O Patrono Perdido
26 Capítulo 25: A Substituição
Notas iniciais
Permaneceu assim, na escuridão, por alguns segundos. Ou minutos. Ou horas.
Não saberia dizer quanto tempo foi. Só conseguiria afirmar que ficou imóvel, com frio, sentado sobre um chão inexistente e ouvindo apenas o barulho da própria respiração por um período que se estendeu um tanto. Na sua mente, antes dominada por uma tristeza sem igual, não havia pensamentos. Não havia nada.
Havia apenas um estado de alerta: um medo contínuo e crescente que se alastrava por todo o seu ser. Mantinha-se atento a quaisquer movimentos, como estivesse se preparando para um predador que vinha abocanhá-lo. Mas nenhum aparecia. Não havia ninguém e não havia nada. Estava assim, imerso na absoluta escuridão.
Quando mesmo o seu estado de alerta pareceu dissipar-se um pouco e Remo quase deixou-se ficar inconsciente, uma mudança no ambiente foi responsável por despertá-lo do transe. O primeiro dos sentidos que foi ativado, no entanto, não foi o da visão. Pois antes que visse qualquer luz, os seus ouvidos captaram uma voz vinda de algum lugar. Não. Uma voz vinda de todas as direções.
"Sirius Black", disse a voz, que ecoou naquele ambiente sem barreiras. Era uma voz feminina. Uma voz conhecida. Talvez, a voz de Narcisa. Mas onde ela estava? Remo olhou para todos os lados, na esperança de encontrá-la. Era impossível. A escuridão era tamanha, que mesmo com as pupilas já dilatadas após todo aquele tempo, não conseguia ver um palmo à sua frente.
Narcisa, ou quem quer que fosse, continuou:
"Um Feitiço de Alta Injúria envolve três fases principais. Vou ensinar-lhe cada uma delas, se você já estiver pronto."
Então, fez-se a luz. Sirius Black apareceu à sua frente. Estava em um aposento conhecido, mas Remo não conseguia lembrar-se de onde aquilo lhe era familiar.
De repente, aquele ambiente tornou-se um tanto diferente do ambiente das outras memórias. Ao invés de escuro e embebido em trevas, era apenas um quarto normal. Um quarto pequeno, com uma janela simples que dava para um céu ao entardecer. Sirius estava de pé, ao lado de uma grande cama — o único objeto relativamente grande dentro daquele cômodo apertado. Por mais que não reconhecesse exatamente aquele local, Remo sentia que já estivera ali antes. Mas... Mas havia algo a mais.
Sirius não era o único a ocupá-lo. E por mais inacreditável que aquilo pudesse parecer, não era Narcisa a outra pessoa presente. Era... Era ele mesmo. Remo.
Olhos cor de mel arregalaram-se quando se deu conta de que sua própria pessoa, com cerca de vinte anos, estava deitada e adormecida sobre aquela cama. Era possível que tivesse dividido aquele cômodo com Sirius? Aquela casa?
Era possível que tivessem, em algum momento da vida, morado juntos? Era a primeira vez que via a si mesmo em uma memória de Sirius, e agora que o fazia, o choque era grande. Os seus olhos encheram-se de lágrimas involuntariamente quando viu que na última daquelas memórias estava ao lado do Black. Adormecido sobre uma cama, enquanto o outro observava-o, de pé.
A voz de Narcisa soou dentro do ambiente, mas ela não estava lá. Era uma voz que ainda ecoava e vinha de todas as direções — a voz de alguém onipresente.
"A primeira coisa", disse ela, "É mapear todas as memórias emocionais que Remo tem de você. Você precisa lê-lo. Será mais fácil quando ele estiver adormecido. Você precisa usar a Legilimência."
"Não", respondeu Sirius, prontamente. No entanto, não era o mesmo Sirius que Remo via à sua frente. De alguma forma, a imagem e o som não condiziam.
Era como se, em uma realidade, estivesse vendo as ações de Sirius contra a sua pessoa; e em uma outra realidade, Sirius e Narcisa conversassem entre si, de forma que o som que chegava a Remo era proveniente daquela conversa. Já havia visto aquilo uma vez: uma memória conjugada. Duas memórias, unidas em uma única. As imagens provinham de uma, os sons provinham de outra.
