O Patrono Perdido
14 Capítulo 13: Uma Noite na Casa dos Gritos
Notas iniciais
Não podia crer naquilo que seus ouvidos agora comprovavam ser um fato real: Remo tinha aceitado o convite.
Enquanto o Sirius ouvia seus passos logo atrás de si — mas não ousava virar-se para olhá-lo, porque parecia-lhe que qualquer movimento brusco seria suficiente para que Remo desistisse da ideia de segui-lo -, o Black procurava lembrar-se de qual argumento usado tinha sido bom o suficiente para convencer o outro a topar ir a Hogsmeade.
Talvez ele fosse mesmo bom na retórica. Bom o suficiente para, afinal, convencer Lupin a fazer algo tão inconsequente, ou mesmo tão sem razões aparentes. Era possível que Sirius tivesse mesmo aquela capacidade? Tão bons argumentos?
Não. Mas ou era essa a explicação do consentimento de Remo, ou então Aluado conhecia seus motivos para convidá-lo — e compartilhava de motivos similares para acompanhá-lo.
As duas hipóteses pareciam tão improváveis, mas tão improváveis, que Sirius não alimentou nenhuma delas dentro da sua própria mente. Ainda assim, torcia silenciosamente pela segunda.
Sobre convencer Remo de que a melhor ideia era seguirem pela passagem sob o Salgueiro Lutador, aquilo até que não tinha sido difícil. Afinal, a passagem por trás da Bruxa Corcunda os levaria ao estoque interno da Dedosdemel, mas a loja estaria fechada, pois já era tarde da noite; e, se entrassem por ela, não conseguiriam sair tão facilmente. Assim, explicara Sirius, se queriam ir a Hogsmeade como desejavam, precisariam usar a passagem sob o Salgueiro, que desembocaria em nada menos que a Casa dos Gritos.
Uma passagem um tanto mais distante, cansativa e obscura. Mas uma passagem também mais segura e que chamaria menos a atenção dos alunos que ainda estavam acordados àquela hora da noite.
Portanto, ali estavam eles, já ao fim da passagem que era guardada pelo Salgueiro, apenas a alguns passos da entrada subterrânea da Casa dos Gritos.
O percurso interrompia-se em meio ao nada. No final dele, os garotos encontravam-se em algo que parecia um beco sob a terra, cujo pé direito era um tanto baixo. Sobre as suas cabeças, posicionava-se o alçapão que guardava o piso térreo da casa. Bastava esticar uma mão para empurrá-lo, e então a passagem estaria aberta.
Quando finalmente chegaram ao ponto crítico, Sirius usou sua coragem grifinória para virar-se e observar qual era a reação de Remo naquele momento. Até então, mantivera os olhos distantes, sempre adiante; mas os seus ouvidos tinham garantido que o mais baixo vinha seguindo-o bem de perto, logo atrás, sem ainda ter desistido da ideia insana de irem à aldeia na absoluta solidão.
Recaindo sobre a imagem dele, os olhos de Almofadinhas atestaram o óbvio: Remo hesitava. Com a respiração rápida devido à longa caminhada, Lupin encarava o amigo com as pálpebras muito abertas, como estivesse assustado ou mesmo se perguntasse o que estavam fazendo. Devido à absoluta escuridão que os rodeava, as íris que tinham o tom amarelado pareciam agora castanhas, imersas nas sensações da dúvida e da insegurança.
Sirius pensou em apenas sorrir na tentativa de acalmá-lo, mas pensou que abrir um sorriso em uma hora daquelas seria mais uma atitude um tanto sinistra do que propriamente amigável. Afinal, ele próprio não estava assim tão tranquilo para passar segurança ao outro. Não sabia o que iria fazer depois que empurrasse o alçapão. Mesmo assim, empurrou.
A portinhola abriu-se, deixando entrar alguns feixes de luz naquele beco macabro. Feixes que foram suficientes para devolver aos olhos de Aluado a cor mel que verdadeiramente lhes pertencia. Ainda que todo o planejado para aquela noite desse errado, a experiência já teria valido a pena.
Ter passado vinte minutos caminhando com Remo naquele túnel escuro, ouvindo nada além da respiração e os passos dele bem atrás dos seus, já havia sido bom o suficiente, ainda que todo o resto pudesse dar errado. Mesmo a simples ação de ter visto os olhos do menor se iluminando após a abertura daquela portinhola já tinha sido bom o bastante para que Sirius não se arrependesse de tê-lo tirado de Hogwarts.
