O Patrono Perdido

11 Capítulo 10: Uma Ajuda Inesperada


Notas iniciais
Olá, leitores maravilhosos ♥ Esse capítulo realmente me deu um bom trabalho, principalmente porque existe a ideia dele desde o início da fanfic, e colocá-lo no papel da forma como eu queria foi um pouco tenso (tomara que tenha dado certo). Espero que vocês gostem e comentem ao final, hihi.

Estava deitado sobre um colchão confortável. Uma pequena dor, originária de algum ponto atrás de sua cabeça, irradiava pelo pescoço abaixo.

Quando Remo abriu os olhos, sentiu-se quase cego pela excessiva luz que ocupava o ambiente.

Piscou algumas vezes, tentando localizar-se. Dirigiu o olhar para o lado e identificou logo uma maca muito próxima, desocupada. Tateou a suave superfície sobre a qual se encontrava. Concluiu que também estava deitado em uma maca.

Tentou apalpar a região detrás da cabeça que tanto lhe doía, mas conseguiu apenas identificar um grande curativo na região. Procurou erguer-se para olhar adiante, mas seus braços pareciam fracos, e as pernas... mal podia senti-las.

De repente, uma voz masculina, um tanto madura e serena, chamou-o:

"Olá, Remo, meu bom amigo."

Tomado pela pressa de encontrar quem proferia aquelas palavras, Remo usou-se da pouca força que tinha para, apoiando-se nos próprios braços, erguer a coluna. Terminou por encostar as costas na cabeceira da cama, e então pôde confirmar sua hipótese.

Quem o observava a uma curta distância era Alvo Dumbledore, com o típico sorriso bondoso que quase nunca deixava seus lábios. Apesar do que parecia querer transparecer, era evidente que uma grande preocupação o afligia.

Infelizmente, Remo não pôde respondê-lo com a mesma educação. Ao encontrar sua figura ali parada — e um tanto envelhecida -, percebeu pela primeira vez que não estava mais no passado.

Como poderia não estar? Como poderia não estar, se não havia tocado novamente o Portal?

Entrou em pânico. Aquilo não era nada bom.

"Não...", murmurou involuntariamente, enquanto revirava com grande desespero os lençóis que o cobriam, como se pudesse, por milagre, encontrar o Portal também sobre a maca.

"Remo, acalme-se", sugeriu Dumbledore, que não parecia surpreso com aquela atitude, de forma alguma.

Mas como ele poderia acalmar-se?

Estivera dentro de uma Ilusão de Lacre, um complexo feitiço das Artes das Trevas. Havia tido seis chances de ir e voltar entre aquelas duas realidades, livremente, sem grandes sequelas. No entanto, estava claro que a maldição apenas permitia que viajasse em liberdade por seis vezes. Seis vezes que já tinha utilizado.

"Não. Não pode ser...", murmurava pra si mesmo, ainda obstinado na sua busca pela varinha do amigo.

Lembrou-se das palavras contidas na Coletânea de Serbour. Elas diziam: "A realidade alternativa criada pelo bruxo executor deve ser suficientemente convincente, de forma a fazer com que o Portal seja tocado por um mínimo de sete vezes, até que, por fim, ele não provoque mais o retorno à realidade original, perdendo seu efeito de transporte."

Portanto, se optasse por tocar o Portal Ilusório — a varinha de Sirius Black — pela sétima vez, ela perderia seu efeito de transporte, e ele permaneceria, indefinidamente, preso àquela falsa realidade do seu passado. Sem chance alguma de voltar a viver sua própria realidade, passaria a viver dentro de um sonho, numa prisão imaginária, da qual jamais tornaria a sair.

Aquelas informações foram sobrepondo-se dentro da sua mente, e a cabeça passou a latejar mais. Não sabia o que fazer. Não havia o que ser feito.

"Remo", tentou Dumbledore, pela última vez. "Você caiu e bateu a cabeça sobre a varinha de Sirius Black".

Ao ouvir o nome de Sirius, Lupin ergueu os olhos, como se o homem o tivesse chamado. Passou novamente a mão sobre a região que mais lhe doía na cabeça, e agora descobriu o porquê daquele curativo.

