O Patrono Perdido
13 Capítulo 12: Um Jantar Cheio de Surpresas
Notas iniciais
A noite pareceu chegar em uma questão de segundos. Mesmo assim, ainda não havia sinal de Sirius Black. O céu escuro indicava que era o último dia de Lua Crescente, e os garotos já teriam descido para o jantar no Salão Principal, não fosse aquela uma noite singular. Era o dia do Jantar do Clube do Slugue.
Sendo o primeiro jantar do grupo realizado naquele ano letivo, o Professor Horácio Slughorn havia permitido que seus alunos selecionados levassem acompanhantes. Àquela altura, a acompanhante de Remo, Dorcas Meadowes, já deveria estar pronta, se é que já não estava em frente à sala do Professor, juntamente com Lílian Evans. Remo não poderia estar mais desanimado para o evento.
Não era como se desprezasse as reuniões de Slughorn ou como se não tivesse interesse em se lembrar de como eram — sendo mais jovem e estando ao lado de pelo menos um dos amigos, tudo parecia mais animado e interessante -, mas os seus pensamentos estavam distantes. Mais especificamente, em Sirius.
Ele não havia aparecido desde que Remo aparatara no Pátio da Torre do Relógio, ao fim da tarde. Onde poderia estar?
Enquanto abotoava o seu ridículo colete de ocasiões especiais, Remo perguntava-se por que Tiago não podia simplesmente dizer onde o Black estava. Sempre que ele perguntava, Pontas apenas respondia de forma vaga, incerta, somente dando a entender que Sirius estava bem e que não podia estar presente na hora.
"Não pode por quê?", insistiu ele uma última vez.
Potter manteve o mau costume de não lhe dar muita atenção, dizendo apenas:
"Remo, você é muito ansioso. Eu já disse, ele logo aparece."
"Ainda hoje?", perguntou Remo, exatamente como se estivesse pedindo que Tiago prometesse que o outro apareceria.
"Ainda hoje", aceitou ele, afastando-se em seguida.
Era frustrante. Muitas coisas eram frustrantes. Tinha voltado correndo, vinte anos no tempo, contando que iria ver Almofadinhas o quanto antes. E agora não o via. Já não sabendo se estava mais incomodado com o próprio colete amassado ou com aquela situação desesperadora, Remo olhou pro lado em busca de consolo. Para sua infelicidade, ali só havia Rabicho.
Teria que ser ele mesmo.
"Não te incomoda quando eles fazem isso?", perguntou a Pedro, referindo-se ao fato de que Sirius e Tiago ficavam, às vezes, de segredinhos.
"Fazem o quê?", perguntou Rabicho por cima, que parecia concentrado em também abotoar o seu colete, mesmo ele estando consideravelmente apertado na barriga.
Foi então que Remo deu-se conta. Que ele estava fazendo? Por que é que também estava vestindo uma porcaria de um colete, se não era convidado para o jantar de Slughorn?
Pettigrew pareceu perceber que era encarado com assombro.
"Que foi?", disse ele. "Eu só vou assistir. Vou transformado, ninguém vai me ver."
"Se você vai transformado, por que está se arrumando?"
"Ah... É só pra caso alguém queira me convidar de última hora."
Remo estreitou os olhos na direção daquele garoto rechonchudo e mentiroso. Queria realmente lhe ensinar a ter boas maneiras e não ficar enganando descaradamente as pessoas ao seu redor; mas não teve a chance.
Tiago, que agora já estava pronto, tomou a frente:
"Vamos logo", disse ele, bem-humorado, enquanto ia saindo do dormitório. Rabicho instantaneamente transformou-se em um rato que ele enfiou dentro do maior bolso externo que tinha no colete. Completou: "Vamos, antes que Ranhoso acabe com toda a bebida."
Depois de descerem os sete lances de escada que separavam a Sala Comunal da Grifinória da sala do Professor Slughorn, os garotos passaram por um longo corredor, e em meio a ele encontraram Dorcas e Lílian. Tão arrumadas quanto os garotos, que trajavam camisas e coletes, elas usavam vestidos que alcançavam os joelhos e tinham longas mangas.
