O Patrono Perdido

18 Capítulo 17: Da Torre de Astronomia


Notas iniciais
Leitores queridos ❤_❤ Obrigada por todos os comentários (até estou dentro do prazo hoje, viva! Hihi). Escrever esse capítulo me deixou um pouco atordoada, mas eu tenho fé em vocês. Conforme a fanfic vai chegando ao fim, as coisas vão ficando um pouco mais ~sinistras~ (desculpem). Boa leitura :3

Remo corria. Não sabia ao certo por que corria. O tempo já havia se tornado algo subjetivo, quase inexistente, dentro da sua concepção. Ainda assim, corria.

Acreditava que corria em direção à cartada final dentro da insanidade que havia se tornado a sua vida. Talvez corresse em direção à sua última esperança, à sua última chance de reverter as coisas e recuperar os erros que havia cometido até então.

Ofegava. O túnel era escuro e comprido, de forma que não se podia ver luz alguma ao fim dele – mesmo assim, continuava correndo. A transpiração já umedecia suas roupas e uma dor se instalava de um dos lados do seu abdômen, porque não tinha estrutura ou preparo físico para oxigenar todas as suas células enquanto corria daquela forma. No entanto, corria.

“Não faça nenhuma besteira”, tinha lhe dito Sirius Black algumas horas antes. “Espere e vamos pensar juntos numa solução.”

Pensar juntos numa solução! Mas que ideia. Não havia solução que pudesse envolver a ajuda de Sirius. Não; na verdade, Sirius era o próprio problema. Por causa dos seus sentimentos pelo Black, Remo havia alteado o passado. Por conta da paixão desenfreada que sentia por ele, havia envolvido outras pessoas e, na tentativa de salvá-lo – e salvar outros que, na sua opinião, dependiam da sua ajuda -, tinha agido de forma precipitada. Fora egoísta e, agora, o Portal estava perdido. Não funcionava mais.

Mas era justo. Pois quem Remo pensava que era para voltar vinte anos no tempo e tentar ressuscitar os mortos? Deus?

Era justo que sofresse as consequências. Mas não era justo que outras pessoas também as sofressem. Afinal, não era apenas com a sua vida que estava brincando. Alterando o passado, brincava com a vida de todos: a sua própria, a de Sirius, de Lílian, de Tiago, de Pedro... E até mesmo com a vida daqueles que nem sequer o conheciam no ano de 1975. Talvez, tivesse colocado até Harry Potter em maior perigo.

Não. Remo Lupin não era Deus. Estava longe de sê-lo. Agora, era apenas um adolescente desesperado, correndo em prantos por um túnel subterrâneo que deveria levá-lo de volta a Hogwarts.

Depois de lhe dar aquelas inúteis instruções, há poucas horas, Sirius havia se transformado em um enorme cão preto. Dissera que precisaria voltar a Hogwarts em poucos minutos porque logo teria início a partida de Quadribol para a qual ele, como batedor, era escalado. A única forma de chegar rápido a Hogwarts era correndo em forma de cão.

Assim, deixara Remo para trás. Por mais que a princípio tivessem corrido juntos, as velocidades com que o faziam era incomparáveis; ele, em forma de cão, chegava à Escola por meio daquele túnel em cinco minutos. Já Lupin, por mais que as pernas queimassem pelo tanto que eram forçadas, chegaria em, pelo menos, vinte. Que falta fazia ser um Animago.

Porém, aquilo já não importava. Estando sem Sirius ao seu lado, Remo pudera pensar no melhor plano que já havia tido até então. Um plano bom o suficiente para reverter tudo. Reverter o que os Marotos estavam pensando dele. Reverter o pedido que havia feito a Lílian Potter. E reverter, talvez, até mesmo os conceitos que Sirius tinha sobre ele.