Com aqueles pensamentos e a portinhola já aberta, segurou-se nas bordas da abertura e deu um pequeno impulso, suficiente para passar pela larga entrada e deparar-se com o interior da Casa dos Gritos.
Já no andar térreo, esticou as mãos para o outro — o que realmente não era necessário, porque Remo estava mais do que acostumado a fazer aquele trajeto sozinho -, e Aluado aceitou segurá-las como apoio para também pegar o impulso e entrar na casa. Usando-se de um movimento de varinha, Sirius acendeu a única lâmpada que pendia do teto. A atmosfera do local tornou-se um pouco mais luminada, ainda que não fosse grande coisa.
O restante dos ocorridos foi um tanto rápido e um tanto confuso.
~
A Casa dos Gritos não se assemelhava, de forma alguma, às lembranças que Lupin mantinha dela.
Não havia teias de aranha. Não havia papéis de parede desgastados, nem marcas de móveis ou arranhões pelas paredes. Não havia a costumeira camada de pó e de sujeira que deveriam residir sobre o chão. Não havia o cheiro de mofo, ou o ar de tristeza, ou aquela aparência fria e solitária que costumava aparentar nas memórias mais infelizes do garoto.
O seu coração batia em disparada. Não era como se tivesse andado alguns poucos quilômetros sob a terra, mas como tivesse corrido uma maratona inteira e ainda não tivesse tido tempo de descansar. As coisas aconteciam rápido demais naquele tempo.
Ao invés da melancolia e da poeira, encontrou sobre o chão apenas algumas cartas de Snap Explosivo. Quase não havia móveis.
Um único sofá tinha sido deslocado, empurrado para um canto à parede. Havia também algumas latas e garrafas vazias sobre o piso. Aquele lugar precisava de uma boa faxina. Mas Remo não se sentiu incomodado pela desorganização local; na verdade, sentiu-se emocionado. Não se lembrava da Casa dos Gritos como agora ela se mostrava a ele: um lugar simples e aconchegante, onde passara inúmeros dias nas melhores companhias que poderia ter desejado. Naquela época, ainda não era um homem sozinho.
Engoliu a emoção com força, porque agora ela parecia uma bola maciça de saliva. Não pareceu surtir efeito — ela ainda estava lá. Passou as mãos pelos olhos, coçando-os. Por que Sirius o tinha levado até a casa? Não sabia que era só um menino de quinze anos? Era possível que ele não soubesse que Remo não sabia lidar com aquele tipo de situação?
Olhou-o com ansiedade, e Sirius pareceu-lhe tão nervoso quanto ele mesmo. Quis perguntar o motivo daquela jornada, mas agora passava a achar que nem o amigo saberia respondê-lo. Ou talvez apenas não conseguisse respondê-lo. Era melhor poupar palavras, a não ser que fossem estritamente necessárias.
"Então...", iniciou Almofadinhas, e nesse momento Remo o admiriou pela sua coragem de tomar a frente quando faltavam iniciativas.
"Então", repetiu ele, sem muito êxito em desenvolver conversas quando estava sob pressão.
A bola úmida de emoção, que agora mais se assemelhava a de tensão, aumentou em sua garganta. Pensou que fosse engasgar. Talvez fosse morrer. Tinha só quinze anos.
"Não vai me perguntar?", insistiu o Black.
"Perguntar o quê?"
"Se não vamos sair para a aldeia."
"Claro que não vamos sair para a aldeia", respondeu Remo. "Tudo está fechado a essa hora. Você pensa que não sei?"
Sirius abriu o seu sorriso na direção do mais baixo.
"Você é esperto", disse ele, dando a Lupin a impressão de que estava só sendo sarcástico. Mas pareceu lembrar-se de algo, e emendou: "Quero te mostrar uma coisa."
Dizendo isso, novamente tomou a frente: começou a subir a escadaria circular do aposento, que era um tanto estreita e um tanto íngreme para que qualquer outro ser conseguisse subi-la na velocidade com que ele o fazia.
Deixado na absoluta solidão no andar térreo, Remo acreditou que o melhor a fazer era continuar a segui-lo. Já que não sabia mais fazer nada além disso mesmo.
