O Patrono Perdido

25 Capítulo 24: A Mudança do Destino


Notas iniciais
POIS FIQUEM SABENDO QUE mesmo tendo sido abandonada pela maior parte de vocês, ainda estou aqui (sniiiiiif!). E aconteceu o milagre que me fez postar antes de completar duas semanas. Bem que meus leitores-fantasma podiam aparecer pra dar um gás... (Pausa aqui para o meu momento sentimental. E é sério!) Ao que interessa: Kayla (se é que você ainda está aí), esse é o capítulo sobre o qual você havia me pedido para te avisar. A todos os demais: boa leitura e comentem.

Ainda estava no chão. Trêmulo.

Não saberia dizer se havia lágrimas escorrendo dos seus olhos ou se era um suor frio que lhe descia pelas têmporas.

Estava em absoluto choque. Em absoluto choque, sem chances de se mover.

O único som que podia escutar era de um vento gélido batendo sobre os vidros das janelas de Dumbledore. Aquilo o deixava mais confuso e mais em pânico — parecia ser o mesmo vento que acabara de ouvir quando estivera nas memórias de Sirius Black. Ou melhor, na primeira parte delas. Pois, afinal, só tinha visto o conteúdo de um único frasco.

Avistou, a alguns centímetros de distância, a mesa de cabeceira do velho. Sobre sua superfície, estavam três barras de chocolate, e naquele instante Remo teve certeza: Dumbledore as havia deixado ali. Estando ou não envolvido, sabia a gravidade do conteúdo contido naqueles frascos, e deixara as barras ali para que Remo se restabelecesse entre uma viagem e outra. Só de olhá-las, no entanto, o seu estômago se revirava.

Precisava mesmo era se mover, levantar-se. Recolocar o conteúdo do primeiro frasco de volta em seu interior e rumar para o próximo. Havia mais coisas que Sirius Black estava tentando lhe contar. Agora, pela primeira vez, uma nova percepção chegava à sua mente: por isso é que Sirius havia dividido o conteúdo da memória em três diferentes frascos.

Poderia muito bem tê-los colocado em um único recipiente, o que certamente pouparia trabalho e dois outros frascos, mas não — Sirius havia dividido aquelas lembranças para que Remo voltasse ao presente após assistir cada uma delas. Havia dividido-as em três porque, agindo dessa forma, dava a Lupin a chance de escolher entre continuar assistindo às suas memórias ou apenas desistir de encará-las quando ainda no meio do processo.

"Sirius...", murmurou para o nada, com os olhos distantes. Depois de ver o que havia levado Sirius a cometer aqueles atos, não sabia mais o que pensar em relação a ele. Mas o que sabia era que, a cada hora, o sentimento de saudades crescia no seu peito. Queria vê-lo. Queria abraçá-lo.

No entanto, não foi Sirius Black quem respondeu ao seu chamado. Foi, ao invés da dele, uma voz muito mais grave e amarga que ressoou no ar:

"Fraco."

Recuperando-se do choque das lembranças, Remo ergueu a cabeça em direção àquele som. Não se surpreendeu com o que viu — já não se surpreendia com nada.

"Fraco", repetiu Severo Snape, com a expressão séria em sua direção. "Devíamos saber que você não aguentaria chegar até o fim, Remo."

Não houve respostas. O cansaço e a tristeza dominavam agora Lupin por completo. Ao ouvir aquelas palavras, pôde fazer pouco além de manter os olhos sobre o chão, cabisbaixo. Talvez fosse mesmo muito fraco.

"Você desperdiça", retomou o mais alto, caminhando em sua direção. "Você recebe a chance de voltar ao passado e trazer de volta todos aqueles que perdeu. E você a desperdiça. Fica assistindo às memórias inúteis do Black, como se isso fosse diminuir a sua dor."

"Não fale das memórias de Sirius", rosnou Remo instintivamente, por entre dentes. "O que você sabe sobre elas?"

Mas Snape ignorou totalmente a sua pergunta, focando-se apenas no seu próprio discurso.