"Você esteve desacordado por dois dias", continuou o outro. "Essa é a ala hospitalar de Hogwarts. Espero que você não se importe de eu tê-lo trazido pra cá."

Não houve respostas imediatas. Remo não conseguia — não queria — compreender o que havia acontecido.

"Não..."

"Acreditei que aqui em Hogwarts fosse mais seguro, você estando tão fragilizado", prosseguiu o diretor, como se nem tivesse ouvido seu lamento.

"Eu não vou poder mais vê-los. Não vou mais vê-los...", sussurrou Lupin, encarando agora as próprias mãos, envelhecidas.

Era como se tivesse levado uma facada no peito. Não conseguia organizar seus pensamentos. Não conseguia sequer respirar direito. Parecia-lhe que a sua traqueia estava se fechando, tentando sufocá-lo. Lágrimas formaram-se sob seus olhos, mas não pareciam fortes o suficiente para desprender-se deles.

"Não vai mais vê-los... Se não quiser", corrigiu Alvo, tentando parecer otimista.

"Você não entende. Não é um Portal de tempo, é um Portal Ilusório. Isso é uma-"

"Ilusão de Lacre?", interrompeu-o o mais velho.

Remo parou por um segundo, como se não pudesse agora crer que Dumbledore simplesmente tivesse descoberto aquilo sozinho.

"Snape", concluiu ele, optando pela única explicação possível. "Snape te contou..."

"Oh, não, Remo. Não foi ele quem me contou."

Mais uma vez, sem muita vontade, Remo dirigiu-lhe o olhar.

"Foi uma menina que parecia ter desistido de você", explicou Dumbledore.

Dora. Ninfadora Tonks.

Lupin sentiu uma pontada de remorso ao pensar nela e na forma como haviam se despedido no último encontro. Lembrou-se de Dora saindo pela porta de sua casa, entre lágrimas, depois de tê-lo ouvido dizer que tudo o que ele tinha de valioso se perdera no passado.

"Pensei que ela não tivesse lido a Coletânea", respondeu, cabisbaixo.

Então, o sorriso bondoso do diretor pareceu retornar, dessa vez um tanto maior. Com passos calmos, ele encaminhou-se até a maca onde estava Lupin e parou bem à sua frente.

"Acredito que essa experiência, por mais traumática que possa ser, esteja nos ensinando algo, Remo", disse ele. "Mesmo as pessoas que parecem desistir de nos ajudar, e mesmo aquelas que nunca pareceram gostar de nós, passam a mostrar que ainda se importam de alguma maneira."

Dizendo isso, retirou um pequeno frasco de vidro de suas vestes, dentro do qual parecia agitar-se uma fumaça escura.

"Uma dessas pessoas te enviou isso", terminou, estendendo o pequeno frasco ao alcance de Lupin.

Quanto ao outro, não moveu um músculo sequer. Olhou-o com desconfiança, porque pressentia agora que Dumbledore estava, de alguma forma, envolvido na experiência por que vinha passando; mesmo que o diretor procurasse exaustivamente demonstrar o contrário.

Talvez percebendo a forma como era observado, Alvo explicou-se:

"Nesses dois dias em que você esteve desacordado, alguns membros da Ordem estiveram aqui. Muitos de nós ouvimos o que você murmurava enquanto inconsciente."

"E o que eu murmurava?", perguntou Remo, com um nervosismo que crescia progressivamente dentro de si.

"Apenas algumas palavras", respondeu ele. "Snape. Sirius. Salgueiro. Dementadores. Patrono...", e então pausou, como se estivesse tentando lembrar-se de algo, para então exclamar: "Ah, sim... E cachorro".

Remo suspirou em alívio ao saber que eram apenas aquelas palavras, por mais que soubesse que não devia sentir-se tão aliviado assim. Tinha realmente medo que os amigos descobrissem o que estava vivenciado naquela outra realidade; e medo não só porque aquilo talvez pudesse colocá-los em risco, mas também... Bem, porque eram momentos particulares.

"Eu não sei o que há aqui dentro, mas acredito que possa te ajudar de alguma forma. Leve-o, Remo", insistiu Alvo. "Leve-o e jogue-o na Penseira."

