O Patrono Perdido
4 Capítulo 3: Uma Antiga Cicatriz
Notas iniciais
Barulho. Sons de diversas vozes, que gritavam. Estava agora em meio ao caos absoluto, ou era o que parecia. Mas quando Remo Lupin abriu os olhos, a única coisa que viu foram os amigos — Alastor Moody e Quim Shackelbolt — aos berros e prantos, tocando-o, sacudindo-o, tentando abraçá-lo ou estrangulá-lo. As perguntas proferidas no ar eram inúmeras e a dor de cabeça que se apossava de Remo era tamanha, que ele quase não conseguia distingui-las.
Como estava?
Onde estivera?
Com quem estivera?
Tinha visto o Lorde das Trevas?
Tinha noção do perigo a que estivera exposto?
Mas Remo não conseguia responder. Ou pensar. A verdade era que não apenas a cabeça, mas também os braços, pernas, os músculos em geral doíam-lhe muito, como se tivessem sido esmagados por um enorme trasgo ou crescido e envelhecido subitamente. Viu-se sentado sobre uma cadeira, e se ela não estivesse estrategicamente posicionada ali, provavelmente teria também caído no chão e ralado os joelhos.
As palavras exclamadas pelos amigos feriam-lhe os ouvidos sensíveis e pioravam aquela maldita enxaqueca que crescia a cada instante.
Tentando fugir daquela insanidade — ou apenas poupando os seus ouvidos e a sua cabeça -, tapou as orelhas com os dedos enrijecidos e murmurou, esperando que alguém pudesse ouvi-lo: "Por favor... Por favor, não façam barulho... Não fiquem gritando..."
De súbito, ouviu-se um altíssimo estrondo dentro da sala, e toda aquela barulheira pareceu chegar ao fim. Quando Lupin finalmente sentiu-se grato pela confusão terminada, ergueu a cabeça e viu, enfim, o motivo do estrondo:
Um outro homem acabava de aparatar naquela cozinha. Com barbas e cabelos longos e reluzentemente brancos, vestes antigas e compridas, olhos muito azuis e bondosos e uma face visivelmente marcada pelo tempo postava-se à frente dos demais. Trajando um sorriso singelo nos lábios, Alvo Dumbledore disse, com muita calma:
"Espero não ter me atrasado muito."
Remo Lupin sentiu uma gratidão enorme instalar-se no seu peito; agora quase não sentia a insuportável dor de cabeça, apesar de ainda parecer um tanto cansado. Dumbledore talvez fosse a pessoa que ele mais gostaria de ter encontrado naquele momento. No entanto, quem tomou a primeira palavra ao vê-lo foi Olho-Tonto.
"Professor, desculpe atrapalhá-lo. Achamos que Remo pudesse estar em apuros."
Então, Dumbledore olhou o pobre homem exausto que tinha ao seu lado, e perguntou-lhe:
"Você estava?"
Demorou algum tempo até que Remo pudesse encontrar palavras para expressar a sua confusão. Todos olhavam-no com verdadeira apreensão — à exceção do diretor, que parecia um tanto tranquilo naquela noite — quando respondeu:
"Eu... não... sei."
"Não sabe?", perguntou Quim, agora compartilhando da mesma confusão. "Mas onde você estava? O que viu?"
Onde estivera. E o que tinha visto. Um turbilhão de imagens desconexas passou em grande velocidade pela mente de Lupin. Lembrou-se de Rabicho gorducho, com pijamas da Grifinória, chamando-o de parceiro. Lembrou-se de Tiago Potter com um frasco fluorescente nas mãos, puxando-o e perguntando o que se dizia à estátua da mulher corcunda para ir à Dedosdemel. E, acima de tudo, lembrou-se de Sirius Black, com seus cabelos desgrenhados e os olhos vivos e violentos, sorrindo com grande displicência na sua direção, enquanto dizia "Vamos ver se você se lembra desses detalhes antes de me desarmar da próxima vez".
"Eu... eu...", mas não conseguia completar frase alguma.
Até que Dumbledore pareceu salvá-lo mais uma vez:
"Você está cansado", disse ele.
Com os olhos marejados de lágrimas devido às memórias e ao peso emocional que tudo aquilo lhe causara, Remo suspirou e assentiu com a cabeça. A enxaqueca era grande, sim, mas não se comparava em nada à dor que vinha crescendo em seu peito.
Os falecidos amigos, tão próximos. E agora tornavam a estar tão distantes.
"Bem, onde está a varinha?", perguntou o diretor.
A mão trêmula de Lupin apontou para a varinha de Sirius Black que agora estava caída sobre o chão, bem ao seu lado.