Remo sentiu-se mesmo feliz por ver Lílian, porque a beleza e a alegria dela irradiavam. Os seus cabelos ruivos estavam parcialmente presos pela lateral, e o verde do vestido parecia ter sido escolhido a dedo para combinar com o verde dos seus olhos, que brilharam quando avistaram os meninos. Ao vê-la, Remo lembrou-se do motivo por que havia voltado no tempo daquela vez; e ao invés de sentir apenas gratidão, que era o que geralmente sentia quando a via nas proximidades, sentiu também medo daquilo que o esperava.
Quanto a Dorcas, ela, de alguma maneira, lembrava a imagem de Ninfadora Tonks. Diferente de Tonks, os seus cabelos eram definitivamente castanho-claros, e dessa vez estavam soltos, deixando-se mostrar ondulados; os olhos também eram um tanto escuros em relação aos da outra; ainda assim, algo era similar em ambas — algo no sorriso sincero, ou talvez no olhar, que parecia mostrar uma constante preocupação com os outros.
Aquela semelhança arrepiou até o último fio de cabelo de Lupin, e ele arrependeu-se amargamente de tê-la convidado para o jantar. Não queria ficar se lembrando de Dora e se arrependendo de tê-la deixado daquela forma; uma parte do seu peito ainda doía quando pensava no assunto, porque sentia falta dela. Mas agora era tarde pra se arrepender.
Depois que se encontraram e cumprimentaram, seguiram para a sala de Slughorn e deram algumas pequenas batidas na porta. Ela foi aberta por ninguém menos que o próprio Professor, que gritou ao vê-los.
"Meninos!, disse, sorridente. "Chegaram bem na hora. Vamos, vamos entrando!"
A sala de Slughorn era realmente grande. Ao centro, uma longa mesa escura, retangular, estava repleta de pratos, taças e talheres de prata. Ao redor dela, alguns candelabros flutuavam, dos quais era emanada muito pouca luz; ainda assim, o cômodo era consideravelmente bem iluminado e a atmosfera não era sombria, diferente da maioria dos outros locais dentro de Hogwarts. Havia muitos quadros pendurados na parede, mas nenhum continha elementos vivos, de forma que eram imóveis, mesmo encantados. A lareira estava acesa a um canto, e algumas poltronas de cor vinho se espalhavam pelo espaço. Grandes arcos adornavam as paredes e serviam como passagens a outras parcelas da sala, que não podiam ser vistas à distância da entrada.
Já estava repleta de alunos, e havia muito barulho de conversa. Dentre os alunos, Remo reconheceu Lúcio Malfoy e Severo Snape, que estavam próximos, apesar de não conversarem. Havia ainda alguns outros sonserinos, mas não somavam mais do que três ou quatro. Além deles, também estavam presentes alguns alunos de outras Casas, como Amos Diggory e Heloise Boot; mas a maioria Remo não conseguiu identificar, porque tudo aquilo fazia muito tempo e o seu cérebro se encarregara de deletar a maioria das memórias inutilizadas. Ainda assim, um último aluno, afastado dos demais, ele conseguiu reconhecer.
Régulo Black estava distante dos outros sonserinos. Como todos os outros garotos, ele usava uma camisa e colete por cima; mas diferente do colete dos outros de sua Casa, que eram em um tom verde-escuro, o de Régulo era de um tom opaco, da cor vinho. Não conversava com ninguém a não ser o próprio Slughorn — e já não era a primeira vez que Lupin via Severo Snape lançando-lhe um olhar de desconfiança. Remo conseguiria jurar pela sua alma que Régulo, por sua vez, enviava alguns olhares a Tiago Potter, que estranhamente os retribuía. Alguma coisa parecia muito errada.