Revertendo tudo aquilo, talvez pudesse desfazer a alteração que tinha feito ao passado. Colocando em prática o seu plano, era possível que recuperasse a ordem natural dos acontecimentos e que o Portal pudesse voltar a funcionar.

Pois precisava voltar ao seu tempo. Agora compreendia o tamanho dos seus erros. Compreendia que tinha realmente voltado vinte anos no tempo e feito alterações profundas que haveriam de alterar o futuro – ou presente – significativamente.

Não queria mais alterá-lo. Não queria mais brincar de ser Deus. Os seus amigos, vinte anos adiante, precisavam dele. Ninfadora, Harry Potter, Dumbledore e todos os outros componentes da Ordem da Fênix precisavam da sua ajuda para lutar contra Voldemort.

Agora, Remo compreendia que a vida de Sirius, Tiago e Lílian não valiam mais que a vida dos demais. E se era preciso arriscar a vida dos seus amigos vivos para trazer de volta os mortos, então não valia a pena. Não era justo. Não arriscaria mais a integridade de ninguém.

Não importava o custo, desfaria as alterações. Recuperaria o curso normal da história. Desistiria daquela insanidade de alterar o futuro e garantiria que nenhum mal mais fosse causado àqueles que nem mesmo deviam ter sido envolvidos naquela loucura. Mesmo que, para tanto, precisasse arriscar agora a sua própria vida.

Quando chegou ao fim do túnel e correu em direção às torres de Hogwarts, teve a impressão de que não encontraria ninguém pelo caminho. Pela altura do sol no céu, provavelmente já era a hora do jogo e todos os alunos já estavam dispostos nas arquibancadas do Campo de Quadribol. Assim, o caminho estava livre. Absolutamente livre para que Remo conseguisse correr em sigilo até o dormitório masculino da Torre da Grifinória; para que pegasse a sua pobre e velha vassoura; e rumasse para o local que reunia todos os alunos e professores naquele momento.

~*~*~

Sirius Black suava frio. Suava frio, mas parecia dar o seu melhor para não deixar que outros percebessem.

As arquibancadas deviam estar cheias. Ao longe, alguns alunos gritavam. Seria mesmo muito bom que o motivo do seu nervosismo fosse apenas aquela partida de Quadribol. Sim, poderia muito bem sê-la; mas não era. Se havia algo no mundo para que Sirius estivesse verdadeiramente pouco se lixando, era aquela merda de partida.

“O que você tem?”, perguntou Tiago às suas costas.

“Nada”, respondeu, seco.

“Remo atacou alguém ontem à noite?”, insistiu o outro. Tiago se referia ao fato de Remo ter se transformado em lobisomem na noite anterior. “Ou vocês fizeram algo que não deviam ter feito?”

“Eu já disse, não é nada”, rosnou. “Por que você não se mete com seus assuntos?”

Então, Tiago pareceu baixar a guarda. Com alguma tristeza na voz, ele murmurou:

“Achei que nossos assuntos fossem os mesmos.”

Uma pontada de remorso. Sirius suspirou. O que estava havendo com eles?

Desde quando Tiago o atacava daquela maneira? Desde quando vinha perguntar se ele e Remo tinham feito algo que não deveriam? Nunca na vida Pontas havia tratado Sirius daquela forma. Mas também... Talvez, a culpa não fosse sua.

Talvez, Tiago estivesse cansado de se sentir excluído. Talvez estivesse com ciúmes da relação que Aluado e Almofadinhas tinham estreitado recentemente. Talvez apenas quisesse voltar a ser importante a eles; voltar a saber os assuntos que eram claramente escondidos agora da sua pessoa.

Todos estavam alterados. Até Rabicho parecia tristonho nos últimos momentos em que haviam estado juntos. Sirius não queria que se sentissem tristes ou excluídos; queria apenas que soubessem que os segredos eram escondidos deles porque não era seguro contá-los. E porque Remo, definitivamente, não aprovaria aquilo.