"Não vou fazer isso", disse a voz de Sirius, que também ecoava. "Remo é perito em Defesa Contra as Artes das Trevas. Além disso..." e deu uma pausa, antes de prosseguir: "Eu já sei todas as memórias que ele tem de mim."
"Não seja ridículo", respondeu ela, em tom de desdém. "Não basta saber quais as memórias que ele tem. Você tem que saber quais sentimentos estão envolvidos em cada uma. Tem que saber qual o tempo relativo que ele atribui a elas. Quando ele pensa que ocorreram, mesmo que esses dados não sejam reais. Precisamos dos detalhes da memória emocional dele, não de datas reais ou fatos concretos. Agora, vá lê-lo."
"Narcisa..."
"Se fôssemos eu ou o Lorde das Trevas a tentar invadir a mente dele, acredito que não iríamos conseguir facilmente, porque o lobisomem é mesmo bom no que faz. Mas contra você, Sirius... Ele não estará protegido. Ele não espera que você faça algo assim. Portanto, vá e faça-o."
Enquanto aquelas duas vozes aleatórias conversaram entre si, Remo recuava alguns passos, descrente do que via. O Sirius à sua frente erguia a varinha na direção do Lupin adormecido, com a mão trêmula. Parecia hesitar na atitude de lhe invadir a mente.
Como ele podia? Como podia estar entregando-se àquilo? Como podia seguir as ordens de Narcisa e aprender com ela como invadir a sua mente? Como podia ter a maldita coragem de levantar uma varinha contra Remo, quando ele apenas dormia ingenuamente ao seu lado? Cambaleou.
"Legilimens", murmurou, finalmente, o Black. Uma luz prateada saiu da ponta de sua varinha e atingiu Remo em cheio. Naquele momento, o ambiente ao seu redor mudou.
Uma nova e estranha névoa subiu do chão — dessa vez, um tanto diferente das demais, por ser branca. Mais parecia uma nuvem que surgia do nada e passava a, lentamente, envolver o ambiente ao seu redor. O faixo de luz prateada que saía da varinha de Sirius ainda atingia a sua forma mais jovem. Ambos estavam de olhos fechados, mas diferente daquele Remo jovem, que estava sereno, a expressão do Black era de um estado profundamente atordoado.
De súbito, compreendeu: aquela névoa que surgia era uma amostra das memórias. Memórias que Sirius havia visto na leitura e que havia incluído no terceiro frasco, com a intenção de mostrá-las a Remo. Mostrar um pouco de tudo aquilo que lhe havia tirado à força.
As imagens que seguiram tinham, todas, um tom prateado. Eram como Patronos que surgiam à sua frente, mas com formato muito mais claro e definido. Estava agora como um mero expectador. Enquanto o Remo de vinte anos dormia profundamente, sendo vítima de um feitiço de Sirius, o de trinta e cinco observava agora o filme que se fazia à sua frente. Quatro cenas foram formadas e desformadas em um período de tempo muito curto.
Na primeira, Sirius Black voava em uma vassoura, num Campo de Quadribol. Os cabelos desgrenhados estavam soltos, à vontade do vento. A muitos metros de distância, um Remo de apenas quinze, sentado ao lado de um Rabicho de mesma idade, o assistia.
Sirius concentrava-se. Entrava na frente de Tiago Potter, que também voava dentro do campo, e salvava-o. Batia fortemente num balaço que estava prestes a atingi-lo, arrancando gritos de vitória de toda a bancada grifinória. Na sequência, aquele Sirius procurava o Remo da arquibancada, na tentativa de descobrir se ele o havia visto. Quando dois pares de olhos se encontraram, desviaram-se rapidamente, envergonhados. A imagem se desfez. Foi embora.
Deixou para trás um Remo que agora soluçava, por finalmente ver as memórias que tinham sido arrancadas de si. Em questão de segundos, fez-se a nova cena.