Os convidados somavam cerca de vinte pessoas que ainda estavam de pé, espalhadas pelo cômodo, já que o jantar ainda não tinha sido servido. Em compensação, dois pequenos elfos domésticos caminhavam por todos os lados, servindo aperitivos em bandejas e muitas taças com vinho. Nesse ponto, a percepção de Lupin pareceu alertá-lo para o fato de que Slughorn estava bebendo muito.
Bebidas alcoólicas não eram permitidas dentro da Escola, principalmente para menores de idade. Mas dentro das festas e reuniões daquele professor em especial, os alunos tinham acesso a todo item consumível a que tivessem direito, e ninguém nunca o havia delatado até então.
"Você está vendo o mesmo que eu?", sussurrou uma voz feminina ao lado de Lupin.
Era Dorcas. Agora, Remo percebia que Tiago e Lílian tinham se afastado, deixando-o sozinho com ela. Por um segundo, ele quis apenas enfiar-se em um círculo qualquer de alunos e tentar conversar sobre o que quer que fosse — porque aquela atmosfera de Dorcas ser seu par estava deixando-o um tanto desconfortável. Mas não havia nenhum outro aluno por perto e seria muito chato deixá-la ali sozinha. Então, Remo apenas respondeu:
"Você também percebeu?"
"Tiago enchendo o copo do Professor Slughorn?", perguntou ela, ainda em volume baixo.
"O quê?"
Lupin virou-se para olhar, e lá estava Pontas. Enquanto Horácio ria e conversava com outro grupo de adolescentes, ele estrategicamente trocava a taça vazia do homem por uma nova, cheia, e Slughorn sequer parecia perceber que entrava em sua sétima ou oitava dose. Uma dose e tanto.
"Você só pode estar de brincadeira", murmurou Aluado, entre dentes.
Os minutos que se passaram foram alguns dos mais estranhos da sua vida. Remo apenas permaneceu ao lado de Dorcas, porque ambos eram muito tímidos para descobrir os arredores do ambiente — e porque ele ainda estava um tanto nervoso com a possibilidade de alguém descobrir que suas atitudes nem sempre correspondiam às de um menino de quinze anos.
O melhor a fazer era não chamar a atenção alheia. Assim, logo todos sentariam na mesa, jantariam; e aquele evento confuso chegaria ao fim. Mas o momento em que os convidados sentariam na mesa parecia simplesmente não chegar nunca.
Ansioso, Remo aproveitou que um daqueles elfos passava e também pegou uma taça de vinho para si, juntamente com um ou dois salgadinhos dos quais preferiu nem perguntar do que eram feitos. Viu Snape cuspindo algo em um guardanapo, a um canto, e torceu para que não fosse nada parecido com o que acabava de engolir.
"Então...", iniciou Dorcas novamente, parecendo também ter visto a cena que envolvia Severo. "Você... Vai na partida de domingo?"
"Hãn... Partida?", perguntou Remo, que observava agora quão facilmente Lílian e Tiago conseguiam socializar com outras turmas. Observava, mas não que prestasse, assim, tanta atenção.
Onde afinal poderia estar Sirius?
Régulo parecia ter subitamente mudado de postura. Ele agora estava com um colete da mesma cor do restante dos sonserinos, em verde-escuro, e conversava com Lúcio como se fossem amigos íntimos. Ou ele tinha trocado a droga do colete, ou a percepção de Lupin para as cores também já estava se alterando.
"Você sabe, a Partida de Quadribol", disse ela, sorrindo. "Minha Casa contra a sua. Acho que Tiago e Sirius vão jogar."
Então, ao ouvir o nome de Sirius, Lupin, que acabava de dar um bom gole no seu vinho, engasgou. Dorcas deu alguns tapinhas nas suas costas, tentando ajudar, o que pareceu surtir algum efeito.
Nesse mesmo instante, Lílian acenou na direção dela, como que chamando-a. Remo já estava recuperado, e Dorcas pôde dizer-lhe um "Com licença, eu já volto", antes de se afastar na direção da amiga.
