O Patrono Perdido
8 Capítulo 7: A Primeira Confissão
Notas iniciais
Um ar frio e úmido perpassou o rosto de Remo Lupin e suas pupilas contraíram-se devido à claridade do ambiente onde aparatou. Estreitou os olhos.
Deu-se conta de que não estava dentro do castelo de Hogwarts, mas em uma área ampla, externa. O céu era tomado por um tom cinza-claro e apresentava muitas nuvens, enquanto o vento, gelado, depositava gotículas de chuva sobre sua capa da Grifinória. Estava sentado sobre uma superfície extremamente dura, e, ao seu redor, alguns outros alunos também pareciam sentados.
Reunindo um pouco mais coragem, ergueu a cabeça e encarou a claridade, por fim, encontrando-se: estava sentado na arquibancada do campo de Quadribol de Hogwarts.
No campo adiante, apresentavam-se quatorze jogadores, montados sobre vassouras, e Remo imediatamente identificou pelo menos dois deles: Tiago Potter bem ao centro, acompanhado de perto por Sirius Black, que segurava em mãos um gigantesco taco de batedor. Apenas sete dentre os quatorze eram da Grifinória.
Na outra metade, mais afastada do local onde Remo se sentava, estavam sete jogadores sonserinos sobre suas vassouras, e havia também alguns pouco espectadores daquela casa, que os assistiam. Apesar de duas Casas diferentes dividirem um mesmo campo, as arquibancadas estavam quase completamente vazias, nenhum dos dois times trajava uniformes oficiais e, acima de tudo isso, as duas equipes não jogavam entre si.
Imediatamente, Remo entendeu do que se tratava: um treino. Nos treinos daquela época, se duas equipes fizessem o requerimento para utilizar o campo no mesmo dia e horário, eram obrigadas a dividi-lo entre si. Ainda assim, não eram permitidas a jogar entre si, e tudo o que podiam fazer eram manter-se afastadas, cada qual em uma metade do campo, com seu kit respectivo de bolas, os jogadores em treino.
Para garantir que não haveria brigas mesmo com o compartilhamento do campo, não era permitido que os jogadores ultrapassassem a sua metade da área, nem que jogassem suas bolas na outra metade. Além disso, no caso dessa divisão ser entre Sonserina e Grifinória, que eram Casas cuja rivalidade causava muitas e frequentes brigas, era obrigatória a presença de dois monitores pelo menos, provenientes de cada uma delas.
Remo identificou o monitor sonserino do outro lado do campo — Lúcio Malfoy — que, localizado ao lado do capitão do time, trajava um pequeno apito que deveria assoprar se visse alguma irregularidade naquilo que chamavam de "Treino Compartilhado".
Então, deu-se conta de que havia um outro apito pendendo por uma corda em seu próprio pescoço, e no mesmo instante percebeu que ele próprio também tinha sido escalado para fiscalizar o treino, já que era monitor da Grifinória. Não gostou nem um pouco daquilo. Tenso, remexeu-se sobre o banco da arquibancada.
Identificou, ao seu lado, Rabicho. Ele observava atentamente a todos os movimentos de Tiago com grande admiração. Já um pouco mais acostumado à sua presença e ao seu retorno ao grupo, Remo não se sentiu inseguro em pedir algumas informações que o pudessem ajudar a, antes de mais nada, localizar-se.
"Pedro", chamou ele, porque não podia correr o risco de chamá-lo de Rabicho na presença de outras pessoas.
Pettigrew não lhe deu atenção. Parecia hipnotizado pela forma como os jogadores voavam agilmente pelo Campo de Quadribol.
"Ei, Pedro!", insistiu Remo, tocando seu ombro.
Rabicho despertou de seu transe e respondeu:
"Você viu como eles voam?", perguntou, encantado. "Eu queria poder voar assim."
Intrigado com aquilo e com uma verdadeira saudade de assistir a Tiago e Sirius dentro de um campo como aquele, o outro dirigiu novamente o olhar aos jogadores.
Era mesmo impressionante. Montados sobre as mais rápidas e possantes vassouras daquela época — a Nimbus 1700, Cleansweep 4 e Shooting Star 7, que lideravam o mercado e faziam com que quaisquer bruxos que as montassem parecessem profissionais do Quadribol -, aqueles jogadores mais pareciam foguetes dentro da área. Mal se podia vê-los.
Tiago era tão rápido na troca da goles, que conseguia furar duas duplas de jogadores em pouco segundos e aparecer na frente do aro como se tivesse simplesmente aparatado ali. Quanto a Sirius, que era batedor, conseguia defender até os três artilheiros de uma só vez, dependendo da distância, tamanha era a sua habilidade em voar. Os fios do seu cabelo ficavam mais desarrumados e desgrenhados que nunca enquanto ele perseguia os balaços; ainda assim, não pareciam incomodá-lo, porque parecia capaz até de enxergar atrás de grandes obstáculos enquanto estava em campo.