Nela, não estavam mais em um Campo de Quadribol, mas em um jardim escondido. Havia árvores e trepadeiras por todos os lados. Chamuscas-roxas ocupavam todo o ar e geravam sombras das flores e árvores sobre o chão. Havia o barulho de cigarras e um cheiro de ervas frescas. Um Remo adolescente escondia o rosto entre as mãos, melancólico. O Sirius também jovem, à sua frente, parecia não saber o que fazer. Hesitava e mordiscava os próprios lábios, em dúvida. De súbito, resolveu agir: com passos rápidos, chegou até aquele Remo e afastou as mãos que escondiam seu rosto. Colou os lábios aos seus.
Na terceira cena, não estavam mais em um jardim. A princípio, apenas um Remo rejuvenescido apareceu. Estava vestido formalmente, em uma varanda. Parecia querer fugir de algo ou alguém; certamente, do jantar do Clube do Slugue, no qual estava tomando parte.
Na varanda, inspirava e expirava profundamente o ar de uma noite de Lua Crescente. Um vulto apareceu às suas costas. Quando se virou, era o Black.
Incrédulo por vê-lo, Remo riu e pulou no seu pescoço, abraçando-o. Abraço que durou poucos segundos, antes da imagem desaparecer.
Na quarta e última cena, estavam na Casa dos Gritos. Sobre o chão. Ambos os corpos estavam enrolados em cobertores, mas era certo que não vestiam nada por baixo deles. Pareciam cansados e confusos pelo que acabavam de fazer. Sirius, então, virava-se para ele e murmurava: "Vamos para a cama".
Remo assentiu, mas não se moveu. Ninguém se moveu. Permaneceram assim, no chão, até sumirem no ar. Foi o fim da sucessão de imagens.
Quando tudo terminou, houve, mais uma vez, a escuridão. Remo não se movia.
Estivera sentado sobre o chão durante todo aquele tempo. Levantar-se não era uma opção.
Por mais que agora estivesse escuro novamente, era impossível que a memória do terceiro frasco tivesse acabado. Impossível, pois ainda havia uma fumaça negra que flutuava pelo ar. Remo conseguia vê-la claramente, por mais que os olhos cor de mel já estivessem afogados nas lágrimas que não cessavam em cair. Mais do que nunca, as coisas pareciam fazer sentido.
Sentia dor, mas não queria que a memória terminasse. Agora que havia chegado até ali, considerava ser um caminho sem volta. Queria ficar até o fim. Queria que aquilo se estendesse até onde pudesse. Ver toda a verdade, até onde Sirius permitisse.
Enxugou o rosto com as mangas longas e aguardou. Aguardou, aguardou.
Percebia claramente o motivo pelo qual aquela memória era tão desconexa. O fato era que Sirius, ao extrai-la de si mesmo, encontrava-se em um estado de muita perturbação. Não havia tido tempo — ou vontade — de modificar ou refinar aquela memória para que fosse assistida na posterioridade. Portanto, restava apenas tentar entendê-la da forma como estava — exatamente como tinha sido extraída. E esperar.
Ficou alguns minutos no escuro. Os soluços baixos saíam do seu diafragma e preenchiam o ar. Não havia nenhum outro som. Ou, ao menos, até ouvir uma batida com estrondo.
Pulou de susto e olhou os arredores, temeroso. Parecia-lhe que algo havia quebrado ou caído. Compreendeu do que se tratava quando um novo Sirius apareceu à sua frente, com uma porta escancarada às suas costas. Ele a havia arrombado?
A sua aparência física estava pior do que nunca estivera, e remeteu Remo à imagem assustadora de Rabicho que havia visto em um frasco anterior.
Estava magro. Olheiras profundas faziam-se sob os olhos inchados. A palidez da sua pele era de alguém que estava doente, mas Sirius parecia mesmo era irritado. Parecia prestes a matar alguém que estivesse à sua frente.
"Da próxima vez que for entrar, primo", disse Narcisa, ironicamente, virando-se para ele. "Você pode bater antes."
Sirius tinha uma grande papelada em mãos. Com passos rápidos, ele aproximou-se daquela escrivaninha e jogou-os bruscamente sobre ela.