No andar superior, um único cômodo. Assim que chegou, Lupin deparou-se com a porta aberta e adentrou o lugar que costumava ser o seu quarto nas noites de Lua Cheia. À parte da sala da entrada, naquela parede havia sim alguns arranhões, mas a atmosfera também não era de tristeza. Havia um grande móvel de guardar roupas e uma única cama que parecia ter sido cuidadosamente arrumada. Remo sempre arrumava sua cama quando voltava ao estado humano, mesmo depois de destruir o cômodo na forma de um lobisomem.
Sirius caminhou até a cama e ajoelhou-se no chão ao lado dela. Colocou as mãos por baixo da mesma e puxou para si um objeto que Remo não conseguiu identificar o que era.
"Sonhei com isso na última noite", disse ele. "E sonhei também que você voltaria para o jantar do Slughorn, mesmo depois de ter batido a cabeça na minha varinha, no Jardim das Sombras."
"O que é?", perguntou o outro.
Então o Black, por fim, deixou de lado seus mistérios. Estendeu as mãos que seguravam o objeto na direção do amigo, de forma que Aluado agora pudesse vê-lo. Era uma caixa. Uma caixa preta. Mas não podia ser o que parecia.
Atordoado, mas convicto de que estava alucinando ou qualquer coisa do gênero, Remo deu alguns passos na direção do maior. Constatou que não podia ser uma alucinação. Mas não era uma caixa qualquer. Era uma caixa preta-fosca, descascada em diversos pontos. Em sua tampa de madeira muito escura, estava talhada a figura de um animal de longas orelhas e longas pernas, que lembrava a figura de uma lebre.
Era a caixa. A caixa da varinha. A caixa que Remo também vira em sonho; aquela que guardava a varinha de Sirius Black e que Remo encontrara em seu tempo real, na antiga residência de Sirius. A caixa que guardava o Portal de Tempo.
Uma vertigem confundiu-lhe os sentidos. Seus joelhos literalmente vacilaram como já desejavam fazer há muito tempo, e seu corpo também terminou ajoelhado sobre o chão. A sua pressão estava caindo. Era a caixa.
"Você só pode estar de brincadeira comigo", murmurou, e aquela agora parecia ser sua frase de efeito. "De onde você tirou isso?"
Sirius parecia um tanto assustado com a sua reação, mas apenas repetiu: "Eu sonhei com isso."
"Sonhou que tinha uma porcaria de uma caixa escondida debaixo da minha cama", investiu o outro, já um tanto agressivo pela desconfiança.
"Não", respondeu o maior, impaciente. "Nós mesmos colocamos a caixa aqui. Eu só sonhei que te mostrava."
"Eu não ia colocar uma droga de caixa embaixo da minha cama."
"Então talvez você queira abri-la", desafiou Sirius.
Remo estremeceu da cabeça aos pés. Era possível que ele estivesse falando a verdade? Engoliu em seco, mas agora já não era emoção: era medo. Com as mãos trêmulas, levantou a tampa da tenebrosa caixa.
No interior dela, havia inúmeros papéis. Papeizinhos picotados, bem pequenos, e dobrados. Inúmeros deles. Parecia haver dezenas, ou talvez centenas.
"O que é isso?", perguntou. O pavor já o tomava por completo. Encarou o amigo, mas ele não o respondeu. Sirius prosseguiu apenas olhando-o com seriedade, sem proferir palavra alguma.
Remo então usou uma das mãos para pegar um daqueles pedaços de papel e na sequência apoiou a caixa no chão do quarto, para desdobrá-lo. Quando o fez, encontrou algumas palavras escritas. Elas diziam:
"Fazer amigos."
Mas era a sua letra. A sua própria caligrafia, um tanto antiga e torta, como se tivesse escrito aquelas palavras quando ainda era muito jovem para escrever com precisão.
Seu coração deu mais alguns pulos dentro do peito. Encarou Sirius de novo, e novamente ele apenas o encarou de volta.
Lupin pegou um novo papel. Abriu a dobradura com ambas as mãos. Uma nova frase apareceu escrita, mas a letra parecia ser de outra pessoa; talvez a de Sirius, também um tanto torta e imprecisa. Diziam:
"Não ser da Sonserina."
"Sirius...", murmurou ele, em um pedido de ajuda.
