía mais do que vê-lo daquela forma.

"Você não vai comer nada?", perguntou Rabicho ao Black. Mas Sirius não respondeu. Nem sequer o ouviu. Estava desesperado demais, atento demais. Atento a qualquer movimento. Apenas ouviu quando a palavra foi tomada por outra pessoa.

"Você devia comer ao menos a torta. Até que não está ruim", disse-lhe Remo, como se nada de estranho estivesse acontecendo ali. Mas os olhos cor de mel ainda não se direcionavam à sua pessoa. Nem ao menos chegavam perto dos seus.

"Pode ficar com a minha", murmurou, por mais que a voz lhe custasse a sair. Empurrou o próprio prato na direção do menor, na expectativa de finalmente entrar no seu campo de visão.

"Obrigado, eu não quero", respondeu Remo. Empurrou-lhe o prato de volta ainda sem olhá-lo. Nem mesmo aquilo Remo queria da sua pessoa.

Desolado, Sirius desviou sua atenção. Era inútil tentar fazer com que uma pessoa se tornasse outra. Não era aquele Remo que a sua atenção desesperadamente procurava. Era com o outro que queria comunicar-se.

Queria ao menos ter tido a chance de saber como Remo se despediria. O que ele diria?

Não iria mais encontrá-lo. Não. Pois, se aqueles dois relógios de tempo andavam simultaneamente, era com o Remo de seu tempo que Sirius cresceria. Quando chegasse à idade de trinta e cinco anos, o Remo que seus olhos procuravam estaria com cinquenta e cinco. E talvez não velho o suficiente para se esquecer da mensagem que o Black havia deixado na própria varinha: "Não volte mais".

Não ia mais vê-lo, e nem ao menos tinha a chance de escrever uma carta.

Propositalmente, passou uma das pernas pelas de Remo, chutando-o de leve. Sabia que não era o mesmo. Sim, sabia. Mas ao menos queria vê-lo. Olhá-lo diretamente.

Ao invés de olhá-lo ou chutá-lo de volta, no entanto, Lupin apenas afastou suas pernas. Estava desinteressado. Tratava-o com absoluta indiferença. Tratava-o como se fosse um amigo qualquer; um dos Marotos. Não sabia o que Sirius e o outro Remo tinham vivido — e nem também parecia interessado em saber.

De súbito, aconteceu uma movimentação. Lílian Evans, que se levantava da mesa da Grifinória, passou ao lado dos Marotos e se deteve em Remo. Sorrindo em sua direção, ela disse:

"Como você está, Remo? Se sente melhor?"

Ele, então, ergueu os olhos da torta e fitou a menina.

"Estou melhor, obrigado."

Estava melhor, dizia ele. Mas nem ao menos sabia ao certo o motivo pelo qual todos os alunos que passavam ao seu lado perguntavam se sentia-se bem. Tinha passado a noite na enfermaria — e Sirius Black bem ao seu lado, com a Capa da Invisibilidade -, mas tinha sido liberado por Madame Pomfrey logo pela manhã. Não tinha ferimentos graves, à exceção de um corte profundo que tinha sido feito em seu rosto, e que certamente deixaria alguma cicatriz. Um grande esparadrapo cobria parte da sua bochecha.

"Que bom", disse ela, ainda com o seu sorriso bondoso. "Encontrei a Professora McGonagall e ela me pediu que te desse um recado. Ela te espera na sala dela hoje, às quatro da tarde. Acho que é para... Você sabe. Conversar sobre aquilo que aconteceu. Todos querem saber se você está mesmo bem agora."

"Tudo bem", respondeu Aluado. E sorriu também na direção dela, antes que Lílian se fosse. "Obrigado."

Por que parecia sorrir tão facilmente às outras pessoas, enquanto Sirius não merecia nem mesmo o seu olhar? Teve de novo vontade de chutá-lo, mas dessa vez para quebrar-lhe as pernas. Estava cheio de ódio de si mesmo e de todos ao seu redor. Afinal, era sua culpa que o outro Remo não estivesse mais ali.

Mas o chute seguinte Sirius Black recebeu ao invés de dar. De Tiago. Com o olhar desconfiado, ele lia as suas feições.