"Fase dois", disse ele, com a voz trêmula. Olhava-a mesmo com muita raiva. "Você me manda lê-las. Me manda copiá-las e mapeá-las. Você me manda criar alternativas para preencher o vácuo na mente dele" e bateu com força a mão sobre aquela mesma papelada, indicando-a. "Eu as mapeei! Eu as copiei e criei alternativa para todas! Sei as datas de todas! Estava pronto para trocar as velhas pelas novas!"
"E então?"
Sirius estremeceu. Passou a mão repetidas vezes sobre o rosto, atordoado.
"O Patrono", murmurou ele, para então gritar em bom volume. "O Patrono!"
Narcisa pareceu surpresa. Olhou-o com os olhos arregalados. Então, desviou-os e respondeu, contida:
"Você não me disse que havia isso."
"Eu não consigo", disse Sirius, abanando a cabeça negativamente. Parecia falar mais consigo mesmo do que com ela. "Não importa, não consigo modificá-lo. Devo ter tentado mais de cem vezes."
Narcisa pegou a papelada que estava sobre sua mesa. Correu os olhos por ela, pensativa.
"Então... Essas são as datas relativas?", perguntou, com os olhos ainda sobre os documentos. "Você mapeou todas?"
"Eu as assisti dia e noite. Mas o Patrono..."
"Você as copiou e modificou a cópia? A original ainda está com ele, intacta?"
"Eu modifiquei a cópia. Mas Narcisa, o Patrono..."
"Você precisa modificá-lo antes de inserir a nova versão na mente dele. Antes de fazer a troca da velha versão pela nova, precisa substituir o Patrono. Se não fizer, tudo terá sido em vão."
Falavam de uma troca. Uma cópia e uma original. Estavam falando... Das memórias de Remo? Ainda trêmulo e sobre o chão, arrastou-se um pouco, na tentativa de ouvi-los melhor.
"Nenhum animal serve", disse Sirius, vencido. Jogou-se, sentado, sobre uma poltrona próxima. Estava claramente em pânico.
Nenhum animal servia. Algumas informações afinal, já estavam se encaixando.
Narcisa havia orientado Sirius a ler a mente de Remo repetidas vezes. Ele precisava encontrar, na cabeça de Aluado, todas as memórias emocionais relativas à sua pessoa. Depois, ela havia orientado que ele as mapeasse.
Olhando rapidamente sobre a papelada que estava agora na mão da mulher, Remo percebia que havia muitos garranchos com datas. As datas relativas nas quais Remo acreditava que aquelas memórias emocionais haviam se passado, é claro. Se fosse isso, Sirius havia escrito uma infinidade delas, pois o bolo de papel era grande.
"Algum tem que servir. Use os animais dos seus outros amigos. Eles também não são Animagos?", perguntou ela.
Agora, segundo o próprio Sirius dizia, já estavam na fase dois do processo. Ele já havia mapeado todas as memórias de Remo; mas, mais do que aquilo, havia feito uma cópia das mesmas. Remo não saberia dizer como ele havia feito aquilo, mas não devia mesmo ser um procedimento complexo. Afinal, tendo todas as memórias de Aluado já decoradas, era possível que fosse fácil, com uma Penseira e um bom feitiço, realizar uma cópia delas. Não contente ainda com isso, Sirius havia modificado as cópias.
Assim, as cópias modificadas estavam com Sirius. A versão original daquelas memórias, como eles mesmos diziam, ainda estava com Remo. Isso tudo queria dizer que Sirius não tinha ainda arrancado aquelas memórias de Lupin, mas sim apenas feito uma cópia e modificado a versão copiada. E agora, falavam de um Patrono.
"Eu tentei todos", respondeu ele, ainda abanando a cabeça negativamente. "Rato, cervo... Foram os primeiros que tentei. Mas não adianta. Não importa o que eu faça, é impossível modificar o Patrono."
Havia, então, modificado quase toda a versão copiada. Mas era evidente que precisava modificar o Patrono de Remo, se quisesse mesmo que o outro esquecesse seus sentimentos. Afinal, o Patrono era nada menos que um cachorro idêntico à forma de Animago de Sirius.
"Deve haver um", insistiu Narcisa. "Um animal que também o remeta a um estado emocional alterado. Um animal que seja importante para ele, bom o bastante para substituir o Patrono. Você leu as memórias!", retomou, também já um tanto alterada. "Não é possível que não haja nada."
