Não demorei para notar o padrão. No começo pensei ser apenas uma coincidência: o mesmo vagão, no mesmo horário. Sentava no mesmo banco, escorava-se à janela. Mesmo com a aparência cansada, ainda assim era divino.

Carregava os livros de psicologia mas geralmente lia uma hq durante a viagem. O entendo bem, é difícil concentrar-se em qualquer coisa naquele balanço infernal sobre os trilhos. Aquele devia ser seu momento de lazer depois de um dia atribulado. Todavia, lia os quadrinhos em segredo. Ou achava que lia, já que eu estava ali, logo atrás dele, observando o movimento delicado dos dedos folheando as páginas.

Pelos reflexos das janelas, admira a seu rosto. A maneira como mantinha a cara de soberba e fingia ler seus pesados livros, escondendo as páginas coloridas por entre as monocromáticas quase me fazia rir.

Mas um fodido como eu não tinha motivo para rir. A melhor parte do meu dia era quando sentava naquele banco frio e duro, afrouxava a gravata e espiava os movimentos do cara que subia duas estações depois.

O "conheci" quando fazia hora extra para terminar uma planta no prazo, pegando aquele trem excepcionalmente no mesmo horário do meu objeto de cobiça. Agora precisava matar tempo até poder encontrá-lo novamente. Poderia já estar em casa, ouvindo algo diferente do burburinho rotineiro. Uma música suave, talvez um bom jogo de beisebol. Mas não. Ficava na rua, matando hora num café até poder pegar aquele trem e sentir o perfume de alguma flor que não sei o nome, mas tenho a certeza de que ostenta pétalas amarelas.

Sempre que ele pega o telefone, fico na expectativa de que faça uma ligação, gostaria de saber como é sua voz. Chego a fechar os olhos e imaginar os lábios em posição de seriedade movendo-se e dando abertura para o som. Mas ele sempre apenas checa a hora. No mesmo ponto da viagem.

Quero tanto ter coragem para apenas levantar o braço e tocar seus cabelos. Geralmente começo a fazê-lo, sem pensar. E então ela chega.

O condutor anuncia a estação onde desembarco.