*
Pronto. Era o momento. Se Remo queria passar despercebido por todos e dar o fora dali, aquela era a sua chance. Não queria largar Dorcas depois de tê-la convidado, mas agora percebia que ela já conversava animadamente com Lílian e talvez não fosse ficar tão sozinha e desconfortável assim. Pelo menos, não tão desconfortável quanto Remo, que não conseguia tirar da cabeça a ideia de encontrar Sirius.
Lentamente, foi arrastando os pés em direção à porta e largou a taça vazia em uma superfície qualquer. Ninguém iria vê-lo.
No entanto, para sua mais profunda infelicidade, Slughorn começou a dar batidinhas com uma colher em uma das taças, pedindo a atenção de todos para que se sentassem à mesa, pois o jantar estava prestes a oficialmente começar.
Os convidados começaram a se mover. Remo teve a certeza de que seria visto. Não pretendendo ser percebido no ato de tentar ir embora, ele apenas se enfiou em um daqueles grandes arcos que dividiam os cômodos, entrando agora em um ambiente totalmente novo, que dava para o lado externo. Na verdade, parecia um tipo de varanda particular de Slughorn.
Sentiu-se grato. Estar distante daquela atmosfera cheia e confusa fez com que se sentisse subitamente bem. Era uma varanda um tanto apertada, mas tinha vento suficiente para uma hora como aquela. A vista que oferecia era para a parte da frente de Hogwarts, e mais adiante se via um longo lago que refletia a luz daquela Lua Crescente. Pequenos barquinhos com lamparinas estavam alinhados do outro lado do lago, e Remo percebeu que eram os barcos por onde os novos alunos chegavam à entrada do Castelo.
Evidentemente, estavam vazios. Não havia ninguém ali, nem a longa distância, para espioná-lo, chamá-lo ou incomodá-lo. Estava em paz.
Inspirou profundamente o ar fresco que agora tinha ao seu redor. Sentiu que poderia permanecer onde estava até que o evento chegasse ao fim, bem distante de tudo e de todos; já que a única pessoa que queria por perto no momento era dada como desaparecida.
De súbito, Remo ouviu, atrás de si, o barulho de alguém que se aproximava. Congelou na mesma posição em que estava, com o olhar adiante.
"Tendo uma noite difícil?", perguntou uma voz masculina que era um tanto similar. Parecia um pouco a voz de Sirius, mas era minimamente mais aguda. Régulo.
Remo suspirou e tomou coragem. Régulo não tinha uma boa relação com o irmão; portanto, não tinha boa relação com nenhum dos Marotos.
"Olha...", iniciou ele. "Eu não sei o que você quer comigo. Mas se quiser arrumar problema ou encrenca, eu não estou disposto a ajudar."
"Problema?", repetiu Régulo. "Você é quem arruma problema, Remo. Se você não tivesse resolvido vir a esse jantar, eu não teria tido todo esse trabalho."
Algo muito inesperado, então, aconteceu. No momento em que Régulo proferiu a palavra "trabalho", a sua voz pareceu diferente, como se tivesse se transformado ao longo da frase. Pareceu um tanto mais grave e clara, exatamente como... Exatamente como a de...
Remo virou-se. Bem ali, na sua frente, o cabelo de Régulo Black cresceu cerca de três ou quatro dedos e pareceu um tanto mais desgrenhado. Ele também pareceu ficar um pouco mais alto; os olhos tornaram-se mais redondos e escuros, e os lábios abriram-se em um sorriso que era mais do que conhecido por Aluado.
Aquele não era mais Régulo. Era Sirius Black.
"Sirius!", gritou Remo, incrédulo, enquanto o outro apenas ria da sua reação.
"Você é louco!", respondeu Sirius em um sussurro, divertindo-se. "Quer que todo mundo fique sabendo que entrei aqui?"
Remo tomou então uma atitude que não teria tomado se estivesse em pleno juízo. Depois de viajar por tantos anos em um período tão curto de tempo, depois de ter pensado que não veria novamente a Sirius e a nenhum dos seus amigos, vê-lo bem diante de si ativou algo dentro do seu ser.