Sirius Black enfiou a própria mão na caixa e pegou mais um papel. Após desdobrá-lo, mostrou o conteúdo a Remo. Novamente, era a letra de Aluado. Formava a frase:
"Não ter vergonha de ser eu mesmo."
Da mesma forma que fizera no Jardim das Sombras, Remo escondeu o rosto nas próprias mãos, soltando quaisquer papéis que antes retinha nelas. Não queria ver ou ser visto. O seu peito comprimia-se numa dor que poucas vezes experimentara na vida.
"Você não se lembra", concluiu Sirius, ainda em tom sério.
Remo Lupin respondeu em sussurro, mas as palavras custaram-lhe a sair, como se a voz se recusasse a dar corpo a qualquer frase.
"Eu me lembro de ter escrito isso", disse ele.
Era verdade. Antes não se lembrava, mas agora a memória retornava à sua mente.
Antes de entrar em Hogwarts, Remo não tinha muitos amigos; na verdade, não tinha nenhum. Ficava constantemente muito triste consigo mesmo, porque não gostava de ser um lobisomem. Era a sua maldição. Desde os oito anos de idade, transformava-se e fazia verdadeiros estragos a tudo o que estava ao seu redor.
Todas as escolas o haviam negado, porque ninguém queria correr o risco de ter um lobisomem por perto. Era perigoso até mesmo a outros alunos.
Constantemente, culpando a si mesmo e sentindo-se incapaz de expressar a outras pessoas tudo aquilo que sentia, escondia seus desejos — e suas metas — em pedaços de papel que cuidadosamente escondia de todos.
Para sua mais profunda sorte, depois de três anos de frustrações, Dumbledore o havia aceitado em Hogwarts. Lá dentro, manteve em segredo o fato de Remo ser um lobisomem, e o tratou da mesma maneira que tratava todos os outros alunos. Aceito em Hogwarts, Remo logo conheceu os amigos que viriam a ser os Marotos, que não sabiam da sua condição a princípio — mas que continuaram do seu lado depois de descobri-la.
Depois de entrar para a Escola, nunca mais se sentiu triste a ponto de continuar escrevendo seus problemas na solidão, porque agora tinha amigos com quem podia contar. Por volta dos onze anos, não voltou mais àquela atividade. Mas havia papéis suficientes para três anos nos quais se sentira isolado do restante do mundo.
E aquilo ainda não era tudo.
Em meio àqueles papéis que guardavam a sua caligrafia no formato mais jovem, havia papéis cuja letra era de Sirius. Como se ele também, antes de entrar em Hogwarts, se sentisse deslocado do restante do mundo. E devia mesmo se sentir: criado em uma família nobre e fascinada pelas Artes das Trevas, não havia ninguém nas proximidades com quem se identificasse.
Devia sentir-se quase ou tão sozinho quanto Remo. Portanto, os papéis com as metas.
"Você me contou que fazia isso, há muito tempo. Juntamos seus papéis com os meus e deixamos nessa caixa. Ninguém nunca enfiou a mão por baixo dessa cama. Então você pode imaginar a poeira", disse o maior, e agora sua voz expressava um bom humor. Acabava de tentar fazer uma piada? Parecia isso.
Remo não conseguiu rir e nem chorar. Mas adquiriu coragem suficiente para afastar as mãos do rosto e olhá-lo mais uma vez nos olhos.
Sirius não sabia toda a história que envolvia aquela caixa no seu tempo real. Ele apenas sonhara com ela; e com o sonho, havia se dado ao trabalho de levar Remo até a Casa dos Gritos, com a única intenção de tentar ajudá-lo na sua busca por explicações do porquê vinha voltando no tempo.
Ele parecia ser, em todo o mundo, a única pessoa que realmente se importava. A única pessoa que o compreendia na totalidade, desde muito cedo na infância, e a única pessoa com quem se identificava. Sirius era o seu reflexo. Mais jovem, mais revoltado e mais impulsivo — mas ainda o seu reflexo.
*
Remo teve uma vontade naquele instante. Não uma vontade de se esconder entre as mãos, ou embaixo da terra; não de pedir a varinha do amigo e desaparatar dali em uma fuga desesperada; não de apenas desconversar e fingir desconhecer seus próprios sentimentos, que cresciam. Teve vontade de fazer algo mais.