"Se você não vai comer, vamos embora logo", disse, com um semblante sério. "A aula já vai começar."

De todos, Potter parecia o menos convencido da história que todos comentavam. Por mais que as atitudes de Remo estivessem mesmo um tanto desconexas, a ideia dele pular de uma torre e acordar na manhã seguinte como se nada tivesse acontecido era, no mínimo, improvável. Mas não questionava mais.

Ainda que Sirius estivesse visivelmente abalado, não arrancaria a verdade dele. Procurava convencer a si mesmo de que o Black não tinha envolvimento com os últimos acontecimentos a Remo. Com a torre, talvez, não tivesse. Mas com a perda de memória e o comportamento ambíguo...

Suspirou. A tristeza nos olhos de Sirius e a indiferença nos de Lupin estavam deixando-o desconcertado.

~*~*~

Quando Remo despertou, já era noite. As grandes janelas do cômodo no qual se encontrava mostravam um céu iluminado por inúmeras estrelas. De alguma forma, as estrelas pareciam mais distantes do que estavam no ano de 1975, mas tentou não pensar nisso.

Coçando os olhos, ergueu-se na cama. Quantas horas tinha dormido? Pela decoração do quarto ao seu redor, percebeu que ainda estava na casa — ou abrigo, ou refúgio, ou o que quer que fosse — de Dumbledore, mas o Diretor não estava presente.

Luminárias flutuantes estavam acesas. Uma barra de chocolate pousava sobre a mesa de cabeceira daquela cama. Sorriu com a tentativa frustrada do Diretor de tranquilizá-lo.

Nos útlimos dias, quando estivera vinte anos antes no tempo, acordava a todas as manhãs com grande ansiedade. Nunca sabia o que o estava esperando ou como seus amigos prosseguiriam reagindo com sua presença no passado. Havia imaginado que quando voltasse ao seu tempo — se é que voltaria -, passaria a acordar com tranquilidade, sem o medo constante de cometer um grave erro e alterar o destino de todos. Livre daquelas pendências.

No entanto, agora, que finalmente acordava no seu tempo verdadeiro, sentia o coração mais pesado que nunca. As dúvidas e o medo preenchiam cada pequena parcela do seu ser. Agora, era como se aquele não fosse mais o seu tempo como costumava ser. Na verdade, nenhum dos dois tempos parecia mais ser plenamente o seu. De súbito, não se identificava com nenhum. Não pertencia a nenhum lugar na História.

Ainda assim, o tempo passado, tanto quanto seu tempo verdadeiro, passava também a ser sua responsabilidade.

Alguém havia alterado suas memórias. Alguém havia feito com que retornasse ao passado. E Remo estava inclinado a pensar nessa pessoa com uma única possibilidade. Pois, para apagar tantas memórias da sua mente, o executor do feitiço tinha que conhecer aquelas memórias. Tinha que ter estado presente em todas e cada uma delas; ou, ao menos, ter alguém que lhe contasse sobre elas com grande propriedade.

A única pessoa que estava presente em todas aquelas memórias...

Mas como? Por quê?

Com um pequeno esforço, levantou-se da cama. A caixa cuja tampa tinha talhada sobre si o formato de uma lebre permanecia sobre uma mesa, muito próxima ao seu alcance.

Mas agora que finalmente sabia o motivo do seu retorno ao passado, sentia medo.

De repente, ouviu um barulho nas proximidades, como alguém chegasse pela escadaria que levava àquele quarto. Sem hesitar, chamou:

"Professor?"

Não foi Dumbledore quem apareceu. Bem ali, ao pé da escada, quem surgiu à sua frente fez com que seus olhos se iluminassem.

"Dora!", exlcamou, mais em um sussurro do que em um grito, os olhos arregalados na direção da moça.

Ninfadora Tonks parecia muito menos abalada do que da última vez que a encontrara. Seus cabelos haviam recuperado a tonalidade rosa-choque que lhes era comum. Parecia calma. Seus olhos escuros, antes desesperados pelo sumiço de Remo, exalavam uma tranquilidade que Lupin chegou a invejar.