Talvez fossem os seus hormônios. O seu corpo já não estava lidando bem com aquela alteração súbita de idade. Ou talvez fosse mesmo o seu cérebro. Sim, o cérebro. Algo de errado devia estar acontecendo dentro da sua cabeça.
Não importava. Tomado por um repentino ímpeto da sua recente adolescência, ele não deu importância alguma às palavras de Sirius, porque a imagem dele parecia falar muito mais alto que suas palavras. Remo simplesmente pulou sobre ele, agindo como um menino de quinze anos que abraça uma pessoa querida que não vê há muito tempo.
Almofadinhas não teve reação imediata. Ficou parado por um tempo, talvez por não saber o que fazer, ou talvez por apenas não estar esperando uma reação como aquela. De qualquer forma, após aquele breve instante, ele o abraçou de volta, e foi quando Remo deu-se conta de que estava deixando ambos constrangidos.
Afastou-se no mesmo instante. Reparou que Sirius usava o mesmo colete do tom vinho que avistara em Régulo.
"Gostou?", perguntou Almofadinhas, sorrindo. "Poção Polissuco. Aposto que nem Ranhoso percebeu."
"Eu não teria tanta certeza", respondeu Aluado, rindo — e grato pelo foco ter sido desviado do abraço súbito.
Lembrou-se da memória de Severo Snape, com o sonserino dizendo a Lúcio que os Marotos tinham roubado uma poção do acervo.
"Vocês roubaram de Slughorn?", perguntou.
"Nós não roubamos", corrigiu Sirius, incomodado com o termo. "Nós pegamos emprestado. Mas não vamos poder devolver mais, porque... Você sabe... Eu tomei tudo. E não sei fazer mais."
Remo não pôde fazer nada além de rir daquela justificativa. Sirius prosseguiu:
"Pegamos no dia que você chegou aqui pela primeira vez. Mas achamos que era Felix Felicis e que nos daria sorte quando precisássemos", e então, fez uma pausa. "Depois que tomei uma dose antes na nossa última conversa, não me deu sorte nenhuma. Pelo menos, não depois que descobrimos Snape e os dementadores chegaram."
Lupin não pôde evitar perguntar-se o que Sirius queria dizer com aquela frase final. Seria possível que ele tivesse tentado dizer que tivera sorte naquele dia antes de descobrirem Snape? Que tivera sorte em todos os acontecimentos anteriores, mesmo aquele envolvendo o beijo — ainda pouco esclarecido — que tinham vivenciado?
Tentou não alimentar tantas esperanças, mas elas pareciam alimentar-se por si só.
"Então, descobrimos que só podia ser Polissuco", concluiu o mais alto. "Slughorn não esconderia nenhuma outra poção com tanto medo de ser descoberto."
"Cedo ou tarde, ele vai descobrir", murmurou Remo, preocupado. Seria possível que aqueles jovens inconsequentes não pensassem no tamanho da detenção que poderiam levar se o Professor descobrisse o roubo de uma poção do seu acervo?
"A Poção Polissuco é proibida aqui dentro", respondeu ele. "Slughorn pode dar pela falta dela, mas se quiser reclamar pra alguém, primeiro vai ter que admitir que escondia uma poção proibida dentro da escola."
Ficaram em silêncio por alguns segundos. A luz da Lua já quase Cheia incidia sobre os cabelos escuros de Sirius, de forma que pareciam estranhamente ainda mais escuros. Remo não se lembrava de ter se sentido encantando por alguém, daquela forma, em momento algum ao longo dos seus trinta e cinco anos de vida.
"Você tentou tomar uma poção da sorte antes de ter aquela conversa comigo", murmurou o mais baixo. "Por quê?"
Reparou algo mais em Sirius. De alguma forma, ele parecia muito dividido entre duas respostas que pareciam contraditórias. Na verdade, mais do que isso: parecia dividido entre escolher tomar uma atitude que queria ou apenas não escolher nada e adiar mais um pouco a verdade óbvia que se mostrava a ambos.
