O Patrono Perdido
7 Capítulo 6: A Coletânea Proibida
Notas iniciais
Quando Remo Lupin aparatou no porão da casa pertencente ao Largo Grimmauld, número 12, seus joelhos vacilaram de fraqueza e ele caiu no chão. Suas mãos também subitamente perderam a força, e a varinha de Sirius Black foi acidentalmente solta ao seu lado.
De repente, deu-se conta de que não tinha quase nenhuma força. Pouco podia mover-se e não havia esperanças de que pudesse levantar-se, pois era como se um cansaço irreversível tivesse se apossado do seu corpo.
O cômodo estava inteiramente imerso na escuridão. Mas uma conhecida voz, que mais causou-lhe medo do que esperança, logo ecoou pelo cômodo.
"Ora, veja quem resolveu voltar a si".
Com grande esforço, Remo ergueu a cabeça e viu, sentado sobre uma das cadeiras da grande mesa de madeira, ninguém menos que Severo Snape.
"Severo...", murmurou ele, sentindo a dificuldade de pronunciar as palavras. "O que aconteceu comigo?"
"Diga você, Remo", e o tom que ele usava era bastante calmo, mas nem um pouco convidativo; parecia, na verdade, um tanto indiferente, mas ao mesmo tempo irritado com a situação. "O que aconteceu com você?"
Convicto de que não conseguiria de forma alguma erguer-se dali, Remo contentou-se em ficar apenas caído no chão, mas com os braços ainda apoiados sobre ele, como não estivesse disposto a desistir tão cedo. Mais uma vez, não era apenas a dor física que o incomodava.
Uma tristeza sem precedentes apoderava-se dele. Era como se acabasse de sofrer uma grande perda, como uma morte de um ente querido, e acabasse de ser informado; tinha uma crescente vontade de cair em lágrimas, mas estava tão exausto, que imaginou não ter forças para chorar. Precisava dividir aqueles sentimentos com alguém, para talvez tentar diminuir o estrago que faziam no seu interior. Precisava aliviar aquela dor de alguma forma, encontrar um ombro amigo sobre o qual pudesse cair. Mas o seu azar era grande: ali só estava Severo Snape, com toda a frieza que podia portar.
"Severo...", começou Remo novamente. Não estava falando pausadamente porque queria, mas sim porque realmente estava difícil falar qualquer coisa. Sua voz já estava alterada, como a um pequeno passo de tornar-se uma voz característica de choro. "Você já me ajudou outras vezes, pode me ajudar de novo...".
Era mesmo verdade. Apesar de nunca parecer ter se importado, Snape o tinha ajudado muito, mais de uma vez: principalmente o tinha ajudado quando Lupin fora professor de Hogwarts, pois, nesse período, Severo preparava-lhe a poção Mata-Cão, que permitia que o outro se transformasse em lobisomem, mas mantendo-se absolutamente consciente, de forma que não mais oferecia risco a ninguém ao tomá-la.
"Ajudar em quê?", perguntou Snape, rispidamente. "Estou apenas cumprindo um turno, Remo. Há quase vinte e quatro horas, você desapareceu quando tocou este Portal, e há quase vinte e quatro horas estivemos nos revezando para aguardar sua volta. Dumbledore ordenou que não o deixássemos sozinho, apesar de eu francamente achar que não temos motivos para ficar esperando sua boa vontade de tocar de novo a varinha e nos libertar desse fardo."
"Você fala como se pensasse que o Portal não me faz mal. Você fala como se eu pudesse escolher entre tocá-lo ou não."
"Oh, não, Remo. Eu tenho certeza de que o Portal te faz mal. Mas também tenho certeza de que é você quem decide ou não tocá-lo."
Um silêncio instalou-se no cômodo. Estava mais do que claro que Snape sabia exatamente do que estava falando: Remo sofria ao voltar a seu tempo, e o Portal era fruto de grande dor e tristeza, por algum motivo — ainda assim, era ele quem optava por tocá-lo ou não, ainda que sempre parecesse haver uma força maior favorecendo o toque.
Da mesma forma, Remo poderia muito bem optar entre contar ou não a qualquer pessoa sobre seu paradeiro, vinte anos atrás. Dumbledore o tinha aconselhado a não contar a ninguém, de forma alguma, o que estava vendo — e, por algum motivo, aquilo parecia dar a entender que Remo descobriria por conta própria, mais adiante. Ainda assim, a força que o estimulava a tocar o Portal assemelhava-se ao grande desamparo que sentia, que por sua vez, obrigava-o a contar para alguém, qualquer pessoa que fosse, sobre o que lhe vinha acontecendo.