Remo perdeu a noção do tempo enquanto o observava. A sua movimentação parecia-lhe perfeita dentro da área. Com uma facilidade ímpar, ele mergulhava com a vassoura para acertar os balaços que iam em direção aos jogadores próximos ao solo, e então subia de volta em uma velocidade incomum, passando, inclusive pelo pomo de ouro, que provavelmente não teria chances se o seu papel fosse de apanhador. Enquanto o olhava, Lupin sentiu que desejava estar mais próximo dele, também voando pelo campo, só para observá-lo mais de perto e poder captar cada um daqueles movimentos; e pensava também que não tinha a menor vontade de estar no lugar daqueles balaços, porque quando um deles passou a poucos centímetros da sua cabeça, ele bateu-lhe tão forte, que o barulho pareceu ecoar por todo o campo e adiante.
"E então?", perguntou Rabicho, impaciente. "Você vai dizer logo o que quer saber, ou vai ficar só olhando enquanto ele joga?"
Sentiu o rosto aquecer-se em vergonha. Quis enfiar a cabeça sob a terra, mas a terra estava distante, já que ele estava sentado na alta arquibancada. Pigarreou antes de murmurar:
"Não, quero dizer... Eu só queria saber por que estamos dividindo o campo com esses caras", concluiu, referindo-se aos sonserinos.
"Ah, claro", retrucou Pedro, revirando os olhos nas órbitas. "Você está com a tal da perda de memória recente, não é? Acontece que nós e eles não temos aulas nos dois primeiros horários da manhã, então sempre dividimos a quadra para treinar de quinta-feira. Preciso te explicar o apito também?"
"Não, não...", respondeu o outro, passando a mão sobre o apito que pendia do seu pescoço. "Eu tenho que apitar se eles invadirem nossa metade."
"Exatamente. Acho bom você ficar esperto, porque já vi Régulo olhando pra cá umas duas vezes hoje, e tenho certeza que ele vai planejar alguma coisa."
Régulo Black era um dos batedores da Sonserina. Quando havia jogos entre as duas Casas em questão, o campo mais parecia um ringue de luta-livre, já que ele e Sirius pareciam querer acertar-se a todo o custo. Aquilo já tinha dado um bom problema em outros jogos.
"Não sei...", murmurou Aluado, pensativo. "Acho que ele não faria isso em um treino."
Mas foi dito e feito: em uma fração de segundos, um grande balaço foi acertado por Régulo, com um som de grande estrondo, e cruzou a área inteira antes que qualquer um pudesse assoprar qualquer apito. A gigantesca e pesada bola pareceu ter sido mirada justamente em Tiago, que mantinha a posse de sua goles, e toda a arquibancada da Grifinória — que consistia em não mais que uns dez ou quinze alunos — pareceu prender o ar, em aflição. Era evidente que tinha sido de propósito.
Alguns alunos começaram a gritar, porque Tiago não viu a bola se aproximando. Tudo foi rápido demais, e Remo estava assustado demais com a possibilidade dele ser atingido e cair da vassoura pelos mais de oito metros sobre os quais voava. Tudo o que pôde fazer foi ouvir Rabicho gritando "Apita logo!", e outros alunos protestando, quando, de súbito, Sirius resolveu tudo sozinho.
Estava na fronteira da divisão da quadra e Tiago estava afastado, ao lado de um dos aros. Ainda assim, como se o ar não oferecesse resistência alguma ao seu vôo e ele fosse, na verdade, só mais um componente do forte vento que batia, surgiu à frente do amigo muito rápido, e batida que deu bola foi forte o suficiente para quase rachá-la ao meio e literalmente fazer com que voasse de volta ao lado dos sonserinos, para então sair do campo e sumir de vista, pelas alturas.
Os alunos da Grifinória gritaram de orgulho pelo batedor que tinham e pelo alívio de verem que Tiago Potter, o melhor artilheiro do time, estava a salvo. Alguns levantaram, outros bateram palmas, outros gritaram o seu nome. Tiago sorriu em agradecimento, mas dispensou palavras. Sirius Black era mesmo muito popular entre eles todos.
A reação de Sirius, porém, foi uma única: dirigir o olhar a Remo.
As pernas de Aluado estremeceram, porque ele não soube o que aquilo significava. O amigo lançava um sorriso discreto na sua direção e os olhos estavam fixos unicamente na sua pessoa, isso era certo; como se tentasse ver se Remo também comemorava e gritava na sua direção, ou simplesmente com um olhar de quem dizia "Você viu o que eu fiz?".
