De hoje não passa. Será que ele acha que eu não percebo? Esse pervertido na minha volta tentando bisbilhotar sobre o que eu leio ou deixo de ler já apareceu há dias e parece que não tem intenção de parar de me cuidar. Pra ajudar, ele é enorme, pode fazer o que quiser comigo usando só um braço para me render.

Mas a melhor estratégia é não demonstrar medo, ser indiferente. Ele desce antes de mim, afinal de contas. Também não vou deixar que atrapalhe minha leitura, logo agora que estou terminando os especiais.

Não posso mentir, sentir o olhar dele sobre mim me irrita demais. E é claro que o tonto do Milo senta em cima do meu óculos na hora em que mais preciso. Se eu encontrar esse estrupício na rua, não vou saber nem que cara tem, já que mal vejo o reflexo dele pelas janelas. Tentar espiar pelo celular ajuda um pouco, mas não é o suficiente.

Ah, aqui é onde ele desce! Agora ele vai ver!

Não tenho certeza se é por sorte ou azar, mas outros poucos desceram conosco e ele pôde ouvir meu pigarro.

Senti o gelo percorrendo a espinha quando o homem virou, lentamente. E pude vê-lo.

Os olhos verdes, tristes, cansados. A expressão surpresa, porém terna. Tão diferente do borrão maquiavélico que eu pensava enxergar. Mais bonito a cada passo.

A garganta aperta, deixo um dos livros cair. Muito prestativo, ele o alcança para mim.

"Meu nome é Shaka", consigo dizer aos solavancos, logo após as pontas dos dedos dele tocarem os meus, ao me alcançar o exemplar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!