Pela primeira vez naquela noite, o sorriso deixou os lábios de Dumbledore. Com passos lentos, ele aproximou-se da varinha, agachou-se sobre o chão e pegou-a em mãos. Assim que foi tocado, o objeto enfeitiçado deixou escapar um coro de sussurros que dele mesmo provinham. Um coro no qual não se pôde distinguir palavra alguma. Contudo, o ato de tocá-lo pareceu provocar em Alvo um grande desconforto; como se sentisse alguma dor, seus olhos fecharam-se e sua face contraiu uma expressão de profunda tristeza. Então, os sussurros multiplicaram-se, aumentaram. E, de repente, cessaram de uma só vez.
Ele tornou a abrir os olhos.
"Remo... Essa varinha está carregada de encantamentos", e fez uma pausa. Agora, parecia também exausto e abatido. Todos na sala ouviam-no como a uma sentença final, e não se ouvia um pio sequer que não fosse originado na sua voz. "Eu não posso lhe dizer que essa varinha surgiu para lhe fazer o bem. Mas não posso, tampouco, dizer que é obra das Artes das Trevas."
"Não pode dizer?", repetiu Moody em um sussurro, parecendo realmente desapontado. Fazia as perguntas a si mesmo, e não a qualquer outro que estivesse presente. "Como assim, não pode dizer..."
Dumbledore ignorou-o por completo. Seus olhos azulados permaneciam caídos e fixos em Remo Lupin. Suas palavras prosseguiram:
"Existem presentes, Remo, que nos são entregues nessa vida. E somente nós podemos decidir o destino que queremos dar a eles. Contudo... alguns presentes podem causar em nós o efeito que não é desejado. Podem nos causar ilusão, e nos deixar confusos. Assim... apesar de eu fortemente aconselhá-lo a fazer o que você mesmo julgar certo, preciso também aconselhá-lo a não dividir com qualquer um as visões que você vier a ter a partir dele. Qualquer que seja a sua decisão, saiba que tudo que você vier a sentir pode ser causado por um efeito de ilusão."
Remo parecia não conseguir digerir aquelas palavras. O que o diretor estava dizendo? Que o portal era um presente que lhe tinha sido enviado? Presente de quem? Presente por quê? E por que não poderia contar a ninguém o que viria a enxergar de acordo com o Portal? A confusão parecia apenas crescer dentro da sua cabeça. Se o Portal não era fruto de Magia Negra, nem tampouco servia para fazer o bem, então de que serviria? Agora a cabeça volta a doer um pouco, então mesmo que não conseguisse pensar com muita clareza, Lupin achou melhor fazer logo todas as perguntas que tinha, antes que a dor voltasse a controlá-lo e que nada mais pudesse ser feito.
Àquela altura, Dumbledore já havia soltado a varinha de Sirius sobre a grande mesa que ocupava quase todo o cômodo. Ao livrar-se do toque dela, pareceu um tanto mais calmo e aliviado.
"Se agora sei que a varinha pode me causar ilusões e afetar as pessoas de quem gosto, por que eu voltaria a tocá-la?"
"As ilusões levam pessoas à loucura, Remo. Elas nos fazem acreditar que podemos voltar a ser jovens. Fazem-nos acreditar que podemos controlar o tempo e trazer de volta ao mundo dos vivos aqueles que não nos pertencem mais. Todos queremos viver em ilusão", e então, deu mais um breve sorriso antes de virar as costas aos três sujeitos presentes. "Eu mesmo adoraria, se pudesse."
Voltar a ser jovens.
Controlar o tempo.
Trazer de volta ao mundo dos vivos aqueles que não nos pertencem mais.
Como ele sabia? Como poderia, possivelmente, saber?
Remo passou a tremer muito, e sentiu um calor fora do comum subindo-lhe o pescoço. Era possível que Dumbledore estivesse envolvido? Ou teria usado aquelas palavras por coincidência, apenas num contexto muito parecido e para ilustrar o exemplo da ilusão?
O diretor estava prestes a desaparatar e deixá-lo ainda com mais dúvidas. Tinha a mão já sobre a maçaneta da porta do cômodo, quando Remo sentiu-se na liberdade de chamá-lo uma última, uma última vez.
"Professor, você sabe... Sabe o que eu vi? Sabe o que vou ver, se voltar a tocá-lo?"
Dumbledore parou à porta, mas não se virou para encará-lo novamente. Apenas respondeu:
"Oh, não, Remo. Nem mesmo se eu quisesse poderia descobrir. Isso diz respeito a você, e apenas a você. E, se agora me derem licença, tenho muitos assuntos a tratar."