Portanto, sabendo que não fazia o ideal — mas não podendo manter nem por mais um segundo aquela insuportável dor apenas para si, falou:
"O Portal me faz voltar no tempo. Vinte anos no tempo."
Ao ouvir aquilo, o rosto de Snape pareceu perder a expressão. Por algum tempo, ele ficou calado, encarando o outro; depois, desligou-se completamente do que acontecia ao seu redor, e pareceu ficar imerso em pensamentos. A Remo, pareceu que estava fazendo algumas contas, e talvez se questionando o que poderia significar vinte anos no tempo.
"Para onde?", perguntou Severo, finalmente, encarando-o de novo.
"Hogwarts."
Snape remexeu-se na cadeira, como estivesse incomodado com aquela situação. Ele próprio pareceu não gostar de pensar o que acontecera em Hogwarts há vinte anos. Mas então, surpreendentemente, pareceu entender o que o outro dizia. Respondeu, calmamente:
"Quando Dumbledore esteve aqui ontem, as palavras que ele usou deram a entender que o Portal simulava uma ilusão em você. Mesmo tendo estudado por muito anos as Artes das Trevas, eu não reconheci o que isso poderia ser."
"Mas Dumbledore disse que talvez não fosse-"
"Disse que talvez não fosse magia de Artes das Trevas", interrompeu Snape, "Mas não disse com certeza que não poderia ser. Assim, não por você, mas por toda a segurança da Ordem, tomei a liberdade de procurar o que isso poderia dizer. Isso é o que eu lhe trouxe."
Então, ele apontou um grande livro, também disposto sobre a mesa de madeira. Como era tão escuro quanto a própria mesa, Remo não tinha sequer notado que estava ali.
Tentou reunir forças para levantar-se, mas falhou mais de uma vez. Enfim, apoiou-se na parede que havia logo atrás, e foi, aos poucos, ficando de pé. Agora era mais que evidente que o Portal o machucava fisicamente, ou ao menos esgotava todas as suas forças.
Depois de manter-se sobre duas pernas, foi um tanto mais fácil caminhar até a grande mesa, e logo pôde ver o nome do livro. Snape o encarava com surpresa por ver toda aquela dificuldade do outro de se locomover, quando Lupin pôde ler o título, escrito com uma caligrafia muito antiga e um tanto difícil de ser compreendida: A Coletânea de Serbour.
Ao ler aquele nome, suas pernas estremeceram, e ele quase caiu novamente.
"Onde você conseguiu isso?, sussurrou, em pânico, com os olhos muito arregalados sobre a obra.
"Isso pouco importa, Remo."
A Coletânea de Serbour era uma obra proibida e de dificílimo acesso dentro do Mundo Bruxo. Mantinha reunidos todos os feitiços e maldições cujos efeitos eram os mais tenebrosos — e de mais difícil execução — dentre todos os demais, não deixando de apresentar, junto a esse feitiços, sua história de origem. Era uma obra conhecida por conter maldições predecessoras de muitas outras que ainda existiam, como os próprios feitiços primitivos que haviam dado origem às Maldições Imperdoáveis. No entanto, os feitiços ali contidos eram proibidos não apenas por causar altos estragos às vítimas que a eles se opusessem, mas também porque chegavam a ser perigosos a quem os executava. Feitos de maneira incorreta ou insegura, causavam injúrias irreparáveis no próprio executor.
A sua circulação havia sido proibida durante muitos séculos — dado que provavelmente havia sido escrito por volta de 800 d.C., e não se permitia vender e nem mesmo portar um livro como aquele, uma vez que somente o ato de transportá-lo podia resultar em um crime, segundo o Ministério da Magia. Devido ao perigo que poderia causar, as autoridades de lei o haviam classificado como "mal-assombrado", como quem o abrisse fosse instantaneamente amaldiçoado pelo seu conteúdo. Ainda assim, era difícil crer que o livro fosse mesmo mal-assombrado — aquilo, obviamente, devia ser apenas um pretexto usado para garantir que ninguém o manteria sob o teto de casa.