"Se você quer tanto assisti-las antes de voltar ao passado", continuou ele, caminhando até a caixa de lebre. "Assista logo. Resolva isso de uma vez. Diferente de você, há pessoas que sabem que não temos todo o tempo do mundo."

Remo estreitou os olhos na direção daquela pessoa. O que Severo queria dizer com tudo aquilo? Primeiro dizendo que Remo desperdiçava a chance de trazer seus amigos de volta; agora, reiterando que ele apenas perdia tempo com as memórias do Black. Quem era ele para saber? Conforme dizia aquelas palavras, passava a Lupin a impressão de que tinha algum envolvimento com o episódio do bilhete de Lílian. Era possível? Era possível que Remo fosse mesmo capaz de trazê-los de volta de alguma forma? Não conseguia compreender o que ele tentava dizer-lhe. Mas, mesmo assim, algumas palavras de Severo eram muito certeiras.

Olhou de novo para a caixa de lebre aberta sobre a mesa. Era verdade que não conseguiria voltar ao passado antes de assistir a todas aquelas memórias. Seria impossível encarar Sirius sabendo que havia ainda algum segredo oculto de si. Ao mesmo tempo que a saudade batia em seu peito, não podia ignorar a sua necessidade de descobrir o resto da história do outro.

Precisava logo assistir ao restante dos frascos — antes que, como Severo dissera, fosse tarde demais.

"Tudo bem", murmurou, derrotado. Tirando a coragem necessária de algum lugar em seu âmago, suspirou: "Me dá aqui o próximo frasco."

~

Vinte anos antes no tempo, Sirius Black, pela terceira vez, quase fora atingido por um balaço no treino do jogo de Quadribol.

"Sirius!", gritou Tiago, na tentativa de avisá-lo. Bem a tempo.

Ao despertar do seu transe e se virar para encará-lo, o Black automaticamente desviou alguns milímetros da bola que acertaria em cheio o seu rosto.

"Puta merda!", gritou o Potter, aliviado. "Onde você está com a cabeça hoje?"

Percebendo o que acabava de acontecer, o outro desviou os olhos para o chão, constrangido. Seria normal, na atitude de Sirius, apenas gritar de volta qualquer coisa ofensiva ao amigo, defendendo-se e já dando a entender que estava sim muito atento ao jogo. Mas, naquele dia, Sirius não agiu dessa forma.

Em uma ação que deu a Tiago a plena certeza de que o amigo estava muito deprimido, ele apenas murmurou:

"Desculpe."

Foi a única coisa que disse. Em sequência, sem nem mesmo dar a Tiago a chance de retrucar ou então pensar algo sobre aquilo, ele virou-se e retomou o treino, alheio a tudo que o cercava.

De novo, puta merda. Quanto tempo será que Remo demoraria ainda para voltar de novo ao passado? Quanto tempo teria que conviver com aquele Sirius apático e deprimido, que fazia pouco além de manter os olhos sempre distantes no horizonte?

Queria Sirius de volta. Queria ambos de volta. Mas infelizmente, agora, pouco podia ser feito.

~

Estava feito.

Quando Remo deu-se conta, já tinha recolhido o conteúdo anterior e jogado sobre a Penseira a segunda levada de memórias de Sirius Black. O conteúdo daquele frasco era tão denso e tão escuro quanto o primeiro. Diferente daquele, porém, o líquido desse segundo frasco não se movia; não se mexia em movimentos circuncêntricos como se descesse por um ralo, não — estava imóvel. Um líquido absolutamente imóvel na Penseira, encarando-o. E mesmo que fosse uma água escura e inerte, não refletia o rosto de Remo. Em sua absoluta turbidez, não refletia nada.

Remo apoiou-se novamente sobre aquele objeto. Sua garganta estava tão seca, mas não era sede. As lágrimas nos seus olhos deixavam em evidência o medo que estava de assistir àquilo. Mas estava sendo pressionado. A poucos passos de distância, a presença de Severo Snape ameaçava-o, lembrando de que não tinha mais tanta escolha. Ou encarava aquilo, ou se arrependeria pelo resto da vida.

Deu um último suspiro. E por mais que sua própria cabeça relutasse em fazê-lo, foi sendo levada para baixo lentamente, sem escolha, sem volta. Quando foi imersa naquelas águas sombrias, Lupin teve a certeza de que não voltaria à sã consciência tão cedo.

