O País dos Generais
13 Uma família de rebeldes
Notas iniciais
Me lembro que quando era pequena costumava acompanhar meu pai em todos os seus compromissos na sinagoga. Não porque fosse uma garota religiosa, o que nunca fui. Percebi desde cedo que as pessoas tinham a irritante tendência de atribuir a Deus seus próprios preconceitos.
Para mim Deus era um moleque, um menino amigo que dava gargalhadas intermináveis comigo toda vez que uma da senhoras da nossa comunidade reclamava que eu não estava lendo o Torá de forma adequada ou expressava preocupação por nossos pais nunca terem tido um filho varão (mesmo que a herança da religião judaica fosse transmitida de mãe para filho).
Não, eu gostava de acompanhar meu pai porque eu sempre aprendia algo. Gostava de vê-lo confortar as pessoas, de quando aconselhava e quando lidava com alguém de fora de comunidade. E, principalmente, gostava de observar quando fazia caridade.
Depois ele me levava na Sorveteria do bairro e ficávamos conversando sobre história, filosofia ou política. Eu amava isso porque sentia que ele me respeitava. Que eu era alguém com quem ele podia falar sobre esses assuntos sem problemas.
Minha irmã sempre foi considerada a inteligente da família, por isso, ter ele por aqueles momentos era como ter um pedacinho do céu. Aquelas conversas eram uma coisa só nossa.
Em um desses passeios, quando tinha 13 anos e estávamos falando sobre a 2ª guerra mundial, perguntei ao meu pai onde ele estava na época. Para ele, como judeu deveria ter sido muito difícil.
—Eu estava em uma cela, em uma cidade não muito longe daqui.
Olhei para ele espantada. Apenas o pensamento de meu pai preso como um criminoso era inconcebível demais para minha cabeça de 13 anos.
—Cela? Mas o que você fez papai?
Ele me encarou com os mesmos olhos que o meu.
—Falei mal do Vargas no jornal da nossa comunidade. Falei em Hebraico quando falar uma língua diferente do português era proibido. Foram muitos os meus crimes.
E então, por incrível que pareça, ele me contou a história de como conheceu minha mãe. Uma jovem judia que ficava na cela logo ao lado dele. Minha mãe era uma jovem estudante de enfermagem de 21 anos.
Ele me contou como Carla o salvara naquele período, lhe passando um pouco mais do leite para que ele pudesse se fortalecer pela grade, já que ele tinha ficado doente durante a prisão. E ele ria ao lembrar de como ela sempre dava uma resposta mal criada para os carcereiros.
Demorou um tempo para que eu pudesse ligar o meu pacifico pai e minha mãe que sempre nos obrigava a usar joias e vestidos caros durante as cerimonias da comunidade com aqueles seres rebeldes.
Até agora.
O pior de tudo era saber que eu os desapontara de todas as maneiras possíveis. Pior do que desapontar, eu colocara a vida deles e da minha irmã em risco. Ao lembrar disso tinha vontade de sair correndo.
Meus pais já estavam dormindo e Prim também, mas eu sabia que não conseguiria dormir essa noite. O principal era mantê-los seguros. Estremeci ao lembrar do meu pai apanhando. Mas, por mais que eu pensasse, só havia uma alternativa em que este cenário era possível. Longe do país.
Depois do que acontecera hoje, eu estava sendo procurada. Teria que dar uma jeito de me esconder e manter minha família longe de problemas. Isso parecia tão fácil quanto engolir o chá de Johanna.
Decidi que já que não conseguiria dormir, o melhor era me manter acordada. Quando minha amiga entrou na cozinha eu estava sentada, olhando perdidamente para a porta do cômodo.
Ela resolveu que também não queria chá e sentou na minha frente, calma, como se eu não tivesse invadido o pequeno apartamento dela com minha família.
—Acho que você se meteu numa bela encrenca- comentou ela se servindo de café.
Encrenca era um eufemismo. Eu sentia como se tivesse sem saída.