Teve vontade de puxá-lo para si, e não deixar que se afastasse mais. Teve vontade de se deitar com ele ali mesmo, naquela casa, naquelas condições. Vontade de resolver as coisas como resolviam as pessoas que tinham mais de quinze anos.
Antes, ainda, sentiu que precisava alertá-lo. Avisá-lo. Remo, não tinha apenas quinze anos como o amigo. Tinha trinta e cinco. Tinha a porcaria de trinta e cinco anos nas costas, contra apenas quinze de Sirius. Quão errado era relacionar-se com ele? Quão errado era sentir-se atraído e interagir sexualmente com uma pessoa que tinha menos da metade da sua idade?
Os olhos escuros de Sirius estavam tão fixos nos seus, que ele parecia capaz de ler os seus pensamentos. E parecia estar pouco se lixando para eles.
"Trinta e seis", murmurou ele, já tão hipnotizado por aqueles olhos, que teve a impressão que não conseguiria sair dali com êxito.
O maior fez pouco além de alargar o próprio sorriso. Pela sua expressão, estava claro que compreendia aquelas palavras na totalidade: Remo queria dizer-lhe que ele, Sirius, completara trinta e seis anos antes de morrer no tempo real de Lupin. Ou seja, respondia à pergunta que Sirius havia feito no Jardim das Sombras; a última e única pergunta que havia feito sem obter respostas na hora.
"Não é tanto assim", respondeu o mais alto, ainda com bom humor. Era como se tentasse consolá-lo.
Entretanto, Remo não se deu por consolado. Achou que Sirius ainda não estava entendendo a gravidade da situação; ora, se ele havia falecido com trinta e seis anos e Remo era só um ano mais jovem, aquilo só podia indicar que Aluado tinha os seus trinta e cinco. Mas Almofadinhas não compreendia; ou não parecia querer compreender.
"Você não entendeu", insistiu Remo. O sorriso do Black era um ímã que atraía o seu olhar. Precisava terminar aquela conversa antes que fosse tarde: "Você tem quinze anos, e eu tenho trinta e cinco."
Sirius ergueu as sobrancelhas fingindo surpresa, mas utilizando-se claramente do sarcasmo que era inerente à sua pessoa.
"Não", respondeu ele. "Você tem quinze."
Puxou-o pela nuca antes que Lupin pudesse protestar, e selou os lábios nos dele.
Remo puxou-o de volta. Estava se segurando há muito tempo.
O seu coração bombeava o sangue com tanta força, que ele próprio latejava como um todo, como se tivesse esperado a vida inteira por aquele momento.
Sirius empurrou-o, e ele, que antes mantinha-se ajoelhado sobre o chão, caía agora sentado sobre o mesmo. Conforme o beijo prosseguia, sentia os cabelos do maior roçando sobre sua nuca, e arrepiava-se por completo. Havia uma estranha energia que fluía entre eles, uma força magnética que sincronizava mais do que os seus movimentos, mas também seus ritmos de respiração. Em um beijo súbito e inesperado, tornavam-se uma coisa só.
As mãos do Black desceram pelo seu tórax e fecharam-se na sua cintura. Por onde quer que passavam, arrancavam de Remo gemidos involuntários, que eram quase súplicas para que aquilo não parasse. Era impossível retê-los.
Com um novo empurrão, Aluado foi deitado sobre o chão — já não estava na disputa do comando. Abriu os olhos que antes estavam fechados, e deparou-se com nada menos que a imagem de Sirius vinte anos rejuvesnecido, com um sorriso agora já perverso nos lábios, as suas íris escuras fuzilando-o como se Remo fosse um bolo de caldeirão prestes a ser devorado a qualquer momento. Naquele instante, Lupin deu-se conta de que talvez a sua integridade física e moral estivessem correndo um sério perigo.
Pensou em trocar de posição com o maior, porque aquilo talvez lhe trouxesse mais alguma segurança — conhecia bem aquele sorriso do Black e tinha consciência da qualidade das consequências nas quais ele resultava -, mas bastou fazer menção de escorregar um pouco sobre o chão, logo o outro segurou seus pulsos com as próprias mãos, imobilizando-o.
Remo estivera mesmo sedento por aquele momento, mas, de alguma maneira, Sirius parecia estar duas vezes mais.