Se o Black esperava um grito de orgulho, por outro lado, só pode ter se decepcionado, porque Remo estava tão atônito com aquilo tudo, que não poderia pronunciar uma palavra sequer, mesmo que o quisesse muito. Apavorado com aquela troca de olhares — por que ter tanto medo de que seus olhos se encontrassem, se Sirius era apenas um bom amigo? -, Remo desviou o seu para o chão, o quanto antes conseguiu.
Incrédulo com a situação que acabava de presenciar, Rabicho puxou o apito do amigo e o assoprou fortemente, fazendo o barulho ecoar pelo campo. Afinal, Régulo quebrara o acordo da divisão da área ao bater o balaço na direção oposta à sua metade.
Os sonserinos, por outro lado, não ficaram para trás: Lúcio Malfoy, que interpretava o ato de Sirius como uma violação por ele ter jogado a bola de volta — o que certamente não deveria significar que estava quebrando as regras -, deu uma boa soprada no seu apito também.
A confusão se iniciou. Ambos os lados protestaram e os alunos desceram das arquibancadas, xingando-se e quase avançando uns sobre os outros. Os jogadores desceram dos ares e deram a entender que também participariam da briga, se houvesse uma. A disputa e o ódio entre as Casas naquela época era ainda mais acirrada do que se haviam tornado com o passar dos anos, e constantemente havia brigas entre os alunos. Felizmente, a fiscalização também era maior.
Em meio às ofensas que eram trocadas entre grifinórios e sonserinos, surgiu Madame Rolanda Hooch, que já era responsável pelos jogos de Quadribol na época. Seu apito soava mais alto e mais autoritário que todos, e ela afastava e repreendia os alunos com muita eficiência, de forma que, em menos de um minuto após sua aparição, eles já haviam se distanciado e alguns já voltavam ao Castelo.
Daquele dia em diante, seria proibida a prática do Treino Compartilhado, e seria também proibido o porte de apitos a quaisquer alunos de Hogwarts, incluindo monitores e monitores-chefes. Devido ao comportamento dos presentes, houve um débito de cinquenta pontos para cada Casa pela infração da regra da divisão do campo, e então débito de mais cinquenta pela briga ao final, totalizando um débito de cem pontos para Grifinória e Sonserina, sem exceção.
*
O ocorrido estragou um pouco o dia dos três Marotos, mas não o de Remo. A sua felicidade por estar ali de novo ocupava metade dos seus pensamentos, e a outra metade era ocupada pelo sentimento de curiosidade pela reação de Sirius em relação à sua pessoa.
Por que aquela olhada depois de bater no balaço e salvar Tiago? E por que ele próprio, Remo, ficava tão deslumbrado com tudo o que o amigo fazia?
Tentou afastar aqueles pensamentos, mas não obteve êxito. Assim, resolveu que, quando tivesse a oportunidade, tentaria entrar no assunto com o próprio Sirius e analisar melhor a sua reação. Afinal, era aquilo que adultos de trinta e cinco anos faziam: tentar dialogar antes de tirar conclusões precipitadas. Dialogar.
Trinta e cinco anos, e não quinze.
*
Sirius manteve-se inacessível depois daquele episódio. Seu humor piorou consideravelmente, e Remo soube que ele se culpava pela perda de cem pontos da Casa. Não que ele se importasse mesmo com a pontuação da Grifinória — na verdade, parecia que não se importava com nada realmente na vida -, mas os outros se importavam, em especial os mais novos. E era evidente que aquilo lhe causava alguma culpa.
A aula seguinte era de Duelos. Enquanto Pedro, Tiago e Remo encaminhavam-se para adentrar novamente a área interna do Castelo, Sirius não os acompanhou. Permaneceu do lado de fora, sentado ao canto da fonte no Pátio da Torre do Relógio.
Rabicho e Pontas entraram, mas Remo optou por também não segui-los. Ao invés disso, caminhou até Almofadinhas, parando bem à sua frente.
Sirius não tinha interesse em conversar.
"O que é?", perguntou ele, rispidamente, sem erguer os olhos para o mais baixo.
"Você não vem pra aula?"
"Não. Eu não vou."
"Mas você adora essa aula."
Sirius então encarou-o com uma expressão ameaçadora, antes de novamente desviar os olhos para a fonte. Remo insistiu:
"Você não pode matar aula sem motivo. Pode até levar uma advertência se te virem aqui."
"Eu não estou nem aí pra advertência. E ninguém vai me ver aqui."
Lupin suspirou e encarou também a fonte por alguns segundos.
Por que ele era tão difícil? Apenas queria ajudá-lo, mas Sirius não colaborava nem um pouco. Nunca aceitava o diálogo, como se tivesse medo de se abrir. Mesmo para um amigo tão próximo.