Dora sorriu na sua direção e correu para abraçá-lo. Era tão bom vê-la de novo. Na última vez em que tivera a chance de fazê-lo, Dora parecia triste, cheia de lágrimas. Mas agora, o seu abraço estava quente, os cabelos estavam rosa, o sorriso parecia calmo.

"Vai ficar tudo bem", ela sussurrou ao pé do seu ouvido. Por algum motivo, a soma do abraço com aquelas palavras gerou em Remo uma vontade de chorar. Mas não o fez.

"Dora...", murmurou de volta, afastando-se para olhá-la. "Você está tão... diferente."

Dora deteve o olhar sobre sua bochecha recentemente ferida, parecendo perceber que a cicatriz estava voltando ao lugar de origem. Então, desviou os olhos e deteve-os no chão por algum momento. O sorriso bondoso não deixava seus lábios. Retomou a palavra tão logo começou a caminhar na direção da mesa que portava a caixa de lebre.

"Sabe, Remo... Eu estive muito triste. Estive muito triste nesses dias. Mas agora eu entendo."

"Entende?"

Seus olhos estavam distantes quando ela concluiu:

"Você está voltando pra ficar com Sirius."

Remo embatucou. Tentou pigarrear, mas engasgou. O que era aquilo?

"C-como é?", perguntou, o discurso gaguejando. Era possível que tivesse ouvido sua conversa com Dumbledore? Há quanto tempo ela estava ali, afinal?

Era estranho definir o seu relacionamento com Dora. Nunca havia beijado-a ou se declarado a ela, nem tampouco ela o havia feito. Eram apenas bons amigos, próximos o suficiente — e com intenções estranhas o suficiente — para cuidarem um do outro quando era necessário. Ainda assim, era evidente, pelos olhos dela, o seu interesse em Remo. E várias vezes ele mesmo pensara ver, em seus próprios olhos, uma recíproca aos sentimentos dela. Mas agora...

"Dora..."

"Eu não estou triste com você. Agora que sei o motivo de você sempre voltar no tempo, me sinto melhor. Eu também sei o que é gostar de alguém."

Mas antes que Remo questionasse, ela mesma respondeu, dessa vez olhando nos seus olhos:

"Se você estivesse morto agora e vivo no passado, eu também voltaria pra te ver."

Um silêncio instalou-se no cômodo. Remo sentiu pesar sobre as suas costas aquelas palavras. Pensou em responder-lhe algo por algumas vezes, mas apenas tornou a fechar a boca, frustrado.

Queria pedir desculpas, mas desculpar-se de quê? Não se podia pedir desculpas por um sentimento sobre o qual não tinha controle. Gostava de Sirius. Amava-o. E por mais que também a amasse, não era da mesma forma. Além disso, Dora era forte. Talvez mais forte que ele próprio.

"Mas você não pode continuar voltando sempre, Remo. Isso é doente. Você precisa pôr um fim nisso."

"Eu sei", sussurrou ele. "Mas Dora... Dessa vez, eu descobri uma coisa. Estou voltando ao passado para recuperar memórias. Elas foram tiradas de mim por alguém. Eu preciso saber mais sobre isso. Preciso saber o que aconteceu realmente."

Ninfadora olhou-o mais uma vez. Não parecia calma e nem surpresa. Na verdade, parecia apenas ouvi-lo com atenção. Na sequência, direcionou o olhar mais uma vez à caixa de lebre e aproximou uma mão fechada da tampa. Bateu algumas vezes sobre ela.

A sua batida fez ecoar um som estranho pelo cômodo; o som era de como se a caixa estivesse vazia, oca por dentro. Como se fosse apenas uma estrutura de madeira, muito maior do que parecia, com um grande espaço vazio em seu interior.

Remo arregalou os olhos na direção daquilo.

"Mas o que...?"

Afoito e genuinamente preocupado com um possível desaparecimento da varinha-portal, arrancou de forma brusca a tampa daquela caixa.

Para a sua sorte, a varinha ainda estava ali. Mas não como antes. Havia agora, sobre a sua superfície, algumas palavras escritas — não, rabiscadas– que diziam: Não volte mais.

Sirius.