“Desculpe”, murmurou ele. “Estou preocupado com Remo. Uma coisa muito ruim aconteceu agora há pouco...”

Mas o seu discurso foi interrompido. Madame Hooch fez o último sinal para que os jogadores entrassem no campo. Todos foram obrigados a montarem em suas vassouras. As mãos de Sirius estavam tão úmidas pelo seu nervosismo, que acreditou que não demoraria a ser lançado pelos ares tão logo subisse naquela vassoura.

Ainda assim, era um grifinório: não tinha medo de cair. Mas depois de já montar a sua Nimbus 1700 e ouvir a ordem para que entrassem logo em campo, lamentou que a coragem grifinória não fosse suficiente para evitar o medo do que poderia estar acontecendo com Remo àquela altura.

Quando entrou em campo, Sol estava alto e a luz quase ofuscou seus olhos. Arquibancadas de todos os lados eram a origem de gritos de torcida dos alunos, oriundos de todas as Casas. O taco de batedor escorregava por sua mão, mas Sirius estava convicto de fazer o melhor que pudesse, por quanto tempo fosse possível. Por mais que estivesse pouco ligando para o resultado do jogo em si, os outros jogadores da Grifinória ainda contavam com sua ajuda.

Os oponentes, vestidos de amarelo, já estavam dispostos também pelo campo. As bolas foram liberadas e o apito de Madame Hooch soou. Em meio àquela gritaria, o jogo foi finalmente iniciado. Ou então, devia ter sido iniciado. Porque, dentre todos os berros que vinham da arquibancada, alguns se destacaram – e eles não diziam “Grifinória” ou “Lufa-Lufa”, nem tampouco chamavam os jogadores que estavam em campo.

Dentro da arena, uma estranha movimentação. Os jogadores estavam confusos. Os olhares dos torcedores não estavam mais no campo. O que acontecia? O que gritavam?

Sirius seguiu o olhar daqueles torcedores na tentativa de identificar com o que tanto se espantavam. E quando os seus próprios caíram sobre o topo da Torre de Astronomia, dali a alguns metros, não pôde acreditar no que estava vendo. Enquanto tinha a sensação de que seu coração parava de bater e seus ouvidos paravam de captar sons, ouviu alguns resquícios de gritos como: “Remo! É ele! É ele que está em cima da Torre!”

~*~*~

O vento gélido do topo da Torre de Astronomia acariciava o rosto de Remo, quase o fazendo ter vontade de desistir daquela ideia insana. Ainda assim, já era tarde. Podia ver, por mais que estivesse distante, muitos alunos das arquibancadas apontando em sua direção. Já tinha sido visto.

Nas suas mãos, ainda estava a vassoura em que estivera montado para subir até o telhado do castelo. Remo tremia. Estava apavorado. Mas era a única solução.

O plano em si até que era simples: chamar a atenção de todos os alunos e professores, de maneira que acreditassem que Lupin fosse mesmo se jogar da Torre de Astronomia. O motivo? Bem, era claro: se todos os professores e alunos passassem a achar que Remo tinha enlouquecido ou mudado bruscamente sua personalidade, não acreditariam mais naquela história de ele ter voltado no tempo. Lílian, Tiago e Pedro – e quem mais que estivesse acreditando naquela história do tempo – passariam a achar que era apenas uma história inventada por Remo, que, afinal, estava fora de si.

Era muito possível que acreditassem naquela nova versão. Afinal, muitos alunos já comentavam entre si que Remo tinha mudado muito nos últimos tempos. E mesmo os seus amigos mais próximos – Pontas e Rabicho – tinham acreditado, a princípio, que ele somente tinha perdido a memória.

Lílian seria a mais fácil de convencer da sua insanidade. Recordava-se da forma como ela o tinha observado como se ele já tivesse pirado há muito tempo quando pedira para que ela não confiasse o futuro Segredo de Harry Potter a Rabicho. Faltaria pouco – muito pouco – para que ela chegasse à conclusão de que Aluado estava mesmo alterado.