Sombras. Tudo o que viu à sua frente foram sombras. A fumaça acinzentada escurecia a cada segundo, tornando-se agora indiscutivelmente preta. As trevas dominavam tudo ao seu redor.

Não se formaram móveis à sua frente. Diferente daquela outra vez, não houve um fio de luz que iluminasse o cômodo no qual se encontrava. Não havia barulho de chuva caindo sobre a janela, muito menos a presença de vários amigos ao seu redor. Estava sozinho. E estava frio.

Depois de muito tempo, Remo voltou a sentir um medo do qual não se lembrava mais. O medo que sentira há muitos anos, quando o Lorde das Trevas estava no ápice de sua soberania. Um medo terrível que o consumia e esfriava a sua pele, fazendo-o tremer mais.

Que memória era aquela? Que merda de memória era aquela?

Quis voltar. Quis subir. Mas quando olhou pra cima, em desespero, não avistou mais a superfície da Penseira. Não podia mais voltar ao presente, a não ser que chegasse ao fim daquela maldita memória.

Fechou os olhos, abraçando a si mesmo, na tentativa de fazer diminuir o frio.

Por favor, que terminasse logo. Por favor, que terminasse...

Então, mesmo com os olhos fechados, detectou uma luz distante. Não uma luz amarelada e clara como a luz do Sol, mas uma luz fria. Uma luz prateada, fraca, que começou a tomar todos os cantos ao seu redor.

"Sirius?", murmurou, esquecendo-se de que estava em uma lembrança e de que aquele Sirius não poderia ouvi-lo. Mas agora, ao menos, o avistava.

Era noite. Apesar do ar gélido, não estavam a céu aberto, mas sim dentro de uma sala ampla, com poucos móveis. Os passos de Sirius Black, com cerca daqueles mesmo vinte anos, ecoavam sobre o piso frio do grande cômodo. A luz prateada era originada justamente da varinha de Almofadinhas, que provavelmente conjurara um feitiço Lumus. Era um único ponto luminoso em todo o aposento.

Havia uma grande escrivaninha e uma janela. Olhando pela janela, de costas para os demais, estava uma mulher.

Remo não saberia dizer qual a cor dos seus cabelos, pois estava muito escuro. Mas eram longos e pareciam sedosos, refletindo a pouca luz existente ali. Os trajes da moça eram pretos e longos o suficiente para que a barra roçasse o chão límpido.

Antes que Sirius falasse qualquer coisa, a mulher se pronunciou. Apesar de feminina, a sua voz era relativamente grave e parecia um tanto cansada.

"Você não é bem-vindo aqui", disse ela. Mas não era possível.

Agora, pelo tom de voz, Remo a reconhecia. Ainda assim, não queria acreditar. Em verdade, não conseguia. Apoiou-se da parede, mais uma vez. As memórias de Sirius tinham carga emocional excessivamente alta para a sua pessoa.

"E mesmo assim você me deixou entrar", respondeu o Black. Posicionou a sua varinha ainda acesa sobre a escrivaninha da mulher. Provavelmente, indicando que não tinha interesse em feri-la. "Você recebeu minhas cartas..."

"Eu as queimei", respondeu ela, prontamente. "Se Lucius te descobre aqui, ambos teremos problemas."

Remo fechou os olhos ao ouvir aquele nome. Agora, estava comprovado: era ela.

"É por isso que conto que ele não nos descobrirá", respondeu o Black. "Narcisa, preciso da sua ajuda."

Pela primeira vez naquela cena, então, Narcisa Malfoy virou-se para encará-lo. O rosto, embebido em sombras, foi imediatamente reconhecido por Remo.

Era inacreditável que ela estivesse recebendo o primo. Narcisa era irmã de Bellatrix Lestrange, a então futura assassina de Sirius Black. Apesar de não ser propriamente uma Comensal da Morte, nessa época Narcisa certamente já era casada com um, já que mencionava o nome de Lucius. Tal e qual todos os outros membros da família Black, à exceção de Sirius, ela guiava-se pelos ideais de pureza de sangue e era uma seguidora das Artes das Trevas.