Snape continuou: "Existe um processo descrito nesse livro que se assemelha muito ao que está acontecendo com você, se as explicações de Dumbledore estiverem corretas. Se tiver interesse e coragem, leve-o para casa. A página é 524."
"Não vou entrar com isso na minha casa", murmurou Remo, sem desviar os olhos da gigantesca coletânea. "Não é seguro."
"Por favor, Remo", insistiu Snape. Mas o seu por favor não era típico de alguém que estivesse tentando ser educado, mas apenas um tanto irônico e impaciente. "O livro não vai te pegar, acredite. Ademais... Se você estiver mesmo passando pelo que está descrito nessa página, garanto que já está correndo muito mais perigo do que uma simples leitura poderia te causar."
"Você acha mesmo... que eu posso estar passando por um processo descrito nesse livro?"
"Ah, sim, eu acho mesmo. Mas se for, de fato, isso que está te acontecendo, acho muito improvável que tenha sido causado por alguém do seu pobre círculo social. Pelo menos não sem o incompetente executor ser morto antes de tentar."
"Eu não sei se quero ler. Não sei se quero saber o que é."
"Acredite em mim, você quer", terminou Snape, em um tom um tanto macabro aos olhos de Lupin.
*
Naquele dia, Remo escolheu não aparatar diretamente em casa. Assustado com a possibilidade de ser vítima de um feitiço mencionado naquela coletânea, teve também medo de talvez estar sendo seguido, ou rastreado, ou sabe-se lá o quê. Portanto, optou por apenas aparatar nas proximidades da sua residência e fazer o restante do caminho a pé — afinal, tinha quase certeza de que Tonks estava lá, e não queria colocá-la também em perigo.
Foi uma caminhada curta, mas indescritivelmente triste.
Estava sozinho. Depois de um dia inteiro ao lado dos amigos que agora tornava a perder, voltar a se sentir sozinho deixava-o deprimido. Sentia a falta deles, e aquilo incluía até mesmo Rabicho, de quem quase conseguia voltar a gostar. As brincadeiras e o rosto sorridente de Tiago pareciam agora indescritivelmente distantes; e quanto a Sirius Black, não podia sequer imaginá-lo sem a vontade de não dar mais um passo sequer.
A Lua estava Crescente. Conforme ia se aproximando de casa, Remo notou luzes acesas no andar debaixo, de forma que a sua previsão estava correta: Ninfadora estava mesmo ali. Ao invés de acalentá-lo, aquela certeza só lhe trouxe ainda mais infelicidade: apesar de querer vê-la e tirar o remorso de suas costas, estava tão exausto e tão fraco, que não sabia se conseguiria mesmo se explicar.
*
Quando Ninfadora Tonks passou brevemente pela sala de estar e deparou-se com a porta aberta demonstrando ninguém menos que Remo Lupin do lado de fora, seus olhos encheram-se de lágrimas.
"Remo!", gritou ela, antes de correr a abraçá-lo. Apesar de toda a preocupação que ele lhe causara, seu sentimento era de extrema felicidade naquele momento. Felicidade em vê-lo. Felicidade porque antes estava já achando que o tinha perdido.
O abraço foi recíproco. Tonks afundou o rosto sob o colarinho de Lupin, de quem não podia mais esconder os seus sentimentos. Apesar de não fazer tanto frio àquela época do ano, a pele de Remo estava gélida como a de um cadáver. Ela tentou aquecê-lo, em vão. As lágrimas que acidentalmente caíram do rosto da garota sobre o seu ombro pareceram deixá-lo preocupado, ou mesmo com remorso; mas, por mais que parecesse tentar colocar mais força no abraço, os braços de Remo pareciam fracos como os de uma criança.
Dora queria dizer-lhe outra coisa que não o seu nome. Mas tudo o que parecia ser capaz de proferir era a palavra "Remo", em um murmúrio que sumia no espaço da sala.
"Dora... Desculpe", sussurrou ele em retorno.
Dora afastou-se para olhá-lo. A pele de Lupin estava pálida, e os olhos estavam cansados. Sob eles, grandes olheiras aprofundavam a sua expressão, como se não dormisse há dias. Mas estivera fora apenas por vinte e quatro horas. As suas pernas pareciam trêmulas, como tivessem acabado de fazer grande esforço físico. Por um instante, ela não o reconheceu.