Na Penseira.

Trêmulo, Remo estendeu o braço e pegou das mãos de Dumbledore aquele pequeno frasco.

Observou por algum tempo a fumaça escura que no seu interior flutuava, como se tentasse enxergar, por ali mesmo, o conteúdo da mesma. Já sentia o próprio estômago agitar-se, e antes que pudesse se dar conta, já segurava o recipiente com firmeza e cautela, como se dentro dele residisse a sua única esperança. Se é que havia qualquer esperança que fosse.

Precisava saber de quem era. Pelo menos de quem era.

"Mas Professor, de quem...", mas interrompeu-se no meio da frase. Porque, ao tentar dirigir-se novamente ao homem, deu-se conta de que ele não estava mais lá.

Tinha sumido, desaparecido. E agora, a cada vez mais, parecia a Remo que, ao mesmo tempo em que queria ajudá-lo, Dumbledore evitava entregar-lhe a verdade que guardava consigo.

*

A sala de Dumbledore era guardada por uma senha — "acidinhas" -, que só era confiada a pessoas selecionadas pelo próprio diretor. Remo era, obviamente, uma dessas pessoas.

Não esperou recuperar totalmente suas forças antes de erguer-se da maca, mas, logo que Alvo simplesmente desapareceu da enfermaria de onde se encontrava, seu organismo pareceu instantaneamente mais disposto a se mover.

A sua sala era um escritório gigantesco, escuro, de formato circular. Guardava dentro de si diversos livros, dentre comuns e raros, e objetos que não se podia encontrar em nenhum lugar fora dali. Os seus pertences, na maioria um tanto antigos, eram cuidadosamente dispostos em prateleiras envidraçadas.

Mais adiante, duas escadas em formato circular era dispostas lado a lado e, localizada no centro das mesmas, dispunha-se a mesa do homem, com uma quantidade indescritível de papéis empilhados. Nenhum daqueles objetos, porém, faziam menção a Remo; apenas um deles, afastado de todos os outros, é que lhe dizia respeito naquele momento.

Encaminhou-se para a Penseira.

Ela nada mais era do que uma bacia de pedra rasa, com runas e símbolos entalhados ao longo de toda a sua lateral — símbolos que não se podia ler, nem tampouco imaginar o significado. Na sua parcela côncava, flutuava uma substância branco-prateada, que não era líquida e nem gasosa, mas que se movia lentamente em espiral, como se o centro do círculo funcionasse como um ralo, sugando para dentro quem nela mergulhasse.

Quando as mãos trépidas de Lupin abriram o frasco e despejaram o líquido escuro na Penseira, a coloração negra da memória disseminou-se como um corante dentro d'água, ocupando toda a sua parcela.

Com um último suspiro, e já sem saber quão disposto estava a encarar o que teria pela frente, Remo forçou-se a mergulhar a cabeça naquela estranha substância aquosa.

*

Tudo ao seu redor desapareceu.

No instante seguinte, não era mais como se estivesse simplesmente na sala de Dumbledore, com a cabeça enfiada numa bacia. Não: agora era como se estivesse presente, de corpo todo, dentro da memória que assistia.

O composto escuro, que agora era uma fumaça, pairava por todos os arredores. A partir dele, materializou-se um lugar.

Uma ampla sala, absolutamente imersa em sombras, com sofás luxuosos e de cor muito escura, estendeu-se à sua frente. No teto, flutuavam algumas bolas que emanavam luz verde, como lustres cuja função seria apenas permitir que o indivíduo enxergasse por onde andava, já que em termos de luminosidade não eram tão eficientes. Velas adornavam os arredores do ambiente, acesas, mas uma magnífica lareira, mais adiante, permanecia apagada. Por entre os sofás e poltronas, localizavam-se duas mesas, sendo uma circular e uma de Xadrez de Bruxo. Enormes janelas, de arquitetura muito requintada, eram adornadas por cortinas espessas de um tom verde-escuro, mas as cortinas estavam abertas, de forma que se via adiante, do lado de fora, um grande lago e, no céu, uma Lua Crescente.