Foi então que, ao ouvir aquelas palavras, Sirius parou. Pareceu que algum tipo de engrenagem começou a rodar dentro da sua mente, fazendo o cérebro funcionar. Manteve-se com o olhar distante, avoado, por alguns segundos.
"Lebre", sussurrou para si mesmo.
O rosto de Narcisa se iluminou, mas ela não disse nada. Continuou olhando-o, à espera de uma explicação. A explicação veio fragmentada. Ele ergueu-se da poltrona.
"Lebre...", murmurou mais uma vez, caminhando para um lado e para o outro. "Tem uma caixa... Com papéis nossos. Eu e Remo a usamos... Um animal que também é importante pra ele..." e então, parou. Encarou Narcisa. "Memória emocional. Isso deve servir."
A mulher então incorporou uma expressão de preocupação. Provavelmente percebia que o estado emocional do primo também já não era dos melhores, mas não interviu. Permaneceu parada enquanto Sirius dava-lhe as costas e já se preparava para sair do cômodo.
"Sirius", chamou-o mais uma vez, impedindo que se fosse. O Black parou e virou-se para olhá-la. "Esse é o último detalhe que você precisa alterar na versão copiada?"
Ele assentiu com a cabeça. Narcisa prosseguiu:
"Poderemos então passar para a última etapa. Você já sabe como vai ser?"
Ele pareceu pensar por algum tempo. Deixou que seus olhos melancólicos se abaixassem para o chão, antes de responder:
"Sei. Quando Remo estiver dormindo, vou mexer na mente dele mais uma vez. Mas não será mais Legilimência. Vai ser uma troca. Vou extrair a versão original das suas memórias e inserir a versão copiada e alterada das mesmas. Quando acordar, ele não será mais o mesmo."
"Você está mesmo quase um perito nas Artes das Trevas", respondeu ela, com um sorriso maldoso nos lábios. Sirius pareceu ofendido. "Mas Remo não pode estar simplesmente dormindo. Se estiver dormindo, ele pode sonhar e ter acesso ao subconsciente enquanto você estiver fazendo a troca. Ele terá que estar mais do que dormindo."
O Black pareceu assustado. Arregalou os olhos escuros na sua direção.
"Não se preocupe", disse ela. Dizendo isso, tirou das vestes um frasco com um líquido esbranquiçado em seu interior. Uma poção. "Vamos induzir um estado de coma por vinte e quatro horas. Você terá tempo de sobra para extrair as memórias, evitando que ele acorde ou sonhe durante o processo."
Ela estendia agora o frasco na direção do primo, mas Sirius não se moveu. Seus olhos iam do frasco para o rosto de Narcisa.
"Não."
"Sirius, não seja teimoso."
"Qual o risco?"
"Quase nenhum."
"Quase não é o suficiente."
A mulher suspirou, aparentemente tentando manter a calma. Perguntou:
"Você sabe por que as pessoas pensam que os Feitiços de Alta Injúria dão tão errado, tão frequentemente?". Parou e esperou por uma resposta. Não tendo a resposta, apenas prosseguiu: "As pessoas pensam que é porque são feitiços complexos, Sirius. Feitiços que se constituem de vários procedimentos, muito fragmentados. Pensam que esses feitiços dão errado porque o fato de serem tão fragmentados aumenta as chances de haver algum erro. Mas a verdade é que não é por isso."
Ele não respondia. Nem mesmo se movia.
"A verdade é que esses feitiços dão errado porque os bruxos hesitam em executá-los. Ficam em dúvida. Ficam com medo de falhar ou de machucar a quem gostam. Não colocam seu objetivo em primeiro lugar. Portanto, é claro que os feitiços dão errado tanto para quem executa quanto para os alvos. Por isso é que se chamam Feitiços de Alta Injúria."
Ainda assim, não houve respostas. Mais uma vez, ela continuou:
"Você já está hesitando. Está hesitando antes mesmo de ter começado. Se você fizer tudo exatamente como estou falando, está claro para mim que, mesmo assim, o Feitiço será de muita Alta Injúria. Tem grandes chances de sair errado em algum momento". E suspirou. "Mas se nem mesmo seguir a todas as minhas instruções, você pode gerar uma verdadeira catástrofe."