"Não há ajuda minha que possa te servir", respondeu ela. "Não sei se você percebe, Sirius, mas estamos de lados opostos. Nós somos inimigos."

Remo tinha uma vaga lembrança de que, dentre todos os Black, Narcisa era a que menos havia segregado Sirius ao longo da vida. Por mais que não se dessem bem, era como se houvesse em Sirius uma esperança de que ela não era como os demais — e talvez realmente não fosse. Beirando entre o amor à família e uns princípios que não tinha muito claros em sua mente, ela parecia mesmo hesitar. Ainda assim, não significava que era receptiva a Sirius. Não significava que não era uma ameaça, e muito menos queria dizer que lhe prestaria qualquer ajuda.

A julgar pelos olhos aflitos de Sirius, a verdade era que, para recorrer àquilo, talvez ele estivesse mesmo desesperado. Possivelmente tão desesperado quanto ela, no ápice da Primeira Guerra Bruxa.

"Somos inimigos na Guerra, mas hoje os lados não interessam", disse Sirius, parecendo quase tão cordial quanto ela. "Na verdade, o pedido que estou fazendo é também um favor que vou prestar a você."

"Favor?"

Sirius desviou os olhos. Manteve-os sobre a própria varinha que iluminava a escrivaninha da prima.

"Com a sua ajuda, vou afastar uma pessoa da Ordem da Fênix."

Narcisa não respondeu. Agora os olhos visivelmente azuis estavam arregalados na sua direção, como não esperassem uma proposta como aquela. Afastar um membro da Ordem? Dispensar um aliado? O que ele poderia querer dizer com aquilo? Ele olhou-a quase em um tom de súplica, mas Narcisa já estreitava o olhar em sua direção, cheia de suspeitas.

"Você é perita em Feitiços de Alta de Injúria. Você já os executou mais de três ou quatro vezes. A pessoa que quero afastar...", e então deu uma pausa, aparentando uma certa tristeza. "É muito boa em Defesa Contra as Artes das Trevas. Sem a sua ajuda, eu não posso conseguir."

A mulher não movia um músculo sequer. Ouvia-o atentamente.

"Mas se você me ajudar, Narcisa... Se me ajudar, você terá sido responsável por afastar pelo menos um membro da Ordem da Fênix. Isso não agradaria também ao Lorde das Trevas?"

"Não é bem assim", respondeu ela, prontamente. "Você quer protegê-lo."

"Ninguém precisa saber o que houve com ele. Ele não será mais uma barreira ao Lorde das Trevas. Será um membro inativo. Você levará o mérito por isso."

"Por proteger o Lobisomem?"

Sirius não respondeu. Mordiscou os lábios, aflito. Ela já sabia. Provavelmente, todos já sabiam àquela altura. E não apenas sabiam que Remo era um Lobisomem, mas também que Sirius estava tentando, desesperadamente, afastá-lo do triste destino que aguardava os Marotos, segundo a Profecia de Sibila Trelawney. Mas Narcisa não negou imediatamente. Ao invés disso, ela permaneceu muda por alguns minutos, com os olhos já distantes. Enfim, deu-lhe as costas mais uma vez quando respondeu:

"Um Feitiço de Alta Injúria causa grande injúria ao se executor, sem exceções. Você sabe disso?"

"Sei."

"Você não estará apenas alterando o destino dele com isso, mas também o seu. Sabe disso também?

"Sei."

Ela suspirou. Prosseguiu:

"Você pode se arrepender disso, mas o feitiço não pode ser desfeito. Você estará agindo contra a vontade dele. Além de tudo, a Alta Injúria tem grandes chances de dar errado em boa parcela da sua execução, e provavelmente dará."

"Ajude-me a poupá-lo", pediu ele, ignorando todos aqueles avisos.

Narcisa também ignorou-o. Permaneceu de costas.

"Por que você simplesmente não apaga as memórias dele? Apague as memórias dele sobre você e seus amigos. Faça com que ele nem imagine a existência de vocês. Ele terá uma vida nova e não correrá riscos. Haverá menos erro e vocês têm menos chances de sofrer com isso. É um feitiço muito mais simples."