"Sabe, não foi culpa sua."
"Claro que não foi culpa minha", defendeu-se o maior. Mas nem sempre os seus pensamentos condiziam com as suas palavras.
"Sirius, eu quero te ajudar. Tenho certeza que se nós falarmos com a Professora Minerva ou qualquer outro professor, eles vão-".
"Esquece", interrompeu ele. "Você não pode me ajudar."
Aluado então sentou-se ao seu lado, dando mais uma boa olhada naquela fonte. Quatro gigantescas estátuas de pássaros a adornavam, e ela tinha uma aparência tão antiga, que parecia ter sido feita antes mesmo da escola. O jato de água não subia muito.
De repente e inesperadamente, Sirius Black voltou a falar.
"Eu fico aqui com a esperança de não vê-los mais. Mesmo assim, eles me perseguem."
Então, Lupin compreendeu. Ele não estava apenas chateado pelo débito de cem pontos à Grifinória; estava triste, também, pela sua família.
Sirius nunca tinha se identificado com ninguém de sua família. Gananciosos, ávidos pelo poder e cegos pela nobreza de sangue, os seus familiares tratavam-no com diferença mesmo na memória mais antiga do garoto. Desfaziam-se dele por saber que Sirius não pensava como eles, enquanto que ele, por sua vez, dava seu máximo para evitá-los. Mas mesmo estando longe de casa e pertencendo à Grifinória — enquanto todos os outros eram sonserinos -, ele ainda via alguns com frequência, como Régulo. E os desentendimentos ainda eram frequentes mesmo quando não existia motivo aparente; era como se houvesse um ressentimento mútuo e subentendido, que nunca deixaria nenhum dos lados em paz.
"É melhor você ir pra aula", disse o Black, com desânimo.
"Não, acho que eu vou ficar aqui mesmo."
"Vai pra aula, Remo."
"Não."
"O que você quer de mim?"
Precisava falar. Precisava tomar coragem e falar o que não saía da sua cabeça desde que voltara no tempo pela primeira vez. Na verdade, o que não saía da sua cabeça desde que enfrentara a morte do amigo, a uma distância de vinte anos dali.
Tomou fôlego e, com os olhos muito fixos nos próprios pés, respondeu:
"Só ficar perto de você."
A expressão de Sirius mudou completamente quando aquelas palavras chegaram aos seus ouvidos. Era evidente que não esperava por aquilo. Não conseguindo esconder a própria surpresa, direcionou os olhos na direção exatamente oposta à do menor e não respondeu.
"Por que você me olhou depois de bater no balaço?"
"Por nada", respondeu Almofadinhas rapidamente, ainda sem fitá-lo. Na sequência, pareceu perceber que a sua resposta fora pouco convincente, e emendou: "Só queria saber se você estava assistindo."
"Ah, sim.. Eu estava..."
"É, eu sei."
"Foi demais."
"Obrigado."
Ambos pareciam não ter vontade — ou coragem — de dar prosseguimento àquele diálogo infrutífero. Sirius parecia agora absolutamente fechado; monossilábico. Ao vê-lo daquela forma, Remo arrependeu-se imediatamente de estar ali. Talvez estivesse mesmo forçando a barra. Talvez Sirius apenas quisesse ficar sozinho, e ele o estava perturbando.
Talvez, tudo o que tinha imaginado ou mesmo pensado ter visto fosse apenas mais um fruto da sua imaginação. Mas, a cada segundo que ficava ali, menos lhe parecia provável que estivesse mesmo em uma Ilusão de Lacre.
Era possível que uma realidade ilusória fosse assim, tão... real? E contivesse sentimentos reais? E conseguisse simular tão fielmente uma reação típica de Sirius?
Estava prestes a levantar-se e entrar no Castelo, deixando-o, enfim, em paz. Mas não precisou tomar atitude alguma. No mesmo instante, Sirius, com os olhos direcionados a um canto no chão, murmurou: "Essa não..."
Lupin virou seus olhos na mesma direção, e deparou-se com Madame Norra, a gata do Inspetor Argus Filch, que sempre dedurava ao seu mestre quando via alunos infringindo regras. Certamente, então, Filch estava logo atrás e iria persegui-los se os visse matando aula sem motivo.
"Vamos dar o fora daqui", disse Sirius, rindo, e o seu humor parecia subitamente restaurado. "Antes que você leve uma advertência."
Dizendo isso, ergueu-se em um pulo e, segurando o menor por um dos pulsos, arrastou-o consigo para dentro do Castelo. E Remo, que já não estava com a cabeça em ordem há muito tempo, sentiu o rosto aquecer-se de novo a cada vez que sua mão roçava na de Almofadinhas, enquanto corriam juntos até a sala de aula.
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