Então, os olhos da metamorfomaga caíram sobre o livro que ele segurava.
"Remo... O que é isso?"
Remo aparentemente procurou palavras, mas não conseguiu encontrar as mais apropriadas. Não as encontrando, usou quaisquer umas:
"Dora... Eu disse a Snape o que está acontecendo comigo. Ele disse que esse livro pode me ajudar."
"Esse livro?", perguntou a menina, agora assustada. "Isso não é um livro. Você mudou, Remo. Você não vê? Essa coisa...", e então, fez uma pausa. Não queria acreditar nas suas próprias palavras. "Essa coisa está mudando você. Você não vê?", repetiu.
"Eu não tenho escolha".
"Você tem escolha", insistiu Ninfadora. O seu rosto estava imerso em uma profunda tristeza, e toda a alegria que tinha sentido ao vê-lo de volta se esvaía. Porque agora percebia que Remo não estava de volta. "Você pode não tocar mais naquilo. Você pode não voltar mais no tempo."
"Voltar... No tempo?", perguntou o outro, surpreso. "Você também sabe?"
"Como eu não saberia?", respondeu ela, prontamente. "Você voltou uma única vez desse lugar, e quando voltou não parou de olhar para um retrato velho dos seus amigos."
"Dora..."
"Você não pode tê-los de volta, Remo!", gritou ela finalmente, um tanto alterada. "Você não pode tê-los de volta. Isso é... insano... Não é natural".
"Você sabe o que é insano, Dora? Insano é escolher voltar."
Um novo silêncio instalou-se ali. Tonks parecia não mais entendê-lo. Assim, e já exausto como estava de toda aquela situação, Remo continuou:
"Insano é escolher voltar pra cá, se lá eu tenho tudo, e aqui não tenho nada."
A menina afastou-se em alguns passos. Quem era aquela pessoa?
Aquela pessoa não era Remo. Não era a pessoa por quem tinha se apaixonado.
Remo era cauteloso, preocupado, pensava nos outros antes de pensar em si. Zelava para que todos estivessem sempre bem, por mais que ele mesmo não estivesse, e sempre valorizava os amigos que tinha. Mas aquela pessoa à sua frente parecia não valorizar nada. Não valorizava o sentimento alheio, não cuidava mais da segurança de todos acima da sua própria. Não valorizava o que tinha no presente, porque tudo em que pensava era no passado. Não valorizava mais as pessoas que tinha, mas as que perdera. E dizia lá ter tudo, e aqui não ter nada.
Então, Ninfadora Tonks tomou uma decisão que também não seria de seu feitio.
"Sabe, Remo...", sussurrou ela, parecendo calma. Mas, por dentro, estava à beira de um colapso. "Deve ter alguém no Mundo Bruxo capaz de te ajudar. Mas não sou eu. Essa pessoa não sou eu."
Dizendo isso, encaminhou-se para a porta aberta. Tendo previsto o que estava prestes a ocorrer, Remo tentou impedi-la. Desculpou-se, retirou o que disse. Não era aquilo que queria ter dito. Estava cansado e alterado, ela precisava entender; não queria desfazer-se da sua companhia, valorizava muito a sua amizade, não queria tê-la magoado. Mas nenhuma daquelas palavras pareceram surtir efeito, pois não se sobrepunham às anteriores, que já tinham sido ditas.
Portanto, e mesmo implorando pelo seu retorno, Remo perdeu também Ninfadora Tonks, que saiu pela porta da frente, entre lágrimas. E sentiu-se, por fim, mais sozinho e triste do que nunca.