Olhando um símbolo logo acima da lareira do centro, Remo identificou, entalhada, uma figura prateada de cobra, e então deu-se conta: estava na Sala Comunal da Sonserina.

Foi tomado por um súbito medo, mas era apenas uma memória, e não havia alunos no local — afinal, parecia ser muito tarde, a julgar pela posição da Lua. Cerca de meia-noite, pensou Remo, que estava acostumado a se orientar pelo satélite. Mas conforme tentava localizar-se, começou a ouvir sussurros a um canto da sala, e foi só então que percebeu que havia, sim, alunos ali.

Encostados em uma parede não muito distante, dispunham-se dois garotos. Um deles, Remo identificou no mesmo instante: Severo Snape. Quanto ao outro, pensou ter visto Draco Malfoy, mas não era possível, porque Snape estava jovem demais. Tão jovem quanto na última vez que Lupin o vira, nas proximidades do Salgueiro Lutador, em 1975.

Portanto, aproximando-se na tentativa de ver e ouvir melhor, percebeu que quem estava ao seu lado era Lúcio Malfoy, à imagem e semelhança do filho que viria a ter dali a alguns bons anos.

"Eu estou dizendo", sussurrava Snape, um tanto nervoso e impaciente. "Eles roubaram uma poção do acervo", e gesticulava com desespero, como se aquilo fosse resultar no entendimento de Lúcio. "Isso não parece ruim o suficiente?"

Percebendo o tom sigiloso da conversa, o grifinório sentiu-se grato por não poder ser visto por aqueles dois adolescentes. Afinal, era apenas uma memória. Uma memória que, percebia agora, só podia ser de Severo Snape.

"Pode até ser, Severo", respondia o outro, mas não parecia muito interessado no assunto. "Mesmo assim, como você sabe que foram eles?"

"Porque eu sei!", sussurrava Snape de volta, à beira dos nervos. "Roubaram da estante de Slughorn, há três dias, e agora Sirius Black saiu do dormitório, e tenho certeza que logo vai sair mais algum deles. Eles estão planejando alguma coisa, eu sei."

Lúcio Malfoy estreitou os olhos azulados na sua direção, como se suspeitasse de algo na sua fala.

"E qual é a poção?", perguntou ele, desconfiado.

Severo não respondeu. Pareceu um tanto tenso, como se não esperasse por aquela pergunta — ou mesmo como se não pudesse respondê-la, por algum motivo.

"Ah, você não pode dizer", concluiu o mais velho, falando agora com alguma ironia. "Então, não espere minha ajuda. Eu não vou sair agora do Castelo, atrás desses idiotas, se nem sei o que procurar."

"Você é monitor", explicou-se Snape, já visivelmente sem muitas esperanças. "Deve ter algo que você possa fazer."

Lúcio respondeu em um tom de deboche:

"Tem. Se você os trouxer e provar que roubaram a poção, vou ter o maior prazer em denunciá-los", e suspirou, como sentisse um grande prazer em concluir o assunto daquela forma. "Até lá, tenho mais o que fazer, Severo. Boa noite."

Nesse momento, todas as paredes ao redor de Lupin transformaram-se em uma fumaça que se dissipou no ar, indicando, dessa forma, que a continuação da memória se passava em outro cenário. E o cenário seguinte montou-se em questão de segundos.

Um novo frio ocupou o ar. Remo sentiu, sob seus pés, um gramado fresco que ia rareando, dando lugar a uma terra fofa, conforme o caminho prosseguia. Viu-se fora do Castelo de Hogwarts.

Agora, a uma pequena distância, ouvia passos rápidos se distanciando, como se alguém andasse com pressa por ali. Virou-se e viu, de novo, Snape. Estava próximo ao Salgueiro Lutador, naquela mesma área externa, e corria por uma ladeira abaixo.

Uma ladeira que Remo tinha visto, fora daquela memória, há muito pouco tempo. Nervoso, já considerando os mais remotos motivos para Snape estar mostrando-lhe aquela estranha memória, Lupin correu ao seu alcance. Juntamente com ele, desceu pela longa ladeira.

Após poucos minutos de descida, começou a ouvir duas novas vozes. Arrepiou-se. Pareciam as vozes...