A melhor parte de tudo aquilo seria que, se pensassem que ele enlouqueceu, todas as suas palavras e atitudes recentes seriam desconsideradas. Lílian desconsideraria o que ele havia mencionado sobre o Segredo. Tiago e Pedro acreditariam que ele não tinha voltado ao passado. Talvez até mesmo Sirius passasse a considerar a ideia de que sua relação com ele só vinha acontecendo porque Remo estava mesmo fora de órbita.

Não. Era melhor não contar com o êxito de enganar a Sirius também. Talvez, enganar o restante da escola fosse o suficiente para reverter a alteração ao passado; precisaria pagar para ver, torcer pelo melhor.

Trêmulo, estendeu a mão que segurava a vassoura. Ouviu mais gritos vindos da arquibancada, mas não conseguia discernir o que diziam. Mais ao centro do campo, via uma pessoa de cabelos desgrenhados olhando em sua direção. Seria Sirius? Seus olhos encheram-se de lágrimas, mas Remo não derramou nenhuma. Estava nervoso demais.

A parte ruim daquele plano era que teria mesmo que se jogar do topo da Torre de Astronomia. Mas é claro que não morreria. Não, não morreria. Dumbledore provavelmente estava também naquela arquibancada e faria algum feitiço para salvá-lo a tempo. Remo sobreviveria. Conseguiria sobreviver. Alguém haveria de salvá-lo antes que chegasse ao chão.

Não podia sequer pensar que havia outra hipótese, ou então perderia a coragem.

A mão que segurava a vassoura foi aberta. Assim, sem magia, ela caiu com a força da gravidade e estilhaçou-se sobre o chão, muitos metros abaixo de onde seu dono estava.

Mais alunos gritaram. Agora, certamente, percebiam que Remo ia mesmo se jogar.

Encarou a imagem de Sirius – ou que pensava ser Sirius – uma última vez. Se tudo desse errado e Remo morresse com a queda, ao menos teria tido a chance de passar seus últimos momentos olhando-o. Que pena era estar tão distante.

“Desculpe, Sirius”, murmurou.

O vento frio ainda batia sobre seu rosto quando sentiu que, mesmo estando tão distante, Sirius Black era capaz de ouvir ou entender o seu recado. Então, respirou fundo – e pulou.

*

~*~*~

*

Não houve jogo de Quadribol naquele dia. O campo e todos os arredores da Torre de Astronomia foram interditados após a ocorrência com Remo. Pela primeira vez na história, um aluno de Hogwarts se jogava do topo de uma torre com a intenção de se matar. Felizmente, Remo não conseguiu.

Dumbledore estava mesmo entre os professores da arquibancada, e antes que qualquer outro pudesse tomar a frente, utilizou-se de um feitiço Aresto Momentum, capaz de fazer com que o corpo de Remo parasse a queda quando estava a poucos centímetros do chão, para só então continuá-la. Em suma, os danos a ele seriam mínimos. Mas os danos psicológicos causados aos professores e alguns outros alunos não tinham sido poucos.

Ninguém conseguia acreditar que Remo Lupin, um menino responsável, centrado, repleto de amigos, pudesse tentar algo como aquilo em frente a toda a Escola. A única explicação para uma ocorrência como aquela era de que Lupin estava absolutamente fora de sua razão. Tinha mesmo enloquecido.

Até que fazia sentido. Aquilo explicava o fato de Remo vir agindo de maneira estranha e ter tido até mesmo algumas perdas de memória. Ainda assim, era muito ingrato que um aluno tão brilhante terminasse daquela forma.

O seu corpo, quase intacto, foi retirado e levado à enfermaria, para ficar sob os cuidados de Madame Pomfrey. Naquele dia, nenhuma visita seria permitida, mesmo porque Remo ficaria desacordado pelas próximas horas. Precisaria repousar.