"Que tipo... De catástrofe?"
"Sendo um feitiço que mexe com o passado e com as memórias basais de uma pessoa, você pode até mesmo alterar a linearidade do tempo. Ou a concepção dele. Pode fazer com que Remo consiga recuperar suas memórias de alguma forma. Pode fazer com que ele apenas tenha pesadelos ao longo de todo o resto da vida, e acredite, essa seria a possibilidade menos agressiva... Ou poderia até fazer com que ele conseguisse voltar ao passado, de alguma maneira, para recuperar as memórias perdidas."
O Black estava pensativo. Seus olhos agora estavam fixos no frasco com o líquido branco. Pela primeira vez em algum tempo, tomou a palavra:
"Você está me dizendo... Que tenho que induzir um estado de coma em Remo. Tenho que usar uma poção perigosa nele, havendo a chance de que ele nem mesmo acorde. Tenho que me arriscar a perdê-lo, sendo que tudo o que quero é salvá-lo?", perguntou. Naquele ponto, deu-se conta de que a prima estava irritada. "Se eu conseguir fazer a troca das memórias enquanto Remo estiver dormindo... Se conseguir fazer essa troca quando ele estiver desacordado, sem sonhar... Eu não preciso usar essa poção?"
"Enquanto ele estiver dormindo e sem acesso ao próprio subconsciente?". Ela sorriu. "Você teria uma chance em um milhão."
O Black mordiscou os próprios lábios. Sua próxima frase saiu em murmúrio, mais para dentro do que para fora.
"Vou levar o frasco."
Remo Lupin instintivamente tapou os olhos com as próprias mãos ao terminar de ver aquela cena. Os seus soluços haviam aumentado em frequência. No entanto, mesmo se não tivesse fechado o seu campo de visão, ainda assim teria visto apenas a escuridão pelos próximos minutos. Pois, depois que a cena terminou, não houve mais nada durante algum tempo.
Enquanto estava assim, imóvel e com os olhos fechados no escuro, voltava a sentir o frio contido naquela lembrança. Tinha a plena certeza que, na cena seguinte que surgiria, Sirius iria misturar aquele líquido viscoso na sua comida. Induzir em Remo um estado de coma — e quase matá-lo — para só então salvá-lo. Mas por mais que tivesse essa certeza, a cena que apareceu em seguida não foi tão próxima ao que imaginava; na verdade, não chegou nem perto.
Chovia. Não era apenas uma das chuvas comuns ao Reino Unido, um tanto gélidas e que aconteciam ao longo de todo o ano. Não — era um temporal. Fez com que Remo se lembrasse da chuva contida no primeiro frasco deixado por Sirius; a memória da reunião com Tiago e Rabicho. No entanto, a chuva de agora era mais forte e assustadora. Barulhos de trovoadas ecoavam por todos os lados, antes mesmo que a cena estivesse pronta para ser assistida.
Ouvindo aqueles sons amedrontadores, Remo rastejou-se mais para longe de onde vinham. Encontrou uma parede qualquer e encolheu-se ao lado dela. Esperava para assistir o que aconteceria em sequência.
Precisou de poucos segundos para perceber que era uma cena muito comum à inicial. Estava exatamente no mesmo cômodo pequeno, com uma grande cama. Sobre ela, havia um outro Remo, deitado. Adormecido. A luz dos trovões incidia sobre o quarto e permitia que se visse a silhueta de Sirius Black, novamente de pé, ao seu lado. As mãos dele, mais uma vez trêmulas, apontavam a varinha na sua direção.
Mas onde estava o frasco? Sirius o havia misturado na sua comida, afinal? Havia conseguido, por fim, transformar o seu Patrono em uma lebre? Era provável que sim.
Diferente da primeira vez, não saiu apenas um fio de luz da varinha do Black. A sua varinha inteira iluminou-se em uma cor vermelho-sangue. A luz estendeu-se e atingiu em cheio aquele que dormia à sua frente. Chegando a Remo, ampliou-se e iluminou todo o seu rosto naquele mesmo tom. Sirius estava, enfim, realizando a troca.