Sirius fechou os olhos quando aquelas palavras chegaram aos seus ouvidos. Parecia estar agindo contra sua própria vontade por estar ali. Parecia hesitar a cada passo que dava na conversa com Narcisa. Ainda assim, persistiu.

"Você não entende. Nós somos tudo o que Remo tem. Somos tudo o que ele conhece. Nosso grupo convive desde a infância. Não posso apagar essas memórias e tirar tudo o que ele possui. Não posso apagá-las. Narcisa, você sabe do que preciso."

"Você...", murmurou ela, lentamente. "Quer apagar o sentimento que Remo tem por você. Quer apagar apenas as memórias emocionais dele com relação à sua pessoa. Sem fazê-lo esquecer-se de quem você é... E sem afastá-lo do seu grupo. Você quer destruir o sentimento dele por você, porque pensa que assim pode salvá-lo."

Sirius não apenas achava que a perda de sentimentos de Remo com relação à sua pessoa poderia salvar o amigo; na verdade, tinha plena certeza disso. Por mais que Remo tivesse fortes vínculos com os Marotos, o vínculo que tinha com Sirius era o maior de todos. Apagando esse vínculo da História, tiraria Remo de risco, já que ele, Sirius Black, era um dos mais procurados pelo Lorde das Trevas. Não estando com ele, Remo já estaria em maior segurança. Mas não era só isso.

Perdendo o vínculo afetivo com Sirius, Remo automaticamente iria afastar-se dos demais Marotos. Isso porque o Black era também uma das cabeças principais da Ordem da Fênix, e porque era o amor de Lupin por sua pessoa que o fazia correr riscos tão grandes com sua atividade na Ordem.

Afastando-se de Sirius, afastava-se da Ordem — por mais que nela permanecesse, seria apenas um membro secundário e inativo, um alvo distante e desinteressante para o Lorde das Trevas. Afastando-se da Ordem, afastava-se naturalmente dos Marotos, e ficava fora de risco da Profecia de Sibila Trelawney. Fora do risco de morrer precocemente. Fora do risco de ser dominado pelo medo. Fora do risco de ser o Fiel do Segredo dos Potter. E fora do risco de ser levado por engano a Azkaban.

Tudo isso sem saber. Sem suspeitar. Mantendo apenas uma aparente e simples amizade com seus amigos já antigos.

"Você pensa que poderá também apagar seu sentimento em relação a ele? Não é assim que funcionam os Feitiços de Alta Injúria."

"Vou apagar apenas os dele."

"Vai continuar com seus sentimentos por ele, mas vai apagar os dele por você?"

"Se eu não estivesse disposto a sacrificar nada, eu não estaria aqui."

Mais uma vez, Remo sentiu aquela terrível vertigem. Sirius havia apagado seus sentimentos em relação a ele, mas não os seus próprios sentimentos. Seus olhos instintivamente migraram para a única fonte de luz naquela sala. Por quê? Por que ser o único a ser salvo? Por que ser o único Maroto ao qual a Profecia não havia atingido? Com o canto dos olhos entristecidos, via a imagem de Sirius e enxergava a resposta. Ele havia mesmo mudado seu destino. Nem mais encarava Narcisa, mas conseguia ouvir a sua voz feminina ecoando pelo amplo cômodo:

"A Alta Injúria costuma dar erro. Especialmente contra alguém com tanta experiência contra as Artes das Trevas. Você precisa dar um jeito para ele descubra o que foi feito. Se algum dia ele acordar e perceber que teve memórias e sentimentos arrancados, será motivo de muita dor. Ainda mais se você não estiver mais nesse mundo."

E Narcisa parou antes de continuar:

"Vou te ensinar a executar um Feitiço de Alta Injúria bom o suficiente para mantê-lo fora de risco. Mas antes, vou te ensinar a deixar um rastro. Um rastro que ele possa seguir e ter suas respostas quando o feitiço chegar ao fim e tudo estiver sucumbindo."