Ainda assim, Sirius Black era o tipo de pessoa que não precisava da autorização de ninguém para fazer coisa alguma.

Não conseguiu ir visitar Remo tão logo a partida de Quadribol foi cancelada. Na verdade, não conseguiu fazer coisa alguma durante algum tempo.

A visão de Remo Lupin olhando-o e em sequência jogando-se da Torre de Astronomia era demais para a sua mente. Depois de vê-lo de cair, alguns alunos gritaram, alguns correram e outros permaneceram imóveis, inertes no choque de vê-lo em uma tentativa quase suicida. Sirius pertencera ao último grupo.

Não podia acreditar no que Remo havia feito, por mais que já soubesse os motivos do outro para tanto.

Tentar enganá-los. Como sempre. Tentar reverter as alterações que pensava ter feito no seu passado. Tentar fazer com que o Portal de Tempo voltasse a funcionar, para que pudesse voltar à droga do seu tempo. E assim permanecer indo e vindo, desesperando a todos. Fazendo com que, a cada vez que tocava aquela maldita varinha, o coração de Sirius se contraísse na aflição de talvez nunca mais vê-lo.

Era isso que ele queria. Voltar ao seu tempo. Fazer Tiago, Pedro e todos os outros pensarem que apenas estava fora da sua consciência. Mas pensar que conseguiria enganar a Sirius, se é que pensava, era muita petulância.

Se a tentativa de voltar ao seu tempo futuro valia a sua própria morte, então que Remo voltasse logo. Que voltasse logo para a merda do seu tempo e não voltasse mais àquele.

Estava cansado de sempre ter que fazer como Remo queria. Estava cansado de vê-lo indo e vindo, em um ciclo sem fim, como se não se importasse com as pessoas do futuro e nem as do passado. Estava cheio de raiva e de mágoa, porque Remo nunca o esperava para colocar as coisas em prática. Nem sequer o via como um aliado – para ele, Sirius talvez fosse apenas uma pessoa qualquer do passado, já morta no seu presente, na qual não valia a pena investir. A qual não valia a pena considerar.

Tão logo se sentiu disposto para andar, tomou a Capa da Invisibilidade e rumou à enfermaria. Fosse ou não horário de visitas, Sirius iria entrar; pois, por mais que o outro pensasse apenas nas suas próprias vontades, o Black não poderia deixar de ver o seu estado.

Ao entrar e ver Remo desacordado sobre a maca, todo o seu ódio se esvaiu.

De olhos fechados, coberto com um fino lençol que parecia não servir de nada, ele repousava como se estivesse em profundo sono. Abaixo do olho direito, um gigantesco corte, ainda muito vermelho, parecia ser a única marca proveniente da queda. Por mais que Dumbledore tivesse impedido piores sequelas, estava muito distante quando tentara aplicar-lhe o feitiço. A sua eficácia não tinha sido absoluta.

Ao vê-lo com aquele arranhão no rosto, profundo o suficiente para que virasse uma cicatriz mais adiante, Sirius sentia como se o rosto machucado fosse o seu próprio. Por que havia feito aquilo?

Aproximou-se e tirou a Capa da Invisibilidade. Aquela imagem de Remo desacordado era quase tão dolorida quanto a de vê-lo cair do topo da Torre. Teria feito qualquer coisa para impedi-lo. Se Remo lhe houvesse pedido, ele mesmo teria convencido os outros alunos – convenceria Hogwarts inteira – de que era mentira a história de voltar no tempo. Mas agora era tarde. Como sempre, Remo havia resolvido o problema por si só.

“Você não precisava ter feito isso”, disse-lhe. Mas Remo não podia ouvi-lo, coisa que na verdade era muita sorte, porque a voz de Sirius já estava claramente alterada pelo seu estado emocional. “Desculpe não ter te ajudado.”