—Eu tenho que tirá-los daqui- disse enquanto minha amiga me observava atentamente. Dei um longo suspiro- Eu nunca devia ter aceitado o convite de Hazelle.
Johanna assentiu.
—As coisas pioraram Katniss. Eles estão apertando o cerco, se fosse você, me livraria da sua família, os mandaria para um lugar seguro. Não há espaço para laços no que estamos fazendo.
Não respondi; apenas tomei mais um gole café sabendo que ela tinha razão. Me lembrei do que Johanna me contara uns dias atrás. Do motivo de ela ter se envolvido com politica e ter entrado de cabeça na luta contra o regime militar. Sua mãe tinha morrido há dois anos porque não conseguira ser atendida decentemente em um hospital. “Entrar para o comunismo e depois para a resistência foi a maneira que encontrei de evitar que o que aconteceu com minha mãe acontecesse com outras pessoas. Pelo menos me deu um motivo para viver. Era melhor do que ficar sentada chorando"
A noite tinha atingido se ponto mais escuro, indicando que logo logo uma manhã complicada chegaria. Johanna soltou um bocejo e indicou que dormiria em um colchão na sala e que eu poderia ficar com o sofá para mim.
Assenti e disse que ela poderia ficar com o sofá sabendo muito bem que não conseguiria dormir em lugar nenhum aquela noite.
—Obrigada Johanna. Por tudo.
Minha amiga me sorriu da porta da cozinha.
—Você me lembra de como é ter uma família, sabe- respondeu. Logo sua Expressão ficou triste como se lembrasse que eu também não teria família por muito tempo.
Não sei quanto tempo fiquei sentada observando a janela. Horas, segundos. Quando dei por mim minha mãe já estava preparando o café e percebi que em algum momento deveria ter cochilado.
—Querida! Você dormiu aqui?!- Ela se apressou em me dar um pão quente com manteiga-Olhe o estado do seu vestido!
Minha mãe agindo assim, normalmente, como se nada a atingisse, foi o que me fez despertar. A menção ao vestido, o maldito vestido azul, foi a gota d'água e antes que eu percebesse as lágrimas já estavam rolando livremente pelo meu rosto. Não consegui evitar e me odiei ainda mais por ser fraca.
Minha mãe pegou meu rosto e fez com que eu a encarasse.
—Katniss, eu sei que você deve estar apavorada. Mas lembra o que sua vó dizia quando vinha nos visitar?
Eu lembrava. Minha vó era uma mulher pequena mas com fibra e com olhos que pareciam o retrato de uma tempestade. Raramente nos visitava, mas, quando vinha, era uma festa. Ela gostava de dizer que não havia fracos em nossa família.
— Eu sempre soube que ela estava certa. Você e Prim... Minha Prim é determinada. Mas você..você minha Katniss não consegue ver injustiça e tem um tipo raro de força nascida na compaixão. Somos fortes minha filha. E vamos superar isso. Por isso enxugue essas lágrimas e faça o que nos Everdeen fazemos melhor. Superar desafios.
Depois disso ela tomou o café e enquanto a observava arrumando a casa, cantarolando enquanto a água escorria e limpava as xícaras e pratos percebi que sempre julgara mal minha mãe. Ela não era apenas a boa esposa ou uma mulher comum que só se preocupava com vestidos e em fazer com que suas filhas ficassem na linha. Não, ela era muito mais que isso.
Era quem se colocava entre o mundo e nós. Era seu senso prático e sua vontade férrea de fazer com que fôssemos os melhores que nos tornara quem éramos. E era ela quem me manteria sã para sair dessa confusão.
Passei o resto do dia averiguado notícias, cuidando do meu pai e esperando que a Polícia batesse na porta do apartamento, o que felizmente não aconteceu.
Minha mãe saiu no meio da tarde e quando voltou tinha um semblante mais tranquilo.
Antes que eu perguntasse alguma coisa ela sorriu e me contou que conseguira agilizar a transferência do meu pai para Madri. Olhei para ela boquiaberta.