Mantendo os pulsos do menor bem presos entre suas mãos, o Black debruçou-se sobre ele; e os lábios que antes mantinham-se sobre os seus passaram a tocar o seu pescoço, e Aluado, que já não se mantinha muito sob controle, perdeu o restante do que lhe sobrava. Os beijos de Sirius sensibilizavam toda a região por onde passavam, como Remo nunca tivesse sido tocado ali. Se seus pulsos estavam bem presos ou não, já não sabia; mas não tinha condições de mexer um músculo sequer. Seu próprio corpo já não lhe pertencia — ele o entregava de muito bom grado a Sirius Black.
Tão logo sentiu suas mãos sendo liberadas, percebeu que era sobre o seu colete — o maldito colete do jantar de Slughorn — que o maior posicionava os dedos, já desabotoando-o. O cérebro envelhecido de Lupin advertiu-o algumas vezes, mas ele o aquietou. Não queria perder o melhor momento da sua vida apenas pela mania de reprimir suas próprias vontades. Estava cansado de reprimi-las.
Posicionou também os próprios dedos sobre aqueles botões, na tentativa de ajudá-lo. Almofadinhas pareceu não crer naquela sua atitude, e Remo pensou tê-lo visto rir; mas prosseguiram, juntos, até terminar a tarefa.
~
Sirius amava vê-lo naquele estado. Tão vulnerável; tão suscetível aos seus movimentos. Tão entregue e repentinamente submisso aos seus toques.
Remo agora deixava de ser uma paixão inatingível para tornar-se objeto do seu desejo mais profundo e incontrolável. Agora, ele estava acessível — não era fruto de um sonho ou de uma lembrança perdida.
Enquanto o observava desabotoando os próprios botões assim, para ajudá-lo, sentia mesmo era vontade de estourá-los com as próprias mãos. Mas aguardou pacientemente, coisa em que não era bom, só para ter o prazer de assisti-lo tirar sozinho aquela peça de roupa e deixá-la de lado, como quem diz "Pronto, e agora?".
Ora, e agora.
Quando Remo terminou, ele renunciou ao prazer de apenas observá-lo. Os olhos cor de mel o fitavam, à espera de um comando, quando o Black foi possuído por um instinto que se impôs sobre todo o resto. Segurou os tornozelos do mais baixo e, mesmo estando ambos com a maioria das vestes ainda, posicionou cada um deles sobre um de seus ombros, erguendo-o um pouco. Aquela posição sim permitia uma aproximação efetiva entre as partes que realmente interessavam.
Forçou o próprio corpo por entre as pernas afastadas do menor, de forma que seu órgão inferior, já pulsante, pudesse encostar justamente na região exposta pelo afastamento — a região inferior ao cóccix de Remo, que guardava nada menos que o orifício que Sirius planejava adentrar de fato. Já vinha sonhando com aquele momento.
Ao sentir o toque do membro do maior, ainda que o tecido das vestes os afastassem, Remo ergueu a cabeça, tenso, na tentativa de observar o que se passava. Parecia já prever o que viria a seguir.
Mas o Black fez questão que ele não se detivesse em prever nada. Imediatamente, aumentando o atrito entre aquelas duas regiões mais sensíveis dos seus corpos, começou a movimentar o quadril adiante e em recuo, inúmeras vezes, como já o estivesse deflorando mesmo por cima daquelas malditas roupas. A essa altura, Sirius sentiu como se todo o seu fluxo sanguíneo abandonasse todos os demais órgãos e regiões do seu corpo para se concentrar exclusivamente naquele único órgão com que pretendia adentrá-lo. Já não estava só pulsando, mas quase gritava, suplicava, chegava-lhe a doer.
Remo, por sua vez, não parecia estar muito melhor. Absolutamente entregue ao outro, ele apenas mantinha os olhos fechados e soltava gemidos que pareciam mais altos a cada instante. Os músculos do seu rosto pareciam totalmente relaxados, como se ele não mais tentasse lutar contra o fim inevitável que o aguardava. Cada gemido que saía dos seus lábios gerava uma resposta no membro que era forçado por entre suas pernas; e sentindo aquele latejar mais intenso, Remo soltava-se mais sobre o chão, rendido.