Sentado na maca, ao lado do menor, tocou a parte do rosto de Aluado que ainda estava intacta. Uma pele macia que Sirius havia tocado, em outro contexto, há poucas horas. Faria mesmo de tudo para poder voltar àquele momento e convencer a Remo de que ele não precisava se machucar por algo como aquilo. Podia pedir ajuda. Não estava sozinho.

Bem, mas agora estava sozinho, desacordado, distante dali. Sirius afastou a mão do seu rosto, porque não queria forçá-lo a acordar. De súbito, teve uma ideia.

Lembrou-se do motivo pelo qual o outro havia se jogado da Torre. A varinha. Era aquilo que Remo queria: recuperar o Portal do Tempo e voltar ao futuro. Cumprir o seu papel na história ao invés de viver em uma que não lhe pertencia. Por mais que não lhe houvesse ajudado antes, agora tinha a chance de fazê-lo.

Era certo que Remo havia revertido as alterações do passado – pelo menos algumas, referentes aos outros alunos de Hogwarts. Era possível que o Portal de Tempo já estivesse funcionando novamente. E se Remo havia arriscado a própria vida para ter aquilo de volta, Sirius daria a ele.

Encarou a própria varinha. Não queria mais machucá-lo. Não queria mais machucar a si mesmo. As idas e vindas de Remo estavam se tornando traumáticas, porque nunca sabia quando – ou se ia – tê-lo de volta. Não queria mais que o outro corresse o risco de alterar o passado. Mais do que tudo, não suportaria vê-lo fazendo novamente algo contra si mesmo na tentativa de reverter o que houvesse sido alterado.

Engoliu em seco. Por mais que quisesse tê-lo perto de si, não podia mais forçá-lo a ficar. Segurou a varinha com força. Havia uma forma de garantir que Remo não voltaria mais ao passado; havia uma forma de garantir que ele não colocaria a si mesmo em perigo mais uma vez.

Sobre a mesa de cabeceira, ao lado da maca, Sirius avistou a exata ferramenta que estava procurando: uma caneta. Segurou-a em mãos. Tinha a intenção de deixar um recado para Remo. No entanto, por mais que o escrevesse em papel, como garantiria que o papel viajaria com ele através do Tempo? Não foi necessário pensar muito para resolver a situação, pois a solução já estava em suas mãos. A varinha.

Encostou sobre ela a caneta e começou a escrever. A tinta, porém, não permanecia; tão logo ele rabiscava sobre a varinha, os traços sumiam.

Insistiu. Colocou mais força. Passou a rabiscar os traços ao invés de simplesmente desenhá-los. Tanta era a força que colocava sobre a caneta que saíam faíscas da varinha conforme ia escrevendo. Não importava: mesmo se perdesse a varinha mágica, daria um jeito de arrumar outra. O mais importante era garantir que Remo não voltasse mais. Que não se machucasse mais.

Quando finalmente terminou, as mãos lhe doíam. Mas já estavam entalhadas sobre o objeto as palavras escritas por ele. Elas eram: Não volte mais.

De alguma forma, engoliu as lágrimas que se formavam sob seus olhos, porque precisava ser forte naquele momento. Se Remo havia finalmente conseguido o que tanto desejava, era a hora de saber.

Debruçou-se sobre ele. Inspirou o cheiro adocicado que era exalado por aquela pele; um cheiro que lhe remetia à alegria do amanhecer. Mesmo em uma situação como aquela, a imagem e o cheiro de Remo enchiam-lhe de esperança. Sabia que estava fazendo o que era certo.

Já não conseguia engolir as lágrimas quando realizou o movimento final. Colocou a varinha sobre a maca e empurrou-a até que encostasse no braço do outro.

Remo Lupin ainda estava desacordado quando desaparatou de dentro da enfermaria de Hogwarts.

Notas finais
Comentários? Recomendações? Só ~acho~ que mereço o amor de vocês, ok.