O procedimento demorou alguns minutos. Enquanto assistia a Sirius tirando suas memórias de si, o Remo já envelhecido encolheu-se ainda mais na parede. Aproveitando que não havia ninguém para testeminhar sua fraqueza, chorava incessantemente.
Por quê? Por que justamente consigo? Alternava entre fechar os olhos, não querendo mais ver aquilo, e abri-los, confiante de que deveria, sim, assistir a tudo até o fim. Os minutos pareciam não passar.
Quando se deu conta, os seus soluços, somados aos trovões e à chuva, não eram o único som que preenchiam o ar. Sirius também parecia estar em um estado de lamúria; também parecia chorar, ou soluçar, ou o que quer que fosse. A escuridão não lhe permitia ver direito o que era.
Ao mesmo tempo em que o feixe de luz vermelha saía da varinha do Black e incidia sobre o Remo adormecido, um outro feixe — um feixe mais azulado — saía em forma de fumaça de Aluado. Era uma névoa que saía por todos os poros do adormecido, como se ele a estivesse transpirando. Ela saía e ficava solta no ar, para então ir concentrando-se na varinha do Black. A troca era visível; tirava de Remo a fumaça azulada e inseria, no lugar dela, a luz avermelhada. Memórias antigas por memórias novas. Uma substituição.
E aquela fumaça era... Quase a mesma, se não idêntica, à névoa que Remo Lupin havia visto tomar conta dos seus arredores quando havia voltado no tempo pelas últimas vezes. Por fim, então, o procedimento chegou ao fim. Cada vez menos densos, os feixes de luz foram diminuindo, diminuindo... Estavam a um ponto de desaparecer. Mas quando chegaram em tal ponto, algo diferente aconteceu.
O Remo que dormia remexeu-se sobre a cama, incomodado com algo. Foi nesse exato momento que a sua versão envelhecida e muito desperta percebeu: ele não estava em um estado de coma. Sirius não havia lhe dado o frasco, com certeza. Se o tivesse feito, o menor não teria se mexido daquela maneira desconfortável. A prova final veio em questão de segundos.
Aluado acordou. As pálpebras subiram lentamente, como em câmera lenta. Olhos cor de mel abriram-se justamente quando estavam virados na direção de Sirius — justamente no exato momento em que os feixes sumiram. Estava acordado.
O Black não se moveu. A versão mais velha de Remo não conseguia ver a sua expressão direito, mas sua silhueta tremia, em sinal de autêntico pânico. Aluado ergueu-se um pouco na cama e apoiou um dos cotovelos na mesma, com o intuito de vê-lo.
"Sirius?", sussurrou, ao vê-lo. Foram as suas últimas palavras. As últimas palavras antes que caísse mais uma vez, dessa vez desmaiado, sobre cama na qual se encontrava.
Tudo desapareceu. Remo Lupin, que antes estava sentado e encolhido sobre uma parede, sentiu o chão sob seu corpo também desaparecer. Foi caindo. Caindo lentamente, como se a gravidade fosse sua amiga e não pretendesse machucá-lo. A costumeira fumaça envolveu tudo ao seu redor.
Quando chegou em um novo chão, muitos metros abaixo de onde estava, viu Sirius. Ele estava em um novo cômodo. Ajoelhado, virado na direção de uma parede. Lupin tentou identificar mais detalhes do cômodo, mas seus olhos estavam cansados. Além disso, tudo ao seu redor estava muito embaçado. Não conseguia ver nada além da imagem de Sirius, virada de costas para si.
"E então?", ecoou a voz de Narcisa. Mas onde ela estava agora? Novamente, Remo não conseguiu vê-la. Nem mesmo tentou por muito tempo, pois já não importava. Nada mais importava.
Sirius não lhe respondeu. Permaneceu parado, virado de costas, naquela mesma posição. Encarava algo que segurava nas mãos, mas nem aquilo Remo conseguia ver o que era.
"Sirius", chamou ela. "Você usou a poção?"
Não houve respostas verbais. A pessoa à qual ela se dirigia assentiu devagar com a cabeça, mas ainda não se virou. E por mais que Sirius dissesse que havia utilizado a poção, era mentira. Agora, Aluado havia comprovado; havia visto a si mesmo despertando no final de todo o processo realizado pelo Black. Não estivera em coma durante o procedimento. Portanto, ele não havia agido conforme o combinado com a prima.