Já não era possível aguentar mais. Movido pelo desespero de possui-lo o quanto antes, Sirius liberou as pernas de Aluado, que antes estavam sobre seus ombros, e afastou-se para se livrar das suas vestes. Tão logo o fez — e pareceu ter feito realmente em uma questão de segundos — avançou na direção das de Remo, que após tirar a própria camisa, permanecia imóvel sobre o chão. Sirius mesmo resolveu aquela situação. Desabotoou e puxou para baixo as suas roupas, das partes inferiores, libertando-o de todos aqueles tecidos inúteis, assim como tinha feito consigo mesmo. Foi então que percebeu algo no olhar de Remo.
Ele parecia envergonhado, ou mesmo constrangido. Não se movia sobre o chão. Almofadinhas pensou que talvez ele estivesse incomodado porque toda a extensão do seu corpo já podia ser vista na totalidade — mas ainda assim, era improvável. Afinal, eram amigos há muitos anos, compartilhavam o mesmo dormitório... Já tinham se visto sem roupas, e ambos eram meninos. Não era possível que Remo fosse pudico a ponto de se deter em algo tão sem importância; pelo menos não era possível aos olhos de Sirius.
Quando se aproximou mais uma vez e ousou erguer de novo as pernas do amigo, Remo forçou-as para baixo, impedindo que fossem retiradas do chão. Então, Sirius chegou a uma conclusão. Era medo. Lupin tinha medo do que poderia acontecer na sequência.
Não lidou bem com a ideia. Remo não podia desistir por medo no ponto em que já se encontravam. Ele precisava tê-lo; e precisava tê-lo bem ali, naquela mesma hora. Não estava disposto a desistir. Mais uma tentativa, ao menos. Com mais força do que a empregada inicialmente, segurou mais uma vez aqueles tornozelos e dessa vez os tirou do chão, a um baixo gemido do outro, que parecia relutar entre entregar-se de fato ou tentar sair dali. Mas não sairia.
Agora que o tinha sob si e sem roupas, Sirius conseguia observar de perto cada detalhe da sua pele leitosa; um cheiro suavemente adocicado, quase floral, parecia ser emanado pelos seus poros. Sentia que seria capaz de explorar em toques, ou mesmo beijar, cada um daqueles pequeninos poros que nem mesmo se podiam ver. A fragrância natural do amigo inebriava-o como um todo. Mas por mais que ela fosse um tanto sutil, não chegava a acalmá-lo, não. Deixava-o mais sedento. Mais aflito por aliviar-se finalmente e tornar Remo somente seu — mesmo que apenas por alguns minutos.
As maçãs do rosto de Aluado estavam um tanto coradas, e se não fosse pelo seu membro, que também apresentava algum latejar, Sirius poderia arriscar que quase todo o seu sangue estava contido nas bochechas.
O Black roçou lentamente o órgão pulsante em uma das pernas que tinha à sua frente, e aquela textura macia deixou-o em êxtase. Soltou um longo gemido pelo toque entre as superfícies, e viu o outro fechando e tornando a abrir os olhos cor de mel por uma última vez. Remo já tinha ambas as mãos espalmadas sobre o chão ao seu lado, aparentemente preparado para o que viria a seguir.
O maior aproximou-se da entrada entre as suas pernas com cautela. Controlando-se para demonstrar uma calma que não possuía, finalmente encostou o órgão na entrada à sua frente, ao som do ofegar de Remo Lupin. As mãos dele fecharam-se sobre o chão e ele franziu levemente o cenho em um possível sinal de dor, o causou em Sirius um imediato mordiscar dos próprios lábios. Já não conseguia acreditar que tinha conseguido chegar até aquele ponto.
Um pouco mais de força. Forçou-se devagar, mas em ritmo uniforme, sobre aquela entrada. Quando ela enfim pareceu dilatar-se um mínimo, como que aceitando-o, o menor soltou um gemido alto, e todo o seu rosto contraiu-se em sofrimento. Uma das mãos deixou o chão para posicionar-se sobre o braço de Sirius, apertando-o com força. Estava dentro.
Pensou ter morrido e chegado ao Paraíso; parecia realmente ter chegado, tamanho o prazer que sentiu ao conseguir adentrar o menor. Mas lembrou-se que estava dentro de Remo, e aquela sensação certamente deveria ser melhor que a do Paraíso.