— Desde o início de Abril estamos nos organizando. Você sabe... seu pai e eu tivemos problemas durante o governo do Getúlio por isso seria perigoso continuarmos aqui. Iríamos para Portugal, mas como lá eles só poderiam nos receber na Sinagoga daqui a dois meses... Felizmente um dos membros da nossa comunidade é parente do Rabino em Madri. Como o noivo de sua irmã tem família na Bélgica os dois podem se casar por lá. Falei com eles e nos mudamos semana que vem.
Depois ela largou um livro com algumas frases em espanhol em cima da mesa e me encarou. Seu olhar deixava claro que eu tinha uma decisão. Eu poderia ir com eles... ou poderia ficar. Essa decisão era inteiramente minha.
No fim daquela tarde, mesmo sabendo que era arriscado fui visitar Gale. Eu sabia que a opção mais segura era ir com meus pais embora do país. Eu não tinha onde ficar. Meu lar tinha sido completamente desfeito. Mesmo assim, pensar em partir sem saber o que tinha acontecido com Hazelle deixando Gale sozinho era algo que me doía.
Quando cheguei na casa do meu amigo ele estava botando Posy para dormir. Dos irmãos, a garota era a mais parecida com Gale e Hazelle e por isso tinha herdado o temperamento dos dois e não dormia fácil.
Assim que conseguiu fazer a menina dormir nos sentamos na sacada do prédio dele. A vista dali era boa. O apartamento não era luxuoso mas Gale brincava dizendo que tinha os ipês e toda Porto Alegre como quintal além da brisa que soprava do Guiaba e por isso não precisava de mais nada.
A quietude do terraço fazia um contraste enorme com o barulhento edifício em baixo dele. Gale trouxe um prato de falafel e percebi o quanto ele tinha andado preocupado.
Não falou nada, apenas me encarou esperando, os olhos de âmbar ansiosos por uma resposta. E eu contei. Tudo. Senti meu corpo ficar mais leve quando contei sobre Hazelle. Eu sabia que estava colocando ele em perigo. Hazelle iria me odiar. Mas ali, com ele observando o Bom Fim, sabia que era a coisa certa a fazer.
— Então você e minha mãe estão lutando contra o regime Militar. Katniss...
Meus lábios tremiam. Fiquei meu olhar no teto vermelho de um do prédios da rua abaixo evitando olhar para Gale.
—Você devia ter me contado. Somos parceiros, lembra? Lutamos juntos. Sempre!
Essa era uma brincadeira nossa. Desde que nos conhecemos por causa da briga Gale dizia isso, mas a afirmação nunca me pareceu tão certa como agora. Me escorei no parapeito observando o movimento da rua.
— Eu sei. Não queríamos envolver você nessa bagunça- respondi sincera recebendo um grunhido em resposta. Gale me ofereceu mais um falafel e soube que ele havia me perdoado.
—Me desculpe- Falei depois de algum tempo.
Senti os braços fortes de Gale me envolvendo. Me permiti sentir segura. Tão segura quanto não me sentia há um bom tempo. Eu sabia que minha vida estava uma bagunça, mas, no fim das contas, eu podia contar com ele.
Senti vontade de chorar, mas não o fiz. Todas as lágrimas já tinham sido suficientemente vertidas.
— Vamos dar um jeito Catnip. Você e minha mãe irão dar um jeito Malek.
Decidi não comentar sobre minha possível fuga do país. Me despedir de Gale era algo que eu ainda não conseguia imaginar fazer. Ficamos ali, por um bom tempo observando as ruas, as estrelas e a cidade. E em cada movimento eu podia sentir a pergunta silenciosa do coração de Gale: Será que ela ainda está viva?
Naquela noite quando voltei ao apartamento de Johanna, perigosamente perto do horário de recolher, encontrei Peeta examinando meu pai.
Senti uma pontada de culpa na boca do estômago. Eu simplesmente não sabia como lidar com o garoto. E era ainda mais complicado com a memória da tarefa de Coin me assombrando.
— Oi- Falei meio insegura enquanto ele retirava o estetoscópio do peito do meu pai. As bochechas ainda estavam inchadas assim como os olhos, mas a bandagem em torno da testa estava branca, sem um pingo de sangue- Como ele está?