Dito isso, tocou enfim a maçaneta da porta e, com mais um grande estrondo, desaparatou, largando ali aqueles três pobres sujeitos que não sabiam sequer o que pensar.
*
Seguindo o conselho do diretor de fazer o que achasse mais sensato, Remo Lupin seguiu para casa. Por mais que os outros se oferecessem para acompanhá-lo, insistiu em ir sozinho, pois estava bem, dizia. A verdade era que não se sentia bem de ter ninguém por perto. Não era como se não apreciasse a companhia daqueles dois, mas agora sentia-se estranho demais — e triste demais — para estar com alguém além de si mesmo.
Quando chegou à sua própria residência — simples, antiga, caindo aos pedaços -, uma nova melancolia tomou seu interior. Abriu a porta, acendeu as luzes com um movimento de varinha.
Todos os objetos do lado interno da casa estavam na exata posição em que Lupin havia deixado. No entanto, havia semanas que não se sentava na poltrona da sala, que não utilizava nenhum pó de flu sobre a lareira, nem tampouco trombava em quaisquer móveis que ali estavam dispostos. Tudo na sua vida era estacionário. Monótono. E nada se movia. Assim, passando pela própria sala de estar e em rumo ao seu quarto, Remo não sentiu que passava por um ambiente do seu lar, mas apenas por um cenário sombrio de um filme antigo e sem som. Aquela casa inspirava e exalava a sua solidão, acostumada à apatia crescente que seu morador sentia pela vida.
Subiu as escadas e entrou pelo curto corredor que levaria ao cômodo desejado. Contudo, algo o impediu de continuar. Pois, sobre a pequena mesa que guardava a entrada de seu quarto, Remo encontrou aquele porta-retratos. Pegou-o em mãos e fitou a foto que ele carregava. Na foto, quatro personagens; e um sentimento, há muito, esquecido:
Pedro Pettigrew, Tiago Potter, Sirius Black e Remo Lupin tentavam posar para a fotografia, sem sucesso. Jovens; no auge dos seus dezesseis ou dezessete anos. Devido à magia impregnada na foto, era possível que os elementos nela dispostos se movessem por alguns segundos, em um ciclo que se repetia infinitamente, como o tempo não passasse. Naquela movimentação curta e eterna, Pedro Pettigrew sorria, tímido, e olhava para Tiago com uma evidente admiração, a quem abraçava com um dos braços; Tiago, por sua vez, maior e mais confiante, parecia rir de alguma coisa que acontecia ali, e, na seqüência, olhava em direção à câmera; ao seu lado, Sirius Black, o mais alto de todos, o abraçava também, e o seu olhar expressava uma malícia ausente nos demais — como se o seu corpo estivesse ali, mas a mente estivesse já planejando a sua próxima transgressão às regras; sussurrava alguma coisa no ouvido do último amigo que aparecia na foto. O último era, na verdade, Remo Lupin: um garoto magro, mas um tanto rosado e alegre pelo momento em que vivia — abraçava o amigo Sirius e olhava para a lente com olhos que ele próprio, agora, não conhecia; a cor das íris era a mesma, um tom de mel simples e brilhoso, mas algo estava mudado. Não eram olhos cansados e desapontados, mas vivos, dinâmicos, sorridentes. Olhos que expressavam a risada que os seus lábios davam quando ouvia a provável besteira que Sirius sussurrava no seu ouvido. Assim, todo o momento parecia retratar uma alegria que Remo pouco se recordava de ter vivido.
Lupin suspirou ao observar aquela foto, uma dor mais forte instalando-se em seu peito. Involuntariamente, passou os dedos sobre o retrato, detendo-os na imagem de Sirius. Seus olhos novamente encheram-se de água. Que estava acontecendo? Por que se sentia daquela forma?
Frustrado, devolveu o objeto à pequena mesa e abriu, então, a porta do quarto. Não esperava companhia alguma, mas teria mais algumas surpresas naquela noite.
Dentro do aposento, revelou-se uma mulher que cochilava sobre a cama ainda arrumada. Com o susto que levou, Remo não pôde fazer nada além de instintivamente chamá-la, terminando por tirá-la do seu sono.
"Dora?", perguntou.
Ninfadora Tonks abriu os olhos imediatamente e, em um pulo, sentou-se sobre a cama. Parecia ainda mais assustada que o anfitrião. Com os olhos vermelhos de cansaço e uma palidez singular, ela começou a explicar-se, atrapalhando-se com as palavras:
"Remo, desculpe, eu... Comecei a te esperar, você não voltava nunca. Estive preocupada. Não sabia se podia voltar ao Largo Grimmauld, então..."