Movimentou-se. A força com que Remo o apertava pareceu aumentar, e mais um longo gemido escapou aos seus lábios. Ele não parecia estar no seu melhor estado, mas Sirius estava sem condições de interromper o processo. Insistiu. Passou a movimentar-se para frente e para trás, com cada vez mais vontade, enquanto o outro prosseguia em seus lamentos, com gritos e gemidos que se alternavam. Quando Sirius o via daquela forma, ficava tão fora de si, que tinha realmente a vontade de destrui-lo. Quebrá-lo em dois, e ter a certeza de que o teria feito só seu. Conforme ia sentindo sua piedade por Aluado diminuir, também sentia que a estreita passagem por onde deslizava o seu membro começava a se dilatar, cada vez mais, e contrair-se em sequência, acompanhando os seus movimentos. Aluado o estava acompanhando.
Lupin enfim tornou a abrir os olhos, e quando o fez a sua feição já não demonstrava dor ou sofrimento, mas somente o desejo. Todo o restante parecia ter cessado, dando lugar a um deleite quase destrutivo que o fazia gritar, agora em súplica, para que o maior não parasse.
Os movimentos aumentaram em força e velocidade. Agora as mãos do mais novo não estavam mais sobre o chão ou braços de Sirius, mas tinham sido levadas para trás e agarravam-se à cama, que estava bem próxima. Segurava-se nela, e juntamente com o Black, movimentava-se para frente e para trás, dando mais créditos à força que ele investia — otimizando-a da melhor forma possível.
No momento em que Sirius acreditou estar próximo ao seu limite em meio às próprias investidas, segurou com uma das mãos o membro também já rígido de Lupin, que se entregou em absoluto. Almofadinhas reproduzia, com a mão sobre ele, os movimentos de ir e vir, simultâneos às indas e vindas do seu próprio quadril sobre a entrada do menor.
Remo aliviou-se primeiro. Já visivelmente em transe e sem condições de suportar a somatória dos movimentos dos quais era o alvo, gritou uma última vez, liberando todo o seu prazer em forma líquida nas mãos do Black. Foi nesse mesmo instante que o maior passou pelo mesmo, desfazendo-se dentro do amigo com um gemido abafado, já podendo render-se ao prazer imensurável que se acumulava dentro dele.
~
Permaneceram em silêncio por alguns segundos. O único ruído que ocupava o ar era constituído por suas respectivas respirações; ambos arfavam e transpiravam em conjunto, como tivessem mesmo acabado de se tornar um só.
Quando seus olhares se cruzaram pela primeira vez após o ocorrido, Remo desviou o seu. Olhava agora somente para baixo. Todo o interior do seu corpo parecia ter sido violentado — e mesmo assim, a sensação era boa. Um misto de dor, que era um resquício dos primeiros toques de Sirius na região, ainda somava-se ao prazer que sentira ao receber o líquido do maior sobre si. Mas quanto a olhá-lo, isso não tinha condições de fazer.
Sirius retirou-se da passagem onde antes se mantinha, o que causou um suspiro mútuo entre eles. Na sequência, caiu ao seu lado, deitado sobre o chão.
"Vamos deitar na cama", sugeriu ele, em um murmúrio.
Remo não respondeu com palavras, mas assentiu com a cabeça. Sua mente estava repleta de ideias boas e ruins; acima de todas elas, estava a vergonha pelo que acabavam de concluir. A preocupação era natural ao seu ser.
Apesar da sugestão ter sido acatada, nenhum deles foi à cama. Ninguém também tornou a falar. Estavam cansados e absortos em seus próprios pensamentos, distantes nas ideias, apesar fisicamente próximos. Os olhos de Remo não demoraram a pesar.
Antes de fechá-los e cair em sono profundo, lembrou-se de dirigi-los a Sirius e reparar bem na imagem dele. Por mais que houvesse riscos de terem alterado o passado e todo o futuro subsequente com um ato impensado daqueles, Aluado não se arrependia. Não.
Deixaria para se arrepender mais para frente, quando pudesse realmente constatar se havia mesmo feito algo errado. Até lá, iria contentar-se em pensar que havia agido da melhor maneira possível — em verdade, da única maneira que lhe fora possível. Fosse para o bem ou mal, acabava de fazer valer a pena os seus trinta e cinco, ou quinze, anos de vida.
Depois que Lupin adormeceu, Sirius ainda ergueu-se para transferir ao chão o lençol e cobertores que permaneciam sobre a cama. Cobriu o menor e a si mesmo, sem conseguir pensar em mais nada.
Dormiram juntos, sobre aquele mesmo chão, durante todo o resto da noite.
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