*
Sozinho em seu quarto, sobre o chão, Remo Lupin encontrou a página 524 da Coletânea de Serbour. Metade da página continha escritos que pareciam referir-se à sua experiência. Ela dizia:
Subcapítulo 5.2: Ilusão de Lacre
"Entende-se por Ilusão de Lacre o processo por meio do qual prende-se o indivíduo a uma realidade ilusória, criada pelo executor, que tem por objetivo manter a vítima afastada da sua realidade original. Para levar a vítima à Ilusão de Lacre, uma sequência de encantamentos, incumbidos em um objeto — o Portal Ilusório — devem ser executados em sequência inalterável. A realidade alternativa criada pelo bruxo executor deve ser suficientemente convincente, de forma a fazer com que o Portal seja tocado por um mínimo de sete vezes, até que, por fim, ele não provoque mais o retorno à realidade original, perdendo seu efeito de transporte. Assim, fica a vítima presa à realidade ilusória, sem mais opção de retornar ao seu local de origem, constituindo, assim, um processo excepcional da Legilimência, na qual não mais se lêem os pensamentos da vítima, mas fazem com que esta fique presa à realidade criada pelo executor. Segue abaixo a lista de feitiços, e as maneiras de execução de cada um, somados aos objetos mais recomendados a serem usados como Portal Ilusório; em anexo 5.2, seguem as formas mais comuns de criação de realidades ilusórias. A Ilusão de Lacre é uma sequência de feitiços de alta complexidade; executados de maneira ou em sequência inadequadas, os feitiços podem resultar em efeito reverso, prendendo o executor somente, ou juntamente à vítima, à realidade ilusória."
Depois de ler aquelas informações, Remo não pôde evitar ter dois sentimentos que se contradiziam. O primeiro girava em torno do medo e da dúvida.
Aquelas palavras cabiam perfeitamente à sua situação, aquilo era inegável. E era bem possível, até provável, que um Comensal da Morte com grande conhecimento em Magia, tendo ciência de que Remo era uma ameaça em potencial, tivesse optado por prendê-lo em uma realidade alternativa. Mas ainda assim, por quê?
Por que se dar ao trabalho de executar um feitiço altamente complexo como aquele? Por que se dar ao trabalho de pesquisar e encontrar um livro proibido que ensinava um procedimento complicado como aquele, ao invés de simplesmente matá-lo, como faziam a tantos outros? Por que correr o risco de ser preso naquela mesma realidade falsa, ao invés de simplesmente torturá-lo, aprisioná-lo, tirar-lhe as pessoas de quem gostava? Era tão mais fácil executar qualquer outra atrocidade, que uma complicação como aquela parecia improvável. Trabalho demais para um Comensal da Morte com pouco tempo.
A única solução possível era Rabicho. Rabicho poderia ter sido incumbido de matá-lo e, não tendo coragem para fazê-lo, resolvera apenas aprisioná-lo em uma realidade alternativa, sem chances de voltar e enfrentar o Lorde das Trevas. Mas Rabicho seria mesmo capaz de executar algo como aquilo? Rabicho seria sequer corajoso o suficiente para abrir aquela coletânea? E que outro Comensal da Morte poderia ter culpa em matá-lo, optando por um processo tão mais complexo?
Nada mais fazia sentido.
Em contradição àquelas dúvidas pertencentes a um primeiro sentimento, havia outro. Um segundo. Este, por sua vez, resumia-se apenas a uma insuportável ansiedade: pois, se o que a coletânea descrevia se aplicava ao seu caso, então aquilo significava que tudo o que vivera por meio do Portal era falso, ilusório — e aquilo não era surpresa; mas, por outro lado, significava que ele poderia muito bem continuar vivendo no passado, se assim desejasse. Poderia muito bem entrar naquela falsa realidade e nela viver, sem dela precisar sair. E aquilo sim era uma surpresa. Ficar preso, indefinidamente, ao passado.
Aquilo significava muitas coisas. Significava, antes de mais nada, perder seus amigos, e as pessoas que nele confiavam: Ninfadora, Harry Potter, Olho-Tonto, Dumbledore e todos os outros membros da Ordem da Fênix. Se ficasse preso ao passado, não poderia mais vê-los, nem tampouco protegê-los; nem mesmo lutar ao lado deles na Segunda Guerra Bruxa, que já estava por vir.
Assim que teve aqueles pensamentos, Remo tomou a sua decisão. Não era egoísta o suficiente para abandonar os amigos que dele precisavam. Assim, estava decidido: diria, enfim, adeus aos Marotos. Deixaria de viver aquela insanidade e voltaria à dura realidade da sua vida.
Uma última conclusão serviu-lhe de consolo. A coletânea dizia que o Portal precisava ser tocado sete vezes, no mínimo, para aprisioná-lo definitivamente — mas Remo somente o havia tocado quatro vezes, tendo concluído duas idas e duas voltas. Portanto, tinha, pelo menos, a possibilidade de ir e voltar uma última vez.
Tinha direito a uma última despedida dos melhores amigos que nunca mais tornaria a encontrar.
Uma última vez, para então nunca mais voltar a vê-los.
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