"Não", murmurou Lupin, um tanto desapontado por ter companhias. Um homem não podia ficar deprimido em paz, sem ser consolado por ninguém? Ainda assim, esboçou um sorriso, porque não era da sua natureza ser rude. "Tudo bem", disse. "Eu só não estava esperando companhia."
"Eu posso ficar aqui mais essa noite, para caso você precise de mim."
"Claro", suspirou ele de novo. "Claro, você pode."
Então, alguma coisa incomum aconteceu. Tonks começou a olhá-lo de uma forma verdadeiramente estranha. Não estava mais sorrindo na sua direção, mas agora tinha o cenho franzido e os olhos arregalados, como se visse uma assombração ou algo do gênero.
"Que aconteceu com seu rosto?", perguntou ela.
"Meu rosto? Nada aconteceu com meu rosto."
Mas aquela resposta não pareceu convencê-la muito. Dora continuou fitando-o com um grande terror sobre as feições, e aquilo passou a assustar Remo também. Já com a adrenalina voltando a correr em seu sangue, ele correu para o armário mais próximo e dele tirou um pequeno espelho. Procurou desesperadamente o próprio rosto no reflexo. Ao encontrá-lo, seus joelhos vacilaram e ele, por pouco, não caiu no chão.
A enorme cicatriz que tinha logo abaixo do olho direito — uma das maiores que cobriam seu rosto e que o recordavam das piores épocas da Licantropia — simplesmente não estava ali. Tinha sumido. Desaparecido. Não haver sequer resquícios dela, não; toda a parcela direita da sua face parecia realmente limpa, quase despida, tanto estava acostumado àquela antiga e triste marca do seu rosto.
"Não pode ser", murmurou, passando os dedos agora sobre onde antes ela residia. Não sentiu relevo algum. Aliás, não sentiu nada além da própria pele, reta e lisa, como nunca tivesse sofrido nenhuma injúria local. "Que está acontecendo comigo?", perguntou, virando-se à única companhia que tinha no quarto.
Ninfadora, que parecia saber menos ainda, fazia um sinal negativo com a cabeça e permanecia calada. Alguma coisa estava, de fato, muito errada. Então, Dora, como a mulher iluminada e verdadeiramente inteligente que era, perguntou, em sequência:
"Aonde o Portal te levou?"
Então, Lupin percebeu. O porta-retratos. Detendo-se apenas ao que estava à sua mente — e esquecendo-se de todo o resto, real, que permanecia à sua volta -, rumou em grande velocidade para o corredor novamente, largando o espelho que antes tinha em mãos. O espelho estilhaçou-se no chão, em inúmeros pedacinhos, mas Remo não lhe deu atenção. Já estava do lado de fora.
Tomou em mãos uma vez mais o porta-retratos cuja foto acabara de observar naquele dia. Olhou a si mesmo, refletido na imagem antiga, remota, distante, que tinha à sua frente. Deteve-se no rosto já ligeiramente marcado, mas ainda liso em diversos pontos onde, atualmente, residiam cicatrizes. E a maior de todas elas, disposta abaixo do olho inferior e aquela à qual se referira não estava presente, simplesmente porque... Bem, porque ainda não tinha aquela cicatriz na época.
"Remo! Remo!", ouviu seu nome sendo chamado pela garota que ainda estava no quarto.
Mas agora era tarde. Ele acabava de compreender tudo.
Dumbledore dissera que as imagens que ele veria com o Portal não se passariam de meras ilusões causadas por algum motivo maior — ou alguma pessoa que estivesse fora de seu alcance. Mas estava errado. Podiam sim ser meras ilusões, mas, de alguma forma, afetavam a sua vida atual. Afetavam os seus pensamentos, os seus sentimentos e agora, tinha certeza, também o seu físico.
Ainda ouvia os apelos de Tonks para que se acalmasse, que voltasse ao quarto, que organizasse sua mente quando teve a plena certeza que não era apenas um sonho o que vivera com os amigos. Não podia ser apenas um sonho ou uma falsa ilusão se afetavam a sua realidade. E mais do que isso: se não era sonho, era real. Tinha realmente a chance de voltar no tempo. Tinha realmente a chance de rever seus amigos, reviver os seus anos de juventude em Hogwarts, recuperar a alegria que, há muito tempo, havia deixado a sua existência. Tinha uma nova chance.
Sem nem mesmo hesitar e ali mesmo — com as mesmas roupas que já estava, cansado, abalado e confuso como estava -, Remo Lupin desaparatou e rumou para o único lugar na face da Terra que ainda lhe trazia alguma esperança: a antiga residência de Sirius Black.
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