Para a sorte do Black, ambos ouviram Slughorn perguntando, do lado de dentro "E Remo? Alguém viu Remo?". Aquilo pareceu lhe dar alguma coragem extra, e Sirius disse, decidido:
"Remo, vamos cair fora daqui. Vamos pra Hogsmeade. Eu e você."
"Hoje?"
"Agora."
Pânico.
Remo desviou os olhos e tentou pensar em alguma coisa.
"Eu... Não sei", falou, mas sem ter certeza de que falava o certo. Não sabia o que queria. Mas não queria que Sirius soubesse que não sabia o que queria.
Aquela era a parte em que ficava nervoso e se atrapalhava com as palavras.
"Você não quer?", perguntou ele.
"Não", disse Remo, e Sirius fez uma expressão de sincero desapontamento. "Quero dizer, não é isso", corrigiu-se, ao que o maior o olhou de novo. "Eu só não sei... Se é... O momento."
"Momento de quê?"
Remo suspirou profundamente, mas os seus pulmões pareciam não se encher na totalidade. O ar parecia retido; não circulava. Fez menção de abrir novamente a boca para falar, mas Sirius tomou a frente:
"Você está com medo."
Sim. Sim, estava com medo.
"Eu não estou com medo", respondeu Remo, irritado.
Nenhum grifinório recebia bem a acusação de medroso, e isso era unânime.
"Independente de você vir comigo ou não, eu preciso sair daqui agora".
Dizendo isso, Sirius tirou do bolso da sua calça um pequenino pedaço de pano preto; então, ele o sacudiu no ar e o pano virou nada menos que a Capa da Invisibilidade, certamente antes enfeitiçada para diminuir seu tamanho a ponto de caber naquele bolso. Continuou:
"Acabaram as doses da Poção, e se me virem aqui eu vou ter problemas."
Enquanto o ouvia, Remo continuava parado ali, sem saber o que fazer. Sirius estava indo embora. Provavelmente estava indo pro dormitório, ou algum outro lugar, porque acabava ter seu convite recusado; um convite que, na verdade, Remo nem queria recusar.
Não sabia do que estava com medo. Talvez, estivesse com medo de se distanciar demais do seu real objetivo — tentar alterar o passado a ponto de salvar os falecidos amigos; talvez estivesse com medo se envolver ainda mais com Sirius, se é que aquilo ainda era possível, e depois descobrir que nada daquilo tinha sido real, mas apenas um sonho distante. Mesmo assim, eram as opções menos prováveis.
A hipótese mais provável era de que estava com medo porque não sabia o que podia acontecer quando estivesse apenas com Almofadinhas em Hogsmeade. Não sabia qual curso exatamente seguiria aquele passeio, nem tampouco sabia se seria mesmo apenas um passeio. Se alterasse demais o passado de alguma maneira errada, poderia correr e colocar os outros em um perigo inimaginável. E para quê?
Para ter ao menos uma chance de fazer sua vida valer a pena? Para ter ao menos uma chance de se dar ao luxo de ser feliz? Para, pelo menos uma única vez, viver algo que nunca mais teria outra chance de viver?
Parecia egoísmo. Mas era um egoísmo insuportavelmente tentador, mesmo para Remo Lupin.
"Espera, Sirius", disse ele.
Almofadinhas pareceu muito satisfeito em interromper a colocada da Capa apenas para ouvir o que o outro teria a dizer.
"Eu vou", murmurou Remo.
Com um último sorriso lançado pelo Black — que pareceu mais preocupar Remo do que realmente acalmá-lo -, enfiaram-se ambos por baixo da Capa da Invisibilidade, sumindo de vista.
*
Passaram despercebidos pelo pomposo jantar de Slughorn. Enquanto caminhavam, Remo quase não pôde crer no que via, mas avistou a um canto ninguém menos que Rabicho, já em forma humana e vestido com colete, tal e qual os demais. Conversava com Dorcas Meadowes e ambos pareciam dirigir-se à mesa de jantar.
Foi só nesse momento que Remo se lembrou do quão bem calculados eram os planos dos Marotos — em especial, de Tiago. Tudo era programado e acontecia como planejado.