Remo parou. Foi sentindo murchar dentro de si todos os resquícios de sua esperança. Aquela mensagem era de Sirius Black. Tinha danificado a sua varinha, talvez a perdido, para enviar-lhe aquela mensagem. Ele não queria que Remo voltasse.

Sentiu sobre um de seus ombros a mão de Ninfadora. Ela estava consolando-o?

Talvez tivesse mesmo exagerado. Colocado em risco a vida de outras pessoas e a sua própria talvez tivesse sido demais. Vê-lo se jogar da alta Torre de Astronomia talvez tivesse sido o limite para Sirius. Mas como poderia abrir mão de vê-lo mais uma vez?

"Remo..." murmurou a menina ao seu lado. "Estive dormindo aqui nos últimos dias. Eu estava muito triste e Dumbledore me convenceu a ficar. Ele tem me ajudado muito ultimamente. Quero retribuir o favor."

Lendo a expressão confusa no rosto do amigo, ela continuou:

"Dumbledore me pediu pra te dar isso quando você acordasse. Não abra ainda", instruiu, entregando a Remo um pequeno papel dobrado. Ele o segurou, olhando com curiosidade para aquele papelzinho. "Ainda que você abra, não tem nada escrito. A mensagem só vai aparecer no dia três de novembro de 1975".

"Esse dia... Esse dia já passou."

"Eu sei", respondeu ela, sorrindo.

Acabava de dizer que Remo não podia voltar eternamente no tempo, porque isso era doente. Acabava de ler, ao lado dele, a mensagem que Sirius Black havia lhe deixado. E agora dava a entender que ele precisava voltar mais uma vez ao passado?

"Eu estou cansado desses jogos. Dumbledore ou você podem simplesmente me dizer o que tem nessa mensagem."

"Eu não sei o que tem. E como você pode ver, Dumbledore não está aqui."

Estreitou os olhos na direção dela, com desconfiança. Planejado. Aquilo tinha sido planejado.

"Por que você está fazendo isso?"

Dora deu de ombros, antes de responder:

"Porque quero ver você sorrir de novo."

Era estranho. Ainda que pudesse ser verdade, era um tanto estranho pensar como Remo sempre era levado, de uma forma ou outra, a tocar aquela varinha.

Antes de voltar ao passado pela primeira vez, até uma semana após a morte de Sirius, Lupin tinha pesadelos envolvendo o Largo Grimmauld e a varinha-portal, antes mesmo de saber sobre sua existência. Era como se estivesse predestinado a encontrá-la.

Quando pensava em parar de voltar ao passado, os sonhos voltavam ainda piores. Ou, como era o caso, algo surgia para forçá-lo a continuar no ciclo. Ainda que Dumbledore sempre o deixasse livre e dissesse que a escolha era sua, havia sempre algo maior em questão. Algo que o levava a fazê-lo.

Encarou mais uma vez a varinha. Uma varinha de cedro, marrom escura, que devia ter sumido junto ao corpo de Sirius na Sala do Véu, no ato de sua morte. Mas não desapereceu. Com os mesmos hieroglifos de sempre, mas dessa vez entrecortados pelas palavras que o Black escrevera, lá estava ela.

"Não volte mais", eram as palavras dele. Mas se tinha sido mesmo ele — ou qualquer outra pessoa — que havia apagado suas memórias, precisava descobrir. Ou se era Sirius que o estava fazendo recuperá-las, precisava saber como. Por quê? Depois de sua morte?

Aproximou suas mãos dela, ainda hesitante sobre o que era certo a fazer. Tentava convencer-se de que Dumbledore queria apenas que lesse o bilhete vinte anos antes de seu tempo, mas estava difícil crer naquilo.

No momento em que finalmente decidiu que devia falar com o Diretor antes de retomar o ciclo, sua mão já estava perigosamente próxima daquele objeto. E a mão de Ninfadora estava perigosamente próxima da sua. Ela tocou a mão de Remo de uma forma quase carinhosa. Mas no instante seguinte, em uma fração de segundos, abaixou-a, fazendo com que o outro tocasse o Portal.

A imagem de Remo alterou-se. Deformou-se. Dissipou-se no ar. E ele desaparatou enquanto ainda segurava, na outra mão, a mensagem enviada por Dumbledore.

Notas finais
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