Ao ouvir aquilo, ela suspirou, aliviada.
"Mesmo assim... Você sabe. Não deixe que ele toque a sua varinha, sob nenhuma condição. As memórias originais dele estão contidas aí, e não há mais forma de tirá-las. Se ele a tocar por qualquer motivo, há grandes chances de recuperá-las, seja lá como for."
Mais uma vez, Sirius assentiu. Aquela cena dele de costas, sem proferir uma única palavra, virado para a parede, era mesmo assustadora. Mas para Lupin, nada mais importava.
"Não deixe que se afeiçoe a você de novo", retomou Narcisa. "Não fique sozinho com ele por muito tempo, não o abrace muito apertado. Tente não machucar a si mesmo e não causar preocupação a ele. Tente não morrer", dizia ela, de uma forma tão sucinta, que tudo aquilo parecia ser muito simples. "Qualquer coisa que venha de você e que gere alegria ou tristeza nele será uma ameaça à manutenção do procedimento", e pausou. "Acho que você já sabe de tudo isso."
Tente não morrer. É claro.
Sirius não havia usado a poção como ela havia recomendado. Narcisa havia deixado claro que aquele ato poderia gerar uma grande catástrofe. Causar pesadelos em Remo ou até mesmo fazê-lo voltar no tempo, de alguma forma, para recuperar as memórias perdidas.
Não poderia mais abraçá-lo. Ou ficar sozinho com ele. Não poderia tratá-lo diferente dos demais. Não poderia, de forma alguma, dar margem para Remo pensar que havia algo diferente entre eles.
Remo sentiu seus pulmões comprimindo-se. De repente, era tão difícil inspirar e expirar o ar.
Os seus pesadelos com a luz avermelhada — os pesadelos que o haviam levado ao Largo Grimmauld e à varinha-portal pela primeira vez — tinham começado justamente um dia após a morte de Sirius. Remo passara sete dias com pesadelos que denunciavam o paradeiro da varinha, para só então descobrir onde ela realmente estava e decidir ir ao seu encontro.
A morte de Sirius Black havia lhe causado dor. Mais dor do que um amigo sentiria pela falta do outro. Dor o suficiente para quebrar um feitiço que já não tinha sido selado corretamente.
Os olhos ardiam. Remo piscou-os com força, obrigando que continuassem abertos.
Sirius Black, ainda ajoelhado, virou-se de frente. Provavelmente, havia se virado para olhar Narcisa nos olhos; se fosse isso mesmo, Narcisa devia estar exatamente logo atrás de Remo, pois era na sua mesma direção que o Black se virava. Possibilitava que Lupin, agora, visse o seu rosto.
Mais uma vez, pálido. Olhos inchados e avermelhados. Agora que se virava, era possível identificar que o que ele segurava em mãos era nada menos que a caixa de lebre. Exatamente a mesma que Remo conhecia.
As pupilas dilatadas estavam direcionadas para a mulher, às costas de Aluado. Em um fio de voz, ele murmurou, enquanto a encarava:
"Obrigado."
Aquela foi também a sua última palavra.
Brutalmente, como estivesse sendo expelido ou expulso de uma festa para a qual não havia sido convidado, Remo sentiu-se sendo puxado para cima. Não havia mais memórias. Não havia mais frascos. Estava terminado.
Fechou os olhos com força enquanto tudo ao seu redor desmoronava e o seu corpo subia em um elevador imaginário, desenfreado, de volta à superfície da Penseira. Quando se sentiu de volta à realidade e puxou o rosto para cima, a umidade do líquido das memórias misturava-se com as lágrimas que havia derramado.
Teria caído sobre o chão, mas caiu sobre Ninfadora Tonks, que já o aguardava. Mesmo contra a sua vontade, ela prendeu-o em um abraço. Depois de relutar um pouco, Remo fraquejou. Seus joelhos vacilaram e ele perdeu os sentidos, adormecendo — ou desmaiando — ou o que quer que fosse, nos braços dela.
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