Agora, dava-se conta de que aquilo se tratava de um plano dos amigos:
Sirius passara o dia fora, na tentativa de coletar um fio de cabelo de Régulo, para utilizá-lo como matéria-prima na Poção Polissuco; Rabicho tinha sido convocado a comparecer na sua forma de rato na festa, mas deveria aparecer em forma humana, já bem vestido, quando precisasse se apresentar e não deixar Dorcas Meadowes sem acompanhante no jantar; Tiago, por sua vez, levara Rabicho no bolso e se encarregara de encher Slughorn com sua própria bebida alcoólica, terminando assim de executar uma missão já iniciada por Sirius, que havia chegado antes no evento do que os demais, sob a forma de Régulo Black.
Sirius estivera, durante todo aquele tempo, sumindo e tornando a aparecer, sob a Capa da Invisibilidade, a cada vez que alguém chegava perto de descobrir que havia dois Régulos Black no jantar. E, de fato, nem o verdadeiro Régulo parecia tê-lo percebido.
Slughorn agora olhava Rabicho com desconfiança, mas devia estar tão alterado pela bebida que nem sequer tinha certeza se havia ou não convidado Pedro Pettigrew para o evento. Severo Snape também olhava para ele como quem percebe que há algo estranho no ar.
Conforme prosseguiam atravessando a sala, Remo pensou ter visto Tiago olhando-os, como se conseguisse identificá-los mesmo quando estavam sob a Capa.
Aquele plano tinha tido qual objetivo? Infiltrar Sirius na festa para que ele conseguisse convencer Remo a ir a Hogsmeade? Desde o princípio, tudo tinha sido pensado apenas com o único e simples objetivo deles conseguirem ir, apenas os dois, a um lugar distante de tudo e de todos?
Se aquele realmente havia sido o objetivo do plano, então certamente Sirius estava tentando algo mais com ele; e pior do que isso, Tiago também certamente já estava à parte — se é que Pettigrew também já não estava.
Dentro de Remo Lupin, o medo aumentou de forma exponencial; junto com ele, surgiu uma curiosidade e um sentimento de que tinha sido perfeitamente enganado por aquele grupo. Mesmo assim, por um breve instante de insanidade — instantes esses que estavam cada vez mais frequentes -, sentiu que aqueles realmente eram seus amigos, por conhecê-lo tão bem.
Porque nunca Remo deixaria a segurança do dormitório masculino, em uma noite qualquer, para se aventurar com Sirius em Hogsmeade; mais do que isso, nunca teria tido a coragem de aceitar um convite como aquele em frente aos outros amigos. Mas agora, já estando fora do quarto e tendo sentido uma intensa falta de Sirius ao longo do dia, era evidente que não conseguiria negar-lhe um pedido. Ainda mais quando já tinha ingerido uma pequena dose de vinho.
A cada passo, as borboletas pareciam multiplicar-se dentro do seu estômago. E no seu coração, o sentimento de medo já dava lugar a um de alegria, porque passara muitos anos tentando se lembrar de como eram as noites ao lado dos amigos naquela época: noites sempre cheias de surpresas. Agora, não apenas se lembrava. Tinha a chance de revivê-las.
Chegaram à porta da sala de Slughorn. Tiago ainda parecia observá-los. Remo então acenou em sua direção, dando a entender que agora já tinha entendido muito bem onde aquilo tudo ia dar. Mas não acreditou que o outro fosse retribuir o aceno.
Então, inacreditavelmente, Tiago Potter o retribuiu, como se realmente pudesse vê-los. E riu. E virou as costas, voltando à mesa do jantar.
Remo ficou entre rir e ter uma crise de nervos, ali mesmo. Mas controlou-se: se Sirius havia se dado ao trabalho de tudo aquilo apenas para ter alguns momentos distante e a sós com ele, nenhuma insegurança seria forte o suficiente para fazê-lo desistir. Respirou fundo e procurou agir como um grifinório.
Ainda havia um longo caminho até Hogsmeade.
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