Não. Só podia estar enganado.

Severo pareceu julgar uma árvore boa o suficiente para mantê-lo escondido. Assim, sem ser percebido por quem quer que estivesse logo abaixo, ele enfiou-se por trás dela, seguido de perto pelo outro.

A uma curta distância, Remo viu a si mesmo. Começou a suar frio.

Muito, mas muito próximos dele e daquele Snape adolescente, estavam Sirius Black e Remo Lupin, ambos também com quinze anos. Mais adiante, algumas chamuscas-roxas formavam pequeninos pontos de luz lilás que pairavam no ar, dando ao Jardim das Sombras aquela atmosfera encantada.

Mas tinha que ser um engano. Porque não era possível.

Sirius estava de costas para a ladeira, mas não segurava poção alguma em mãos — se é que era aquilo que Snape estava procurando no momento. Na verdade, estava sem nada em mãos; apenas conversava com Aluado, em sua forma mais jovem.

O tom da conversa era um tanto sério. Ao lado de Remo adulto, Severo Snape não parecia nem mesmo estar respirando, tamanho o seu interesse no que se passava à frente.

"Você pode esconder dos outros, Remo, mas não de mim", dizia Sirius, parecendo legitimamente magoado com alguma coisa.

A mesma voz. A mesma forma de falar.

Lupin ficou dividido entre entregar-se à tristeza de não mais poder vê-lo — e chorar ali mesmo — e o impulso de correr à sua frente, para tentar olhar seu rosto de perto uma vez mais. Não podia acreditar no que seus olhos viam.

Depois de uma breve pausa, Almofadinhas retomou a palavra:

"Por quanto tempo mais vamos ficar nessa situação?"

Ao ouvir aquela frase, o Remo de apenas quinze anos pareceu alterar-se de alguma forma. O seu rosto contraiu-se em uma expressão de dor, como se agora finalmente pudesse expressar um sentimento que vinha reprimindo há muito tempo.

Ele escondeu o rosto nas mãos e sua voz, que agora parecia um tanto melancólica, deu lugar a um baixo gemido que transformou-se em choro.

Sirius pareceu não ter reação ao vê-lo daquela forma. O Lupin que visitava aquela memória não podia ver seu rosto, porque o amigo estava de costas, mas teve a plena certeza de que o Black o encarava assustado, talvez arrependendo-se de tê-lo obrigado a participar daquela triste conversa.

"Remo...", murmurou Almofadinhas àquele Remo, que não pareceu dar-lhe ouvidos. Então, aconteceu.

Sirius caminhou com passos firmes em direção a ele e afastou as mãos do mais baixo, que até então escondiam seu rosto. O outro não teve tempo de reagir, porque, no instante seguinte, os seus lábios estavam unidos.

Depois de uma breve relutância do menor, o beijo, enfim, foi aceito, e durou por alguns segundos.

As duas pessoas que estavam atrás da árvore pareciam não crer no que estavam vendo. Snape parecia ter visto um fantasma, e a forma adulta de Lupin aparentava um estado de choque.

Seus pensamentos tinham se esvaído. Não sobrara nenhum sequer.

Severo então, acidentalmente, pisou em um galho no chão. E foi suficiente para que o Black interrompesse o beijo, lançando um olhar à árvore na qual ele se escondia.

"Tem mais alguém aqui", sussurrou ele.

Na sequência, sacou a varinha e movimentou-a, o que gerou um tipo de empurrão em Snape, que tropeçou. Agora podia ser visto.

"Snape!", gritaram os grifinórios ao mesmo tempo.

Apavorado, Snape saiu correndo, ladeira acima. Lupin saiu atrás, ao seu encalço, como se pudesse ser visto e também precisasse fugir daqueles dois — e daquela cena.

No entanto, logo as árvores ao redor transformaram-se também em fumaça, e todo o cenário foi desfeito.

Quando se formou um novo, Remo já estava ofegante; mas não saberia dizer se ofegava por ter corrido ou se estava tendo um ataque cardíaco ou coisa do gênero. Torceu pelo melhor.

O novo ambiente formado pela memória consistia na região bem acima de onde estavam antes: a área do Salgueiro Lutador.