Ao terminar de ouvir aquelas palavras, a expressão de Sirius era de incredulidade. Lágrimas formavam-se no canto dos seus olhos, mas a sua expressão era uma mistura de sofrimento e deleite. Uma expressão de quem estava prestes a conseguir algo por que vinha lutando muito; e, ao mesmo tempo, algo de que sabia que se arrependeria depois.

Narcisa Black Malfoy olhou-o por cima dos ombros, com o que parecia ser um sorriso sincero.

"Sirius, pode contar comigo. Pela primeira e última vez, vou ajudá-lo."

De repente, o ar tornou-se frio. Remo sabia o que se seguiria. A memória tinha chegado ao fim. E quais, afinal, eram os seus sentimentos em relação àquilo? Não os tinha. Não tinha nenhum. Mais uma vez, como se tivesse batido a cabeça forte contra a parede, os pensamentos e sentimentos esvaíam-se de seu ser, deixando apenas uma dor de compressão no peito. Uma dor, como se tudo que havia sido importante na sua vida lhe tivesse sido tirado à força por uma pessoa que amava.

Pensou que fosse cair no chão, mas não caiu. Não caiu, pois o chão começou a se desfazer. Sirius Black e Narcisa viraram fumaça. Os móveis ao redor viraram fumaça. E não sobrou nada.

Os soluços que vinham do seu diafragma compunham o único som que preenchia aquele ar frio. Mais uma vez, abraçou-se a si mesmo. Seu corpo começou a levitar novamente, como estivesse finalmente saindo daquela memória. Subiu, subiu... Estava retornando à Penseira, levado por aquela fumaça gélida e disforme. Ao menos, um fio de esperança surgia dentro do seu âmago. Seria levado de volta ao seu tempo, onde poderia colocar os pensamentos no lugar. De volta ao seu tempo, onde poderia recuperar-se para só então considerar assistir à última memória...

Mas, de súbito, parou de subir. Seu corpo ficou imóvel, estagnado no ar, bem em meio ao percurso. O que era aquilo?

Ansioso, olhou ao redor. Não havia acabado aquela memória, afinal? Mas havia acabado, sim, pois não havia nenhuma forma pelos arredores. Com certeza, havia acabado. Tinha que ter acabado.

Confuso, olhou para cima, para o topo de onde se encontrava. E descobriu, atônito, o que estava se passando ali.

Quando olhava para cima de onde estava, conseguia ver o topo da Penseira. Havia um líquido transparente e parado na superfície — exatamente como se estivesse mergulhando no mar e direcionasse o olhar para o céu. Uma água tranquila, clara, parada. Mas não apenas isso.

De uma fonte invisível, estava saindo uma nova fumaça. Uma fumaça tão escura quanto aquela, que vazava por algum buraco e ia arrastando-se lentamente por todos os lados. Uma... Uma nova memória? Não. Não podia ser.

Não podia ser que uma nova memória estivesse sendo despejada dentro da Penseira enquanto ele ainda estava preso lá dentro. Não podia ser, a não ser... A não ser que alguém do lado de fora estivesse fazendo aquilo de propósito. Prendendo-o ali para que assistisse logo àquela última memória e colocasse um fim ao assunto.

Tentou pular. Tentou nadar. Tentou subir, de qualquer forma que fosse. Precisava sair dali, ou a sua cabeça ia explodir com tanta informação. Precisa respirar, chegar à superfície... Mas já não era possível. Agora a nova fumaça já ocupava tudo ao seu redor. Tornava-se líquida e descia por todos os lados, até onde o seu campo de visão alcançava. Estavam forçando-o a assisti-la de uma vez.

Fechou os olhos com as próprias mãos, em pânico. Não queria que aquilo fosse verdade, mas já estava feito. Usando-se da última força que restava no seu ser, direcionou o olhar para cima cheio de raiva e gritou, pela última vez, com todo o ar que seus pulmões permitiram:

"SNAPE!"

Era inútil. Snape, o certeiro causador daquilo, não poderia ouvi-lo.

Caiu, sem esperanças, em uma névoa que o consumiu por completo.

Notas finais
E então... Comentários? Recomendações? Teorias da conspiração? Estou certa de que deve ter alguma alma por aí.