— Bem. Melhor do que o esperado. Não há contusão. A dor nas costelas e o inchaço deverão sumir em dois dias.
Anui.
—Peeta muito obrigada. Não sei como agradecer- Falei sincera quando saímos do quarto.
Quando encarei Peeta havia algo raro nos olhos dele. Algo doce e terno que nunca tinha visto em ninguém. Exceto no garoto que desenhara um sol muitos anos antes.
— Você sabe. Médicos. Somos obrigados por juramento a ajudar.
Me virei e o encarei.
—Peeta você não devia estar aqui. É arriscado demais...
A parte racional sabia que eu estava dizendo essas coisas para ganhar a confiança do garoto. Essa parte estava gritando dentro de mim que não se importava. Que ele era meu inimigo. Já outra estava gritando coisas diferentes, tentando avisar Peeta que eu era perigosa. E Deus! era tão difícil acreditar que ele era meu inimigo quando ele estava aqui...Me ajudando, cuidando do meu pai. Eu me senti idiota por deixar emoções como culpa é gratidão afetarem meu trabalho.
Observei Peeta dar de ombros.
— Não tem problemas. Sei como me cuidar e acho que não estou fazendo nada demais. Além disso, ser filho do Coronel Mellark me garante um tanto de respeito e imunidade.
Peeta me deu um sorriso arrogante que me deixou ainda mais confusa.
Ele não acreditava em se envolver em problemas alheios, isso ele tinha deixado bem claro. E usava o cargo do pai como uma forma de conseguir o que queria. Mas... ele era o homem que protegera Johanna. O jovem que gostava de Beatles e Elvis Presley e o garoto que desenhava sois. Quantas máscaras podem ter um ser humano? E, de onde vinha essa maldita vontade de analisar cada atitude dele. Me sentindo como uma completa estúpida resolvi que era melhor me despedir de Peeta e ver como pai estava já que ele estava desperto.
O quarto era pequeno e meu pai parecia ter encolhido de baixo das cobertas. Estava encarando a janela que deixava um pouco de ar fresco entrar. Pela primeira vez vi o quanto ele havia envelhecido e senti uma gana tão protetora ao vê-lo tão frágil que tive que enfiar as unhas nas palmas da minha mão para não sair correndo e socar os homens que o haviam agredido. Fiquei no sorriso fraco que ele me deu.
— Ei aqui está minha pequena encrenqueira.
Sentei na ponta da cama e peguei sua mão.
— Como você está pai?
Ele se levantou um pouco para poder sentar melhor. Vi o esforço que isso lhe causava e senti como se algo se partisse em mim. Eu era a culpada pela dor dele.
— Estou bem. Toda essa confusão me lembrou o que é ser jovem.
Dei uma risada forçada.
—Pai, Você não tem jeito!
De repente ele olhou pela janela, como se lembrasse dos perigos que corríamos.
— Então, sua mãe já te contou que estamos partindo?
Assenti sentindo uma vergonha tremenda.
— Sinto muito ter causado tudo isso. Achei que estava sendo cuidadosa. Eu nunca quis....
Meu pai colocou a mão sobre a minha e senti o toque gentil da outra em meus cabelos.
—Eu sei Katniss. Eu sei. Mas minha pequena Esther não consegue ficar fora de conflitos, consegue?
Mais uma vez dei uma risada. Esther. Meu pai começou a me chamar assim desde que soubera das brigas que eu havia me metido para defender Gale. Ele achava que a comparação com a mulher que casara com um rei para salvar nosso povo se adequava a mim. Eu não. Isso por um tempo me irritou, mas não agora.
—Você já decidiu se vai conosco?
Eu encarei meu pai. Pensei em todas as confusões que havia me metido. Pensei em Hazelle. Em como não restará nada para mim aqui. Lembrei da minha família em apuros por causa das minhas ações e de todo apoio que havia recebido deles apesar de ter falhado.
— É claro que vou embora com vocês.
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