Sirius estava caído no chão, e Severo escorava-se em um pinheiro qualquer, logo adiante. Ambos estavam desarmados. O céu estava inundado por sombras assustadoras — criaturas grandes e terríveis, encapuzadas, que flutuavam como mortos-vivos pelo ar.

O pequeno Remo, que parecia tão assustado quanto os demais, tomou a frente. Colocou-se entre aquela dupla e o maior de todos os dementadores, que agora aproximava-se em considerável velocidade. Depois de fechar os olhos por um breve instante, Aluado fitou-o, concentrado. Parecia extremamente convicto, como se estivesse cumprindo o dever da sua vida.

Sacou a varinha e gritou:

"Expecto Patronum!"

Uma luz de proporções imensuráveis saiu da ponta da sua varinha, que agora parecia mais radiante que o próprio Sol, com a diferença de que a cor que emitia era branco-prateada. A luz mágica inundou todo o ambiente, parecendo congelar a tudo e a todos. Então, surgiu dela um enorme cachorro, de orelhas empinadas, que rebateu todos os dementadores, jogando-os longe.

E o Lupin de trinta e cinco anos não viu mais nada, pois todas as imagens dissiparam-se.

A memória chegara ao fim.

*

Retornou à sala de Dumbledore, no ano de 1995.

Estava enjoado. Algo dentro do seu estômago parecia borbulhar, como se tivesse vida própria.

Sentiu suas mãos frias e os olhos cansados. Se conseguisse organizar os próprios pensamentos, talvez conseguisse finalmente descobrir o que estava havendo por trás de tudo aquilo. Mas não conseguia. Sentia que não conseguiria fazer mais nada.

Recuou alguns passos, afastando-se da Penseira.

Por que, dentre todas as pessoas do mundo, ele tinha sido escolhido pra passar por aquilo? Por que o seu destino parecia ser ficar cada vez mais confuso, cada vez com menos respostas, cada vez mais triste?

Sentiu que alguém o observava. Gostaria que fosse um Comensal da Morte para também vir buscá-lo. O próprio Voldemort não parecia ser uma opção ruim, nem tampouco improvável. Talvez tivesse chegado o seu momento de descansar e ver-se livre daquele martírio: não ter mais os amigos ao lado e ter de vê-los repetidas vezes, sem jamais ter como recuperá-los. Apenas desejou que tudo aquilo acabasse.

Mas quando virou-se para ver quem era, não se deparou com Voldemort ou qualquer um que estivesse disposto a tirar a sua vida. Encontrou, justamente, Severo Snape.

Severo agora estava envelhecido. Apesar de não ser realmente velho, uma ou outra ruga já se formavam em sua testa, e os olhos pareciam expressar uma amargura característica apenas da sua idade atual.

Ele não falou nada. Por algum tempo, ficou apenas observando Lupin, enquanto Lupin também o observava. Ambos pareciam ter algo a dizer, mas nenhum deles parecia ter palavras.

Em uma das mãos, Snape segurava nada menos que a varinha de Sirius Black, o tal Portal Ilusório ao qual todos temiam. Mas Severo não parecia temê-lo, de nenhuma forma. Na verdade, parecia segurá-lo com uma obstinação ímpar. Parecia querer dá-lo a Remo. Parecia querer fazer algum tipo de acordo e oferecê-lo em troca. Era evidente que tinha algo muito grave a dizer.

E foi enquanto observava Snape que Remo teve, pela primeira vez, uma única certeza em relação a toda a experiência que vinha passando.

Severo tinha aquela memória. Ele lhe emprestara aquela memória, querendo mostrar alguma coisa que tinha descoberto. E agora, a Lupin, estava claro o que ele tinha descoberto.

Não era uma ilusão. Não era uma realidade falsa. Não era fruto da sua imaginação fértil e atordoada. E sendo ou não uma verdadeira volta ao passado, havia, ao menos, duas certezas:

A primeira, aquilo tinha sido vivido pelos envolvidos. Em algum momento. De alguma forma.

A segunda, o Portal não se limitava a sete vezes de uso.

Notas finais
Cadê meu povo amado? Não se abstenham.